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estudos:macquarrie:macquarrie-1994-48-50-o-que-e-metafisica

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 +====== o que é metafísica? (1994:48-50) ======
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 +//Data: 2024-10-10 17:18//
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 +Embora bastante curta, essa palestra [O que é metafísica? (GA9) ] é importante, tanto por reunir algumas das questões do inacabado Ser e Tempo quanto por apontar para o trabalho posterior, no qual a questão do Ser seria confrontada mais diretamente do que havia sido até então.
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 +A palestra em si é paradoxal e tipicamente heideggeriana. Tratará de uma questão metafísica. Mas essa não é, como poderíamos esperar, a questão do Ser. Pelo contrário, é a questão do nada! Wie steht es um das Nichts? Isso pode ser traduzido como “E quanto ao nada?” ou “Como é com o nada?” ou “Qual é o status do nada?”. Mas, seja qual for a tradução, a pergunta continua sendo muito estranha. Como o próprio Heidegger diz, “a pergunta se priva de seu próprio objeto”. A própria ideia de “nada” nos proíbe de dizer que nada é isso ou aquilo ou qualquer coisa. Mas isso significa que não há nenhum problema aqui?
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 +Heidegger acredita que há um problema, um problema metafísico, sobre o nada. Qualquer problema metafísico, afirma Heidegger, engloba toda a gama de problemas metafísicos e também envolve o questionador que levanta o problema. Portanto, aqui vemos que Heidegger está continuando a busca iniciada em Ser e Tempo. A questão sobre o nada é inseparável da questão do Ser; e assim como o Ser é uma questão existencial e intelectual para o Dasein, a questão sobre o nada também o é. Isso permite que Heidegger apele para a questão do nada.
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 +Isso permite que Heidegger apele, nesse caso, como fez na investigação anterior, para a revelação da situação humana por meio de humores ou estados afetivos. Novamente, é à angústia que ele recorre. No estado de angústia, temos algo como um encontro com o nada. Na angústia, dizemos, a pessoa se sente “pouco à vontade”. O que é “isso” que nos faz sentir “mal-estar”? Não podemos dizer o que é... todas as coisas e nós mesmos afundamos na indiferença... Não conseguimos nos agarrar às coisas. No deslizamento dos entes, apenas essa “falta de controle sobre as coisas” nos atinge e permanece. A angústia revela o nada.” Heidegger reconhece que esse estado de espírito é raro, e muitas pessoas talvez digam que nunca o experimentaram. Talvez seja como uma experiência mística, conhecida apenas por algumas pessoas de sensibilidade especial, mas nem por isso deve ser descartada de imediato.
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 +Heidegger tenta explicar seu significado de forma mais completa. “O nada se revela em angústia, mas não como um ente. Tão pouco se dá como um ente. Ele é tão pouco dado como um objeto. . . Em vez disso, o nada se dá a conhecer com os entes e nos entes, expressamente como um deslizamento do todo.”
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 +Portanto, parece que o nada não é apenas a aniquilação ou a pura negação do Ser. De fato, começa a se parecer com a clareira que pertence ao Dasein e na qual os entes emergem. Esse sentido se encaixaria na frase: “Na noite clara do nada da angústia, surge a abertura original dos entes como tais: que eles são entes, e não nada”. Mas em outro sentido, o nada está além dos entes, quase o que alguns dos neoplatônicos chamaram de hiperousia. Assim, lemos: “Ao se estender para o nada, o Dasein está, em todos os casos, além dos entes como um todo. Esse estar além dos entes é chamado de “transcendência” (Transzendenz).” Lembrando-nos de que a palavra ‘metafísica’ é derivada do grego meta ta physika, Heidegger diz: “Metafísica é a investigação além ou sobre os entes, que visa recuperá-los como tais e como um todo para nossa compreensão”.
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 +Heidegger também cita um axioma tradicional da metafísica: ex nihilo nihil fit — do nada, nada vem a ser. Contrasta com isso a doutrina cristã da criação a partir do nada, mas essa visão é criticada com base no fato de que evita a questão do Ser como tal e ensina que um ente, a saber, Deus, cria todos os outros entes. Encontraremos essa crítica novamente em um trabalho posterior, e ela acaba levando Heidegger a rejeitar o exercício metafísico, sua chamada “superação” da metafísica. Mas no estágio alcançado em sua palestra inaugural, ainda é um entusiasta da metafísica e até declara que pertence à natureza do homem. A ciência, declara ele, preocupa-se apenas com o real, ou com o que ela considera real, e gostaria de “descartar o nada com um aceno de mão senhorial”. Mas é da própria natureza do Dasein ir além dos entes. A palestra terminou com a famosa pergunta feita por Leibniz: “Por que existem entes, e por que não o nada?”. Essa é a maravilha das maravilhas — o fato de existirem entes, e não apenas o nada.
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 +//PS: MACQUARRIE, John. Heidegger and Christianity: the Hensley Henson Lectures 1993-94. New York: Continuum, 1994//
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 +{{tag>Macquarrie}}
  
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