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| + | ====== 6 Filho de Deus ====== | ||
| + | //HENRY, Michel. C’est moi la vérité. Paris: Seuil, 1996 (nossa tradução)// | ||
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| + | **6 O homem enquanto "Filho de Deus" | ||
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| + | * A afirmação central do cristianismo é que o homem é filho de Deus, definição que rompe com as representações do senso comum, da filosofia, da ciência e da maioria das religiões, para as quais o homem, ainda que dotado de razão ou compreendido a partir da criação, pertence sempre ao mundo, situado como algo exterior à essência divina | ||
| + | * Distinguem-se duas interpretações do homem como ser do mundo: o realismo ingênuo do objetivismo científico, | ||
| + | * A fenomenologia do século XX, pondo entre parênteses o saber científico, | ||
| + | * Sendo o aparecer do mundo o que precede e torna possíveis todas as formas de relação do homem com ele, e sendo esse aparecer a verdade do mundo, é aqui que reluz o caráter revolucionário do cristianismo: | ||
| + | * Não ignorando o cristianismo o homem transcendental — nenhum pensamento é mais estranho à aparência natural —, ele evidencia porém os limites da problemática kantiana e fenomenológica, | ||
| + | * Definindo o homem como filho, o cristianismo desqualifica toda forma de pensamento que o tome por ser do mundo, pois filho só há na vida, sendo esta em si estranha ao mundo, não consistindo seu modo de fenomenalização na abertura de nenhum "lá fora" | ||
| + | * Essa inversão da concepção do homem não consiste em inverter valores mas em excluir a essência mundana, definindo-se o homem cristão por outra verdade, a carne fenomenológica de seu nascimento na Vida, sendo dizer que o homem é filho e Filho de Deus proposição tautológica | ||
| + | * Extensiva ao homem toda a rede de tautologias fundamentais afirmadas por Cristo sobre si mesmo, abre-se parêntese sobre a cristologia tradicional e a dificuldade de unir em Cristo duas naturezas heterogêneas, | ||
| + | * Aponta-se o erro dessa cristologia: | ||
| + | * Descobre-se pressuposto ainda mais ruinoso nessa cristologia: | ||
| + | * Sendo o Arqui-Filho todo autocumprimento da vida sem outra essência, e sendo o homem igualmente Filho engendrado na vida sem nada além dessa essência, a ideia de uma " | ||
| + | * Essa compreensão repousa na intuição de que há uma só e mesma essência da Vida para Deus, Cristo e o homem, escondendo a expressão tautológica "Filho de Deus" a verdade abissal de que a essência do homem não é o homem nem a humanitas mas a essência da vida divina | ||
| + | * A tese do homem "Filho de Deus" recebe dupla significação: | ||
| + | * O homem deve retomar para si as denegações de Cristo: não é do mundo, não é filho de seu pai biológico, esvaziando-se toda explicação mundana da humanitas de sua pretensão de atingir a realidade primeira, mesmo no exemplo privilegiado do nascimento e dos traumatismos psíquicos | ||
| + | * Recordando o esforço grandioso da redução fenomenológica transcendental de Husserl, que põe o mundo entre parênteses para descobrir a vida transcendental do ego, observa-se que, reduzido esse homem transcendental à " | ||
| + | * Iluminam-se as implicações da tese "homem Filho de Deus": engendrado na Vida, o homem tem os caracteres desta, significando "Deus criou o homem à sua imagem" | ||
| + | * Abre-se o abismo entre nascimento e criação: sendo o homem Filho, ele não é criado nem é imagem, pois imagem só há no mundo, sobre o fundo da colocação em imagem que é o horizonte mundano, não podendo, se criado como o mundo, trazer em si a essência da Vida | ||
| + | * É preciso renunciar à ideia habitual de homem: acreditamos ver um homem porque olhamos o mundo, sendo esse homem visto irmão dos autômatos construtíveis segundo as mesmas leis, faltando-lhe ser vivente no sentido de trazer em si o viver da Vida fenomenológica absoluta, o homem transcendental do cristianismo, | ||
| + | * Coloca-se a questão inevitável: | ||
| + | * Sendo experimentar-se a si mesmo ser necessariamente um Si singular, diferente de todo outro, cada homem é esse Si singular engendrado no autoengendramento da Vida, citando-se Mestre Eckhart: "Deus se engendra como eu mesmo" | ||
| + | * Atravessando a Vida cada um dos que engendra, não havendo nele nada que não seja vivente, retoma-se Eckhart: "Deus me engendra como a si mesmo", | ||
| + | * Introduz-se o conceito decisivo de autoafecção, | ||
| + | * Essa condição fenomenológica se lê em cada modalidade da vida, como a alegria, que embora possa se reportar a acontecimento mundano, em sua afetividade pura não se ilumina em nenhum mundo, sendo modalidade patética da vida | ||
| + | * Distinguem-se conceito forte e conceito fraco de autoafecção: | ||
| + | * Segundo o conceito fraco, próprio do homem, eu me afeto a mim mesmo sem ter posto essa condição de me experimentar, | ||
| + | * Explica-se a relação entre os dois sentidos: o Si singular só se autoafeta na medida em que a Vida absoluta se autoafeta nele, sendo ela quem o dá, revela e permite estreitar-se pateticamente, | ||
| + | * Essa passividade não é atributo especulativo mas determinação fenomenológica constitutiva, | ||
| + | * A pulsão, nascida da angústia, é o esforço infindo da vida autoafetada para converter seu sofrimento em alegria, princípio de toda ação concebível, | ||
| + | * Pergunta-se pela especificidade da autoafecção de Cristo em relação às de Deus e do homem, sendo Cristo, gerado na autoafecção absoluta, copertencente a esse processo como Ipseidade essencial e Primeiro Vivente, " | ||
| + | * Ilumina-se então a relação do homem transcendental com Cristo à luz da relação de Cristo com Deus, descobrindo-se por que a relação entre o homem e Deus não é direta mas mediada por Cristo: o homem é Filho de Deus apenas "Filho no Filho" | ||
| + | * Explica-se: nenhum vivente é possível fora da Vida, nenhuma autoafecção sem gerar em si a Ipseidade essencial pressuposta por todo " | ||
| + | * O Arqui-Filho precede assim todos os Filhos não numa anterioridade factual mas como essência preestabelecida sem a qual nenhum Si vivente poderia se edificar, não tendo nenhum eu transcendental a capacidade de se impulsionar por si mesmo na Vida | ||
| + | * Retoma-se a palavra mais extraordinária de Cristo em sua verdade apodíctica: | ||
| + | * Conclui-se que nenhum vivente chega à vida senão enquanto eu vivente com a condição de que nesta já se tenha edificado a Ipseidade originária, | ||
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