estudos:henry:cc:tecno-economia
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| + | ====== Tecno-economia ====== | ||
| + | //HENRY, Michel. Du communisme au capitalisme. Théorie d'une catastrophe. Paris: Odile Jacob, 1990.// | ||
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| + | **O império da morte: o universo tecno-econômico** | ||
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| + | * Diminuir o tempo de trabalho necessário para aumentar o sobretrabalho e assim a mais-valia só é possível pelo aumento da produtividade, | ||
| + | * Numa " | ||
| + | * Assim que essa capacidade de produção se eleva, a vida afrouxa o aperto da necessidade, | ||
| + | * Essa possibilidade do vão, de produzir mais que as necessidades, | ||
| + | * Tão profundamente enterrada está essa capacidade da vida de produzir mais que sua necessidade, | ||
| + | * Trata-se agora de precisar como a produtividade crescente, exigida pelo acréscimo indefinido da mais-valia, modifica a constituição interna do processo real até subvertê-la inteiramente, | ||
| + | * Define-se rigorosamente produtividade, | ||
| + | * A produtividade designa primeiro a eficácia de uma produção, sua aptidão de criar produtos úteis à vida, identificada essa capacidade criadora ao trabalho vivo, isto é, à própria atividade da vida e à força de que essa atividade é a colocação em obra, pertencendo à produção também elementos objetivos, instrumentos e matérias-primas, | ||
| + | * Desenvolver essa produtividade é desenvolver a eficácia da força da vida, levando-a a se entregar inteiramente e a tirar proveito de sua habilidade, sendo esse acréscimo necessariamente finito, pois o instrumento, | ||
| + | * A exploração sistemática da força de trabalho não bastaria a permitir esse desenvolvimento espetacular sem um evento extraordinário atribuído erroneamente ao capitalismo mesmo, evento que marca a verdadeira virada da história e o início da modernidade, | ||
| + | * Esse evento é um Arqui-fato, mutação decisiva que, situada na história, não é por ela abolida mas nela permanece presente como princípio, conhecendo-se já um Arqui-fato desse gênero, a vida, histórica e ao mesmo tempo meta-histórica | ||
| + | * O segundo Arqui-fato é o Arqui-fato galileano: doravante, no processo real de produção, a produção deixa de ser subjetiva e de se identificar ao trabalho vivo, ainda que instrumentos e matérias-primas sempre tenham sido elementos objetivos, sendo até então a ação em si mesma subjetiva, e seu conhecimento inseparável dessa manipulação subjetiva | ||
| + | * Com Galileu, o encontro com o universo é despojado de sua subjetividade essencial, não sendo mais o corpo sensível nem a força subjetiva que apreende o universo verdadeiro, mas apenas a geometria de figuras extensas, citando-se a metáfora célebre do Livro escrito em triângulos, | ||
| + | * Essa substituição da apreensão corporal subjetiva pelo conhecimento geométrico-matemático acarreta subversão ontológica da ação: já não subjetiva, mas objetiva, produzindo-se diante do olhar do pensamento sob forma de processos objetivos análogos aos da natureza, física, eletromagnética, | ||
| + | * Distingue-se a técnica tradicional, | ||
| + | * Na técnica moderna a subjetividade desaparece, reduzindo-se ao conhecimento físico-matemático, | ||
| + | * Projetando essa mutação sobre o processo real de produção, chega-se à intuição central de Marx, a subversão da estrutura interna das " | ||
| + | * Na técnica tradicional a vida coincide com a atividade pela qual produz os bens necessários, | ||
| + | * Projetando essa mutação sobre o processo econômico tornado, com a inversão da teleologia vital, voltado à produção de dinheiro, sob sua forma pura, recorda-se a tese de Marx, emprestada da escola inglesa e da Bíblia, de que todo valor provém do trabalho, tese apenas inteligível a partir da distinção crucial entre trabalho real e subjetivo, de um lado, e trabalho social e abstrato, do outro, situando-se o fundamento do valor deliberadamente fora da economia | ||
| + | * Na natureza não há valor, tal como não há círculos ou triângulos, | ||
| + | * Estabelecida essa significação meta-econômica da tese de que a força da vida produz o valor econômico, a projeção sobre ele da essência da técnica moderna o ilumina inteiramente: | ||
| + | * Se é o trabalho vivo que cria o valor de troca, a eliminação progressiva desse trabalho no processo real implica sua incapacidade crescente de produzir valor, isto é, torna tendencialmente impossível o próprio processo econômico | ||
| + | * Deve-se recordar a gênese do processo econômico a partir do processo da vida, considerando sua dupla forma histórica: processo de troca na economia mercantil, processo de produção de dinheiro na economia capitalista, | ||
| + | * Persiste a opacidade dessa gênese: cada modalidade subjetiva da força de trabalho é separada por um abismo do equivalente objetivo quantificável a que se quer fazê-la corresponder, | ||
| + | * Quando a economia mercantil se torna capitalista, | ||
| + | * Aqui se produz o Evento crucial, descrito superficialmente enquanto pensado apenas como reação do processo econômico sobre o real: a modificação da estrutura interna deste com a subordinação do trabalho necessário ao sobretrabalho, | ||
| + | * O Advento do tecnocapitalismo, | ||
| + | * A possibilidade de um desenvolvimento sem limites da técnica não se situa no capitalismo nem em sua nova finalidade, mas na própria técnica, mais originalmente na ciência galileana, que permite construir os dispositivos cada vez mais complexos cuja realidade é homogênea aos processos físicos que formam o correlato de seu saber | ||
| + | * Eis o princípio do universo tecno-capitalista, | ||
| + | * O desenvolvimento tecno-científico não apenas torna possível o capitalismo mas o condena à morte, pois este se apoderou das potencialidades tecnológicas apenas para produzir mais valor e dinheiro, mas a valor de troca tem sua fonte no trabalho vivo que o processo técnico exclui irreversivelmente à medida que o invade, tornando-se o processo real incapaz de criar valor de troca, dinheiro, capital, e assim de sustentar um processo econômico cuja própria existência se torna impossível | ||
| + | * A enorme contradição que solapa o mundo moderno não vem apenas do capitalismo, | ||
| + | * Com a irrupção da técnica galileana e a extensão ilimitada de seu autodesenvolvimento, | ||
| + | * Um processo inteiramente automatizado produz valores de uso em quantidade indefinida mas nenhuma valor de troca, sendo esse desequilíbrio entre produção técnica pletórica de valores de uso e produção subjetiva cada vez mais fraca de valor de troca já a situação que se tem diante dos olhos | ||
| + | * Essa situação de crise, atribuída ao capitalismo mas efeito da tecnociência, | ||
| + | * As crises clássicas do capitalismo, | ||
| + | * Mais extraordinário ainda que essa impossibilidade recente de consumir o que se produz é que o traço mais decisivo do processo real tendendo à automatização integral é não mais produzir valores de uso no sentido tradicional — pão para comer, vinho para beber, roupa para vestir —, sentido que sempre foi prescrito pela vida fenomenológica do indivíduo vivo e cumprido em sua subjetividade sofredora e gozante | ||
| + | * Quando a técnica galileana invade o processo real reduzido a dispositivo objetivo, elimina-se não só o trabalho vivo mas também a valor de uso enquanto valor-para-a-vida, | ||
| + | * Um processo de produção cujo funcionamento se reduz ao de um dispositivo material e cujo produto se constitui apenas dos elementos objetivos desse dispositivo é um processo em que nada mais subsiste da vida, um processo de morte | ||
| + | * Descobre-se assim a verdade terrificante: | ||
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