estudos:henry:ffc:sentir
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| + | ====== Sentir ====== | ||
| + | //HENRY, Michel. Filosofia e fenomenologia do Corpo. Tr. Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: É Realizações, | ||
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| + | **Movimento e Sentir** | ||
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| + | 1. Na determinação do cogito, Biran opõe-se explicitamente a Descartes, criticando a concepção estática do pensamento como substância fechada sobre si, cujas modificações são meros modos que não permitem nenhum ultrapassamento nem ação real, reduzindo desejo, ação e movimento a simples ideias e deixando o movimento real como problema insolúvel dentro da esfera da subjetividade pura. | ||
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| + | 2. Biran, tendo afirmado a identidade do ser do ego com o da subjetividade, | ||
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| + | 3. A originalidade de Biran não reside na simples oposição entre atividade e contemplação, | ||
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| + | 4. A consequência ontológica dessa tese é infinita: ao situar o ser do movimento na esfera de imanência absoluta, Biran propõe uma teoria inteiramente nova de conhecimento do movimento, conhecido imediata e certamente por experiência interna transcendental, | ||
| + | * compreendemos por que nos reunimos aos nossos movimentos sem jamais os deixar, porque nos confundimos com eles | ||
| + | * essa força é " | ||
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| + | 5. O cogito biraniano não se opõe ao cogito cartesiano: mesmo que este fosse reflexivo, seu ser seria idêntico ao do movimento, pois a estrutura fundamental da consciência é sempre a mesma experiência interna transcendental, | ||
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| + | 6. Assim, "eu penso" e "eu posso" têm o mesmo estatuto ontológico, | ||
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| + | 7. A teoria cartesiana do corpo nada tem em comum com a de Biran: no cartesianismo subsiste apenas a ideia do movimento, sendo o movimento real efetuado alhures, na extensão, permanecendo o corpo elemento do ser transcendente, | ||
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| + | 8. A determinação biraniana do movimento subjetivo é crítica radical dessa concepção cartesiana, pois arranca não apenas a ideia mas o próprio ser do movimento da esfera transcendente, | ||
| + | * a intuição biraniana articula: reconhecimento de uma esfera original de existência (a subjetividade); | ||
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| + | 9. Essa solidariedade entre teoria do corpo e ontologia biraniana aparece na questão central do Essai — a origem do conhecimento de nosso próprio corpo —, sendo o corpo, isto é, o movimento sentido em seu cumprimento, | ||
| + | * o movimento é conhecido por si mesmo, sem distância fenomenológica alguma interposta | ||
| + | * o movimento está em nossa posse; nosso corpo é o conjunto dos poderes que temos sobre o mundo | ||
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| + | 10. A crítica à teoria condillaciana do conhecimento do próprio corpo ilustra essa tese: para Condillac a sensação de solidez, cujo órgão é a mão, revela progressivamente o corpo, mas o corpo originário não é esse corpo circunscrito pela mão, é a própria mão enquanto se aplica às coisas — problema que Condillac pressupõe sem explicar, deixando em aberto como o próprio instrumento é primeiro conhecido. | ||
| + | * como pode um órgão móvel ser constantemente dirigido sem ser conhecido? | ||
| + | * o movimento da mão é conhecido sem ser apreendido num mundo, dado imediatamente na experiência interna transcendental que se confunde com seu próprio ser | ||
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| + | 11. Segue-se que o movimento não é intermediário entre o ego e o mundo, não é instrumento: | ||
| + | * a alma não pensa de antemão no objeto de seu querer nem nos instrumentos que o executarão | ||
| + | * ego, corpo, movimento e meio são uma só e mesma coisa, e essa coisa é real, sendo o próprio ser do ego | ||
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| + | 12. O corpo não é instrumento porque instrumento serve sempre a algo distinto que o utiliza, implicando conhecimento do corpo como realidade transcendente — mas pensar simultaneamente meio e fim não faz executar a ação, apenas representá-la; | ||
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| + | 13. A teoria ontológica do movimento subjetivo não reduz o movimento à sua ideia, mas revela o único fundamento possível de sua realidade: negar que o corpo seja intermediário não é negar sua realidade, é dizer que o corpo constituído não é nosso corpo originário, | ||
| + | * é só sob essa condição que o corpo pode realmente agir sobre o universo, não sendo massa transcendente de nervos e músculos | ||
| + | * entramos na posse do movimento porque dele jamais estamos separados, conhecendo-o enquanto se cumpre, numa experiência interna transcendental que é o próprio ser do ego | ||
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| + | 14. A afirmação da imanência absoluta do corpo originário fundamenta a pergunta das teses de Hume sobre a causalidade, | ||
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| + | 15. Para Hume, o movimento não é conhecido por si mesmo, pois o efeito não pode ser previsto na energia da causa; analisando o desejo ou a vontade, ele nada encontra que permita chamá-la causa do movimento físico subsequente, | ||
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| + | 16. Essa tese de que não temos sentimento imediato do movimento é solidária à afirmação de que ignoramos os instrumentos pelos quais ele se cumpre — o argumento humeano refere-se ao corpo concebido como jogo interior de nervos e músculos, mas mostramos que nenhum instrumento intervém no cumprimento de nossos movimentos, sendo essa ignorância do corpo do anatomista precisamente a condição de nossa ação. | ||
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| + | 17. Recenseando os elementos de que Hume dispõe, verifica-se que ele ignora tanto os instrumentos de nossos movimentos quanto o sentimento do movimento em curso, dando a Biran ocasião de tomá-lo em suas próprias redes: podemos ter o sentimento do movimento sem conhecer de modo algum os meios, texto decisivo que contém o essencial do pensamento biraniano sobre o corpo originário. | ||
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| + | 18. Revela-se aqui a falência completa, não só do empirismo mas de toda filosofia que não faz do movimento experiência interna transcendental: | ||
| + | * a primeira condição de uma teoria do movimento do corpo próprio é dar conta desse sentimento de um movimento que eu mesmo executo, poder em exercício que é meu | ||
| + | * esse poder só é conhecido e pressentido quando nos colocamos no lugar do ser motor; o esforço não é representado senão quando nos separamos inteiramente do ser a quem o atribuímos | ||
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| + | 19. O problema é, portanto, ontológico: | ||
| + | * restabelecendo a homogeneidade entre os dois termos da relação primitiva de causalidade, | ||
| + | * se Hume não reconheceu a realidade do esforço em sua revelação imediata a si mesmo como poder de produção, é por não dispor de uma ontologia dessa esfera de existência | ||
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| + | 20. A afirmação de que o ser originário do movimento nos é dado numa experiência interna transcendental confere ao pensamento biraniano seu caráter original, distanciando-o do empirismo e do intelectualismo, | ||
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| + | 21. Para aprofundar essa oposição às concepções da psicologia clássica, recorre-se a J. Lagneau, o mais profundo dos neokantianos franceses, que meditou longamente as teses biranianas, cuja Leçon sur la perception discute explicitamente o sentimento da ação e o problema do movimento. | ||
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| + | 22. Num primeiro momento, Lagneau reconhece a necessidade de responder afirmativamente se podemos sentir nossa ação, apoiando-se num argumento biraniano segundo o qual as sensações musculares são as mesmas independentemente de sua origem, de modo que, para que uma modificação apareça como efeito de nossa ação, é preciso que essa ação nos seja revelada em si mesma, não apenas por seu efeito. | ||
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| + | 23. Mas sem dispor de ontologia da subjetividade, | ||
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| + | 24. Essa solução de Lagneau não resolve, porém, o problema: por que a mesma sensação muscular e a mesma ideia de causalidade levam ora a julgar que agimos, ora que não agimos, sem que se explique o fundamento e a verdade desses juízos distintos, ou como reconheceríamos o erro em cada caso. | ||
| + | * eu não ajo porque julgo que ajo, mas julgo que ajo porque ajo efetivamente — só uma ontologia da subjetividade e uma teoria do movimento subjetivo podem explicar como esse movimento é ao mesmo tempo um saber | ||
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| + | 25. A carência ontológica dos pressupostos kantianos impediu Lagneau de compreender o fundo do pensamento de Biran, levando-o a cometer erro histórico grave: afirmar que Biran chamava " | ||
| + | * erro significativo, | ||
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| + | 26. A análise de Lagneau mergulha então em contradição profunda: depois de dizer que não se deve confundir sensação muscular e sentimento de ação, acaba por atribuir a Biran essa confusão, sendo ele próprio quem a comete, ao fazer da sensação muscular elemento indispensável ao nascimento do sentimento de ação. | ||
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| + | 27. Para responder às questões próprias da filosofia primeira — como sei que sou eu quem age, de onde vem o sentimento imediato do esforço, como poderia eu viver se minha própria vida não me fosse dada a mim mesmo —, era preciso recusar a ontologia kantiana e dispor de uma ontologia da vida, da subjetividade e do ego. | ||
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| + | 28. Não basta inverter a dedução de Lagneau afirmando que a ideia de necessidade supõe a de causalidade e esta a de ação; é preciso ver que a ideia de ação supõe a própria ação, revelada em si mesma, de modo que a causalidade do eu, antes de ser ideia, é poder, revelado da mesma maneira que o próprio ser do ego, com o qual se confunde. | ||
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| + | 29. Determinou-se assim o ser originário do corpo como pertencente à região em que se cumpre a revelação a si mesma da intencionalidade na experiência interna transcendental, | ||
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| + | 30. O movimento é intencionalidade sui generis: o que se manifesta através dele não é representado como em qualquer outra intencionalidade dóxica, sendo vivido de outra maneira, precisamente na vida mesma do ego sob a forma do movimento. | ||
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| + | 31. Se o movimento é a intencionalidade mais profunda da vida do ego, presente em todas as demais determinações da subjetividade transcendental, | ||
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| + | 32. Esse termo transcendente experimentado pelo movimento, sem mediação de representação, | ||
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| + | 33. Dizer que a intencionalidade mais profunda da vida do ego é o movimento equivale a dizer que o mundo originariamente dado é o mundo do corpo, cujo ser é, na origem, apenas o termo transcendente do movimento — determinação essencial que não pressupõe implicitamente outras categorias. | ||
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| + | 34. Não se pode aceitar a objeção de Lagneau de que sentimos imediatamente a resistência como ilusão dependente da representação de dois corpos em contato no espaço, pois embora a resistência não seja sentida como sensação, as ideias com que Lagneau explica essa relação repousam sobre a experiência real que dela tenho, sendo a categoria fundada nessa experiência, | ||
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| + | 35. O real transcendente, | ||
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| + | 36. A qualificação de " | ||
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| + | 37. Por isso esse termo transcendente escapa à redução fenomenológica: | ||
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| + | 38. A comparação com a crítica kantiana — segundo a qual a existência do mundo exterior é tão certa quanto a da vida interior — não deve obscurecer a diferença de premissas: a prova kantiana é indireta, apoiando-se em que a constituição da vida interior pressupõe a do mundo exterior, enquanto a tese biraniana, de inspiração fenomenológica, | ||
| + | * é o ser subjetivo do movimento que porta em si a certeza que temos da realidade do mundo, sendo nossa certeza a própria origem da verdade do ser | ||
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