estudos:henry:pv1:vida
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| + | ====== Vida ====== | ||
| + | //HENRY, Michel. Phénoménologie de la vie I. Paris: PUF, 2003.// | ||
| + | **Que é isso que chamamos vida?** | ||
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| + | 1. A vida constitui noção vaga e multissignificativa, | ||
| + | * cita-se [[estudos: | ||
| + | * cita-se Kierkegaard: | ||
| + | * cita-se Marx: "não é a consciência dos homens que determina sua vida, mas sua vida que determina sua consciência" | ||
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| + | 2. Viver significa ser: o conceito de vida, arrancado de sua indeterminação, | ||
| + | * cita-se Kafka: a cada bocado visível corresponde um bocado invisível, a cada vestimenta visível uma vestimenta invisível | ||
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| + | 3. Viver significa ser, mas o ser deve ser compreendido de modo a significar identicamente a vida; ora, a filosofia ocidental, desde a origem grega até Heidegger, pressupõe um conceito de ser que exclui de modo insuperável a essência da vida, tornando esta suspeita não por vagueza, mas por incapacidade da filosofia de pensá-la, já que a vida se constitui como interioridade radical, ao passo que o ser ocidental se define pela exterioridade. | ||
| + | * exemplifica-se com o muro do quarto, cujo ser, segundo Fichte, é "seu ser fora de seu ser", não coincidindo o muro com seu próprio ser senão na diferença infinita que o separa de si | ||
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| + | 4. A exterioridade designa a essência do ser porque ser significa aparecer, mostrar-se, sendo a exterioridade o próprio lugar da fenomenalidade pura, o devir visível da visibilidade, | ||
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| + | 5. O conceito de ser como exterioridade não resulta de simples espacialização ingênua, pois o próprio espaço só se manifesta dentro de um horizonte transcendental que designa a saída originária do ser fora de si; e, segundo Kant, o espaço está no tempo, condição de todos os fenômenos, tempo que Heidegger define como a exterioridade originária em si e para si, de modo que a interpretação do espírito como tempo, desde Hegel, apenas reafirma essas pressuposições. | ||
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| + | 6. Questiona-se se a filosofia clássica, ao se apresentar como filosofia da consciência desde Descartes, teria escapado a essas pressuposições, | ||
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| + | 7. O que permanece equívoco é o ser do próprio campo da consciência: | ||
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| + | 8. Historicamente, | ||
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| + | 9. Na retomada husserliana do projeto cartesiano ocorre o mesmo deslizamento da matéria consciencial, | ||
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| + | 10. É em Kant que essa incapacidade de apreender a vida se mostra de modo mais evidente, na crítica ao paralogismo da psicologia racional, que retira legitimidade ao conceito de alma — idêntico ao de vida — sob o pretexto de que só conhecemos fenômenos; mas ser fenômeno significa, para Kant, ser dado à intuição e pensado pelo entendimento, | ||
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| + | 11. Forma vazia e conteúdo morto caracterizam a situação metafísica que domina o pensamento ocidental: o ser, ao expor-se pela [[lx> | ||
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| + | 12. O ser objetivo destituído de razão é o único texto do racionalismo, | ||
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| + | 13. A tentativa de recusar o racionalismo fracassa quando se apoia em pressupostos ontológicos idênticos, como ocorreu com a filosofia da existência: | ||
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| + | 14. A vida permanece em si mesma, sem exterior, invisível, nunca vista por ninguém: dimensão de imanência radical que exclui toda exterioridade e o horizonte transcendental de visibilidade chamado mundo — sendo o invisível conceito adequado à vida apenas quando distinguido do invisível que é mero modo-limite do visível, ainda pertencente ao sistema da consciência, | ||
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| + | 15. O invisível da vida nada tem a ver com a não-verdade originária que fundamentaria toda verdade, pois desvelamento e não-desvelamento pertencem ao mundo; tampouco o invisível é simples negação do visível ou hipóstase de um termo negativo, pois, sem rosto, a vida não é nada, não é mera privação da fenomenalidade. | ||
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| + | 16. A vida se sente, se experimenta a si mesma — essa é sua essência, a pura prova de si —, residindo na auto-afetação, | ||
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| + | * cita-se novamente Marx: "não é a consciência dos homens que determina sua vida" | ||
| + | * evoca-se Scheler sobre o transtorno que a atenção causa ao jogo normal dos sentimentos, | ||
| + | * conclui-se que a mudança real da vida, distinta da impotência do discurso teórico, chama-se práxis | ||
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| + | 17. O movimento da vida é por princípio individual, transformação própria do indivíduo e obra sua, pois a vida, encontrando seu ser-vivo na auto-afetação de sua afetividade, | ||
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| + | 18. Questiona-se se cada vida individual não seria tributária do meio e das circunstâncias que a afetam a cada instante; mas a afetação do indivíduo pelo diverso da sensibilidade pressupõe sua afetação pelo mundo e, portanto, a própria sensibilidade, | ||
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| + | 19. Enquanto se experimenta na imanência radical de sua auto-afetação, | ||
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| + | 20. Nessa mesma prova do sofrer-se a si mesma, a vida se experimenta, | ||
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| + | 21. A passagem do sofrimento à alegria coloca diante da realidade do tempo: a vida é temporalidade, | ||
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| + | 22. Questiona-se em que consiste a temporalidade real da impressão mesma, seu automovimento, | ||
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| + | 23. Considera-se a mão, não a mão objetiva, mas o poder subjetivo de preensão, o "Eu Posso" fundamental cuja auto-afetação constitui a corporeidade originária: | ||
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| + | 24. No apólogo O povoado mais próximo, Kafka narra a história de um velho para quem, se as pessoas soubessem quão breve é a vida, não partiriam sequer para o povoado mais próximo, por não terem tempo de chegar; esse texto significa a irrealidade do tempo, pois olhando para trás vemos que tudo se reduz ao instante presente, e o futuro também é nada, de modo que retornar ao passado seria como os cruzados diante do túmulo vazio de um deus — a vida é interioridade, | ||
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| + | 25. Estranha ao tempo e à exterioridade, | ||
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| + | 26. Antecipando a objeção de que tais reflexões pareceriam metafísicas e ultrapassadas frente ao mundo objetivo garantido pela ciência, pergunta-se o que adviria se se mostrasse que a própria razão tem fundamento na vida, que suas categorias concretas não se deduzem a priori da pensée pure, mas exprimem as categorias da vida — sendo, por exemplo, a causalidade nada além de nossa corporeidade originária, | ||
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| + | 27. Quanto ao mundo objetivo cuja objetividade parece garanti-lo, pergunta-se o que dele adviria se uma crítica radical da economia política mostrasse que as determinações econômicas não decorrem de causalidade econômica, mas do poder da vida, sendo o universo econômico apenas duplo irreal e fantástico daquilo que se cumpre no " | ||
| + | * cita-se Marx sobre o " | ||
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