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estudos:maldiney:devir-e-ser-ai-hegel

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estudos:maldiney:devir-e-ser-ai-hegel [22/01/2026 18:36] – created mccastroestudos:maldiney:devir-e-ser-ai-hegel [09/02/2026 20:16] (current) – external edit 127.0.0.1
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 +====== O Devir e o Ser-Aí segundo Hegel ======
 +
 +  * A psico-sistemática do sistema verbal desvela a oposição e a conjunção dos dois extremos da temporalidade, cuja tensão é o motor do sistema
 +    * A cronogênese (longitudinal) se elabora do aspecto ao tempo, de //Aión// a //Zeit// — e //chrónos// é sua fin-tensão
 +    * Dela é inseparável o desenvolvimento de uma cronotese (latitudinal) da qual o //kairós// é o ponto de eclosão
 +
 +  * A cronotese se origina visivelmente no presente do indicativo
 +    * Mas já ao nível dos modos aparecem dois sentidos do tempo — do que testemunha não somente o subjuntivo das línguas românicas e do francês, mas também o subjuntivo grego que se explica em um tempo eferente do presente, em oposição a todos os outros modos
 +    * Esta dupla "unilateralidade indeterminada" do tempo dos modos prepara a unidade "bilateral determinada" do tempo no indicativo
 +
 +  * Do mesmo modo, em francês, os aspectos do quase-nominal — incidência pura do infinitivo, decadência pura do particípio passado, incidência-decadência do particípio presente — se explicam uns com os outros em um tempo escalar impessoal, mas onde se descobre a primeira forma da presença: a projeção
 +
 +=== Presença e Ser-Aí ===
 +
 +  * Presença é sinônimo de ser-aí
 +    * O aí do ser-aí como presença é o mesmo que o aí do mundo ao qual ela é
 +    * É precisamente isto que torna possível a projeção
 +
 +  * O sentido deste aí não é simples
 +    * Nele se articulam duas dimensões: o estar-lá e o estar-aqui
 +    * Estar aí é ao mesmo tempo estar aberto ao mundo, melhor: ser a abertura do mundo, e estar exposto ao mundo, encontrar-se compreendido sob seu horizonte
 +
 +  * Daí o duplo estatuto do presente: origem e limite do tempo, lugar de advento e de evento
 +
 +=== Advento e Evento: A Ambiguidade Essencial ===
 +
 +  * Advento e evento coincidem na ambiguidade
 +    * Ambiguidade essencial da qual testemunham a língua e a filosofia
 +    * Ela aparece em duas palavras-chave do grego e do alemão — //genésthai// e //werden// — por oposição ao francês //devenir//, que não é senão uma tradução unilateral
 +
 +  * Devir é passar de um estado a outro, segundo o curso do tempo
 +    * Enquanto //genésthai// e //werden// significam a passagem do não-ser do nada ao ser do ente ou a passagem inversa, mas passagem absoluta, intemporal e criadora do tempo
 +
 +  * Segundo Hegel, o "devir" (//das Werden//) comporta uma dupla determinação
 +    * Segundo uma, ele é o nada como imediato, isto é, começa a partir do nada que se relaciona ao ser, ou seja, passa a ele
 +    * Segundo a outra, ele é o ser como imediato, isto é, começa a partir do ser que passa ao nada: nascimento e destruição
 +
 +  * Hegel concebe o ser e o nada como nascendo um do outro e um com o outro
 +    * Eles não são senão nesta passagem que é devir
 +    * O ser-aí (//Dasein//) é o ser-uno destes contrários
 +    * A imediatidade na qual ele se dá é o resultado simples de sua mediação
 +
 +=== A Realidade do Ser-Aí ===
 +
 +  * A realidade do ser-aí é a do devir
 +    * Ele é devindo-devido
 +    * Somente é real a passagem do ser ao nada ou do nada ao ser, mas não os dois termos tomados à parte
 +
 +  * "O ser e o nada não são para si, eles são apenas no devir, a desaparecer"
 +    * Dizer "o ser é" ou "o nada não é" é, para Hegel, hipostasiar abstrações
 +    * Mas é esta a verdadeira razão que torna estas expressões viciosas?
 +    * Em verdade, dizer "o ser é" ou "o não-ser não é" não tem mais sentido do que dizer "o movimento se move" ou "o repouso se repousa"
 +    * E quem jamais o disse? Sobretudo não Parmênides, cujo fragmento 6 se traduz: "é necessário tanto dizer quanto pensar que o ente é. Há que há, e nada não há"
 +
 +  * À diferença do ente e do não-ente, ser e não-ser são inobjetiváveis
 +    * É por terem sido abusivamente transpostos em objetos de representação que constituem "abstrações simplesmente pensadas" que não têm mais nada a ver com a dimensão da presença ou da ausência
 +    * Assim Hegel não lhes concede diferença real senão nesta primeira forma de presença que é o ser-aí
 +
 +  * "Não há senão o ser-aí que contenha a diferença real do ser e do nada: um algo e um outro"
 +
 +=== O Ser-Aí como Evento e Advento ===
 +
 +  * O ser-aí, no sentido hegeliano, é ao mesmo tempo evento e advento
 +    * De uma parte, ele é o primeiro evento apreensível que procede do inapreensível devir
 +    * O devir é aparição-desaparição, unidade transitiva do ser e do nada, enquanto eles desaparecem um no outro
 +
 +  * Esta desaparição é o devir mesmo
 +    * O devir não é. E de uma só vez ele é
 +    * O ser e o nada são apenas a desaparecer nele, mas neste desaparecer aparece sua diferença
 +
 +  * "O devir, como tal, isto é, como passagem, é apenas pela diferença do ser e do nada... seu desaparecimento é o desaparecimento do devir, o desaparecer do desaparecer"
 +    * "O devir é portanto uma inquietude sem cessar que se reúne afundando-se em um resultado calmo"
 +
 +  * Qual é este resultado?
 +    * "O nada do devir é, em seu desaparecimento, passagem essencial ao ser; e o devir é passagem à unidade do ser e do nada, unidade existente que possui a forma da unidade imediata de seus momentos: o ser-aí (//Dasein//)"
 +
 +=== O Ser-Aí como Evento Absoluto ===
 +
 +  * O ser-aí tem portanto "sua mediação, o devir, atrás de si"
 +    * Ele procede de uma mediação que se pro-duz nele, sob a forma de sua imediatidade
 +    * Ele é evento absoluto
 +    * É o evento ab-soluto de toda qualificação, que constitui o fundo de realidade
 +
 +  * O ser ao mesmo tempo resultativo e imediato do devir-devido é tanto o em-si universal do evento quanto o evento universal do em-si
 +    * Mas o ser-aí, se é em si, não é a si
 +    * Seu advento a si mesmo está ainda diante dele
 +
 +=== O Ser-Aí como Seu Próprio Efetuador ===
 +
 +  * Em um segundo tempo, o ser-aí se apresenta a Hegel como seu próprio efetuador
 +    * Ele advém a si explicitando-se no modo do "enquanto...", isto é, determinando-se como algo
 +    * A unidade nele do ser e do nada não é mais esta unidade imediata cujo nó é o de uma reflexão exterior
 +
 +  * O ser-a-si (//Insichseyn//) é o ser-em-si (//Ansichseyn//) apropriando-se a si mesmo por sua própria reflexão em si
 +    * Seu fundo não é mais o ser, mas seu próprio movimento
 +    * Sua igualdade consigo mesmo é seu ato
 +    * Ele é o determinante de sua determinação
 +
 +  * A unidade de seus dois "lados", ser e nada, não é mais um fato imediato, o resultado de uma mediação que o precede e condiciona seu evento
 +    * Mas ele é a si mesmo seu próprio mediador, e o autor de seu advento
 +
 +=== O Ultrapassamento do Ser-Aí ===
 +
 +  * "O ser-aí se ultrapassa em direção a seu estatuto de ente aí no interior de si mesmo"
 +    * Este ultrapassamento é um sacrifício de seu próprio ser em si, ao mesmo tempo parricídio do ser (no sentido do //Sofista//) e suicídio do em si
 +    * Ao fundo do ser em si sobre o qual ele repousa, o ser-aí substitui o fundamento de sua própria negação
 +
 +  * Esta negação é sua reflexão em si mesmo, cuja imanência põe fim à perspectiva da reflexão exterior
 +    * Mas, com esta última, desaparece seu ser-para-um-outro em relação ao qual se definia seu ser em si
 +    * É suprimindo esta alteridade, condição de seu em si, portanto negando ele mesmo seu ser em si, que ele advém a si e que ele é algo
 +
 +  * "O algo é o ser-aí, mas somente enquanto ele tem uma determinação"
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 +=== A Determinação do Ente Aí ===
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 +  * O ente aí é determinado
 +    * Ele é determinado por seu limite, mas este não é seu senão porque ele é o determinante dele
 +    * Determinar-se a si mesmo é pôr a si mesmo seu próprio termo, seu limite, ou, como diz de preferência Hegel, sua barreira (//Schranke//)
 +
 +  * A posição de um limite supõe seu franqueamento, isto é, a negação
 +    * "Para que um limite seja uma barreira, é preciso que o ser-aí ao mesmo tempo o ultrapasse. E ele deve relacionar-se a ele como a um nada. Mas algo não ultrapassa seu próprio limite senão sendo sua supressão"
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 +  * O ser-aí, suprimindo seu limite, que por definição o con-fina em si, suprime portanto seu ser em si
 +    * "O ser em si [ativamente] igual a si mesmo se relaciona portanto a si como a seu próprio nada"
 +    * Mas unindo em seu ato o ser de seu em si e o nada de seu ser-outro, ele é integralmente a si — ele é seu próprio advento, ele está na origem de sua presença
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 +=== A Inautenticidade da Presença no Dasein Hegeliano ===
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 +  * E contudo o //Dasein//, o ser-aí hegeliano não é autenticamente presença
 +    * Se o ser-aí retoma por sua conta a mediação do devir da qual ele resulta, o //Dasein// e o //Werden// hegelianos não são originários, mas participam de uma sistematização teórica antecipada
 +    * A presença do ser-aí na encruzilhada do fundo e do fundamento é tão pré-construída quanto a do presente no início da //Fenomenologia//
 +
 +  * A passagem do ser ao nada ou do nada ao ser, mediatizados pelo devir, os pré-supõe a título de objetidades ideais
 +    * Atesta-o seu estatuto de opostos
 +    * Longe de serem termos diferentes cuja indiferença seria superada em co-presença em um encontro real e paradoxal, o ser e o nada formam um par de contrários que se opõem supondo-se, cada um sendo necessário à definição do outro, e sua unidade consistindo na reciprocidade de sua interdeterminação
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 +  * O ser-uno do ser e do nada repousa sobre a pré-construção de seus conceitos, e o que Hegel chama sua diferença real é a hipóstase de sua oposição ideal
 +    * Hegel dissocia idealmente a diferença indiferente do ser e do não-ser, como dimensões da presença, em diferença e em indiferença
 +    * E fazendo isto, ele reduz a primeira a uma oposição e a segunda a uma identidade
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 +  * A oposição do ser e do não-ser como de dois lados ou faces da unidade é, com efeito, uma determinação da reflexão que os põe juntos como objetidades pensadas em uma relação bipolar
 +    * E cada um é apenas em sua oposição ao outro, porque foram primeiro determinados como os dois polos de uma relação ideal
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 +=== A Indiferença Mútua como Identidade ===
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 +  * Quanto à "indiferença mútua" do ser e do nada, ela significa no pensamento de Hegel que eles são ambos indiferentes a ser um ou outro, porque indiscerníveis
 +    * Eles são definidos um e outro como "igualdade consigo" "fora de toda desigualdade a um outro", ou como indeterminidade e vazio
 +    * Ora, a determinidade (ou sua falta) não concerne o ser do ente ou o não-ser do nada como dimensão do //Dass-Sein//, mas seu //Was-Sein//
 +    * Ela é da ordem do sentido
 +    * O ser é identificado ao ser-o-quê e o não-ser ao não ser-o-quê
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 +  * A mediação tem por termos aqueles que figuram nos pares clássicos de conceitos
 +    * Seja ao nível do devir, seja ao nível do algo, a oposição do que ele nomeia ser e nada é a do ser-si e do ser-outro, que Platão substitui no //Sofista// ao ser e ao não-ser
 +    * E do mesmo modo que, opondo ao ser o outro, Platão define o primeiro pela identidade, o //Dasein// hegeliano não é uma fonte real, mas uma ressurgência de determinações pensadas
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 +=== O Presente-Limite Hegeliano ===
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 +  * Hegel define o ser-aí do algo em termos que prefiguram a constituição do //Dasein// segundo Heidegger
 +    * Algo (//Etwas// = isto o quê) não é determinado por um limite ao lado do qual ele se manteria tranquilamente sem participar de sua limitação
 +    * Mas ele o ultrapassa, o que é suprimi-lo mas também pô-lo — de tal modo que ao barrar-se (//schranken//) ele se franqueia a si mesmo
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 +  * E contudo o //Dasein// não é advento, seu //da//, o aí do ser-aí não é uma origem
 +    * O presente hegeliano é um presente-limite
 +    * O devir, de onde procede o ser-aí, através dele se temporaliza: o tempo é o devir de algo
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 +  * A oposição do ser e do nada, tornada a do ser-si e do ser-outro, se exprime temporalmente pela distinção do passado e do futuro
 +    * O passado é a realidade sem a possibilidade
 +    * Nele "o ser-aí do algo não faz senão manter-se ao lado de seu limite em uma indiferença tranquila"
 +    * O porvir é a possibilidade sem a realidade
 +    * Ele não é; ele deve ser
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 +=== O Porvir e o Dever-Ser ===
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 +  * O porvir é implicado no que é em si: ele é a dimensão de seu ser-outro ao qual ele se relaciona como a seu próprio nada
 +    * Pois este nada é seu. Ele é seu próprio //Sollen// (dever)
 +    * "Enquanto dever, o algo ultrapassa sua barreira, isto é, o que não está nele, o que se encontra em estado suprimido, está também nele"
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 +  * Entre o ser em si e o ser-outro de algo, que se pertencem reciprocamente, o limite não é uma barreira separando um dentro e um fora
 +    * Mas "a exterioridade do ser-outro é a interioridade própria do algo"
 +    * Do ser em si, pode-se dizer "//Wesen ist gewesen//", "sua essência é a reunião de seu tendo-sido"
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 +  * Mas ele é a si, ele não pode recolher-se, senão a partir da barreira que ele se dá e que ele não pode pôr senão em seu franqueamento, isto é, negando-a
 +    * Esta barreira é o presente
 +    * Sua posição-negação está ligada ao dever (//Sollen//)
 +    * "Enquanto dever, algo transcende sua barreira, mas é somente como dever que ele tem uma barreira"
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 +  * Dever-ser, não poder-ser
 +    * O programa dialético fixa o sentido do tempo
 +    * "É no dever que o conceito de finitude tem seu começo e que começa seu ultrapassamento: a infinitude. O dever contém o que na sequência do desenvolvimento se apresenta como o progresso ao infinito"
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 +  * O presente é portanto a cada vez o limite do tempo, o aí do ser-aí do Conceito
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 +{{tag>Maldiney}}