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 +====== Irigaray ======
 +//Gemini//
  
 +Luce Irigaray não pode ser classificada como uma seguidora estrita ou ortodoxa da fenomenologia, embora seu pensamento mantenha um diálogo crítico, profundo e permanente com essa tradição — sobretudo com Maurice Merleau-Ponty, Martin Heidegger e Emmanuel Levinas.
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 +A sua relação com a fenomenologia opera muito mais como uma desconstrução imanente e uma radicalização corpórea do que como filiação doutrinária.
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 +1. Pontos de convergência com a fenomenologia
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 +Irigaray mobiliza várias intuições metodológicas centrais da fenomenologia:
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 +  * **O primado da sensibilidade e da carne:** A crítica de Irigaray ao abstracionismo lógico e ontoteológico apoia-se fortemente na ideia do sujeito encarnado (//le [[lx>termos:c:corps-propre|corps propre]]// / //corpo vivo ([[lx>termos:l:leib|Leib]])//).
 +  * **A crítica da metafísica ocidental:** Assim como Heidegger denunciou o esquecimento do Ser (//[[lx>termos:s:seinsvergessenheit|Seinsvergessenheit]]//), Irigaray diagnostica esquecimentos estruturais na ontologia, como o "esquecimento do ar" (//L'oubli de l'air chez Martin Heidegger//, 1983) ou o esquecimento do elemento aquático matricial (//Amante marine de Friedrich Nietzsche//, 1980).
 +  * **A centralidade da intersubjetividade e da alteridade:** A sua reflexão ética partilha com Emmanuel Levinas a recusa de reduzir o Outro à mesmidade ou ao conceito do Eu.
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 +2. A ruptura crítica com a fenomenologia tradicional
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 +Apesar dessas proximidades, Irigaray identifica na fenomenologia clássica o mesmo vício constitutivo da metafísica ocidental: a presunção de uma falsa neutralidade que oculta um sujeito universal implicitamente masculino.
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 +Os pontos centrais dessa fratura aparecem principalmente em:
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 +A. A crítica a Merleau-Ponty (//Éthique de la différence sexuelle//, 1984)
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 +No célebre capítulo dedicado a //O Visível e o Invisível// ("Uma fenda na carne"):
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 +  * Merleau-Ponty descreve a reversibilidade da carne (a mão que toca é tocada; o vidente é visível) e o "quiastma" como um entrelaçamento universal.
 +  * Irigaray argumenta que esse modelo pressupõe uma continuidade indiferenciada e pacificada, apagando a **assimetria irredutível da diferença sexual**. Para ela, a carne em Merleau-Ponty ainda se apoia inconscientemente no modelo maternal-uterino como fundo plástico e silencioso, do qual o sujeito se apropria sem reconhecer o Outro feminino como sujeito transcendental autônomo.
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 +B. A crítica a Emmanuel Levinas
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 +No confronto com a ética da alteridade infinita:
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 +  * Para Levinas, o rosto (//visage//) do Outro interpela a partir de uma altura quase ética-teológica abstrata, enquanto a relação com a mulher ou com o feminino aparece, em //Totalidade e Infinito//, frequentemente subordinada à fecundidade, ao erotismo passivo ou à hospitalidade doméstica.
 +  * Irigaray denuncia que, ao descorporificar o Rosto para torná-lo santidade ética, Levinas neutraliza a carnalidade sexuada da relação e restringe a alteridade feminina a uma função coadjuvante na linhagem patriarcal do filho.
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 +3. Estatuto no debate filosófico contemporâneo
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 +A crítica contemporânea costuma situar Luce Irigaray não como discípula fenomenóloga, mas em posições conceituais específicas:
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 +  * **Pós-estruturalismo e Desconstrução feminista:** Ao lado de nomes como Jacques Derrida, Michel Foucault e Hélène Cixous, desmantela a economia falogocêntrica da representação ocidental.
 +  * **Fenomenologia material ou do sensível:** Alguns exegetas recentes a leem como fundadora de uma "fenomenologia da diferença sexual", pois ela não descarta o retorno às coisas mesmas e à experiência sensível; ela exige, pelo contrário, que a fenomenologia cumpra a sua promessa radical: não há percepção, horizonte de mundo ou carne que não sejam originariamente sexuados.
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 +Em suma, Luce Irigaray utiliza os instrumentos analíticos da fenomenologia para expor os limites da própria fenomenologia, demonstrando que o sujeito da percepção não é um "Eu" neutro, mas sempre irredutivelmente "Dois".
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 +{{tag>Irigaray}}