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estudos:janicaud:janicaud-pr-134-140-cibernetica

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 +====== cibernética (PR:134-140) ======
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 +//Data: 2021-11-07 00:15//
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 +==== La puissance du rationnel ====
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 +=== La technique dans le langage ===
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 +//JANICAUD, Dominique. La puissance du rationnel. Paris: Gallimard, 1985, p. 134-140//
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 +Devido à universalização técnica e ao mito da transparência difundido mundialmente, o ciclo ainda não está completo: falta considerar o caráter propriamente linguístico da técnica.
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 +Ellul, embora reconheça a “fraternidade informal” que se estabelece entre os técnicos, diagnostica um aumento dos mal-entendidos, uma dissociação das formas sociais e dos quadros morais, a redução do corpo social a uma coleção de indivíduos ((ver Ellul, La Technique..., op. cit., p. 115 e Le Système technicien, op. cit., p. 208: “Na realidade, a universalidade do sistema técnico provoca a ruptura do mundo humano por muito tempo, e não sua unificação.”)); e o próprio McLuhan ((“M. McLuhan denuncia a ação dos meios de comunicação”, Le Monde, 16 de dezembro de 1978.)) finalmente se alarmam ao ver a mídia levar a uma “perda de identidade” do homem dentro do grupo e prevêem que os Estados Unidos “se tornarão rapidamente um terceiro mundo”. É preciso acrescentar a esses fatores de incompreensão: a vitalidade dos fanatismos religiosos ou sectários, o ardor dos nacionalismos.
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 +Se a tecnologia estabelece e desenvolve um certo tipo de comunicação, instaura e reforça o domínio de seus grandes e pequenos sacerdotes: especialistas, empresários, técnicos de relações públicas, seu movimento de universalização não é unívoco. O que ela universaliza são, sobretudo, se não exclusivamente, seus próprios processos e procedimentos. As destruições psico-etno-culturais que ela opera para garantir seu domínio liberam libidos, paixões e violências nomadizadas. Para realizar a grande utopia saint-simoniana de uma comunicação universal por meio da técnica, seria necessário levar ainda mais adiante a tecnicização, para que o sistema técnico se fechasse sobre o todo social e se confundisse com ele? Ainda não chegamos a esse ponto. Mesmo que fosse o caso, a sociedade seria totalmente diferente de uma República das Letras ou de uma comunidade habitada pelo espírito de Pentecostes; é provável que ela fosse ainda mais compartimentada, com a especialização excessiva sendo compensada, no nível macrosocial, por um hipercondicionamento: em suma, um aumento extremo das distorções de comunicação já apontadas por Marcuse em sua crítica da unidimensionalidade.
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 +As línguas naturais, tesouros vitais, ainda não foram destruídas; elas estão, ao contrário, sendo cobertas e cada vez mais sufocadas por uma linguagem informatizada que transforma suas reservas e redes em bancos e potenciais de dados. A eficácia obtida deve-se, evidentemente, à racionalização dos programas, à automatização das operações; mas, no que diz respeito aos problemas propriamente linguísticos, é preciso perceber que a informática economiza enormemente as dificuldades fonéticas, uma vez que a sua «língua» só é «falada» pela máquina. Sendo o suporte material — por exemplo — uma fita magnética, estamos diante de uma linguagem que não tem mais a corporeidade que pesava sobre a “palavra falada”, de uma opacidade frágil, infinitamente diversa e sugestiva — mas também, do ponto de vista operacional, pesada, retardadora e imprevisível.
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 +É preciso ir mais ao cerne do problema para compreender por que a universalização da técnica cria as aparências de uma comunicação verdadeira e integralmente linguística, ao mesmo tempo em que destrói suas raízes vivas. O que é uma linguagem? A questão vibra na ambiguidade do termo francês: entre o polo da língua e o do código. Que a técnica também não seja, em sentido estrito, uma linguagem (supondo que a definamos como um “sistema de signos voltado para a comunicação”), isso é admissível no nível das definições, mas não exclui de forma alguma múltiplas interligações entre técnica e linguagem. Antes de examinar estas últimas, vamos marcar — por uma questão de clareza — a diferença entre signo linguístico e objeto técnico.
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 +Mesmo que se defina a linguagem como um “sistema de signos”, o objeto técnico não pode se dotar das qualidades flexíveis do significante linguístico. Este, de fato, devido ao seu caráter “arbitrário”, se presta a múltiplas combinações semânticas, quase à vontade: veja-se o fonema in em pain, brin, pin, etc. O objeto técnico, ao contrário, como Simondon demonstrou em análises impecáveis ((ver Simondon, Du mode d’existence des objets techniques, op. cit., pp. 19-23 e passim.)) por um lado, não mantém uma relação “arbitrária” com o material, mas também e sobretudo tende para a “concretização”, ou seja, para uma autorreferência funcional na qual as partes são cada vez mais interdependentes. É eloquente, a esse respeito, a comparação entre os primeiros motores a explosão, ruidosos e pouco eficientes (em que cada elemento funcionava praticamente por conta própria, de forma desordenada), e os motores atuais, quase perfeitamente “integrados”.
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 +É claro que o problema se complica em nossa sociedade de consumo, devido ao fato de que — como mostrou Baudrillard — todo um conjunto de conotações não técnicas (o sistema de práticas publicitárias, em particular) reflete-se na coerência propriamente funcional dos objetos técnicos: “A conotação do objeto... prejudica e altera sensivelmente as estruturas técnicas.” ((J. Baudrillard, Le Système des objets, Paris, Gallimard, 1968, p. 16.)) Assim, as tensões vividas nas práticas de consumo prejudicam a estabilidade do “sistema tecnológico”, sem que essa perda de estabilidade que compromete o “sistema dos objetos” possa ser estritamente assimilada ao movimento que a palavra imprime ao tesouro da língua.
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 +Admitida essa diferença, voltemos às interligações entre técnica e linguagem, mas desta vez a um nível mais essencial do que o de nossas constatações iniciais. Múltiplos fios se entrelaçam entre a técnica e a linguagem, sob pelo menos três pontos de vista. Em primeiro lugar, a técnica moderna pressupõe a elaboração e a aplicação constantes das linguagens matemática e informática (é importante não confundir. A intervenção da linguagem informática é evidentemente um relé muito recente da tecnicização, enquanto a linguagem matemática forjou, ao longo de três séculos, os novos instrumentos conceituais da modernidade. O padre Dubarlet, no entanto, assinala uma mudança considerável: “ Enquanto antes se podia dizer que, afinal, o objeto matemático não passava de um certo tipo de tema intelectual proposto à racionalidade entre outros, agora parece claro que a linguagem matemática é para o homem um instrumento finalmente inevitável para toda a racionalidade a que ele pode aspirar” ((Dominique Dubarlet e André Doz, Logique et dialectique, Paris, Larousse, 1972, p. 59).)). Além disso, todo procedimento técnico — especialmente atualmente — envolve menos a palavra do que a troca de sinais de entendimento, de informações, que supõem, por si só, um projeto mínimo comum: não há técnica sem um início de consenso — mesmo que este seja superficial e frágil como o cimento rachado da “distensão”; Simondon observa que a máquina é um “gesto humano depositado” ((Simondon, Du mode d’existence des objets techniques, op. cit., p. 138.)): poderíamos dizer, de maneira mais geral, que a atividade técnica é uma forma fragmentada e materializada da linguagem. Por fim, uma vez que a técnica se constituiu nessa imensa rede dinâmica que conhecemos, onde cada progresso se apoia no capital do trabalho e da inventividade das gerações anteriores, a linguagem viva (desta vez sem excluir a fala, prática da língua) não cessa de denotar as camadas de objetos técnicos, os procedimentos, as experiências constituídas: a técnica torna-se o objeto da linguagem cotidiana, ao mesmo tempo em que é, em grande parte, seu tema motor no nível da transformação de projetos, atitudes mentais e vocabulário.
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 +Apesar dessas incontestáveis e vivas interligações entre técnica e linguagem, pesquisas recentes concordam em observar o quanto a tecnicização, em seus efeitos massivos, dessimboliza a atividade humana.
 + Baudrillard: “O sistema objetos/publicidade constitui... menos uma linguagem, da qual não possui a sintaxe viva, do que um sistema de significados: ele tem a pobreza e a eficácia de um código ((Baudrillard, O Sistema dos Objetos, op. cit., p. 270. Nós destacamos.))”. Ellul: “O sistema técnico é um universo real que se constitui em sistema simbólico... A simbolização está integrada no sistema técnico.” ((Ellul, O Sistema Técnico, op. cit., p. 195.)) Essa integração é perceptível em todos os níveis da experiência atual, mas talvez da maneira mais marcante e comovente na perda dos investimentos simbólicos ligados aos “gestos” tradicionais do trabalho ((Ver Baudrillard, O Sistema dos Objetos, op. cit., p. 76)). Se é verdade que o sistema técnico se auto-simboliza, ele o faz levando seu próprio poder a um grau superior de complexidade, ou seja, de abstração, para o usuário comum. O que a tecnicização ameaça, então, é evidentemente a relação com a linguagem como tal, mas também — solidariedade significativa — a riqueza de uma vida corporal e de seus gestos.
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 +O que acabamos de constatar em relação aos efeitos, podemos novamente estabelecer em um plano mais elevado, remontando do consumo à produção, do consumo de objetos à produção de código. Norbert Wiener nos ajudará nisso. A cibernética, no sentido estrito, é a “ciência do comando e da transmissão de mensagens entre homens e máquinas” ((Norbert Wiener, Cybernétique et société, trad. francesa, Paris, U.G.E., 1971, p. 9.)): se nos limitarmos a isso, poderemos classificá-la tranquilamente entre as outras disciplinas científico-técnicas de ponta (sem, aliás, haver unanimidade sobre esse ponto na comunidade científica). No entanto, uma reflexão sobre a etimologia do termo cibernética, mas sobretudo sobre a função do “comando” na sociedade atual, bem como sobre a visão do mundo proposta por Wiener, deve levar a considerar a cibernética de uma forma muito mais fundamental: exatamente no sentido em que Heidegger saúda nela a metafísica da era atômica ((Ver, entre outros, Heidegger, Der Satz vom Grund, op. cit., pp. 200-203; entrevista concedida à revista Spiegel, n.º 23, 1976, p. 212)). De fato, quando Wiener define a informação para expor sua concepção cibernética do mundo, ele vai muito além dos avanços técnicos de Shannon no campo das telecomunicações: é o organismo vivo em relação ao seu meio e, finalmente, toda a sociedade humana que são os campos de aplicação desse novo método de inteligibilidade que se pronuncia sobre a essência da linguagem e se apropria dela: “Informação é um nome para designar o conteúdo do que é trocado com o mundo exterior à medida que nos adaptamos a ele e aplicamos os resultados de nossa adaptação... Viver eficazmente é viver com informação adequada. Assim, a comunicação e a regulação dizem respeito ao essencial da vida interior do homem, mesmo que digam respeito à sua vida em sociedade. » ((Wiener, Cibernética e sociedade, trad. citada, pp. 46-47.))
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 +Heidegger ecoa isso, num espírito evidentemente muito diferente do de Wiener, mas para fazer uma constatação igualmente radical sobre a mutação da linguagem na sua relação com o mundo: «... a concepção que faz da linguagem humana um instrumento de informação impõe-se cada vez mais. Pois é a definição da linguagem como meio de informação que, por si só, forneceu a razão suficiente sobre a qual se baseia a construção das máquinas pensantes e das grandes máquinas calculadoras. Mas, ao mesmo tempo que a informação informa, ou seja, fornece informações, ela também informa, ou seja, dispõe e dirige” ((Heidegger, Der Satz vom Grund, op. cit.,
 + p. 203; trad. francesa, Le Principe de raison, Paris, Gallimard, 1962, p. 260.)). O domínio da esfera científico-técnica não se manifesta principalmente nem fundamentalmente por uma “erosão” da linguagem “humanista” tradicional: é a própria essência da linguagem que está sendo transformada. Se houve uma tomada de poder pela concepção científico-técnica — quem negaria esse fato? —, foi bem no âmago do Logos que ela ocorreu, e não em sua periferia.
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 +Tudo bem, dir-se-á; mas tudo isso não demonstra, no próprio nível da produção (filosófica) da linguagem como informação, que a técnica se tornou, se não uma linguagem em sua massa factual (era justo, a esse respeito, rejeitar a assimilação entre técnica e linguagem), pelo menos o campo onde ocorre a nova produção da linguagem? Quando Wiener analisa as trocas entre uma central elétrica e o mundo exterior, ele o faz em termos de informação, ou seja, de linguagem: a abertura e o fechamento de interruptores, geradores, etc., “podem ser considerados como uma linguagem própria, com seu próprio sistema de probabilidade de comportamento ligado à sua própria história” ((Wiener, Cibernética e sociedade, trad. citada, pp. 218-219.)).
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 +O auge da tecnicização: menos um investimento da linguagem pela técnica do que um investimento da técnica na linguagem. Pensar a técnica como “linguagem-mundo” dominante não é — repetimos — assimilar técnica e linguagem termo a termo, é antes reconhecer uma nova conjunção histórica na qual a instrumentalização da linguagem é o agente decisivo da tecnicização.
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 +É evidente a inversão realizada pela “tomada de poder” cibernética: enquanto até agora, na história da humanidade, a simbolização sempre precedeu e até mesmo ultrapassou a codificação, esta tende a se tornar uma regra de equilíbrio e a prevalecer sobre os recursos simbólicos da linguagem. Uma língua, relação viva, misteriosa, múltipla e imprevisível para o mundo, é o que a linguagem-código técnico-científica não pode substituir: a linguagem secundária do código está enraizada em significados mais sutis e frágeis; mas o perigoso paradoxo do nosso mundo consiste em basear a linguagem em seu fantasma, sacrificando a delicada riqueza da simbolização à ordem segura, mas unilateral, da Organização.
  
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