estudos:henry:pm:quinta-meditacao
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| + | ====== Quinta Meditação Cartesiana ====== | ||
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| + | **Reflexões sobre a Quinta Meditação Cartesiana de Husserl** | ||
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| + | 1. A análise husserliana da experiência de outrem na quinta Meditação cartesiana é comandada por três pressuposições que a determinam inteiramente. | ||
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| + | 2. A primeira pressuposição estabelece que só há um outro para mim se dele tenho experiência, | ||
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| + | 3. Como o outro entra em minha experiência é a questão própria da fenomenologia, | ||
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| + | 4. Na medida em que o alter ego se dá a uma intencionalidade e por ela, ele se dá como existente, como presente ele-mesmo, mas esse ele-mesmo não é ele mesmo tal como é em si, e sim algo que vale por ele, apreendido como ele sem o ser realmente — o outro-pensado, | ||
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| + | 5. Não é apenas por se aplicar ao problema da experiência de outrem que a pressuposição fenomenológica projeta a existência e a quididade do outro na irrealidade noemática, mas em si mesma, enquanto consiste na intencionalidade, | ||
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| + | 6. Husserl só apresentou o problema de outrem como problema especial num primeiro momento, pois a teoria transcendental constitutiva do outro é apenas uma peça da teoria transcendental do mundo objetivo, já que pertence ao sentido de uma natureza objetiva ser perceptível e existir tanto para o outro quanto para mim, de modo que a constituição da pluralidade dos egos precede necessariamente a objetividade do mundo; essa precedência do outro, porém, se reverte quando se observa que algo como um mundo já se abriu para que o ego do outro seja acessível dentro dele, isto é, ele se dá necessariamente a uma intencionalidade. | ||
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| + | 7. A terceira pressuposição consiste na universalidade da segunda, isto é, no fato de recobrir a segunda pressuposição pela primeira, afirmando que a necessária inscrição do outro em minha própria experiência é uma aparição noemática a título de correlato intencional — o outro é necessariamente dado em mim como algo transcendente, | ||
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| + | 8. Colocando-se fora dessa pressuposição, | ||
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| + | 9. Se o olhar de Husserl deixa escapar a essência da experiência de outrem, não é por distração ou falta de perspicácia, | ||
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| + | 10. Recolocando-se nesse olhar, trata-se de saber que espécies de intencionalidades dão acesso ao outro; Husserl elimina de minha experiência o outro ego e tudo que a ele se relacione, restando o que me é especificamente próprio enquanto ego, isto é, circunscrever dentro dos horizontes de minha experiência transcendental o que me é próprio — fórmulas breves que já encerram extraordinárias dificuldades. | ||
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| + | 11. Se o próprio é em verdade o próprio a mim, ao ego, só a natureza do ego pode dizer o que lhe é próprio, o que pareceria identificar o próprio ao próprio ego; mas Husserl afasta essa tese por conduzir ao solipsismo, devendo então dissociar o ego daquilo que lhe é próprio, clivagem que deveria constituir tema de uma problemática explícita. | ||
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| + | 12. Uma segunda dificuldade surge com a proposição de circunscrever dentro dos horizontes de minha experiência transcendental o que me é próprio, pois fica pressuposto que é dentro de um horizonte que o ser do próprio deve ser apreendido, deixando irresolvida a questão de saber se em si mesmo o próprio se dá ou não em tal horizonte — incerteza que concerne tanto ao Ego quanto ao que lhe é próprio. | ||
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| + | 13. De modo paradoxal, a elucidação do próprio ao ego não começa por ele, mas pelo mundo: ao abstrair de meu horizonte tudo que me é estranho, subsiste o fenômeno transcendental do mundo, e descrevendo-o sob esse novo aspecto obtém-se minha esfera de pertença, com uma natureza que me pertence incluindo meu corpo orgânico, na qual os outros são coisas e eu mesmo sou um fenômeno objetivo homem, unidade psicofísica. | ||
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| + | 14. Deve-se notar que é a partir dessa esfera de pertença e de seus elementos que a experiência do outro será constituída, | ||
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| + | 15. O §45 pergunta qual é a relação entre o eu-homem reduzido à sua pertença pura e o ego transcendental, | ||
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| + | 16. O modelo que guia a autoexplicitação do Ego transcendental é a experiência perceptiva do objeto, cujo estilo geral o §46 aplica ao Ego transcendental, | ||
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| + | 17. À autoexplicitação do ego transcendental, | ||
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| + | 18. Desse Ego que acaba de perder o que lhe é mais próprio, a problemática se desvia mais uma vez para considerar o objeto intencional que, submetido à redução ao próprio, está inscrito no ser concreto da pertença, apresentando-se então o problema de outrem sob a forma de saber como esse objeto intencional pode ser mais que o ponto de intersecção de minhas sínteses constitutivas, | ||
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| + | 19. Husserl segue como primeiro fio condutor o próprio sentido da palavra outro, alter ego: sou eu, o Ego original, que sei originalmente o que é um Eu, sendo esse Eu original que confere sentido ao outro em toda experiência que dele possa ter, mas a continuação do texto desloca essa significação para o eu constituído dentro da esfera de minha pertença primordial, como unidade psicofísica — sendo esse ego constituído, | ||
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| + | 20. O outro entra em minha experiência como um corpo aparecendo em minha esfera de pertença, percebido com a significação de organismo, mas como nessa esfera só meu próprio corpo pode ser constituído originalmente como organismo, o corpo do outro só recebe essa significação por uma transposição aperceptiva a partir do meu, apoiada numa semelhança entre os dois corpos. | ||
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| + | 21. Assinala-se aqui um primeiro círculo na análise husserliana, | ||
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| + | 22. Essa transposição aperceptiva, | ||
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| + | 23. Aplicado ao problema de outrem, esse esquema do emparelhamento, | ||
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| + | 24. O §51 declara que o emparelhamento só se produz quando o outro entra no campo de minha percepção, | ||
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| + | 25. Compreende-se assim como a decadência do Ego transcendental ao posto de eu psicofísico é a condição da experiência de outrem tal como Husserl a concebe, pois é o ego intramundano interior à esfera primordial de pertença que funciona como pivô do emparelhamento associativo com o corpo-objeto do outro. | ||
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| + | 26. Semelhante decadência do ser original do Ego acarreta correlativamente a do corpo, que deixa de ser o Eu Posso radicalmente subjetivo e imanente para se tornar um corpo constituído, | ||
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| + | 27. Sendo constituídos o ego e o corpo que operam na experiência de outrem, tal experiência está inteiramente falsificada, | ||
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| + | 28. Três problemas específicos distinguem a experiência do outro da percepção comum: o objeto suporte do sentido transferido, | ||
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| + | 29. Quanto ao primeiro ponto, a dita presença constante de meu corpo à minha sensibilidade na esfera de pertença é fenômeno derivado e constituído, | ||
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| + | 30. O segundo ponto, mais importante, é a afirmação de que a experiência na qual o outro experimenta o que lhe é próprio escapa para sempre à minha percepção direta; esse fato incontestável recobre porém duas significações distintas: para Husserl a impossibilidade decorre de o outro ser o outro, mas na verdade decorre de ele ser um ego, uma subjetividade absoluta, que por princípio escapa à intencionalidade, | ||
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| + | 31. O terceiro ponto revela o caráter paradoxal da análise, pois, não podendo o alter ego ser percebido em si mesmo, seu valor existencial só pode vir da ligação constante com apresentações perceptivas do corpo percebido, substituindo-se assim ao acesso a uma subjetividade o modo de abordagem próprio de uma coisa — a intersubjetividade viva e patética cede lugar à experiência de uma coisa morta cuja qualidade psíquica é apenas significação irreal. | ||
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| + | 32. Advém ainda que o estilo dessa experiência é o da percepção, | ||
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| + | 33. Considera-se o exemplo de uma comunidade de admiradores de Kandinsky que jamais se encontraram, | ||
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| + | 34. Considera-se ainda a comunidade com os mortos: tratando-se dos mortos que conhecemos, se a percepção fosse o elemento decisivo desse ser-em-comum, | ||
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| + | 35. Mais perturbador ainda: os mortos em nossa vida não coincidem com os que deixaram este mundo, pois muitos que ainda vivemos poderíamos rever sem que isso mudasse sua morte em nós, tornando apenas mais sensível; vida e morte do outro, portanto, não dependem da percepção nem de sua possibilidade factual, podendo mesmo a impossibilidade da percepção ser condição do ser-em-comum, | ||
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| + | 36. É essa acústica espiritual que desafia as leis da percepção que define nossa relação concreta ao outro, como na obra de Kafka ou na observação de Rilke sobre as mulheres de alcoólatras que se mantêm mais distantes justamente junto deles; a recusa do mundo moderno à comunidade com os mortos talvez decorra de o ser-em-comum residir nessa subjetividade radicalmente imanente, acósmica e patética que somos. | ||
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| + | 37. Não apenas o ser-em-comum obscuro com os mortos ou com um deus, mas todo ser-em-comum possível — da mãe com o filho, do hipnotizador com o hipnotizado, | ||
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| + | 38. A impossibilidade de princípio, para a intencionalidade e a percepção, | ||
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| + | 39. Esse fracasso se desdobra em dois: primeiro a redução do ser real do outro a uma apresentação noemática fora de mim, simples sentido conferido a algo percebido; Husserl reconhece essa redução ao irreal tentando minimizá-la, | ||
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| + | 40. O segundo aspecto, mais grave, é que a comunicação intencional que deveria superar o abismo entre mônadas reais substitui essas mônadas por suas esferas de pertença, igualmente separadas entre si, e mais ainda, pois cada mônada reduzida à sua esfera de pertença se vê desapossada de seu próprio pathos e do movimento pulsional que já a lança para o outro. | ||
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| + | 41. A intervenção do termo mônada, com sua conotação leibniziana, | ||
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| + | 42. O §55 torna manifesta a separação radical das esferas de pertença e o sofisma que tenta vencê-la: como o corpo illic do outro em minha esfera e esse mesmo corpo hic para o outro em sua própria esfera são o mesmo, questão cujo enigma, segundo Husserl, só existe porque as duas esferas já estão distinguidas, | ||
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| + | 43. É precisamente na vida, e somente nela, que se enraíza a pulsão, nada mais sendo originalmente que a pura subjetividade dessa vida suportando-se a si mesma e carregando seu próprio peso até que este se torne insuportável, | ||
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| + | 44. O paralogismo da quinta Meditação consiste em descrever a experiência de outrem a partir da percepção objetiva de seu corpo, apresentando essa constituição intencional como explicação quando na verdade é ela mesma o que precisa ser explicado, e uma descrição que deixa escapar o essencial da coisa mesma — o pathos de toda intersubjetividade concreta — não pode se legitimar nem no plano da [[lx> | ||
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| + | 45. Existem outros textos husserlianos sobre a intersubjetividade, | ||
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| + | 46. A crítica aqui esboçada da quinta Meditação não é de modo algum uma crítica da fenomenologia, | ||
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