estudos:jaspers:jaspers-verdade-3545
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| + | ====== Jaspers: VERDADE ====== | ||
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| + | //Data: 2022-03-23 14:10// | ||
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| + | ==== Pensamento Ocidental Moderno ==== | ||
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| + | === Filósofos e Pensadores === | ||
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| + | //Karl Jaspers, Filosofia da Existência, | ||
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| + | //Karl Jaspers, Filosofia da Existência, | ||
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| + | VERDADE — a palavra tem uma magia incomparável. Parece prometer o que realmente conta para nós. A violação da verdade envenena tudo aquilo que se obtém pela violação. | ||
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| + | A verdade pode causar dor e pode levar ao desespero. Mas é capaz — pelo fato meramente de ser verdade, independentemente do seu conteúdo — de oferecer uma satisfação profunda: a verdade existe, apesar dos pesares. | ||
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| + | A verdade dá coragem: se eu a captei em qualquer momento, a urgência em persegui-la sem descanso amplia-se. | ||
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| + | A verdade dá apoio: eis aqui alguma coisa que é indestrutível, | ||
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| + | Mas que pode ser essa verdade que tão poderosamente nos atrai — não as verdades determinadas particulares mas a verdade-em-si-mesma — eis aí a questão. | ||
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| + | A VERDADE existe, pensamos nós, como se isto fosse evidente por si mesmo. Sustentamos e enunciamos verdades sobre as coisas, os acontecimentos e realidades que, para nós, são inquestionáveis. Mostramo-nos até confiantes em que a verdade, em última instância, triunfe no mundo. | ||
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| + | Mas aqui fazemos a nossa abrupta parada: pouca coisa pode ser vista de uma presença de verdade em que se pode confiar. Por exemplo, as opiniões correntes são, na sua maior parte, expressões da necessidade de um certo tipo de amparo: as pesoas apegam-se a alguma coisa firme muito mais com a finalidade de se pouparem a maiores penas por terem que pensar do que enfrentam o perigo e o esforço de pensar incessantemente numa linha de mais ampla extensão. Ainda mais, a maior parte das coisas que se afirma é imprecisa, e a sua aparente clareza é primordialmente a expressão de interesses de ordem prática escondidos. Nas questões de ordem pública, há tão pouca confiança na verdade entre os homens que não se pode agir sem a ajuda de um advogado, com o fim de que a verdade possa prevalecer. A pretensão à verdade transforma-se em arma até mesmo para a falsidade. Se a verdade houver de prevalecer dependerá, parece, dos eventos favoráveis da sorte, não da verdade como tal. E, no final, tudo sucumbe diante do imprevisível. | ||
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| + | Todos esses exemplos da falta de verdade nas situações psicológicas e sociológicas não devem afetar a verdade em si mesma se a verdade for auto-subsistente e separável da sua realização. Não obstante, mesmo a existência da verdade em si mesma pode tornar-se duvidosa. A experiência de mostrarmo-nos incapazes de concordar acerca da verdade — a despeito de uma incansável vontade de esclarecimento e de uma presteza aberta — especialmente quando o conteúdo dessa verdade é tão essencial a nós que tudo parece depender dela porquanto é a base da nossa fé — pode fazer com que duvidemos da verdade no sentido familiar de alguma coisa subsistente. Pode ser que a verdade que conta pela sua própria natureza, não seja passível de uma enunciação unívoca e unânime. | ||
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| + | A verdade inquestionável que governa a minha vida parece falsa a outros. No nosso mundo Ocidental ouvimos pretensões conflitantes vindas de fontes essencialmente diferentes e o ruído ensurdecedor que ecoa através dos séculos à medida que explodem em ocorrências-de-massa. | ||
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| + | Diante dessa situação, é-se inclinado a aceitar a proposição de que não existe a verdade. Não se permite que a verdade seja auto-suficiente; | ||
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| + | Em consequência, | ||
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| + | A questão da verdade é uma das mais estonteantes questões do filosofar. À medida que pensamos movidos por essa questão, o lampejo mágico da verdade torna-se obscurecido. | ||
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| + | CONFRONTADOS com essa confusão, imaginamos rapidamente a nós como tendo uma fundamentação segura: concebemos a verdade inequívoca localizada na validade das proposições elaboradas sob o apoio da experiência visual e da evidência lógica. A despeito de todas as sutilezas cépticas, não obstante encontramos os objetos das ciências metodologicamente purificadas. Através da nossa compreensão descobrimos a inteligibilidade compulsória e, a ela correspondendo, | ||
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| + | Este conteúdo é ou empírico — evidente como alguma coisa perceptível, | ||
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| + | Embora a " | ||
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| + | A verdade vitalmente importante para nós começa precisamente quando a obrigatoriedade da " | ||
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| + | Nesses limites fala uma outra verdade. Um significado peculiar de verdade emerge de cada um dos modos da realidade abrangente que somos, não apenas da consciência-em-geral, | ||
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| + | COMO O CONHECIMENTO e a volição ao nível da existência, | ||
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| + | A existência é sempre particular e deseja preservar-se e estender-se; | ||
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| + | A existência quer a sua própria felicidade: a Verdade é a satisfação da existência que resulta da sua interação criativa com o seu meio ambiente. | ||
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| + | A existência, | ||
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| + | Em suma: a existência capta a verdade como conduta apropriada, apropriada primeiramente para a preservação e incremento da existência, | ||
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| + | É este o conceito pragmático da verdade. Tudo aquilo que é, é enquanto pode ser percebido e usado, é matéria prima ,são meios e fins sem um fim último. A verdade não se acha em algo permanente e já conhecido, ou em algo cognoscível, | ||
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| + | Como espírito, a verdade também não é universalmente válida para a comprovação da compreensão. | ||
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| + | A verdade do espírito existe por virtude de sua qualidade de membro de uma totalidade auto-elucidante e auto-contida. Esta totalidade não se torna objetivamente cognoscível; | ||
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| + | Na sua compreensão do ser, o espírito segue as ideias da totalidade que ergue-se imagificada perante ele, servindo de impulso para movê-la e de sistema metódico que traz coerência a seu pensamento. A verdade é aquilo que produz a totalidade. | ||
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| + | Embora nós, sendo a consciência-em-geral, | ||
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| + | A Existenz surge para si mesma como consciência-em-geral, | ||
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| + | O que eu mesmo sou, portanto, sempre permanece um problema, e não obstante a certeza que sustenta e realiza tudo o mais. Meu eu autêntico não pode nunca tornar-se uma posse minha; permanece minha potencialidade. Se eu o conhecesse, não seria mais ele, dado que me torno interiormente consciente de mim mesmo na existência temporal apenas como uma tarefa. A verdade da Existenz pode, portanto, permanecer simples e não-condicionalmente em si mesma, sem precisar conhecer a si mesma. Nas mais poderosas Existenzen, sente-se esta parcimônia e esta resignação — que não alcança nenhuma imagem, nenhuma representação visível de sua própria natureza. | ||
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| + | ESTA RESUMIDA APRESENTAÇÃO mostra a pluralidade de significados da verdade. Passaremos, agora, a comparar estes significados; | ||
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| + | 1. A verdade ao nível da existência é uma função da preservação e da extensão da existência. Prova-se a si mesma pela utilidade no plano da prática. | ||
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| + | A verdade ao nível da consciência-em-geral tem validez como exatidão compulsória. Existe em virtude de si mesma, e não depende de nada a que serviria de meio. Prova-se a si mesma pela evidência. | ||
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| + | A verdade ao nível do espírito é convicção. Prova-se a si mesma na realidade através da existência e do pensamento, na medida em que se submete à integralidade das ideias, confirmando, | ||
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| + | A Existenz experimenta a verdade na fé. Do momento em que não sou mais resguardado por uma efetividade certificadora de verdade pragmática, | ||
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| + | 2. Cada modo da verdade é caracterizado por aquele que enuncia através dele em qualquer tempo. O modo da verdade é dado juntamente com a realidade abrangente, dentro da qual nos achamos em comunicação. | ||
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| + | Na existência uma vida plena de objetivos e auto-interessada ilimitadamente fala. Submete tudo à condição de que deve incrementar a sua própria existência. Sente simpatia e antipatia somente nesse sentido e entra em comunidade apenas à base deste interesse. | ||
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| + | A comunicação a este nível é conflito ou expressão de uma identidade de interesses. Não é comunicação não-limitada, | ||
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| + | Na consciência-em-geral um ponto intercambiável de meros pensamentos fala. É o pensamento-em-geral, | ||
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| + | Sua comunicação efetiva-se por argumentação racional. Visa ao universal e procura a validade formal e a correção necessária, | ||
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| + | Ao nível do espírito, dá-se a comunicação na atmosfera de uma totalidade concreta e auto-completante a que tanto o que fala como o que ouve pertencem. | ||
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| + | Na seleção, na ênfase e na relevância daquilo que é dito, a sua comunicação é guiada pela ideia — em conexão constante com o significado da totalidade. | ||
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| + | Na existenz, o homem que é ele mesmo fala. Fala a uma outra Existenz como um insubstituível indivíduo fala a um outro indivíduo. | ||
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| + | Sua comunicação verifica-se numa luta amorosa — não pelo poder mas sim pela abertura — em que todas as armas se entregam mas em que todos os modos da realidade abrangente aparecem. | ||
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| + | 3. Em cada modo da realidade abrangente que somos, a verdade está oposta à não-verdade, | ||
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| + | Na existência, | ||
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| + | Na consciência-em-geral, | ||
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| + | Em espirito, existe a profunda satisfação na totalidade e o tormento da contínua incompletação. Irrompendo em oposição a ambos, acha-se a dessatisfação com a harmonia e a perplexidade resultante quando as totalidades se esfacelam. | ||
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| + | Na existenz há fé e desespero. Oposto a ambos, o desejo pela paz da eternidade, em que o desespero é impossível e a fé se torna uma visão, vale dizer, a presença perfeita da perfeita realidade. | ||
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| + | ATÉ AQUI, no nosso exame relativo aos vários modos do significado da verdade, os diferentes modos simplesmente postam-se lado a lado e em lugar algum encontramos a verdade em si mesma. | ||
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| + | Mas, os modos do significado da verdade não são, de maneira alguma, um agregado não-relacionado. Acham-se em conflito: em assaltos recíprocos e possíveis uns contra os outros. Cada verdade cai na não-verdade quando viola a integridade de seu próprio significado e passa a ser dependente e distorcida por uma outra verdade. | ||
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| + | Um único exemplo deve ser bastante: a questão de saber-se em que extensão a verdade da consciência-em-geral — a imperiosa certeza no conhecimento de tudo aquilo que pode ser experimentado — é útil, ou seja, verdadeira, para a existência. Se o conhecimento desta verdade universalmente válida tivesse sempre consequências também benéficas na existência, | ||
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| + | Desses conflitos adquirimos um sentimento relativamente à unicidade de cada significado individual de verdade — e em cada conflito que apreendemos uma fonte particular de possível falsidade. Se, então, tentarmos ir além desses conflitos e buscarmos a verdade em si mesma, nunca a encontraremos ao darmos precedência a um modo da realidade abrangente como a verdade autêntica. Sucumbimos, alternadamente, | ||
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| + | O fato de que todos os modos do significado da verdade surjam em conjunto na vida humana efetiva e de que o homem exista no seio de todas as fontes de todos os modos, nos impele para uma única verdade, em que nenhum modo da realidade abrangente fica perdido. E somente a clareza acerca da multiplicidade de significados da verdade conduz a questão da verdade única àquele ponto em que a profundidade de visão se torna possível e em que uma resposta trivial — na presença de uma urgência intensa do Um — se torna impossível. | ||
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| + | Se a verdade única estivesse presente a nós, teria de permear todos os modos da realidade abrangente e consertá-los todos em conjunto numa unidade vigente. | ||
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| + | É condição fundamental da nossa realidade que, para nós, esta unidade não é conseguida por meio de uma concebível harmonia do todo, em que cada modo da realidade abrangente teria o seu lugar suficiente assim como o seu lugar limitado. Em vez disto, permanecemos em movimento, vemos cada uma das formas harmoniosas de verdade mais uma vez destruída e devemos, por conseguinte, | ||
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| + | A verdade única seria accessível apenas em associação com o seu conteúdo — não como uma espécie de verdade formal — e consequentemente numa forma que reúne todos os modos da realidade abrangente conjuntamente. | ||
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| + | Não podemos, portanto, captar diretamente a verdade única num todo conhecido. Captada diretamente, | ||
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| + | Mas esta verdade formalmente expressa torna-se a verdade para nós apenas conjuntamente com o conteúdo da realização do ser. E por causa da natureza da nossa existência temporal este conteúdo se torna accessível a nós como um e todo apenas em forma histórica. Talvez nos cheguemos o mais perto possível desta forma quando implacavelmente nos desfazemos das cascas tradicionais da nossa compreensão e nos colocamos face a face com as formas extremas de uma realização de unidade de todos os modos da realidade abrangente. | ||
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| + | São precisamente estes fenômenos que, medidos em confronto com a validade e com a liberdade do conhecimento racionai necessariamente válido, parecem-nos uma ameaça a toda verdade: exceção e autoridade. A exceção, pela sua efetividade, | ||
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| + | A elucidação dos modos da realidade abrangente, e a experiência de conflitos e de movimento incessante, demonstraram imperiosamente que a verdade integral, como universalmente cognoscível e sob uma forma única, não é nem suficiente nem efetivamente presente. | ||
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| + | Esta situação básica da existência temporal torna possível a efetividade da exceção como verdade original em oposição à universalidade fixa — e exige a autoridade como a verdade da realidade abrangente em forma histórica, em oposição à pluralidade arbitrária da intenção e da vontade. A exceção e a autoridade precisam, no momento, ser esclarecidas. | ||
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| + | O HOMEM que é uma exceção é uma exceção, primeiramente, | ||
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| + | A exceção experimenta o seu status excepcional, | ||
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| + | A exceção deseja o universal que ela não é. Não deseja ser uma exceção, mas antes subordina-se ao universal. Aceita seu caráter de exceção em sua tentativa de imaginar o universal, uma tentativa que se verifica não com um élan natural, mas sob auto-degradação e, desta forma, fracassa. A exceção compreende a si mesma como exceção apenas através do universal. Porque é exceção, sua compreensão, | ||
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| + | Mas, a despeito dessa subordinação ao universal, ser uma exceção em si mesma também se torna a tarefa de encontrar um caminho único de realização que se faz necessário para ir de encontro ao universal, mesmo contra a sua vontade. Pode ele perder o mundo a serviço da transcendência, | ||
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| + | A exceção pode comunicar-se: | ||
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| + | Se, recapitulando, | ||
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| + | Finalmente, se perguntarmos quem é uma exceção e quem não o é, a resposta deve ser: a exceção não é meramente uma ocorrência fronteiriça rara — como nas figuras mais extremas e conturbadoras da alma, como Sócrates — mas é a possibilidade sempre presente para qualquer Existenz. Mas a sua própria natureza, a historicidade, | ||
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| + | A exceção genuína, portanto, não é uma exceção arbitrária. Isto faria com que fosse um mero apóstata. Antes, em sua existência temporal está ele inseparavelmente vinculado à verdade da realidade abrangente. O que foi a princípio tomado em situações extremas como o mais alheio e, por conseguinte, | ||
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| + | À MEDIDA QUE penetramos na área da verdade encontramos no seu seio efetividade concreta, encontramos exceção e autoridade. A exceção questiona todas as coisas, é surpreendente e fascinante. A autoridade é a plenitude que dá apoio, que protege e que inspira confiança. | ||
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| + | Descrevemos a autoridade assim: | ||
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| + | A autoridade é a unidade de verdade que vincula todos os modos da realidade abrangente em um só e que nos aparece em forma histórica como universal e como um todo. Mais precisamente: | ||
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| + | A autoridade é, por conseguinte, | ||
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| + | A autoridade expressa em tais fórmulas, todavia, não pode existir no tempo numa forma única e universal para cada um sem se tornar superficial, | ||
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| + | O caráter incondicionado da autoridade consiste, desta forma, em que seja uma unidade histórica de verdade para a pessoa que por ela viva. Segundo os fundamentos colocados no início, a autoridade abarca o passado histórico que fala no presente, em imagens e em símbolos, em instituições, | ||
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| + | Mas esta calma de autêntica autoridade que parece estar presente nessas representações abstratas não existe. Porque a autoridade é histórica, e, em consequência temporal, acha-se em constante tensão, e em movimento devido a esta mesma tensão. | ||
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| + | Primeiramente, | ||
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| + | Em segundo lugar, há tensão no interior da pessoa individual entre a autoridade e a liberdade. Junto às raízes de seu próprio ser, o indivíduo deseja redescobrir, | ||
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| + | A princípio, a autoridade aceita como fé é a única fonte de educação genuína que afeta a própria natureza do homem. Nesta finitude, cada indivíduo começa sob nova forma. Para a sua maturação depende da autoridade a fim de fazer adequar o conteúdo que pode ser transmitido pela tradição. À medida que cresce dentro da autoridade, a arena em que por todos os lados encontra o ser, abre-se para ele. Se crescer sem autoridade, virá na verdade a possuir conhecimento, | ||
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| + | No processo de maturação, | ||
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| + | Mas esta fronteira do homem absolutamente livre e autónomo não pode nunca ser atingida de uma vez por todas. Cada indivíduo fracassa, neste ou naquele momento; nunca se transforma no homem ideal. Por conseguinte, | ||
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| + | Mesmo se vários indivíduos fossem capazes de adquirir genuína liberdade na comunidade, ainda assim permaneceria a vasta maioria que, nessa caminhada rumo à liberdade, cairia simplesmente vítima do caos e do poder de seus impulsos-de-existência. Portanto, a autoridade permanece como necessária na realidade da comunidade que abarca todos os homens, como a forma de verdade que pretende apoiar toda verdade; ou, se for perdida, a autoridade se reconstitui a si mesma, a partir do caos resultante, numa forma fatídica. | ||
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| + | A apresentação desses movimentos que surgem da tensão constante leva-nos retroativamente à autoridade englobadora. A autoridade é o enigma corporificado da unidade da verdade em histórica realidade. A concorrência da verdade de todos os modos da realidade abrangente com o poder mundano e com o pináculo da excelência humana que veiculam essas verdades e que têm este poder é a essência da autêntica autoridade. | ||
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| + | Conheço a autoridade na medida em que cresci no seu seio. Posso viver através dela, mas nunca deduzi-la ou classificá-la. Posso penetrá-la historicamente, | ||
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| + | Esta autoridade não pode ser explorada. Não a confronto como alguma coisa totalmente outra. Mas nunca percebo o conteúdo de uma autoridade que eu apenas veja do exterior e em cujo seio não tenha eu vivido — nunca a visualizo como autoridade. | ||
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| + | A que autoridade devo o meu amadurecimento em eu-idade, que tipo de autoridade captei e a que tipo de autoridade me devotei (embora, talvez, apenas a seus remanescentes) é questão do meu destino transcendentalmente estruturado. Mas não é possível comparar autoridades conscientemente, | ||
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| + | Não obstante, ao filosofar posso explicar como a autoridade declina e gradativamente perde o seu poder. A autoridade se torna não-verdadeira quando esses modos individuais da verdade separam o que deve existir em conjunto — existência, | ||
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| + | EM SUA EFETIVIDADE HISTÓRICA, a exceção e a autoridade são a insondável realidade abrangente. O que revelam parece sem sentido e censurável à mera compreensão: | ||
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| + | Quando ocorrem, a verdade autorizada e a verdade enunciada pela exceção são a verdade mais impressionante e majestosa — e quando não estão presentes, os homens sentem a sua nostalgia da maneira mais desesperada, | ||
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| + | A exceção e a autoridade levam ao terreno da verdade que não mais pertence apenas a um modo da realidade abrangente mas, penetrando e surgindo em todos eles, pode constituir uma unidade. Nesta unidade, os conflitos que surgem da luta entre os modos da realidade abrangente parecem momentaneamente ser resolvidos — não violentamente por uma única realidade abrangente que ganhe preeminência, | ||
| + | |||
| + | Embora absolutamente opostas uma à outra, a exceção e a autoridade são da mesma classe como indicadores do terreno da verdade. Caracterizemos o elemento comum em sua polaridade, mais uma vez: | ||
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| + | 1. Estão fundamentados na transcendência. Onde apareçam, dão testemunho da transcendência, | ||
| + | |||
| + | 2. Ambas são incompletas. Acham-se em movimento, quase que em auto-anulação em que, em seu momento próprio, emergem da tensão como a verdade una. | ||
| + | |||
| + | 3. Ambas são históricas, | ||
| + | |||
| + | 4. Ambas contêm a verdade que escapa à configuração num objeto observável e cognoscível. Se são objetivamente construídas, | ||
| + | |||
| + | QUANDO SE TENHA votado à verdade racionalmente cognoscível na forma da ciência concreta — quando se tem imaginado, além do mais, o significado da verdade em que efetivamente já se viveu, dentro dos modos da realidade abrangente — e quando, finalmente, se tem percebido a forma da verdade na exceção e na autoridade, está-se caminhando, a passos regulares, de volta à realidade. | ||
| + | |||
| + | Mas filosoficamente não se alcança o derradeiro, tanto pelo choque dado pela exceção quanto pela calma dada pela autoridade. | ||
| + | |||
| + | Viver não-interrogativamente no seio da autoridade é impossível para quem quer que tenha, realmente, filosofado. Uma coisa é viver no seio da autoridade, e outra muito diversa pensar criticamente seu caminho na direção dela. Se eu vivo no seio da autoridade, a verdade existe, em ingênua simplicidade; | ||
| + | |||
| + | Este filosofar não pode deduzir a autoridade. O fato de eu acreditar numa autoridade tem a sua fonte na totalidade da realidade abrangente; se devo acreditar nela, nunca poderá ser provado. A elucidação da autoridade em geral nunca justifica uma autoridade historicamente determinada e concreta. | ||
| + | |||
| + | O pensamento filosófico ainda não se silencia na presença da exceção e da autoridade, todavia. Na verdade, o paradoxo surge no sentido de que a autoridade requer justificação, | ||
| + | |||
| + | A estrada que não se interrompe na presença da exceção e tía autoridade, mas que as penetra — a estrada da verdade filosófica — é chamada Razão (NA: Os filósofos alemães de há multo já fizeram uma distinção radical entre entendimento e razão — Verstand e Vernunft. Mas a diferença não penetrou na linguagem ordinária. O significado profundo da palavra razão deve ser continuamente | ||
| + | |||
| + | Saber o que seja razão, realizando-a, | ||
| + | |||
| + | A CARACTERÍSTICA BÁSICA da razão é a vontade de unidade. Mas tudo está em saber-se em que consiste tal unidade. É decisivo para a verdade que a unidade seja capturada como una, única, uma unidade efetiva, e não como uma verdade que ainda deixe alguma coisa fora dela. Em toda captação prematura e parcial da unidade, nunca se atinge ou já se perdeu a verdade, | ||
| + | |||
| + | Mostramos que a verdade não é una, porquanto a exceção irrompe dela, e porque a autoridade imagina a verdade apenas em forma histórica. Mas, na medida em que a razão esteja presente, o impulso de ultrapassar a multiplicidade rumo à verdade universal una permanece não-diminuído, | ||
| + | |||
| + | O caminho para capturar adequadamente esta verdade una no mundo da consciência-em-geral, | ||
| + | |||
| + | A razão é frequentemente confundida com o entendimento porque não pode dar um único passo sem o entendimento. Mas, dentro do impulso da cognição intelectual (Verstandeserkennen) — às unidades parciais do nível em que as proposições necessárias são válidas — acha-se escondido o impulso do entendimento para esta unidade mais profunda para que a unidade do entendimento é apenas um meio. O pensamento do entendimento ainda não é, em si mesmo, de forma alguma, o pensamento da razão. | ||
| + | |||
| + | A razão busca a unidade, mas não qualquer unidade meramente pela unidade. Busca o Uno que contém toda a verdade. É como se a razão trouxesse o Uno de uma distância inatingível e o colocasse presente como força de atração que ultrapasse todas as divisões. | ||
| + | |||
| + | No nosso enfocamento desta unidade a razão realiza um papel unificador em todas as situações. A razão procura trazer tudo de volta a partir da dispersão da indiferença mútua para a inter-relacionalidade dinâmica. Do declínio da alienação mútua, a razão deseja trazer tudo de volta para a relação com tudo o mais. Cada carência de relação tem de ser ultrapassada. Nada tem de perder-se. | ||
| + | |||
| + | O poder unificador da razão acha-se em atuação até mesmo agora nas ciências como impulso para atravessar qualquer limite de qualquer ciência particular, como busca sistemática das contradições, | ||
| + | |||
| + | A razão pressiona para além desta unidade do conhecimento científico rumo a uma unidade de realidade abrangente integral. É a razão que elucida os modos da realidade abrangente, que então impede o seu isolamento e pressiona rumo à união de todos os modos da realidade abrangente. | ||
| + | |||
| + | Portanto, a razão diz respeito ao que é estranho segundo os padrões do pensamento científico. Volta-se — esperando a verdade — para a exceção e a autoridade. Mas a razão não pára nem mesmo neles, como se tivesse atingido o seu objetivo. Comparadas ao desafio do Uno, até mesmo a exceção e a autoridade são provisórias; | ||
| + | |||
| + | A razão é atraída até mesmo pelo que é de natureza mais diversa, mais estranha. Deseja convergir para o ser lúcido, dotar de linguagem, e guardar contra a desaparição — como se nada fosse, até mesmo o que, rompendo a lei diurna, faz com que a paixão noturna seja uma realidade através da auto-destruição. A razão empurra rumo a onde quer que houver uma fratura da unidade, a fim de, dentro desta ruptura, ainda captar a sua verdade e de obstar uma ruptura metafísica, | ||
| + | |||
| + | [NT: Jaspers | ||
| + | |||
| + | A razão é, portanto, a total vontade de comunicação. Tende a inclinar-se rumo a, e a preservar, tudo que possa ser expresso em linguagem, tudo que existe. | ||
| + | |||
| + | A razão busca o Uno por meio da honestidade que, em contraste com o fanatismo em busca da verdade, possui uma abertura ilimitada e uma ilimitada viabilidade para o questionamento; | ||
| + | |||
| + | A razão, como conteúdo, não é fonte adequadamente falando. É como a fonte que parece irromper de uma faceta da realidade abrangente pura e simples — para irromper dela de tal maneira que todas as origens de todos os modos da realidade abrangente convergem rumo à sua abertura, para serem relacionadas ao Uno e, assim, vinculadas umas às outras. | ||
| + | |||
| + | Desta maneira, a razão aponta para a fonte da razão: tanto para o Uno inatingível que atua através da razão quanto para outras fontes que se tornam perceptíveis por meio dela. | ||
| + | |||
| + | A razão é a firme caminhada em direção ao Outro. Torna possível a junção universal e o envolvimento universal, e uma audição ubíqua em relação àquilo que fala e àquilo que faz a própria razão falar em primeiro lugar, antes de mais nada. | ||
| + | |||
| + | Mas a razão não é indiferentemente tolerante a todas as coisas que encontra; é, antes, uma preocupação receptiva e aberta. Elucida não apenas para conhecer; permanece um questionar que se parece com um cortejar. A razão nunca se transforma em conhecimento possessivo que necessariamente limita e fixa-se a si mesmo, mas permanece uma abertura ilimitada. | ||
| + | |||
| + | Em sua luta pelo Uno, a razão mostra-se não somente capaz de perceber e de se tornar envolvida em realidade, como põe em movimento tudo aquilo em que toca. Porque questiona e confere linguagem, cria o desassossego. Desta forma, a razão torna possível o fato de todas as origens se desdobrarem, | ||
| + | |||
| + | Ligada e sustentada pela Existenz, sem a qual desapareceria, | ||
| + | |||
| + | Embora a razão não produza nada a partir de si mesma, é apenas porque a razão se acha presente no coração mais íntimo de todas as realidades abrangentes que se mostra capaz de despertar a todos eles e realizar a sua efetividade e a sua verdade. | ||
| + | |||
| + | Em sua não-limitada busca da vontade integralmente aberta de unidade, que nada omite, a razão exige e arrisca a possibilidade de um radical desligamento de todas as coisas que se tenham tornado finitas e determinadas e, por conseguinte, | ||
| + | |||
| + | Portanto, a razão apressa o poder negativo do entendimento para abstrair-se de tudo. Desde que percebe as possibildades mais remotas, pode até mesmo alimentar o pensamento de que poderia ter sido possível que o nada existisse, de qualquer modo. Este pensamento não é apenas um jogo intelectual arbitrário, | ||
| + | |||
| + | Além disso, o pensamento da razão acha-se apenas naquele movimento que não conhece qualquer parada ou término. O entendimento deseja segurança em algo firmemente estabelecido; | ||
| + | |||
| + | O homem que assenhoreou-se do que lhe pertence através do entendimento vê-se desvalido quando experimenta o caos das derrubadas e não as compreende através da razão. Quando sua confiança no entendimento é abalada, enfrenta a alternativa: | ||
| + | |||
| + | Quando o homem busca as suas mais altas possibilidades, | ||
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| + | Nas ideias da vontade totalmente-abrangente da unidade e da negatividade que ultrapassa e possibilita, | ||
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| + | Aquilo a que almeja a razão parece impossível conseguir-se na nossa fragmentada existência temporal. O objetivo da razão no Uno não pode ser descrito de modo que o torne modelo visível a que se pudesse seguir. Em lugar disto, atraída pelo Uno, a razão entra no domínio livre da possibilidade, | ||
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| + | A razão — como a Existenz — é alcançada por um salto para fora do reino fechado das coisas imanentes. Comparada com todos os fenômenos imanentes tais como o entendimento, | ||
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| + | Existe, por assim dizer, uma atmosfera de razão. Prevalece onde quer que os olhos amplamente abertos percebem a realidade em si mesma, suas possibilidades e a sua não-limitada interpretabilidade. A razão não se impõe aqui como um juiz, nem emite quaisquer pronunciamentos doutrinários absolutos; mas, com honestidade e imparcialidade penetra toda realidade e permite que esta venha a mostrar-se. Não explica nada satisfatoriamente; | ||
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| + | A atmosfera da razão acha-se presente na mais sublime das poesias, especialmente na tragédia. Os grandes filósofos a possuem, e pode ainda ser detectada onde quer que a filosofia esteja presente, de um modo ou de outro. É perfeitamente evidente nos indivíduos únicos como Lessing, indivíduos que — mesmo sem conteúdo substancial — nos afetam como se fossem a própria razão e cujas palavras lemos exatamente a fim de respirarmos essa atmosfera. | ||
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| + | A filosofia através dos milênios é como se fosse um grande hino à razão — embora ela continuamente iluda-se a si mesma como um conhecimento acabado e tombe no entendimento carente de razão. Como resultado, está sempre caindo num falso desdém do entendimento, | ||
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| + | A razão destrói a estreiteza da pseudo-verdade, | ||
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| + | SE, AO FILOSOFAR, DESEJO um conteúdo conhecido a que possa me agarrar, se pretendo ter conhecimento em lugar de fé, receitas técnicas para tudo em lugar de uma Existenz baseada no todo de todos os modos da realidade abrangente, se desejo instruções psicoterapêuticas em lugar da liberdade da eu-idade — da personalidade — então a filosofia me deixa ao desamparo. Ela fala somente onde o conhecimento e a técnica fracassam. Ela aponta, mas não dá. Move-se com raios de luz fuminosos, mas nada produz. | ||
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| + | Exatamente como na nossa descrição da realidade abrangente terminamos com nada mais do que amplas esferas, em que encontramos o ser possível, assim também na descrição da verdade nada alcançamos mas apenas avenidas que levam a tais possibilidades. | ||
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| + | Mas o propósito do nosso impulso filosófico vai mais longe. Não queremos possibilidades, | ||
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| + | A filosofia, é claro, nem produz realidade nem a dá a quem esteja sofrendo de sua carência. Mas o filósofo, incansavelmente, | ||
