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| + | ====== Do comunismo ao capitalismo ====== | ||
| + | //HENRY, Michel. Du communisme au capitalisme. Théorie d’une catastrophe. Paris: Odile Jacob, 1990.// | ||
| + | **Falência do Socialismo** | ||
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| + | * Assiste-se hoje, ao menos na Europa, ao desmoronamento simultâneo dos regimes ditos socialistas, | ||
| + | * Poder-se-ia interpretar essa estranha convergência dos movimentos revolucionários de Varsóvia, Leipzig, Budapeste, Praga e Bucareste, que atinge a própria URSS sob forma de reivindicações nacionalistas, | ||
| + | * Diz-se que o comunismo é levado por uma onda de fundo e, incapaz de controlar o movimento popular, opta por se juntar a ele, explicação que suscita dúvida, pois a vontade de se livrar do regime existia desde sua instauração, | ||
| + | * Pergunta-se por que o exército recebeu ordem de permanecer nos quartéis ou fraternizar com a multidão, por que esta foi autorizada a manifestar-se, | ||
| + | * Impõe-se aqui a hipótese do Plano: especialista em planos quinquenais que não produzem pão mas miséria, o regime, tomando consciência de sua própria falência, não tem outra saída senão o apelo ao socorro de um vizinho mais próspero, tendo o grande giro da política soviética ocorrido quando os que detinham resquício de poder decidiram voltar-se para o Ocidente | ||
| + | * Segue-se a análise de Alain Besançon: sob o impulso de Andropov, o KGB, único corpo são e organizado da nação, abre institutos para conhecer as metodologias ocidentais, mas essa espionagem sistemática não basta, pois a corrupção interna, com o roubo cotidiano de peças e instrumentos de produção, paralisa definitivamente a economia, exigindo ajuda externa completa que muda não só o regime mas os homens | ||
| + | * Essa ajuda maciça tem condição política: falar a nova língua da democracia, o que explica a encenação formidável assistida pelos telespectadores ocidentais, esse retorno fulminante da verdade aos lugares onde havia perecido | ||
| + | * A primeira reaparição da democracia são os grandes ajuntamentos onde o " | ||
| + | * A primeira reivindicação democrática, | ||
| + | * Impõem-se algumas evidências: | ||
| + | * Esse vasto descontentamento não teria licença de se manifestar se os dirigentes não o tivessem decidido, sendo extraordinário êxito da manobra política que o partido que instaurou o mais terrível dos regimes apareça hoje como a grande força inovadora da época | ||
| + | * Segundo, a mascarada democrática não é isenta de inconvenientes para o regime totalitário, | ||
| + | * Essa falência tem alcance universal, afetando milhões de homens e mulheres que se levantaram não para votar a cada quatro anos mas para viver e pôr fim ao sofrimento, sendo o Ocidente, aos seus olhos, apenas a imagem de uma felicidade imediata, já batizada nas ruas de Budapeste com o nome do McDonald' | ||
| + | * Reconhecer o fracasso universal do comunismo implica denunciar mentiras consubstanciais a ele, a primeira sendo a negação pura e simples do fracasso, tese sustentada por meio século pela quase totalidade dos " | ||
| + | * Uma mentira tão descarada exige formulações mais sutis: as " | ||
| + | * Mais grave ainda: a razão da falência universal do comunismo não é apenas nem primeiramente de ordem econômica, devendo-se afastar a interpretação corrente segundo a qual um fracasso econômico só poderia ter causas econômicas, | ||
| + | * O liberalismo hoje pregado, validado pelo colapso generalizado dos regimes socialistas, | ||
| + | * Todas essas intervenções, | ||
| + | * Descobre-se aqui em toda sua amplitude o projeto socialista, cujo fracasso concerne não apenas a um regime econômico mas ao próprio homem em sua liberdade, pois o socialismo jamais considerou a realidade econômica como ultimamente independente do homem e de suas decisões | ||
| + | * Ilustra-se essa contradição da realidade econômica: um ano fértil arruína os camponeses pela queda dos preços, e o extraordinário surto industrial estimulado pelo progresso técnico produz não riqueza mas crise, com mercadorias em quantidade diante de quem as deseja sem poder adquiri-las, | ||
| + | * O socialismo foi a afirmação metafísica de que essa realidade econômica poderia ser dissolvida pelo pensamento, decomposta por análise e reconstruída de modo a fazer da economia fonte de prosperidade, | ||
| + | * A menos que se formule a questão de modo mais preciso, perguntando-se qual pensamento específico, | ||
| + | * Propõe-se reconhecer no marxismo, como princípio da falência econômica do comunismo, o rebaixamento do indivíduo e sua substituição por abstrações — classe, partido — incapazes por natureza de produzir qualquer ação real, condenando ao dénuement todo regime fundado nessa abstração, | ||
| + | * Seria fácil então preconizar o liberalismo, | ||
| + | * Tal empresa inscreve-se infelizmente num universo econômico que é primeiro o da economia mercantil e depois o do capitalismo, | ||
| + | * O capitalismo conserva relação essencial com a vida por fazer fundo sobre o indivíduo e seu trabalho, o que lhe valeu seus mais brilhantes êxitos, mas ao ser apresentado hoje como único recurso diante do colapso do socialismo, esquece-se que ele próprio agoniza, pois o evento decisivo ainda mascarado de nossa época é que esse capitalismo cede lugar a um fenômeno diferente, o da técnica galileana que invade o processo real de produção, expulsando dele o trabalho vivo, a " | ||
| + | * Anuncia-se a exposição de duas figuras da morte, Leste e Oeste, começando por aquela cuja verdade a história acaba de desvelar e que já desliza para o passado, antes de se voltar à segunda, cuja hediondez de espectro já não tem nada de humano | ||
