estudos:marion:eros:amante
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| + | ====== Amante ====== | ||
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| + | //MARION, Jean-Luc. Le phénomène érotique: six méditations. Paris: Librairie générale française, 2003.// | ||
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| + | **DO AMANTE, QUE ELE AVANCE** | ||
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| + | **§ 15. Reduzir a reciprocidade** | ||
| + | * A pergunta "sou amado alhures?" | ||
| + | * Rejeitar essa conclusão como mera falha lógica sairia caro demais, restando a via de renunciar ao conceito de amor derivado da exigência de que me amem primeiro, para acessar uma demanda mais originária. | ||
| + | * A pergunta "sou amado alhures?" | ||
| + | * Preso ao pânico da penúria, o ego só se aventura no campo amoroso esperando um retorno, exigindo reciprocidade e regateando o preço da assegurança como um pobre desconfiado. | ||
| + | * A reciprocidade, | ||
| + | * Manter o amor sob a reciprocidade reconduz secretamente o amor ao serviço do ser, confirmando a metafísica em vez de superá-la, já que amar continuaria a significar apenas ser amado. | ||
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| + | **§ 16. A pura assegurança** | ||
| + | * Radicalizar a redução erótica exige substituir "sou amado alhures?" | ||
| + | * Essa possibilidade de amar primeiro permanece sempre aberta e nenhuma aporia pode bloqueá-la, | ||
| + | * O amante nada perde mesmo sem retorno, pois um amor desprezado permanece um amor plenamente realizado, e a perda sem reserva constitui o traço distintivo e inalienável do amar. | ||
| + | * Amar supera o ser por um excesso sem medida comum com ele, pois nem o nada nem a ausência de reciprocidade podem limitar ou anular o amor, que se cumpre até na perda de si. | ||
| + | * A antiga aporia se desfaz, pois amar autêntico significa amar sem retorno, e a questão se reformula definitivamente como "posso eu amar, o primeiro?" | ||
| + | * Objeta-se que a perda sem retorno impediria toda assegurança para o amante, mas esse argumento ainda pensa a partir da reciprocidade, | ||
| + | * A verdadeira assegurança do amante não concerne ao ser nem a ser amado, mas apenas ao fato de amar, assegurança irrefutável obtida mesmo na ausência de reciprocidade. | ||
| + | * Passar de "sou amado alhures?" | ||
| + | * A redução erótica radicalizada realiza assim a redução ao próprio, pois só nos atos de amante me torno definitivamente eu mesmo, distinto do pensamento partilhável por qualquer outro. | ||
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| + | **§ 17. O princípio de razão insuficiente** | ||
| + | * Amar primeiro rompe a exigência de reciprocidade, | ||
| + | * Em redes de utensilidade e comércio, a reciprocidade rege tudo e exclui radicalmente o surgimento do amante, pois a economia exige o anonimato transparente dos parceiros de troca. | ||
| + | * Mesmo em encontros de lazer aparentemente desinteressados, | ||
| + | * O amante surge precisamente quando alguém suspende a reciprocidade, | ||
| + | * Amar sem razão não constitui deficiência do amante, mas insuficiência da própria razão diante do amor, que se declara sem poder ser justificado como se declara uma guerra. | ||
| + | * Amando o primeiro sem razão nem conhecimento prévio, o amante não vê porque conhece, mas conhece na medida em que ama, fazendo aparecer o outro como amável em vez de constatá-lo. | ||
| + | * O exemplo de Dom Juan e Sganarelle mostra que a razão só pode comparar e calcular, mas o amante, tendo ultrapassado o campo das comparações, | ||
| + | * O amante ama o único porque o único, tornado visível por essa mesma iniciativa de amar, funciona ele próprio como razão suficiente do amor, deslocando o círculo do ego para o outro. | ||
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| + | **§ 18. O avanço** | ||
| + | * Dom Juan ilustra e ao mesmo tempo trai a redução erótica, pois provoca continuamente a iniciativa de amar sem retorno, mas pratica-a apenas sob o modo repetitivo da sedução. | ||
| + | * Redução e sedução partilham o mesmo avanço inicial, mas divergem porque a sedução visa restabelecer a reciprocidade e recuperar o investimento, | ||
| + | * Um outro finito satura porque o avanço do sedutor se esgota, e não o inverso: é a interrupção do avanço que torna o outro finito e objetivável, | ||
| + | * O amante suporta tudo, pois decide sozinho, na ausência de qualquer garantia, que o outro merece o título de amado e não de simples objeto, fazendo assim o amor antes mesmo que o outro o faça. | ||
| + | * O amante crê tudo e persiste na solidão da redução erótica, pois em regime erótico vence quem continua amando até o fim, e não quem calcula menos perdas. | ||
| + | * O amante pode amar sem ver, inclusive o ausente no espaço, no tempo ou na morte, pois o conhecimento não precede o amor, mas dele decorre, e o amor torna visível o que antes não aparecia. | ||
| + | * O amante, por fim, tudo espera, numa esperança sem objeto possuível, voltada precisamente para a assegurança de ser amado, que só pode advir como o imprevisto e o imerecido radical. | ||
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| + | **§ 19. A liberdade como intuição** | ||
| + | * Uma objeção poderosa aponta que o amante não tem nenhuma assegurança nem de ser amado nem de amar verdadeiramente, | ||
| + | * Essa objeção só vale sob a atitude natural, que exige conhecimento prévio e reciprocidade, | ||
| + | * Ainda que faltem essas assegurancas, | ||
| + | * Decidir amar por avanço equivale a decidir sobre si mesmo, pois só me identifico verdadeiramente quando me decido não por mim, mas pelo outro, que então me confirma quem sou. | ||
| + | * A diferença entre amar de fato e apenas amar o amar permanece indecidível na prática, de modo que basta amar aimer para adquirir, de pleno direito, o estatuto de amante. | ||
| + | * Tornar-se apaixonado depende inteiramente de mim, pois mesmo sem qualquer sinal de reciprocidade, | ||
| + | * Esse estado amoroso, longe de ser mera emoção subjetiva, satura minha vida inteira como um vivido intencional dirigido a outrem, mas permanece uma intuição vaga e instável, incapaz sozinha de fixar qualquer rosto determinado. | ||
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| + | **§ 20. A significação como rosto** | ||
| + | * O fenômeno de outrem não pode se definir pela validação habitual de uma significação por uma intuição, pois aqui é a intuição amorosa, vaga e superabundante, | ||
| + | * Essa significação deve fazer experimentar a alteridade radical de tal outrem e não outro, o que só ocorre se ela advier por contra-intencionalidade, | ||
| + | * O rosto de outrem nada oferece de novo à pura intuição sensível, mas impõe, em silêncio ou em palavra, uma significação irredutível: | ||
| + | * Essa proibição sobrevive à violação do direito, pois quem mata torna-se assassino para sempre, o que mostra que o rosto impõe um fato mais formal e constrangente que qualquer direito. | ||
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| + | **§ 21. A significação como juramento** | ||
| + | * A injunção "Não matarás" | ||
| + | * Nessa situação nova, a extraterioridade de outrem não se completa pela intuição, que o amante produz por si mesmo, mas unicamente pela significação, | ||
| + | * Essa significação, | ||
| + | * Para fixar duradouramente a intuição errante do amante, essa significação deve dar-se não apenas no instante, mas como promessa sem prazo nem reserva, ou seja, como um juramento: " | ||
| + | * Esse juramento recíproco constitui um fenômeno cruzado, comum a dois ego, onde cada intuição própria se amarra à mesma e única significação partilhada, " | ||
| + | * O amante enxerga assim, pela graça desse juramento, o único fenômeno que ele ama e que o ama. | ||
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