estudos:jaspers:jaspers-a-razao
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| + | ====== Jaspers: A Razão ====== | ||
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| + | //Data: 2023-07-09 10:42// | ||
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| + | //Razão e anti-razão em mosso tempo | ||
| + | Karl jaspers | ||
| + | Trad. Álvaro Vieira Pinto | ||
| + | Conferências na Universidade de Heidelberg 1950 | ||
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| + | Textos de Filosofia Contemporânea | ||
| + | Instituto Superior de Estudos Brasileiros | ||
| + | 1958 | ||
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| + | Segunda Conferência: | ||
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| + | //Razão e anti-razão em mosso tempo | ||
| + | Karl Jaspers | ||
| + | Trad. Álvaro Vieira Pinto | ||
| + | Conferências na Universidade de Heidelberg 1950// | ||
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| + | **Segunda Conferência: | ||
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| + | Ontem tratamos da cientificidade como pressuposto de todo pensamento verdadeiro hoje em dia. Compreender o que é a ciência, adquirir a cientificidade como atitude de confiança, requer experiências pessoais de pesquisa, tais como cada estudante começa a fazer nos laboratórios, | ||
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| + | Mas a ciência não basta para apreender a verdade. Hoje vamos tratar daquele " | ||
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| + | Na linguagem corrente, razão é sinônimo de entendimento. De fato, ela não dá nenhum passo sem o entendimento, | ||
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| + | Que é a razão? Este grande tema de filosofia não está esgotado por milênios de pensamento, não chega a completar-se mediante o conhecimento sistemático. Vou tentar caracterizar a razão. | ||
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| + | A razão está em movimento sem estabilidade assegurada. | ||
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| + | Impele à crítica de toda posição adquirida, e por isso está em oposição à tendência de nos dispensarmos, | ||
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| + | Deseja a reflexão; - opõe-se à arbitrariedade. | ||
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| + | Realiza o autoconhecimento de cada um e, ao conhecer as limitações, | ||
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| + | Deseja sempre ouvir e sabe esperar; - opõe-se à estreitante embriaguez da paixão. | ||
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| + | Nesses movimentos a razão desvencilha-se das cadeias do dogmatismo, da arbitrariedade, | ||
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| + | A razão é a vontade de unidade. A força propulsora da razão e o cuidado da sua clarificação nascem da pergunta sobre o que é esta unidade. | ||
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| + | A razão não quer apreender uma unidade qualquer, mas procurar a verdadeira e única unidade. Se esta unidade deve ser a última e absoluta, então a razão sabe que está perdida em toda apreensão prematura e parcial da unidade. Pois ela quer o Um, que é tudo. | ||
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| + | Por isso, não lhe é permitido deixar de fora nada que existe, nada omitir, nada excluir. É em si uma abertura ilimitada. | ||
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| + | Se estabelece, tirando-o da sua própria essência, o critério do universalmente válido, ela mesma não parece dar valor absoluto a este critério. Pois, para não perder a unidade de tudo, dirige-se logo a seguir justamente ao que não tem fundamento nesse critério, à exceção que irrompe e à autoridade histórica, incompreensível mas exigente. Porém, não se detém nestas coisas, pois também estas, quando medidas pelas exigências do Um, são apenas algo provisório na existência temporal. Em nenhuma grandeza, em nenhuma glória do mundo, pode encontrar repouso, e pôr um fim à sua pergunta. | ||
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| + | A razão é atraída pelo que lhe é mais estranho. Mesmo aquilo que, transgredindo a lei do dia, se torna realidade destruidora, | ||
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| + | A razão desejaria inclinar-se sobre tudo o que existe e que, por isso, deve ser apto a adquirir uma linguagem, para preservá-lo, | ||
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| + | Para poder procurar o Um, é preciso que quem o procura realize em si mesmo a unidade. Esta é a exigência que ouvimos na história da filosofia, em palavras inesquecíveis, | ||
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| + | "E as vítimas que ides sacrificar? - Todos os ídolos Que para vós substituem o Deus eterno... O prêmio da vitória? A unidade do querer" | ||
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| + | Dirigida para a unidade do Um, a razão quer, por assim dizer, ajudar tudo o que existe a fazer valer os seus direitos. Mas a razão, que é capaz de despertar todas as origens adormecidas, | ||
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| + | A razão aponta, por conseguinte, | ||
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| + | Desejaria agora completar esta breve caracterização da razão, pela discussão de algumas possibilidades que ela proporciona. | ||
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| + | A razão e a vontade de comunicação ilimitada são uma só e mesma coisa. A razão, porque, inteiramente aberta, dirigida ao Um, em todo existente, impede que se interrompa a comunicação. Se a ruptura ê forçada na existência concreta, a razão nunca a reconhece como necessária em princípio. Com uma confiança inabalável nas incalculáveis possibilidades que derivam da totalidade do ser, a razão exige sempre que a comunicação seja tentada novamente. Negá-la é, para ela, como a negação da própria razão. | ||
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| + | Porém, ainda mais: para a razão, na existência concreta temporal, a verdade está ligada à comunicação. Uma verdade sem comunicação é para ela idêntica à não-verdade. A verdade que se liga à comunicação não está concluída, escuta a sua ressonância na comunicação e se examina a si mesma e ao outro. Diferencia-se de todo pronunciamento unilateral. Não sou eu quem traz a verdade, mas procuro a verdade em comum com a pessoa com quem me encontro, ouvindo, perguntando, | ||
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| + | A verdade não pode estar completa no tempo, porque a comunicação não é completa. Mas o caráter incompleto da comunicação torna-se a revelação de uma profundeza, que nada pode preencher senão a Transcendência ou o Ser que não vem a ser, antes, ao contrário, para além do Ser e do vir a ser, é. | ||
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| + | Podemos então dizer: se Deus é eterno, para o homem, no tempo, a verdade existe como verdade que vem a ser na comunicação. | ||
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| + | Em face da Transcendência, | ||
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| + | A razão é, então, o lugar desta comunicação ilimitada. Mas é apenas um mínimo. Pois a força da comunicação deriva somente do amor, da Existência histórica, e não já da razão a-histórica, | ||
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| + | Mas este mínimo é já o que dá asas a quem filosofa. É êle que cria os momentos supremos da razão livre no acordo mútuo de homens, que são ao mesmo tempo ainda muito estranhos entre si, este encontro que se dá, graças à razão, no âmbito da absoluta possibilidade. A razão não é ainda então a realidade do amor, mas, por sua parte, já é liberdade, e logo condição da verdade e pureza também do amor. | ||
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| + | Uma outra possibilidade da razão é o radical desligamento como meio de aproximar-se da origem do Um. | ||
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| + | O que se tornou finito e determinado, | ||
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| + | Esta razão que abrange tudo, que negativamente abstrai de toda determinação, | ||
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| + | A razão realiza ainda uma outra forma de desligamento. O eterno só se torna presente em forma histórica. A historicidade é existencialmente a unidade da temporalidade e da eternidade, consiste cm que o eterno se decide como fenômeno no tempo. Enquanto Existência imersa na existência concreta (Dasein), somos históricos, | ||
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| + | Esta historicidade significa plenitude e vinculação. Identificamo-nos a ela. Mas, ao tomarmos consciência do seu caráter, graças à razão, transcendemo-la. Preservando a nossa historicidade, | ||
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| + | Sem a razão, presos na historicidade, | ||
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| + | A razão bem desejaria apreender com ideias do entendimento isto que é anterior a todo fenômeno, a todo tempo, ao mundo, mas que igualmente lhes é posterior, ou melhor, que não é nem uma coisa nem outra, mas que é algo no fenômeno, no tempo, no mundo, o Ser mesmo, autêntico, a-histórico. É aquilo que não se torna, mas é. Porém a razão não pode pensá-lo, mas apenas mantê-lo puro da contaminação por um falso pensamento, que desejasse aprisioná-lo em categorias, imagens, ou formas verbais. | ||
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| + | Quando falamos da razão, haveria sem dúvida muito que dizer das suas ramificações, | ||
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| + | Com linguagem diferente, os budistas e taoístas falam do Nada, do Vazio, alcançar o qual seria a própria plenitude. O Vazio é concebido como o recipiente, como o envolvente de tudo - o que é menos do que cada Ser e mais do que tudo - como o Nada, que contém como possibilidade a riqueza do todo, e que existe realmente no sábio que conquistou o conhecimento. Uma vez enunciado, este Nada oscila necessariamente na ambiguidade que há entre o Ser, que é ao mesmo tempo um guia para quem chegou até ele, e o Vazio absoluto, que é o abismo, que não é nada, de fato impossível de preencher. Podemos chegar a compreender, | ||
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| + | Se o Vazio dos asiáticos e a razão dos ocidentais parecem coincidir em algum ponto, não é por algum elemento comum, abstratamente pensável, mas é na origem, que ambos atingem. | ||
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| + | A manifestação histórica desta verdade envolvente, em formas, em gestos, em aspectos e em uma atmosfera, isto que não chega a ser de modo algum universal, o segredo desta manifestação, | ||
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| + | Quando, na tentativa de distinguir radicalmente o Oriente do Ocidente, contrapomos o movimento do ocidental à tranquilidade do asiático, o que encontramos é apenas uma polaridade da razão mesma, que é própria de ambos (Oriente e Ocidente). É a tensão que se manifesta por sua vez historicamente aqui e lá, mas que não é suficientemente distinguível na sua manifestação por meio de categorias universais. A historicidade como tal nunca se torna objeto de conhecimento. Não sabemos nada de essencial uns dos outros, senão quando entramos em comunicação uns com os outros. | ||
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| + | As manifestações que ocorrem na ausência da razão podem ser caracterizadas como em número infinito. Um princípio da não-razão é a vontade de existência concreta (Da-sein), que atribui a si mesma a proeminência. Para frisar o contraste com a razão, pode-se formular o seguinte: | ||
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| + | A razão liga, a mera existência concreta separa. A vontade de existência concreta quer apenas a si mesma, põe tudo o mais sob a condição de que venha a fortalecer o seu próprio existir. A existência concreta encobre a sua vontade egoísta nas roupagens da objetividade, | ||
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| + | A razão conserva-se aberta a todo Envolvente e aprofunda toda ligação iluminando-a, | ||
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| + | Enquanto o pensamento a serviço da razão é crítico, deseja a verdade, a existência concreta pensante procura sua auto-justificação na sofistica e sua certeza do Ser na superstição da gnose metafísica. | ||
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| + | E agora a coisa decisiva: a razão não existe por natureza, mas realmente apenas por decisão. Não acontece por si mesma, como um fato natural e como a totalidade da existência humana concreta, na medida em que esta tem caráter de natureza, mas nasce da liberdade. | ||
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| + | A resolução torna-se consciente em face da comunidade humana no dar-se o indivíduo conta de que sabe o que quer. | ||
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| + | Lancemos a vista primeiramente sobre a comunidade humana. | ||
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| + | Há um otimismo, que acredita que a verdade se imporá. Somos obrigados a confessar que não se pode de modo algum contar com isso. A verdade pode ser aniquilada. A história dos heréticos é, em grande parte, a história de tal verdade, violentamente aniquilada na sua realidade histórica. Os Estados totalitários nos mostram que populações inteiras podem ser tornadas embrutecidas, | ||
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| + | O otimismo diz ainda mais, diz que a verdade sempre traz só bons resultados. Mas a verdade, para a nossa visão finita, pode ter consequências tão terríveis, que Schiller escreveu: "Só o erro é a vida, a verdade é a morte." | ||
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| + | Somente quando percebemos claramente que, em tais proposições gerais, à palavra verdade liga-se um sentido múltiplo, um sentido inesgotável; | ||
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| + | Esta verdade envolvente era aquilo em que Goethe pensava quando escreveu: "Nada é grande senão a verdade, e a menor das verdades é grande... mesmo uma verdade nociva é útil, porque só pode ser nociva por um instante e conduz, imediatamente a outras verdades que hão de ser sempre úteis; e inversamente, | ||
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| + | Esta confiança na verdade implica um esforço ininterrupto em atingi-la. A suposta verdade, que possuo e julgo ter, quando, por exemplo, enfurecido, quero então "dizer de uma vez a verdade", | ||
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| + | Consideremos o indivíduo: | ||
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| + | O homem não se encontra a si mesmo como um ser racional, mas, por assim dizer, se converte em racional, a partir da existência concreta que lhe é dada. Atinge o caminho da razão pela sua própria liberdade, e não automaticamente. | ||
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| + | O fato de que possa fazer isso é um mistério. Ele se deve a si mesmo, e contudo não sabe como foi capaz disso. Vê os limites da sua liberdade, vê que só pode querer sendo livre, mas não pode querer a liberdade. Daí se conhecer, por assim dizer, como que dado de presente a si mesmo, sem que saiba, experimente ou descubra por meio de alguma vivência fidedigna, que se deve a um outro Poder. Conhece-se como dado de presente a si próprio, sem saber qual a origem; esta condição de ser um presente tem o caráter de dever-se nisso a si mesmo e exige todo esforço, | ||
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| + | Este passo, a resolução em favor da razão - que coincide com a resolução pela liberdade, pela verdade, pela incondicionalidade da decisão existencial - vai contra a natureza, o curso dos acontecimentos, | ||
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| + | É o encontro do caminho de volta, partindo do " | ||
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| + | Nossa ação dotada de sentido tem por toda parte um ponto de apoio no mundo. Aqui, porém, na conversão que é a decisão filosófica, | ||
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| + | Aqui, nesta conversão, está a origem de toda comunicação verdadeira, incondicional, | ||
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| + | A razão só se realiza com Existência mediante um salto partindo da realidade, aparentemente fechada, da existência concreta para a realidade do Ser mesmo. | ||
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| + | A revolução do nosso modo de pensar, esta decisão que não é objeto de conhecimento da psicologia, é discutida pelos filósofos. Há em suas obras passagens escondidas que evidentemente repousam em uma experiência pessoal. Escolho como exemplo Kant. Ele fala do caráter que não é um caráter particular, uma possibilidade entre outras, mas fala do caráter pura e simplesmente, | ||
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| + | "O homem que é consciente de um caráter, no seu modo de pensar, não o tem por natureza, mas deve tê-lo adquirido constantemente. Pode-se também admitir que a fundação desse caráter, qual uma espécie de renascimento, | ||
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| + | Em nossa época, Koestler encontrou notáveis e emocionantes palavras para referir-se à conversão que o libertou do comunismo e o fez um ardente defensor da liberdade e da humanidade. Fala da " | ||
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| + | "Nada deve soar mais vulgar, escreve ele, do que tentar exprimir em palavras uma vivência que, por sua própria natureza, escapa a toda apreensão verbal, e contudo cada um desses triviais lugares-comuns era incompatível com a fé comunista." | ||
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| + | Koestler chama de " | ||
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| + | Será que ele, como homem de letras e de influência literária atual, tem medo de palavras e frases conhecidas? O desprezo do que é simples e corrente na linguagem estará talvez em relação com a tendência moderna à acentuada originalidade, | ||
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| + | É verdade que os eternos lugares-comuns soem vulgares? | ||
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| + | Este desprezo é compreensível, | ||
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| + | Não será talvez que, ao contrário, as frases simples são inesgotáveis? | ||
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| + | Princípios, | ||
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| + | Os simples princípios da razão filosófica podem parecer sem conteúdo, puramente formais, porque na sua generalização nada dizem. Mas precisamente por isso têm uma significação oni-envolvente. Agem como fórmulas mágicas, que, entretanto, são transparentes à razão. Lembram-nos o que é decisivo, sem nos constranger. Fazem ver e dão impulso. Graças ao seu caráter formal, podem, por assim dizer, curar-nos da nossa cegueira, porém a visão concreta, essa eles a deixam à nossa liberdade. Não são proclamações, | ||
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| + | A razão cria o âmbito de pensamento no qual aquilo que existe pode ser apreendido, adquire expressão, e, portanto, valor, enquanto ser próprio. Este âmbito da razão é como a água, o ar e a luz, em que toda vida pode medrar, e por isso é ávido de preenchimento por essa vida, mas com a condição de ser penetrado pela razão. | ||
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| + | Isto mesmo pode ser expresso de outra maneira: a razão ilumina o incondicionado, | ||
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| + | Os limites da razão estão situados, de um lado, na realidade da existência concreta (Daseinsrealitât) que lhe é dada como estranha à razão; e de outro, na realidade que lhe é dada como Existência (Existenz), iluminável racionalmente ao infinito. A razão mesma é sustentada por essa Existência enquanto a Existência somente alcança sua plena realidade por meio da razão. Razão e Existência são inseparáveis. | ||
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| + | Representemo-nos a unidade do movimento de razão e Existência, | ||
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| + | O amor está imerso na existência concreta, numa identidade incondicional, | ||
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| + | Quando ao amor é concedida a sua realização, | ||
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| + | Ou então a realização do amor fracassa. Um dos amantes se perde na existência concreta pela morte, pela loucura, pela infidelidade. O outro amante, tornado só, parece definhar. Mas desse definhar brota uma vida estranha. É como se esse amante mesmo tivesse morrido e agora agisse aqui, vindo de algum outro lugar, tolerante, num altruísmo abnegado, mas a infinita distância, consumindo-se, | ||
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| + | Consideremos um outro amor, o amor à origem, à terra natal, ao nosso fundamento histórico, pelo conhecimento que temos de derivar de uma raiz. Sei que sou sustentado e rodeado até nas realidades existenciais do ambiente cotidiano; sei que sou guiado a partir deste fundamento, que incorporo a mim tão mais decididamente quanto mais me torno eu mesmo. | ||
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| + | Mas este amor pode entrar em confusão. O homem pode ser arrancado do seu solo. Os milhões de emigrantes expulsos, de proscritos, de fugitivos - principalmente na Europa e na China - experimentam essa terrível realidade. O amor perdeu a presença corpórea do seu mundo. O homem é traído pela sua própria pátria e por seu povo, ou oprimido pela força de Estados estrangeiros. Sem esperança, vive a sua existência concreta excluído da realização de que historicamente participa, sabendo não pertencer a ela. A seriedade do seu amor não pode encobrir as coisas. Ele não pode pertencer a nenhuma | ||
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| + | Porém, então, como no caso da perda da pessoa amada, pode suceder a transformação que Platão, pela primeira vez, realizou, mostrando, para todo o sempre, esta possibilidade; | ||
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| + | Pareceria como se, no meio da ruína, mas desde que a existência concreta não esteja aniquilada, a razão pudesse levar o ser autêntico da Existência a uma transformação em novas possibilidades de construção do ser humano - com o que o ser autêntico de um indivíduo e o ser autêntico de outro se encontram num chamado recíproco por sobre o mundo. | ||
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| + | Para terminar, digamos, ainda uma vez, o que pode ser a razão. | ||
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| + | Onde a razão | ||
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| + | A Existência da razão faz da existência concreta um risco, mas não uma aventura; leva-a à prodigalidade, | ||
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| + | A Existência, | ||
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| + | Mas é a razão que ilumina então a relação do histórico ao supra-histórico, | ||
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| + | O homem que provou da razão não a pode mais abandonar. | ||
| + | |||
| + | Há dezenas de anos, falei da filosofia da Existência (Existenzphilosophie) e acrescentei, | ||
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| + | Hoje, preferiria chamar a filosofia de filosofia da razão, porque parece urgente acentuar esta velhíssima essência da filosofia. Se a razão se perde, a filosofia mesma está perdida. Sua tarefa desde o início foi, e continua a ser, conquistar a razão, restaurar-se a si própria como razão, e, de fato, como a autêntica razão, a qual, ao curvar-se às necessidades do entendimento concludente, | ||
| + | |||
| + | A razão aparece como o projeto do ser do homem que esperamos, tanto quanto está em nós mesmos produzi-lo. É um ser do homem acessível a todos os homens, que os liga, e, ao mesmo tempo, não somente permite o seu cumprimento histórico até a Existência, | ||
| + | |||
| + | Mas, talvez muitos de vós digam: | ||
| + | |||
| + | falar da razão é como falar de um sonho; | ||
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| + | tudo que hoje expus, é um discurso sobre coisas que não existem. | ||
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| + | De fato: não existem como objeto de um conhecimento que as constata, mas apenas enquanto conteúdo de decisão. | ||
| + | |||
| + | Por meio desta decisão, pode tornar-se real aquilo que, em sua origem, escapa a todo conhecimento causai. Só conheço causalmente o que é destituído de razão; - é somente com a razão mesma que compreendo o racional, que encontro em tudo que há de grande na História, em tudo que é não apenas " | ||
| + | |||
| + | Dizer "isso não existe" | ||
| + | |||
| + | Mas a razão não existe pelo fato de que a conheço, mas apenas pelo fato de que a realizo, nas ciências, na vida prática, e em criações espirituais que penetram mais profundamente dentro da verdade do que as ciências podem fazer. | ||
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| + | A razão tem a ousadia de manter-se firme em um mundo de não-razão e em face das suas constantes deturpações em contra-razão. | ||
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| + | Amanhã gostaria de falar sobre a razão em luta. | ||
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