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| + | ====== O que é ver? ====== | ||
| + | //HENRY, Michel. Genealogia da psicanálise. O começo perdido. Tr. Rodrigo Vieira Marques. Curitiba: Editora UFPR, 2009, p. 59-61.// | ||
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| + | **[[Videre videor]]** | ||
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| + | O que é ver? O olho humano, tornado cego pela redução, colocado entre parêntesis, | ||
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| + | At certe videre videor -- No mínimo, parece-me que eu vejo. Descartes sustenta que essa visão, por mais falaciosa que seja, no mínimo, existe. Mas o que é existir? Segundo a pressuposição do cartesianismo do começo, existir, ser significa aparecer, manifestar-se. Videor não designa nada mais do que isso. Videor designa a parecença [semblence] primitiva, a capacidade originária de aparecer e de se dar em virtude da qual a visão se manifesta e se dá originariamente a nós, qualquer que seja a credibilidade e a veracidade que lhe convém outorgar enquanto visão, independentemente daquele que vê ou acredita ver e de seu próprio ver. A partir desse momento, tão logo é capaz de fazer luz sobre si mesma, a questão crucial que traz em seu seio o cartesianismo, | ||
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| + | De modo algum. O que significará a duplicação do videre no videre videor, caso se trate justamente de uma simples duplicação, | ||
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| + | Assim também, quando Descartes declara que, “no mínimo, parece-me que eu vejo” não significa “eu penso que eu vejo”, como se videre fosse o cogitatum do qual videor seria o cogito. Tal deveria ser, todavia, o sentido da proposição se videor fosse homogêneo a videre, se a parecença [semblence] que o habita fosse redutível à ek-stasis do videre. Estaria então na ek-stasis de um segundo ver como “ver que”, o qual nos entregaria o ser do primeiro a título de correlato intencional e como o que é visto. Uma tal interpretação não tem somente como efeito, como acaba de ser elucidado, arruinar definitivamente o cogito, ao substituir a certeza primitiva do “pensamento” pela incerteza do ver, mas ela tem contra si a crítica geral ensaiada por [61] Descartes à reflexão que, longe de poder fundar a “certeza do pensamento”, | ||
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| + | No sentir, pois, Descartes decifra a essência originária do aparecer expresso no videor e interpretado como o último fundamento, é como sentir que o pensamento se desvencilha invencivelmente com a fulguração de uma manifestação que exibe a si mesma no que é e na qual a epoché reconhece o começo radical que procurava. Descartes não deixou de afirmar que sentimos nosso pensamento, sentimos que vemos, que ouvimos, que nos aquecemos. O ser é justamente definido por esse sentir primitivo, porquanto esse sentir é o que é, por essa aparência pura idêntica a si mesma e a esse ser que esse justamente define. Eu sinto que penso, logo eu sou. “Ver é pensar que se vê -- “quando vejo ou (o que não distingo mais) quando penso ver...” ((Seconde Méditation, | ||
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