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estudos:henry:pv1:2003b-10-13-ontologia-kantiana

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 +====== Ontologia kantiana ======
 +//HENRY, Michel. Phénoménologie de la vie I. Paris: Presses universitaires de France, 2003.//
 +
 +**O conceito de alma tem um sentido?**
 +
 +//Se queremos falar de alma devemos rejeitar a crítica kantiana.//
 +
 +  * Pretendendo falar da alma, impõe-se rejeitar previamente a crítica kantiana, tarefa que pode parecer presunçosa e desproporcional mas cujo fio condutor já se dispõe, devendo essa crítica da crítica assumir a forma de uma destruição ontológica, isto é, uma posta a nu das estruturas do ser
 +  * Formula-se a questão simples: que ideia Kant faz do ser para recusar ser ao cogito enquanto tal, não se tratando de refutar uma a uma as proposições da Dialética transcendental mas de remontar ao fundamento comum que todas pressupõem, sendo a própria ontologia kantiana o que está em questão
 +  * A ontologia kantiana obedece a pressupostos fenomenológicos que fazem seu valor: para Kant só conhecemos fenômenos, sendo fenômeno o que é dado à sensibilidade e pensado pelo entendimento, abrindo-nos a intuição, poder de intuição da consciência, ao ente sem contudo criá-lo, apenas encontrando-o
 +  * Como pode a consciência se abrir ao ente que não é ela mesma? Fazendo-o ao formar e imaginar um meio puro dentro do qual o ente poderá se mostrar, projetando o horizonte em que poderá encontrá-lo, sendo essa projeção obra da intuição pura, havendo em Kant uma pura relação a algo, a própria objetividade em seu surgimento primeiro, o espaço mas mais fundamentalmente o tempo
 +  * Chega-se à verdadeira significação do termo transcendência: já não designando apenas a heterogeneidade metafísica do ente à consciência mas sua exterioridade fenomenológica, sendo ser, para Kant, ser dado como representado, posto diante de um campo de visibilidade
 +  * Se o acesso ao ente pressupõe a abertura de um primeiro campo de exterioridade, a intuição empírica pressupõe sempre intuição pura, mas reciprocamente a intuição nunca é apenas pura, sendo sempre também empírica, pois um meio puro, espacial ou temporal, ainda não contém em si nenhuma existência efetiva
 +  * O que traz essa existência efetiva, segundo Kant, é a sensação, só se tornando função concreta a intuição humana quando posta em relação com um diverso empírico, citando-se Kant: "A sensação é o que designa uma realidade", desempenhando assim a sensação o papel de origem
 +  * Que a sensação pertença necessariamente à experiência real mostra-se também pela consideração do entendimento: reduzido a si mesmo ele nada nos leva, citando-se Kant sobre não se poder perceber a possibilidade de coisa alguma pela simples categoria, sempre exigindo esta uma intuição empírica para evidenciar sua realidade objetiva
 +  * Pode-se resumir dizendo que, para Kant, o conhecimento real é conhecimento sintético, não sendo o problema desse conhecimento apenas o da unificação do poder transcendental (o problema heideggeriano da unidade entre intuição pura e entendimento), mas o de saber o que deve se acrescentar a esse poder para que o conhecimento se torne conhecimento de algo: é a sensação que o traz
 +  * Refletindo sobre o poder transcendental do conhecimento considerado em sua pureza, abstração feita do elemento empírico, o que o caracteriza é uma espécie de indigência ontológica de fundo, sua privação de existência, sendo por isso arbitrário designar essa condição do conhecimento sob o nome de subjetividade, pois ela não é uma vida, uma existência, mas mera entidade lógica
 +  * Essa indigência do pensamento puro se manifesta no conceito, que não pode por si mesmo nos procurar conhecimento algum nem responder a nenhuma questão, citando-se Kant sobre o conceito "girar sempre sobre si mesmo" sem nos fazer penetrar mais adiante, pois toda solução sintética exige uma intuição
 +  * Essa indigência é ainda maior: o conceito não pode alcançar sequer o conhecimento de si mesmo, não havendo posse interior imediata do conceito por si próprio porque não há em Kant filosofia da subjetividade
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 +{{tag>Henry ontologia}}