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| estudos:ldmh:ldmh-gott [16/01/2026 14:40] – created - external edit 127.0.0.1 | estudos:ldmh:ldmh-gott [20/01/2026 16:17] (current) – mccastro |
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| ===== LDMH: Gott ===== | ====== Deus(es) ====== |
| En termes phénoménologiques, et c’est bien à une phénoménologie du divin que se risque la pensée de Heidegger, à savoir à une tentative de le laisser se dire à partir de lui-même, le problème est celui de l’accès à la Dimension du divin, ou au contraire l’obstruction des conditions de possibilité du moindre accès au divin, y compris dans certaines manières croyantes d’en témoigner, qui peuvent être athées à leur insu. Or il se pourrait que la seule nomination du divin fût, en domaine germanophone, une première obstruction. Heidegger s’en avise dans le cours de 1943 sur Parménide, lorsqu’il note que le mot germanique commun Got (allemand moderne Gott) signifie étymologiquement : l’Invoqué (der Angerufene), Celui qui est vu à partir de l’homme et de sa détresse, et auquel s’adressent ses prières. De cet Invoqué, l’histoire de la métaphysique fera un Convoqué, sommé de satisfaire aux exigences de la lumière naturelle, aligné sur « quelque chose de tel que rien de plus grand ne peut être pensé » (Anselme), « acte pur d’être » (Thomas d’Aquin), « étant infini » (Duns Scot), « cause de soi » (Descartes, Spinoza), « ultime raison des choses » et « racine de la contingence » (Leibniz), ou encore « comble de réalité » (Kant) – voire « suprême valeur », identification que Heidegger va jusqu’à qualifier de « plus grand blasphème » (GA 9, 349), dans la mesure où toute valeur résulte d’une évaluation qui à son tour est le fait d’un sujet assignant à tel ou tel étant, fût-il évalué comme suprême, la place qui lui revient dans une échelle de valeurs, le rabaissant du même coup en sa dignité. Tandis que le divin au sens grec n’est pas saisi à partir de l’homme, selon une tournure anthropologique, mais à partir de lui-même, comme ce qui ne doit qu’à soi-même son propre surgissement, nous foudroyant du regard, tel Zeus (Parménide, GA 54, 164-5 ; voir Héraclite, fragment 64). La foi – dont il faudrait distinguer les différents « types » dans les religions juive et chrétienne, mais aussi peut-être entre confessions chrétiennes, s’il est vrai que, comme le souligne Heidegger dans le tome 60, la foi au sens catholique met l’accent sur l’adhésion, l’assentiment ou le « tenir-pour-vrai » (das Fürwahrhalten), la foi protestante se comprenant davantage comme confiance (Zuversicht) – est une modalité de la relation au divin. Ce ne fut pas celle des Grecs, chez qui les dieux, chantés par les poètes, resplendissent dans la lumière du mythe. « Les Grecs n’ont pas cru à leurs dieux. Une foi des Hellènes – pour rappeler ici Wilamowitz (auteur d’un ouvrage qui porte ce titre) – cela n’existe pas » (GA 15, 27). Quant à l’appellation tardive et peu enthousiasmante de monothéisme, brandie comme étendard d’un « progrès », voire d’une prétendue « supériorité » sur le monde « païen » de la Grèce antique ou d’autres peuples, fait-elle autre chose qu’exprimer le « point de vue de ceux qui déclarent faux ce qui inspira à d’autres qu’eux la plus haute vénération » (J. Beaufret) ? Le Dieu « de » Heidegger n’est pas, on l’aura compris, le « Dieu des philosophes et des savants » (Pascal), mais est-il pour autant le Dieu d’Abraham, d’Isaac et de Jacob ? Oui et non. (Pascal David) | |
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| | LDMH |
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| | * Questão sobre como nomear o divino na obra de Heidegger – Deus, o deus, os deuses, a deidade ou ainda o divino, no contexto do teológico ou do //te(i)ológico// – traduz dificuldade em circunscrever o que essa nominação recobre, sem que distinções habituais entre politeísmo e monoteísmo possam ser de auxílio. |
| | * Observação de Heidegger em carta a Elisabeth Blochmann – //Deus – ou como queira dizer – chama a cada um com uma voz diferente// – contém em filigrana quase todas as dificuldades, aporias e talvez promessas que o nome de Deus carregará em sua escrita, apontando para o Carregador do Apelo que é Deus, chamando singularmente cada um a ser si mesmo, enquanto a fonte desse apelo permanece de difícil nominação. |
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| | * Para maior clareza, é desejável distinguir, ainda que esses aspectos inevitavelmente se enredem: |
| | * Primeiramente, a relação pessoal de Heidegger com Deus, no âmbito biográfico. |
| | * Em segundo lugar, o modo como suas interpretações e seu pensamento ecoam aquilo que se chama //Deus//. |
| | * Finalmente, a irrupção, em meados dos anos 1930, de uma figura inédita e insólita que Heidegger chama //o último deus//, isto é, a maneira como seu próprio pensamento pôde dar lugar à questão de Deus. |
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| | * Disposição atual de ampla documentação – cartas, textos autobiográficos, testemunhos – permite rastrear a estranha presença/ausência de Deus no itinerário de Heidegger, desde a infância católica até a ruptura dolorosa com o //sistema do catolicismo//. |
| | * Contudo, a questão sobre se Heidegger //acreditava em Deus//, ou quando teria cessado de crer nEle, mostra-se em muitos aspectos impertinente, pois não faz jus à amplitude de um questionamento que convida a pensar as coisas de modo totalmente diverso do preenchimento de rubricas em uma ficha de suposto //sujeito// crente ou incrédulo. |
| | * Restaria indagar se a fé é algo que se possa //ter// ou //perder//; Deus não é algo que se perca //como se perde uma pedrinha//, conforme escreve Rilke, ainda que a perda possa ser uma //segunda aquisição//, interior e mais intensa. |
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| | * Estabelecimento factual possível limita-se a constatar que Heidegger //saiu da Igreja//, gesto oficial na Alemanha com consequências inclusive fiscais. |
| | * Testemunho do padre Engelbert Krebs sobre declaração de Elfride Heidegger em dezembro de 1918 indica que o casal pensava //como protestantes//, acreditando em um Deus pessoal ao qual dirigiam orações //no espírito de Cristo//, mas sem ortodoxia protestante ou católica. |
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| | * Para além de elementos biográficos, o pensamento de Heidegger não cessou de ser assombrado, a seu modo, pela questão de Deus, por um Deus que se faz questão, ou mais amplamente pelo divino em sentido grego, judaico e cristão, na //plenitude que guarda em reserva aquilo que não cessou de ser com respeito ao divino//. |
| | * Questão que magnetiza sua abordagem do divino poderia formular-se assim: viemos apenas //tarde demais para os deuses// ou subsiste ainda uma possibilidade de sermos tais, com respeito ao divino, que o divino possa ainda ter por nós algum respeito? |
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| | * Em termos fenomenológicos, aos quais se arrisca o pensamento de Heidegger, o problema é o do acesso à dimensão do divino, ou, ao contrário, a obstrução das condições de possibilidade de qualquer acesso, inclusive em certos modos crentes de testemunhá-lo, que podem ser ateus a sua revelia. |
| | * A própria nominação do divino em língua alemã constitui uma primeira obstrução, pois o termo //Gott// significa etimologicamente //o Invocado//, aquele visto a partir do homem e de sua angústia, ao qual se dirigem preces. |
| | * A história da metafísica transforma esse Invocado em Convocado, alinhado a conceitos como //ato puro de ser//, //ente infinito//, //causa de si// ou //supremo valor// – identificação esta que Heidegger qualifica de //maior blasfêmia//, por rebaixar o divino a objeto de valoração subjetiva. |
| | * O divino em sentido grego, ao contrário, não é apreendido a partir do homem, mas a partir de si mesmo, como aquilo que deve a si seu próprio surgimento, fulgurando como Zeus. |
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| | * A fé – da qual seria necessário distinguir tipos nas religiões judaica e cristã, e talvez entre confissões cristãs – é uma modalidade da relação com o divino, não sendo essa a modalidade dos gregos, que //não acreditaram em seus deuses//. |
| | * A designação tardia de //monoteísmo//, brandida como progresso, expressa apenas o //ponto de vista daqueles que declaram falso o que inspirou a outros a mais alta veneração//. |
| | * O Deus //de// Heidegger não é o //Deus dos filósofos e dos sábios//, mas tampouco é simplesmente o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. |
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| | * O desprendimento de Heidegger em relação ao cristianismo é menos uma renegação que uma tentativa de aprofundamento daquilo que, nessa proveniência, permanece portador de futuro, uma //segunda aquisição//. |
| | * Por isso, o //último deus// que surge nos //Contributos à Filosofia//, aveniente apenas a favor da história do ser, deve ser entendido como começo – como deus do adeus a tudo o que foi até aqui nossa relação com o divino e simultaneamente deus do adeus, deus enfim e até si mesmo re-apropriado. |
| | * Não é o deus que esperamos, mas, no melhor dos casos, o deus que nos espera, aquele que //aguarda a fundação da verdade do ser e com isso o salto do ser humano no Da-sein//. |
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| | * Por mais enigmático e difícil que seja o desenvolvimento dedicado ao //último deus//, que apenas passa e talvez despercebido, parece que este é menos um deus novo destinado a eclipsar predecessores que a dimensão mesma do divino a que esses insólitos reencontros permitiriam reacessar, por mais problemática que permaneça sua articulação com o Deus dos filhos de Abraão. |
| | * A estrela que ornamenta a tumba de Heidegger não é a da redenção. |
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| | * É talvez na frase famosa pronunciada em 1966 para a revista //Der Spiegel// que se pode ver uma espécie de testamento espiritual de Heidegger sobre essa questão: //Somente um deus pode ainda nos salvar//. |
| | * E acrescenta: //Resta-nos como única possibilidade preparar no pensamento e na poesia uma disponibilidade para o aparecimento do deus ou para a ausência do deus em nosso declínio; que declinemos diante do deus ausente//. |
| | * Na era técnica que é a nossa, a //voz de Deus// ainda seria audível, ou estaria para sempre recoberta pelo //estrondo das máquinas//, com o qual os homens de hoje quase chegam a confundi-la? |
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| | * A questão da nominação do deus não relega mais em Heidegger à problemática clássica dos //nomes de Deus// ou a uma doutrina dos atributos divinos, mas, a favor de um diálogo incontornável com a poesia de Hölderlin e da meditação do Geviert, àquela da deidade tal como bebe na fonte do sagrado, o que por sua vez supõe a //verdade do ser//. |
| | * Como afirma a //Carta sobre o Humanismo//: //É somente a partir da verdade do ser que se deixa pensar o sentido do sagrado. É somente a partir do que é o Sagrado que o sentido da Deidade é a pensar. É somente na luz própria à Deidade que pode ser pensado e dito aquilo que cabe à palavra ‘Deus’ nomear//. |
| | * A dificuldade inerente à nominação de Deus ou mais amplamente do divino em Heidegger deve-se, portanto, por um lado, a sua relação tornada não confessional com Deus e, por outro, à //instauração de distinções e delimitações totalmente novas// capazes de estabelecer não de novo, mas novamente algo como uma relação com o divino. |