estudos:henry:gp:absolutos
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| + | ====== Absolutos fenomenológicos ====== | ||
| + | //HENRY, Michel. Genealogia da psicanálise. O começo perdido. Tr. Rodrigo Vieira Marques. Curitiba: Editora UFPR, 2009, p. 41-42// | ||
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| + | **O declínio dos absolutos fenomenológicos** | ||
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| + | * Manter firmemente a distinção crucial entre [[videre-videor|videor e videre]] só é possível numa fenomenologia material, que refere cada conceito fundamental da fenomenalidade à sua atualização e efetuação, | ||
| + | * Nenhum conceito, e menos que qualquer outro o de fenomenalidade, | ||
| + | * O conceito de consciência, | ||
| + | * Ocorre então o desvio historial pelo qual a filosofia moderna perde a essência da vida e não pode mais se continuar senão como filosofia da pensée no sentido restrito de hoje, ainda que Descartes reconheça, nos Principes, que os sentimentos são a um só tempo claros e confusos, sendo claros enquanto matérias fenomenológicas certas e confusos apenas quanto ao julgamento que os refere às coisas exteriores e ao corpo próprio | ||
| + | * os §§ 66 a 68 dos Principes distinguem entre o sentimento tomado como pensamento e o julgamento que o atribui erroneamente às partes do corpo | ||
| + | * Nesses textos reafirma-se a diferença ontico-ontológica, | ||
| + | * Se a afetividade deixa de construir por dentro o aparecer, é a ek-stase e sua luz que passam a constituir a única essência da fenomenalidade, | ||
| + | * O fim da Segunda Meditação já revela essa obnubilação progressiva do videor pelo videre, pois embora se afirme que o conhecimento da alma precede o do corpo, é este último que acaba guiando a análise, concluindo-se que apenas a visão do entendimento, | ||
| + | * A Terceira Meditação acentua esse deslizamento ao substituir o cogito por sua relação ao cogitatum, fazendo deste o tema da análise, de modo que ser pensado equivale a ser visto, e o cogito se resolve inteiramente no ver que atua no espaço aberto pela ek-stase | ||
| + | * A distinção cartesiana entre realidade formal e realidade objetiva da ideia acaba também se perdendo, pois se pertencer ao pensamento significa ser visto e representado, | ||
| + | * A Terceira Meditação opera assim a redução da semblance originária do videor à ek-stase do videre, redução reivindicada explicitamente na tese de que o cogito, uma vez estabelecido, | ||
| + | * cita-se a fórmula segundo a qual tudo o que concebemos clara e distintamente é verdadeiro | ||
| + | * a evidência assim entendida é um ver, o mesmo ver que revela ao malin genio a impossibilidade de me reduzir a nada | ||
| + | * Como critério único da verdade sob a forma da evidência, o cogito é também uma das verdades que ele mesmo funda, deixando de ser condição transcendental de possibilidade para se tornar apenas a primeira na cadeia dedutiva, de modo que o cartesianismo das Regulae absorve o das Meditações | ||
| + | * Distinguem-se então radicalmente o saber científico que tematiza verdades particulares, | ||
| + | * Dois traços caracterizam então o cartesianismo: | ||
| + | * A imediação é o que visa a definição cartesiana de pensamento, como atesta a designação de sensações, | ||
| + | * cita-se a passagem em que Descartes afirma ter uma clara ideia de seu espírito, inteiramente diferente da ideia de todas as outras coisas | ||
| + | * Tão essencial é essa singularidade que Descartes define tecnicamente a ideia como a forma de cada pensamento pela cuja percepção imediata temos conhecimento desse mesmo pensamento, incluindo entre as ideias o querer e o temer enquanto concebidos imediatamente | ||
| + | * A realidade formal da ideia esclarece por sua vez sua inatismo, que designa a afetividade como dimensão originária do aparecer em sua imediação, | ||
| + | * Por ideia Descartes entende também sua realidade objetiva ou conteúdo representativo, | ||
| + | * O ver cartesiano, mesmo fundado na imediação de seu videor como visão certa, permanece marcado por essa impotência ontológica segundo a qual atinge sempre apenas o duplo e a imagem do ser, como no caso da ideia do sol que não é o sol real mas apenas sua doação objetiva no entendimento | ||
| + | * A realidade formal não é apenas a da coisa cuja realidade objetiva está na ideia, mas a realidade formal da própria ideia, a realidade material do pensamento, sendo essa exatamente a definição ou condição da vida que o cartesianismo do começo mantém em vista, o que explica a dupla intervenção da veracidade divina | ||
| + | * Ainda que irreal e finita, é a realidade objetiva da ideia que a Terceira Meditação tematiza, instalando a fenomenalidade do ver no centro da problemática, | ||
| + | * Produz-se assim o deslizamento dos conceitos fundamentais da fenomenalidade rumo à anfibologia ou à ocultação definitiva do sentido primordial, pois a referência da realidade objetiva à sua realidade formal como realidade da imediação cede lugar à referência exclusiva à forma do ver | ||
| + | * Nesse nó se decide o destino do pensamento ocidental, como mostram as Respostas às Terceiras Objeções, em que Descartes, questionado por Hobbes sobre a ideia da intelecção divina, apela à estrutura originária da ideia, ainda que o contexto favoreça a confusão entre o fundamento da revelação e a especificidade da intelecção | ||
| + | * Toda problemática e toda ciência tomam facilmente as condições do conhecimento de uma realidade pelas condições da própria realidade, confusão que corresponde exatamente à do videre com o videor, fazendo os conceitos da fenomenalidade flutuarem numa indeterminação em que o ver da ek-stase acaba fornecendo o conteúdo ao conceito formal de aparecer | ||
| + | * Os parágrafos 29 a 66 dos Principes oferecem exemplo eloquente desse deslizamento, | ||
| + | * Quando surgem, nos §§ 39 e 41, os modos imanentes do pensamento sem realidade objetiva — sensação, sentimento, vontade, liberdade — a problemática se depara com modalidades do aparecer que escapam à ek-stase, remetendo à experiência interior e não à prova exterior | ||
| + | * Descartes emprega, porém, o vocabulário da ek-stase para nomear essa fenomenalidade imanente, subsumindo sob os mesmos termos de clareza e distinção tanto a visão do objeto na luz natural quanto a auto-afeição interna das modalidades imanentes do pensamento, como no exemplo da dor cuja conhecimento é claro justamente por não depender de julgamento algum | ||
| + | * Em sua significação originária, | ||
| + | * A clareza como modalidade da luz não pode nomear o que ignora toda luz, e o texto integral do § 46 mostra que se trata do sentimento ou pensée confusa, não havendo aí duas coisas distintas — conhecimento claro e conteúdo confuso — mas uma só propriedade: | ||
| + | * Propõe-se então a elucidação radical dos conceitos fundamentais da fenomenalidade implicados pelo cartesianismo, | ||
| + | * a primeira clareza designa a dimensão em que a vida se experimenta no invisível, sempre a Mesma | ||
| + | * a segunda designa o modo de fenomenalidade do mundo em que o ente passa continuamente da clareza à confusão e vice-versa | ||
| + | * A obscuridade limite da fenomenalidade do mundo, própria à ek-stase e a seu horizonte, nada tem a ver com a obscuridade intrínseca daquilo que ignora a ek-stase, sendo a primeira convertível em evidência, ao passo que a segunda, obscuridade do sentimento e da vida, recusa por princípio tal conversão | ||
| + | * Ao estabelecer o primado do videre sobre o videor e relegar este ao esquecimento, | ||
| + | * Definir nosso ser essencial pelo aparecer e pela alma como pensamento suscitou múltiplos problemas, pois se nada pode estar em mim sem que eu tenha consciência disso, segundo as Respostas às Primeiras Objeções, onde encontrariam lugar as ideias inatas e as potencialidades múltiplas que definem o espírito, questão retomada por Freud em sua Justificação do inconsciente sobre os conteúdos latentes da consciência | ||
| + | * Se se trata da finitude do lugar de luz, consciência designa a fenomenalidade da ek-stase e o horizonte de sua obscuridade; | ||
| + | * Descartes já ironizara, contra Revius, a pretensão de reduzir a fenomenalidade específica da alma a conteúdos atualmente percebidos, afirmando que as ideias inatas não são atuais mas designam apenas a faculdade de as produzir, deslocamento da realidade objetiva ao poder que a produz que implica também o deslocamento à realidade formal | ||
| + | * As determinações escolásticas de atualidade, virtualidade, | ||
| + | * A vida nunca se atualiza nem entra no lugar finito da luz, retendo-se inteira na imediação de sua onipresença a si mesma, de modo que atualidade designa aqui a auto-afeição em que a potencialidade é efetiva, sendo o cogito, tomado como essência sem rosto da vida, cognoscível apenas por experiência contínua e infalível, não por evidência temporária | ||
| + | * A posteridade imediata do cogito testemunha essa anfibologia, | ||
| + | * Com essa presuposição, | ||
| + | * Leibniz distingue apenas entre percepções notáveis e percepções obscuras demasiado pequenas ou numerosas para serem apercebidas, | ||
| + | * cita-se o exemplo dos objetos que tocam os olhos e ouvidos durante o sono sem que a atenção os registre | ||
| + | * Evidencia-se assim o desvio do conceito crucial de aperceptio no diálogo entre Philalèthe e Théophile sobre a dificuldade de conceber um pensamento que não sinta que pensa, resolvida por Leibniz mediante a finitude do ver e a distinção entre percepções distintas e indistintas | ||
| + | * A redução da aperceptio à percepção distinta torna-se ainda mais evidente quando Théophile rejeita a tese cartesiana de que nada está na alma sem que ela o aperceba, argumentando que a reflexão infinita sobre cada reflexão seria impossível e que é preciso deixar passar algum pensamento sem pensá-lo | ||
| + | * Tal impossibilidade, | ||
| + | * Mais profunda foi a posição de Malebranche, | ||
| + | * Que a alma seja obscura significa, para Malebranche, | ||
| + | * Malebranche, | ||
| + | * Ainda mais, embora reconheça na imanência radical a essência da alma, Malebranche permanece prisioneiro do preconceito segundo o qual toda fenomenalidade concebível se reduz à da ek-stase, de modo que a obscuridade da alma passa a significar não a dimensão originária do aparecer, mas sua ausência, uma carência ontológica insuperável, | ||
| + | * A tese de que não temos ideia da alma muda então de sentido, deixando de determinar apodicticamente a estrutura interna da revelação para constatar que a alma carece de fato desse poder e permanece entregue às trevas, sendo toda fenomenalidade possível, para Malebranche, | ||
| + | * O filósofo que mais se aproximou do Começo é também aquele que mais dele se afasta, pertencendo assim, tanto quanto Leibniz, ao destino da metafísica ocidental, que recebe sua determinação historial da ocultação do videor pelo videre | ||
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