estudos:henry:pv1:alma
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| + | ====== Alma ====== | ||
| + | //HENRY, Michel. Phénoménologie de la vie I. Paris: PUF, 2003.// | ||
| + | **O conceito de alma tem um sentido?** | ||
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| + | 1. Questiona-se se o velho conceito metafísico de alma ainda pode ter sentido para a filosofia contemporânea, | ||
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| + | 2. Entre a metafísica tradicional que ensinava a existência de uma alma substancial, | ||
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| + | 3. A subordinação kantiana implica que o problema da alma seja um problema ontológico, | ||
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| + | 4. Propõe-se rejeitar previamente a crítica kantiana por meio de uma destruição ontológica, | ||
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| + | 5. A ontologia kantiana assenta em pressupostos fenomenológicos: | ||
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| + | 6. Alcança-se aqui o sentido pleno de transcendência em Kant: não apenas heterogeneidade metafísica entre ente e consciência, | ||
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| + | 7. A intuição pura, por si, é um mero milieu vazio sem existência efetiva; é a sensação que confere realidade, conforme a fórmula kantiana de que a sensação designa uma realidade, de modo que a experiência só é efetiva enquanto experiência de uma existência empírica. | ||
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| + | 8. O entendimento, | ||
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| + | 9. A conexão entre entendimento e intuição funda a ideia kantiana de conhecimento sintético, que não é apenas a unidade originária do poder transcendental do conhecimento, | ||
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| + | 10. O poder transcendental do conhecimento, | ||
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| + | 11. O conceito puro, separado da existência efetiva, não fornece por si nenhum conhecimento nem responde a questão alguma — segundo Kant, o conceito gira sobre si mesmo, e toda solução sintética exige intuição —, indigência que se estende à impossibilidade de o conceito conhecer a si mesmo, faltando em Kant uma filosofia da subjetividade. | ||
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| + | 12. A partir desses pressupostos, | ||
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| + | 13. A psicologia racional carece também de um verdadeiro conceito do eu, pois um conceito de objeto pressupõe relação com uma intuição, e nada na condição geral do conhecimento permite discernir a especificidade de um moi. | ||
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| + | 14. Diante do fracasso da psicologia racional, coloca-se a questão de como determinar o ser do eu; a resposta kantiana está na teoria da experiência interna, segundo a qual o eu, para ser, deve ser dado ao sentido interno — na intuição pura do tempo — e determinado pelas categorias em seu uso empírico, resultando no conhecimento empírico do eu empírico, único acessível. | ||
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| + | * a experiência interna consiste em reafirmar os pressupostos gerais da ontologia kantiana | ||
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| + | 15. Enuncia-se o argumento central da crítica: a estrutura do ser tal como Kant a concebe é incompatível com a estrutura do ser do eu, denominada essência da ipseidade, o que exigiria mostrar tanto a incapacidade da experiência interna de fornecer o eu quanto o fato de que Kant sempre pressupõe, sem justificá-la, | ||
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| + | 16. Retoma-se a experiência interna, cuja demonstração já foi parcialmente feita pelo próprio Kant ao negar que o eu possa ser tirado da pensée pure ou dos conceitos puros, restando examinar o elemento da intuição. | ||
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| + | 17. Formula-se a tese de que o ego, por princípio, não pode ser intuicionado, | ||
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| + | 18. O conteúdo do sentido interno é duplo: enquanto intuição pura, é o tempo puro, vazio, que não pode ser percebido em si mesmo nem, portanto, percebido como um eu; mesmo interpretado à maneira de Heidegger como horizonte tridimensional de futuro, presente e passado, esse horizonte não constitui um ente nem um eu, mas a própria dimensão de alteridade aberta pela intuição. | ||
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| + | 19. Enquanto intuição empírica, o conteúdo do sentido interno é constituído pelo conjunto de impressões e sensações, | ||
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| + | 20. A questão deve ser posta à própria filosofia kantiana: se a sensação do sentido interno pode exibir um eu, e mais precisamente o nosso. | ||
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| + | 21. A resposta é negativa: a sensação kantiana — a [[lx> | ||
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| + | 22. O fracasso da teoria do sentido interno explica a tentativa de vincular o conteúdo empírico do sentido interno ao eu, seja afirmando que a sensação é produzida pelo eu, seja que é recebida ou vivida por ele. | ||
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| + | 23. O conceito de auto-afetação, | ||
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| + | 24. Tal solução revela-se ilusória, pois a origem transcendental da sensação interna não pode permanecer hipótese especulativa: | ||
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| + | 25. Kant, contudo, distingue-se dessa tese ao negar que o Eu contido no pensamento puro — no "eu penso" — conduza a qualquer conhecimento verdadeiro e progressivo do ser real; ainda assim compartilha com a psicologia racional a pressuposição de que um eu pertence ao pensamento puro, como atestam suas próprias afirmações de que o eu está presente em todo pensamento. | ||
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| + | 26. Questiona-se por que Kant diz "eu penso" e não "o pensamento pensa", | ||
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| + | 27. A resposta kantiana é que o je pense constitui uma representação intelectual, | ||
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| + | 28. Sendo o je pense conteúdo de uma representação pura, dizer "eu penso" significa representar-se que se pensa, de modo que o eu e o pensamento a ele ligado só aparecem do lado do termo representado, | ||
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| + | 29. Kant substitui, assim, o cogito originário, | ||
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| + | 30. Essa substituição decorre do fato de que, para Kant, só existe uma dimensão de fenomenalidade, | ||
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| + | 31. O eu penso originário identifica-se, | ||
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| + | 32. Formula-se então, em termos gerais, que o ser real do ego não é suscetível de ser representado, | ||
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| + | * cita-se a passagem sobre o paralogismo da personalidade, | ||
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| + | 33. Essa indigência da representação eu penso explica que sob ela se possa colocar indiferentemente o eu que constrói o universo, o eu determinante, | ||
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| + | 34. Por mais pobre que seja, a representação eu penso ainda é rica demais, pois permanece a representação de um eu particular, singular e individual sob todos os aspectos, o que remete à questão de onde estaria a ipseidade pressuposta por essa representação. | ||
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| + | 35. Ao final da crítica das teses kantianas sobre a alma, conclui-se positivamente que o ser do eu é incompatível com a estrutura fenomenológica do ser enquanto representação, | ||
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| + | 36. Interroga-se se a fenomenologia clássica do século XX foi alguma vez capaz de tal empreendimento. | ||
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| + | 37. Vinculada a existência do eu originário a uma dimensão de interioridade radical, questiona-se se essa via não é anacrônica, | ||
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| + | 38. A filosofia moderna, nascida da fenomenologia husserliana, | ||
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| + | 39. Exemplifica-se com o muro do anfiteatro: seu ser não coincide com o muro, mas com sua negação, sua exterioridade radical em relação a si mesmo, extensível às partes que o compõem e a tudo o que é, incluindo o próprio observador, sempre atravessado por essa exterioridade universal — o interior, assim, não existe. | ||
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| + | 40. Aplica-se o mesmo à conhecimento: | ||
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| + | * cita-se Heidegger sobre o silêncio quanto ao sentido positivo da imanência interior da conhecimento | ||
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| + | 41. Também a ação e a linguagem participam dessa exterioridade originária: | ||
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| + | 42. Anuncia-se a intenção de questionar essas pressuposições ontológicas, | ||
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| + | 43. Considera-se paradoxal recorrer ao corpo para legitimar a interioridade radical e o conceito de alma, paradoxo que se atenua com a ideia de um corpo subjetivo, fonte do conhecimento sensível, este último tomado como fundamento de todo conhecimento possível. | ||
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| + | 44. A ideia de corpo subjetivo permanece indeterminada enquanto o conceito de subjetividade não for esclarecido; | ||
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| + | 45. Se subjetividade significa existência e transcendência, | ||
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| + | 46. Cita-se a tese de Merleau-Ponty, | ||
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| + | 47. Considera-se a possibilidade de interrupção dessa relação com o mundo, como na doença, quando o doente se fecha em si mesmo — possibilidade também presente na vida cotidiana de cada um, quando se fecha os olhos e se funde numa vida anônima subjacente à vida pessoal. | ||
| + | * cita-se Merleau-Ponty sobre fechar os olhos, estender-se e ouvir o sangue bater nos ouvidos | ||
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| + | 48. Mesmo nesse recolhimento corporal, a existência continua sendo existência, | ||
| + | * cita-se a passagem sobre a intenção que jorra sempre de novo, mesmo voltada aos instantes que advêm | ||
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| + | 49. Também as determinações sensíveis internas e a coenestesia estão submetidas ao horizonte temporal, de modo que voltar-se para a vida corporal não rompe o vínculo com a exterioridade. | ||
| + | * citam-se as passagens de Merleau-Ponty sobre ausentar-se do mundo humano sem deixar de estar condenado ao ser, e sobre a existência corporal que nunca repousa em si mesma | ||
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| + | 50. Essas descrições da transcendência da existência corporal, embora fiéis à experiência, | ||
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| + | 51. Diante dessas questões, que a filosofia moderna negadora da interioridade não responde, recorre-se a [[sofia> | ||
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| + | 52. Distinguem-se, | ||
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| + | 53. Aplicado ao conhecimento do próprio corpo, para Condillac a mão, ao percorrer o corpo, revela-lhe progressivamente sua forma e estrutura, tornando-se assim princípio da conhecimento que temos do corpo. | ||
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| + | 54. Essa tese permanece ilusória em Condillac, pois o corpo originário não é o corpo desenhado pela mão em seus deslocamentos, | ||
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| + | 55. É esse ponto que Maine de Biran objeta a Condillac, perguntando como o próprio instrumento — a mão — é primeiramente conhecido, questão que tampouco a fenomenologia contemporânea, | ||
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| + | 56. É nesse ponto que as teses fundamentais da ontologia contemporânea podem ser postas em questão e talvez revertidas, restituindo-se direito de cidade ao conceito de interioridade: | ||
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| + | 57. Se o poder de preensão fosse dado pela mediação de uma intencionalidade, | ||
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| + | 58. Cita-se Maine de Biran, para quem não há força estranha absoluta: todo poder verdadeiro implica um primeiro poder, o de ser a si mesmo, coincidir consigo numa coerência primeira que rejeita toda distância, na imanência de sua interioridade radical. | ||
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| + | 59. Identifica-se essa força absoluta, esse je peux em exercício efetivo, com o próprio corpo — o pouvoir pelo qual se dilata ou contrai o peito, se abrem ou fecham os dedos, se levanta e caminha, movimento que se atesta interiormente, | ||
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| + | 60. A filosofia do corpo objetivo visava dar conta desse poder com o qual coincidimos; | ||
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| + | 61. Se, ao contrário, a relação primeira do eu com seu próprio corpo não é intencional, | ||
| + | * citam-se as passagens de Kant e o problema da metafísica sobre o homem como ser racional finito que só pode " | ||
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| + | 62. Está em questão, na verdade, não a tese de que a sensibilidade se enraíza na transcendência, | ||
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| + | 63. Retoma-se o movimento da mão, tradicionalmente conhecido, segundo a psicologia e a filosofia clássicas — e ainda presente em O Imaginário de Sartre —, pela sensação cinestésica ou muscular. | ||
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| + | 64. Maine de Biran mostrou, ao contrário, que a ação e o movimento não são conhecidos por uma sensação: a sensação muscular pode ser idêntica quando o movimento resulta de uma ação estranha ao sujeito, não podendo, portanto, revelar a própria ação. | ||
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| + | 65. Ilustra-se com o exemplo de dois lutadores, cujas sensações musculares — resultantes tanto do próprio esforço quanto da ação do adversário — são mudas quanto à sua origem, só podendo remeter à ação própria se esta se revelar originariamente em si mesma. | ||
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| + | 66. Questiona-se ainda como sustentar que o corpo originário, | ||
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| + | 67. O movimento, assim, não é conhecido por outra coisa senão por si mesmo, o que significa que a relação do corpo originário consigo não é ekstática nem se cumpre no sentir, mas constitui a própria corporeidade, | ||
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| + | 68. Interroga-se, | ||
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| + | 69. Afirma-se que a relação subjetiva do eu com seu próprio corpo não é senão a relação originária desse corpo consigo mesmo: o ser de cada poder consiste na auto-afetação pela qual esse poder está presente a si mesmo sem distância, afecção que constitui a ipseidade — estrutura mesma da vida, na qual tudo se cumpre no modo do particípio presente. | ||
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| + | 70. O corpo, em sua relação originária não ekstática consigo, produz-se necessariamente como um Si: não é a soma de suas propriedades nem de suas funções, mas é por sua ipseidade mesma, motivo pelo qual um eu o habita originalmente, | ||
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| + | 71. Ser originariamente por sua ipseidade, por sua interioridade, | ||
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| + | 72. Explica-se, a partir dessa identidade entre ipseidade e interioridade do corpo, a incerteza das filosofias da transcendência quanto a esse problema, visível em Merleau-Ponty, | ||
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| + | * citam-se as passagens de Merleau-Ponty sobre perceber-se em mim e não eu perceber, e sobre a percepção situada sempre no mundo do on | ||
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| + | 73. Questiona-se o fundamento dessa aparição do eu no plano do pensamento puro, lembrando a impotência kantiana de legitimar o eu do eu penso e a objeção já feita ao cogito cartesiano, notando-se que tanto a atribuição gratuita do ego ao pensamento puro em Kant quanto sua rejeição da vida corporal em Merleau-Ponty carecem de fundamento, revelando a passividade radical da ipseidade — ser preso a si mesmo, sem distância nem recuo possível, sua própria vida vivida inexoravelmente. | ||
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| + | * citam-se as passagens de Merleau-Ponty sobre a existência corporal que atravessa sem cumplicidade e sobre o curso de existência cujas forças não se sabe se são próprias ou não | ||
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| + | 74. A interioridade radical do corpo, sua ipseidade, funda por si só um de seus caracteres mais essenciais, a situação: mesmo sendo, como Dasein, o corpo situado num mundo e compreendendo-se ao projetar-se para um [[lx> | ||
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| + | 75. A questão originária da situação não é como a existência compreende a situação a partir de um horizonte finito, mas como a existência que desenvolve a ekstase está primeiro entregue a si mesma em sua coincidência originária consigo, de modo que a situação última reside não na transcendência, | ||
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| + | 76. Evoca-se o romance A América, de Kafka, em que o herói Karl, diante do anúncio de um grande circo, aprecia particularmente a frase "aqui há um lugar para cada um" — proposição que exprime a condição metafísica do ser, cujos primeiros termos a ontologia contemporânea explica facilmente, restando questionar o surgimento final do "cada um": se a ipseidade é adjunção contingente e limitação acidental do advento anônimo do ser na exterioridade, | ||
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