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| + | ====== Elaboração da Verdade ====== | ||
| + | //A obra de arte. Ensaio sobre a ontologia das obras. Tr. Maria Helena Kühner. São Paulo: Difel, 2000// | ||
| + | **V - A " | ||
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| + | * Reagindo ao subjetivismo nietzscheano, | ||
| + | * O centro de gravidade da arte, como a conferência sobre A origem da obra de arte vai mostrar de forma decisiva, é a obra, sendo indiscutível que ela tem origem no artista, mas alguém não é artista unicamente devido às obras que realizou, estando o artista na origem da obra e a obra na origem do artista, situando-se o princípio da arte não na capacidade do artista, mas na efetividade da obra | ||
| + | * Uma obra de arte é, antes de mais nada, uma coisa, transportável, | ||
| + | * Heidegger analisa particularmente a definição de coisa como matéria que recebeu a marca de uma forma, definição herdada de Aristóteles que deriva de um modelo instrumental, | ||
| + | * Se olhamos, como sugere Heidegger, um quadro de Van Gogh representando um par de sapatos, não podemos fazer nada com eles, mas o quadro mostra este objeto de uso enquanto tal, a relação destes sapatos com o trabalho na terra que os tornou desgastados e deformados, evocando estes sapatos usados o elo obscuro com a terra e o duro mundo do camponês que os calçou | ||
| + | * A obra de arte não apresenta simplesmente, | ||
| + | * A obra é irredutível a uma simples coisa explicável pela ligação matéria-forma, | ||
| + | * Para evitar recair no esquema da imitação sugerido pelo exemplo dos sapatos, Heidegger passa a outro exemplo, o do templo grego, que não é a imagem de nada, não imita nada, mas dá lugar a um mundo e revela uma terra | ||
| + | * O templo apresenta e celebra um mundo, que não é nem uma reunião de objetos nem uma espécie de recipiente que os contenha, mas um espaço livre de possibilidades, | ||
| + | * O templo faz surgir e torna manifesta uma terra, conceito que comporta pelo menos quatro sentidos: a terra designa o material de que é feita a obra, no caso o mármore; o templo se ergue em um sítio particular e familiar, como em Delfos; a obra revela uma natureza, no sentido grego de physis, a expansão de todas as coisas, céu, sol, chuva, vento, animais, vegetação; | ||
| + | * É evidentemente o material tirado da terra que traz à luz os outros aspectos ontológicos da terra, inclusive esta reserva secreta, fazendo a obra vir ao mundo o que originalmente escapa ao mundo, seu alicerce e seu fundo abissal, traduzindo a violência que o mundo faz à terra | ||
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| + | **1. A relação mundo-terra em Heidegger** | ||
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| + | * O conflito entre a terra e o mundo é impossível de ser apaziguado, exigindo o mundo a clarificação das formas, espirituais e materiais, e a terra o obscurecimento das formas, o nascimento dos símbolos, sendo o combate do dia e da noite | ||
| + | * Sem a obra, este combate, sempre mais velho do que ela, permaneceria latente, sendo o que ela deixa adivinhar sob suas figuras audíveis ou visíveis uma fenda invisível ou o elo rasgante que une terra e mundo, tendo o equilíbrio da obra que repousa em si mesma sua essência na intimidade do combate | ||
| + | * Toda obra seria assim um terceiro termo, e até mesmo a mais feliz seria a resolução sempre provisória de uma tensão dolorosa, resolvendo-se a brecha ontológica no retraçar de um traço que dá lugar a uma figura, sendo aproximar as duas potências adversas, inscrever um mundo em uma terra, a essência do trabalho artístico, razão pela qual este trabalho não pode ser reduzido a um trabalho artesanal | ||
| + | * A criação artística é o eco deste combate originário, | ||
| + | * A obra de arte é tudo, exceto uma fabricação arbitrária e uma ficção, só sendo obra porque nela aparece a relação mundo-terra, | ||
| + | * A verdade não se institui somente na arte, mas também na radicalidade do pensamento filosófico, | ||
| + | * Mesmo quando a terra é sobretudo a base não revelada que se recolhe e se faz esquecer, ela não se identifica com o que não pode ser revelado, havendo também do lado do mundo, a todo momento, uma dimensão inacessível, | ||
| + | * É exatamente a obra de arte que, modificando o equilíbrio habitual das relações mundo-terra e clarão-recolhimento, | ||
| + | * A obra mostra a terra — a pedra, a madeira, as cores, mas também os sons da música ou da língua, como tais —, mas ao fazê-lo não explora a terra como matéria submetida a uma forma, fazendo, ao contrário do utensílio, cujo material desaparece na utilidade, ressaltar expressamente sua própria dimensão terrestre | ||
| + | * Como já demonstrara Valéry, o que distingue um poema de um trecho comum de prosa é um movimento cadenciado pelo qual a atenção às palavras se desloca de uma sonoridade a uma significação, | ||
| + | * O choque que a obra provoca não é mais o de uma experiência estética, mas o do advento da verdade, do momento em que a História começa ou recomeça, tendo toda obra uma dimensão abrupta, inicial, auroral, por repetir ou retomar a relação mundo-terra à qual estamos incessantemente expostos, mas que, sob a pressão do cotidiano, seguidamente esquecemos, devolvendo a arte mundo e terra em estado nascente, com tudo que ainda têm de indeterminado, | ||
| + | * Quanto mais inquietante é o mundo, mais terrível e estranha é a arte; se, por efeito da técnica, que neutraliza todas as diferenças, | ||
| + | * Lembrando a expressão de Hegel de que a arte é para nós uma coisa do passado, Heidegger comenta que, de qualquer modo, a questão de saber se a arte ainda é, ou se não é mais, um modo decisivo de advento da verdade permanece em aberto | ||
| + | * O fato de uma obra pertencer ao que homem algum, por mais genial que seja, pode criar — uma terra e um mundo — rompe com o primado romântico do artista-demiurgo que modelaria uma matéria inerte ao sabor da própria inspiração, | ||
| + | * Toda obra, para existir e para brilhar, precisa de uma comunidade humana que a receba e preserve, recaindo a obra no esquecimento sem essa preservação fiel e deliberada que não é um culto, não significando preservar uma obra pô-la de lado em um museu, nem igualmente gozar de seus encantos, mas saber e sobretudo querer preservar a perturbadora verdade que ela abre no cotidiano | ||
| + | * O artista está também duplamente afastado do enfoque central, pois estas duas coisas essenciais, a verdade a ser posta em obra e sua preservação, | ||
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| + | **2. "Mas o que permanece são os poetas que o criam..." | ||
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| + | * Nem imposição de uma forma a uma matéria, nem imitação, a obra é um pôr a descoberto a relação mundo-terra em um ente particular, portanto sob uma forma condensada, Condensação que em alemão se traduz por Dichtung, que significa também poesia, sendo toda arte essencialmente Dichtung nos dois sentidos | ||
| + | * O primado da poesia não é o de uma vaga fantasia, mas decorre do primado da língua que, mostrando as coisas como tais, desenha o clarão que é sua aparição, sendo a língua originalmente poema porque descobre o mundo | ||
| + | * Só compreendemos a arquitetura, | ||
| + | * A arte não fabrica esta relação, apenas a traz à luz, razão pela qual não é Schaffen, fabricação, | ||
| + | * A linguagem é a casa do ser: é sobre o fundo da linguagem que todo ente, artístico ou não, nos é acessível, sendo neste sentido que o poeta é um fundador e que, como diz Hölderlin, o que permanece são os poetas que o criam, no sentido de que tudo aquilo que será redesenhado pela arte teve que ser primeiramente nomeado, descoberto pelo poeta | ||
| + | * O artista, embora pense com suas mãos, crie com seu corpo, surge em uma época, em uma história e em um mundo, cuja palavra, primeiro poética, mítica, sempre estabeleceu antes os contornos e os limites, edificando-se a arte com base naquilo que só a força de uma palavra inaugural conseguiu desvelar e instaurar | ||
| + | * Embora toda arte faça época e seja historicamente ancorada por seu estilo, é sempre a poesia que a precede: sem que o deus tenha sido primeiro nomeado, como poderia o escultor modelar sua estátua? Se o sagrado não fosse proclamado, como poderia um templo ser construído? | ||
| + | * Ao mesmo tempo que a linguagem traduz a relação mundo-terra, | ||
| + | * A poesia torna sensível, ao mesmo tempo, o poder de nominação da palavra e a materialidade do verbo, fazendo com que a língua enquanto língua seja ouvida de maneira nova e inédita | ||
| + | * Ao nomear ou renomear inicialmente as coisas, mas também as atitudes e as pessoas, a poesia as devolve à sua integridade, | ||
| + | * O Sagrado, o intacto, escapa a qualquer definição conceitual, é mais incapturável que o próprio ser, é uma derrota para a lógica, paradoxal, ao mesmo tempo arquiantigo e sempre novo, próximo e inabordável, | ||
| + | * Ainda em comentário a Hölderlin, Heidegger pergunta de que servem os poetas em tempos de angústia, reinando a angústia porque o sagrado, condição de toda presença intacta, inclusive a de um deus, se retira e se apaga, podendo os poetas, Hölderlin ou Rilke, ao cantarem essa angústia, ajudar-nos a suportar esta insuportável indigência e a atravessar esta noite do mundo que é o dia tecnológico | ||
| + | * A técnica dessacraliza porque detesta o que não pode ser dominado e finalmente o nega, sendo esta impossibilidade de domínio, de sofrimento, de alegria, do amor ou da morte, o que só o canto poético consegue expressar, e talvez preservar | ||
| + | * O que um poema comunica não é primeiro da ordem de um conteúdo de pensamento, fazendo ouvir primeiro uma voz portadora de uma tonalidade afetiva, ressoando através de toda grande poesia um tom fundamental, | ||
| + | * Esta tonalidade escapa a uma época particular, sendo o sagrado de todos os tempos, mas assume uma nuance específica em cada época, estando a dor que Hölderlin canta ligada à fuga dos deuses e ao ensombrecer do mundo em consequência do racionalismo moderno | ||
| + | * Longe de ser a história quem determina a obra e sua tonalidade, é a obra que abre o acesso a uma época e esboça sua configuração profunda: a arte funda a história, só tendo os homens uma história porque a verdade se revela a eles instalando-se em suas obras, não sendo a época que faz as obras de arte, mas sendo em torno delas que uma época se configura e se reconhece como o que ela é | ||
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| + | **3. Arte e corporeidade: | ||
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| + | * Com Merleau-Ponty, | ||
| + | * A arte expressa nosso secreto e carnal pertencer ao mundo, este pertencer tácito e implícito cujos símbolos serão dados pela obra, ao qual ela não cessará de fazer alusão e ao qual deve nos reconduzir, formulando Merleau-Ponty, | ||
| + | * A arte não deve ser imitação, reprodução de objetos, pois a verdade fenomenológica que traduz não é objetiva, nem deve igualmente ser subjetiva, expressão de um temperamento, | ||
| + | * O mundo percebido é alusivo em duplo sentido: em si mesmo, porque é feito de esboços, de referências, | ||
| + | * Sendo, em profundidade, | ||
| + | * O exemplo privilegiado sobre o qual Merleau-Ponty se apoia, a pintura de Cézanne, parece indissociável de um contexto histórico determinado, | ||
| + | * Cézanne pretende reencontrar, | ||
| + | * Cézanne opera uma síntese entre a tradição clássica, o amor à forma e à construção, | ||
| + | * Este voluntário esquecimento da história não invalida a admirável análise merleau-pontiana, | ||
| + | * A pintura nos mostra uma carne, ou melhor, o que é a carne: uma corporeidade, | ||
| + | * A pintura não vê o mundo, ela deixa o mundo ver-se nela: a paisagem, diz Cézanne citado por Merleau-Ponty, | ||
| + | * Os gestos do pintor, as linhas que ele traça, parecem não sair dele, mas surgir das próprias coisas, como se uma invencível e tácita lei natural as ditasse a ele, buscando o pintor que representa a si mesmo pintando, como fizeram Van Eyck e Velásquez, ou que pinta seu auto-retrato, | ||
| + | * Esta apropriação, | ||
| + | * A ambição da pintura abstrata foi a de aderir a tal ponto a este enigma da carne que acabou deixando-se levar por ela, até produzir um espaço autofigurativo, | ||
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| + | **4. A interpretação existencial do estilo** | ||
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| + | * O que chamamos de estilo não é, para o artista, uma representação subjetiva — uma escolha prévia intelectual, | ||
| + | * O estilo prolonga e sistematiza este trabalho de divisão simbólica em partes, realizado pela percepção, | ||
| + | * Ele só descobre seu estilo à medida que persegue obscuramente sua tarefa e elabora o material artístico; se o estilo é o que comanda o arranjo do quadro tão imperativamente quanto uma sintaxe ou uma lógica, é um sentido latente ou uma matriz da obra que escapa em grande parte a seu autor, ou que ele mesmo só encontra no ato, podendo ser conscientemente manipulado e reproduzido, | ||
| + | * Todo estilo consiste em retomadas incessantes, | ||
| + | * O estilo também não poderia reduzir-se a uma simples maneira ou a um certo modo exterior de acomodar um tema que teria sentido independentemente dele, sendo o sentido mesmo que nasce, dá forma e insufla seu dinamismo à obra: o estilo é a própria obra, não sendo a arte expressão de alguma coisa, mas expressão primordial, isto é, uma instituição de sentido, acontecimento de verdade e, mais precisamente, | ||
| + | * Embora a arte possa parecer às vezes estranha e desconcertante, | ||
| + | * Este enfoque dado por Merleau-Ponty, | ||
| + | * Indubitavelmente, | ||
| + | * Se o pintor não fizesse mais que condensar a ordem perceptiva espontânea, | ||
| + | * Cézanne disse que, a seu ver, o retorno à natureza deveria primeiro passar pelo Louvre, não podendo a dimensão não-histórica, | ||
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