estudos:henry:cc:sociedade
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| estudos:henry:cc:sociedade [16/07/2026 12:56] – created - external edit 127.0.0.1 | estudos:henry:cc:sociedade [11/09/2026 04:01] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== Sociedade ====== | ||
| + | //HENRY, Michel. Du communisme au capitalisme. Théorie d'une catastrophe. Paris: Odile Jacob, 1990.// | ||
| + | |||
| + | **A Sociedade, a Classe, contra o indivíduo vivo** | ||
| + | |||
| + | * O indivíduo vivo difere do indivíduo definido pelo pensamento porque em sua relação consigo mesmo, que é justamente sua própria vida, não há pensamento algum no sentido de representação de objeto, nenhuma relação Sujeito/ | ||
| + | * Na vida, ao contrário, esse vir-diante um olhar a título de objeto jamais se produz, mostrando o exemplo de uma dor, uma fome ou um frio que o pensamento não tem como colocar à distância de si mesmo, pois se pudesse fazê-lo, ter-se-ia cessado de sofrer ou de sentir fome, podendo-se representar a fome de diversas maneiras — " | ||
| + | * essa impotência do pensamento a respeito da vida tem-se em razão da própria natureza dessa vida, no fato de não haver, entre ela e ela mesma, nenhuma distância, nenhuma relação a objeto possível, sendo por isso que o eu, o indivíduo vivo, é impotente para se desfazer de sua vida | ||
| + | * Ilustra-se com a época da libertação sexual, quando mulheres diziam "meu corpo é meu, posso fazer dele o que quiser", | ||
| + | * Pergunta-se por que o operário vem a se vender a si mesmo, respondendo-se que é pela obrigação de satisfazer necessidades ditas materiais ou naturais, cujo sentido não se explica pela simples enumeração empírica mas pelo caráter irrepressível e contraignante de cada necessidade vivida como tal, compreensível apenas por sua subjetividade, | ||
| + | * fome, frio e libido são " | ||
| + | * Na vida o mal-estar engendrado pela necessidade cresce até se tornar sofrimento forte demais que aspira a se suprimir a si mesmo, sendo esse movimento a pulsão, cujo peso decorre não da intensidade da necessidade mas de sua subjetividade, | ||
| + | * Nessa união originária do afeto e da ação reside o princípio da atividade incessante pela qual a vida transforma o mal-estar da necessidade insatisfeita em bem-estar da satisfação, | ||
| + | * Pôr o indivíduo vivo no princípio da sociedade e da história não é postular um indivíduo isolado à Robinson Crusoé, sendo tal abstração incompatível com o conceito de um indivíduo definido pela vida, pois na vida nascem indivíduos em número infinito porque cada experiência de si mesma é necessariamente singular e engendra um Si | ||
| + | * Se o indivíduo vivo, sofredor e agente, pulsional e patético, está no princípio da sociedade e de suas leis, basta conceber uma situação em que os indivíduos não fazem mais nada e não querem mais fazer nada para que as condições da vida social sejam abaladas em seu âmago, comprometendo a própria existência dessa sociedade, situação que não é arbitrária mas a simples representação do que se passa nos países do Leste | ||
| + | * Resta compreender por que os indivíduos não querem mais fazer nada, fornecendo o marxismo a primeira resposta teórica através da substituição dos indivíduos vivos por entidades abstratas — a Sociedade, a História, as classes sociais — a partir das quais pretende explicar a totalidade dos fenômenos, efetuando-se assim um extraordinário renversement em que o princípio, o indivíduo vivo, torna-se consequência das abstrações que tomaram seu lugar | ||
| + | * essas abstrações são produtos do pensamento, objetos de pensamento que, enquanto tais, são coisas mortas em sentido rigoroso, não se sentindo nem sofrendo, não obedecendo à grande lei do prazer/ | ||
| + | * Convém precisar essa afirmação, | ||
| + | * há no marxismo, como nas ciências humanas que ele inspirou, a crença de que a realidade pensada no conceito é do mesmo tipo que o conceito, sendo assim a sociedade real compreendida ilusoriamente segundo o modelo do conceito de sociedade, tornando-se a Sociedade uma realidade una da qual os indivíduos são o reflexo, cada um espelhando-a como cada árvore reflete a Árvore | ||
| + | * Descreve-se como o indivíduo se define pela Sociedade de seu tempo desde a infância e a escola, absorvendo uma língua e uma ideologia ao ponto de ser mais correto dizer que não é ele quem fala mas a língua que fala nele, determinando o lugar e a função que ocupará na sociedade | ||
| + | * Para Marx, porém, a sociedade não existe, tese que se impõe irresistivelmente a partir da intuição de que a realidade reside apenas na vida, sob forma individual, tornando-se evidente que a sociedade é apenas uma palavra, um conceito para designar a realidade dos indivíduos vivos que constituem sua substância, | ||
| + | * Essa discussão tem dupla importância teórica e prática: no plano teórico, afirmar que a sociedade constitui realidade específica diferente da dos indivíduos implica leis sociais diferentes das leis do próprio psiquismo individual, tese de Durkheim e sua escola, princípio fundador da própria sociologia, acolhida com favor pelo marxismo em razão da similitude de suas hipóteses fundamentais | ||
| + | * Dessa tese resulta uma dissimetria grave entre os sistemas de regulação social e individual, parecendo o indivíduo fragilíssimo diante do poder da sociedade, tendo os próprios psicólogos reconhecido a interiorização das normas coletivas no psiquismo individual, na origem do Superego freudiano | ||
| + | * Marx rejeitara antecipadamente com violência inaudita essas teses, negando toda realidade à sociedade como entidade substancial autônoma e extraindo dessa negação sua consequência decisiva: se a realidade da sociedade se resolve inteiramente na subjetividade vivente dos indivíduos, | ||
| + | * na polêmica contra Proudhon, Marx rejeita como absurda a ideia de que a sociedade siga leis diferentes das que têm origem no indivíduo: "O Sr. Proudhon personifica a sociedade, faz dela uma sociedade-pessoa... que tem suas leis à parte, nada tendo em comum com as pessoas de que se compõe a sociedade", | ||
| + | * Consideram-se os efeitos práticos dessa ilusão sociológico-marxista, | ||
| + | * Nessa ideologia prática, toda ação para modificar um estado de coisas deve incidir sobre a Sociedade, a causa verdadeira, seguindo-se naturalmente a modificação do comportamento individual, sendo os males dos indivíduos atribuídos à corrupção da sociedade | ||
| + | * Um acaso benevolente permitiu a Marx ridicularizar essa tese ao ironizar os " | ||
| + | * Essa teoria sociológico-marxista do primado da sociedade conduziu os regimes nela fundados a agir sempre sobre a totalidade abstrata, jamais sobre os indivíduos vivos que definem o único lugar e princípio de toda ação efetiva possível, gerando nos habitantes dos países socialistas atitude passiva de esperar tudo dessa sociedade tida como única realidade e único princípio de realização efetiva | ||
| + | * Refletir sobre essa ideologia difusa permite cercar mais de perto o princípio do fracasso econômico do socialismo: se toda realidade reside na vida dos indivíduos e toda ação em seu esforço subjetivo e corporal, a " | ||
| + | * Todo regime em que a sociedade é reconhecida como única realidade e única potência eficaz está por princípio votado à paralisia e à penúria, agravando-se esta à medida que essa crença se reforça no espírito de quem define as opções políticas, econômicas e educacionais | ||
| + | * A penúria não é lei no sentido objetivo que o marxismo e a ciência dão a essa palavra, sendo o objetivismo, | ||
| + | * É ilusão absoluta crer que normas comuns às ações tornam estas realidades de tipo objetivo, ou que leis objetivas possam suscitar por si mesmas a passagem ao ato de qualquer atividade, funcionando como causa das ações individuais, | ||
| + | * Por só ter aparência de lei objetiva, a penúria enraíza-se na ação ou inação dos indivíduos, | ||
| + | * Hipostasiar a sociedade como objeto de pensamento e ciência, discutir infinitamente sobre sua estrutura dialética, não impede reencontrar os indivíduos vivos no princípio de todas essas construções, | ||
| + | * pilhar é apropriar-se de um bem de consumo sem tê-lo produzido, revelando o saque um estado social em que a produção é confiada à " | ||
| + | * O marxismo, contudo, não se detém nessa abstração simples da sociedade, empreendendo análise mais fina de seus constituintes reais, os verdadeiros agentes: as classes sociais, tocando-se aqui em seu aspecto mais inquietante, | ||
| + | |||
| + | {{tag> | ||
