estudos:henry:ffc:ego
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| estudos:henry:ffc:ego [20/07/2026 14:53] – created - external edit 127.0.0.1 | estudos:henry:ffc:ego [11/09/2026 04:01] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== Ego ====== | ||
| + | //HENRY, Michel. Filosofia e fenomenologia do Corpo. Tr. Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: É Realizações, | ||
| + | |||
| + | **Ego e Alma** | ||
| + | |||
| + | 1. O biranismo é uma das raras filosofias, talvez a única, a propor uma teoria ontológica do eu, não descrição psicológica, | ||
| + | * o ser da subjetividade foi determinado por Biran rigorosamente por seu paraître, oposto radicalmente ao ser das ideias, imagens ou coisas — oposição fundada na dupla observação, | ||
| + | * determinar o ser do ego pela estrutura interna de um modo de manifestação tem significação ontológica, | ||
| + | |||
| + | 2. Como o eu não é um étant, a oposição entre eu e não-eu não pode se definir em termos ônticos, sendo irrecebível a interpretação tradicional que a reduz à oposição entre esforço e real resistente, pois ambos ainda seriam " | ||
| + | |||
| + | 3. A teoria da subjetividade se completa pela teoria das faculdades e categorias, que, identificando ser da subjetividade e do ego, é ao mesmo tempo teoria do ego, sendo a dedução das categorias tanto prova quanto consequência da tese da pertença do ego à esfera da imanência absoluta. | ||
| + | * o fato de o eu se reproduzir e se aperceber "sob a mesma forma una" não significa ser ele subsumido pela categoria de unidade como qualquer outro ser do mundo: a categoria se identifica no seu ser originário com o próprio ser do ego, que não pode ser objeto constituído por ela | ||
| + | |||
| + | 4. Segue-se que afirmar uma transcendência do ego destrói o caráter essencial da ipseidade, pois o que constitui a essência da egoidade é a interioridade da presença imediata a si mesmo: "é preciso que o eu tenha começado a existir para si mesmo" | ||
| + | * sem essa imanência absoluta, nada permitiria chamar de meu, e não de outrem, esse ego, nem impediria que outro ego ocupasse essa esfera, como sugere a passagem em que Biran duvida se, ao sentir sua existência individual, não seria outro ser que existisse em seu lugar | ||
| + | |||
| + | 5. Dessa imanência absoluta decorre que o ego se identifica com a própria vida, não sendo termo abstrato e genérico sob o qual se reuniriam certos fenômenos, e que o autoconhecimento assume os caracteres de certeza absoluta próprios dessa esfera: entre ego e ego não há lugar para má-fé, mentira ou engano, pois não há distância nem constituição possível. | ||
| + | |||
| + | 6. O ego não é transcendente, | ||
| + | * esse ego transcendente é, no mundo, um objeto mais mágico que os outros, força oculta que só não me ameaça porque sei que sou eu, ego originário transcendental, | ||
| + | * a crítica biraniana a Locke e Descartes censura terem posto as faculdades como " | ||
| + | |||
| + | 7. A pertença das categorias à esfera de imanência absoluta conduz à compreensão da relação fundamental entre ego e conhecimento ontológico: | ||
| + | * a resposta biraniana é que o ego é o ser do conhecimento ontológico: | ||
| + | |||
| + | 8. O eu só pode ser compreendido como condição de toda conhecimento por não ser " | ||
| + | * esse ser, diz Biran, "não é fenômeno nem objeto que se representa... é um fato interior sui generis" | ||
| + | |||
| + | 9. Essa identificação do ser do ego com o do conhecimento ontológico só ganha significação filosófica dentro de uma problemática da subjetividade; | ||
| + | * o que falta ao kantismo — uma ontologia da subjetividade — é justamente o que constitui o argumento biraniano, fazendo do ego não mera forma lógica mas o ser mesmo da vida e da existência concreta e pessoal | ||
| + | |||
| + | 10. A imanência absoluta do ego se estabelece novamente pela análise que Biran consagra ao problema da alma, mostrada na discussão do cogito cartesiano, reconhecido como o fundamento mesmo da filosofia e o cartesianismo como "a doutrina-mãe" | ||
| + | * o cogito afirma a unidade fenomenológica do ser do ego e da subjetividade, | ||
| + | |||
| + | 11. A crítica biraniana começa quando a alma intervém no cartesianismo para designar o ser do eu identificado ao pensamento, crítica que não deve ser confundida com a acusação clássica de substancialismo dirigida a Descartes pelos neokantianos franceses. | ||
| + | * ao contrário, é o realismo ontológico do cogito cartesiano que constitui, aos olhos de Biran, sua verdade e profundidade: | ||
| + | |||
| + | 12. Há, sim, uma passagem ilegítima no movimento do cogito, mas ela não vai do pensamento puro a uma determinação ontológica real — é o inverso: parte-se do ser do ego corretamente interpretado como subjetividade e experiência interna transcendental para chegar à posição do ego como elemento do ser transcendente, | ||
| + | |||
| + | 13. A crítica biraniana intervém quando o cogito pretende afirmar "a existência real e absoluta da alma ou da coisa pensante", | ||
| + | * o silogismo atribuído a Descartes — " | ||
| + | |||
| + | 14. Biran não censura Descartes por ter considerado o eu um ser, mas por ter determinado como alma algo "que não é o eu": a alma só pode ser o próprio ego, cujo ser é precisamente a alma — caso contrário, torna-se hipótese nefasta, "a alma (ainda não eu) na hipótese metafísica" | ||
| + | * essa distinção livra da equivocidade contínua entre dois sujeitos de atribuição: | ||
| + | |||
| + | 15. Todo o esforço da crítica biraniana visa fundar o ser do ego numa única região ontológica onde é possível determinação absolutamente certa: quando se atém à conhecimento de sentimento ou percepção imediata interna, a determinação do ser é não apenas possível mas " | ||
| + | |||
| + | 16. Ao denunciar o monismo ontológico como horizonte impróprio à questão do ser do ego, a problemática biraniana se opõe absolutamente à crítica kantiana do paralogismo da psicologia racional, cujo pesado legado pesa sobre as concepções contemporâneas — a experiência interior em Kant é não só submetida ao mesmo estatuto da experiência do mundo, mas ainda mais imperfeita, imitação impossível dela mesma, sem que Kant tenha questionado o paradoxo de a alma ser menos conhecível que o corpo. | ||
| + | |||
| + | 17. Enquanto a Dialética transcendental expõe as dificuldades da constituição da alma como substância, | ||
| + | * se a alma não é determinada numa esfera de imanência absoluta, torna-se ego transcendente ou termo transcendente = x, posto na origem das determinações conscientes como sua causa oculta | ||
| + | |||
| + | 18. Segundo Stahl, a alma humana, distinta do eu e considerada causa produtiva desconhecida, | ||
| + | * essa identidade de causa = x implica dupla hipótese, sendo já discutível a suposição de identidade de causa por mera analogia, e mais grave ainda supor que o pensamento tenha fundamento transcendente | ||
| + | |||
| + | 19. A crítica biraniana revela que essa alma, posta como fundamento transcendente do pensamento, torna-se inevitavelmente um termo transcendente = x, indeterminado em si, recebendo determinação apenas indiretamente a partir dos fenômenos que deveria explicar — podendo-se atribuir a essa causa "tudo o que se quiser" | ||
| + | |||
| + | 20. Essa indeterminação estende-se ao próprio nome dado a esse fundamento: a crítica biraniana toma feição dialética ao mostrar que alma de Stahl, Deus das causas ocasionais, Deus de Descartes, inconsciente e jogo dos órgãos são ídolos que se dissolvem em sua própria vacuidade, sendo "a diferença do signo dado à incógnita que faz toda a partilha" | ||
| + | * Biran estabelece a identidade das posições de Malebranche e Stahl, ambas fundadas no mesmo estatuto ontológico da alma como causa desconhecida | ||
| + | * estabelece igualmente a identidade dessas posições com a de Descartes, que recorre a uma força eficaz suprema cuja ideia só pôde ter origem na experiência da força própria | ||
| + | * realiza uma psicanálise exaustiva da ideia de inconsciente, | ||
| + | * critica ainda o termo transcendente = x sob a forma do " | ||
| + | |||
| + | 21. O comentário desse último ponto conduzirá ao centro da problemática biraniana do corpo, mas cabe notar que o termo transcendente, | ||
| + | * o metafísico que fala da alma abstraída do sentimento do eu corre o risco de objetivá-la num ponto do cérebro, tornando-se " | ||
| + | |||
| + | 22. O metafísico incorre nesse destino porque a alma, como termo transcendente = x, é apenas uma sombra sem consistência nem ser, semelhante às almas errantes das mitologias antigas, incapaz de ser qualquer coisa, aspirando à existência mas sendo apenas o nada — faltando-lhe um corpo. | ||
| + | * a edificação de uma ontologia da subjetividade permitiu a Biran dispor precisamente de um corpo que é o nosso e que pode ser designado como a realidade da alma, como o ser autêntico do ego | ||
| + | |||
| + | {{tag> | ||
