estudos:haar:arte:metafisica
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| + | ====== Metafísica da Arte ====== | ||
| + | //A obra de arte. Ensaio sobre a ontologia das obras. Tr. Maria Helena Kühner. São Paulo: Difel, 2000// | ||
| + | **III - A Época da " | ||
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| + | * O tema da metafísica da arte só emerge com o romantismo, expressão devida a Schopenhauer que subentende a arte em geral vista como o supremo modo de conhecimento, | ||
| + | * Hegel critica a pretensão da arte de ser um saber imediato e intuitivo do absoluto, mas, embora para ele a arte não seja mais que o primeiro círculo do saber absoluto, ela pertence efetivamente a este Saber, cujo objetivo final não pode ser senão o de revelar a verdade | ||
| + | * A emergência da arte como saber, mais tarde, com Nietzsche, como valor supremo, é consequência da ruptura operada pelo romantismo com a limitação kantiana da experiência à ordem dos fenômenos, sendo para os românticos a intuição intelectual, | ||
| + | * A intuição estética é precisamente a intuição intelectual tornada objetiva, segundo Schelling, sendo a obra de arte o resultado de uma operação conjunta da natureza e do espírito, dada no artista considerado como gênio, resultado de uma coincidência entre o impulso natural inconsciente e a atividade consciente, livre, voluntária | ||
| + | * O artista está acima ou aquém dos contrários, | ||
| + | * Estabelece-se uma primazia do artista sobre a obra, mais claramente afirmada em Nietzsche, para quem, numa subjetividade genial, tudo pode tornar-se obra de arte, inclusive a própria vida do artista, sendo esta exaltação do autor em detrimento da obra, para Hegel, uma das causas da morte da arte, sendo outra causa, mais profunda, o esgotamento do conteúdo religioso da arte, relegada na metafísica do artista nietzschiana à categoria de simples meio de obter a exaltação do estado criador artístico | ||
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| + | **1. Schelling: a arte como busca da identidade** | ||
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| + | * A arte é concebida por Schelling, em sua definição mais geral, como a perfeita síntese ou a identidade absoluta entre natureza e liberdade, o real e o ideal, síntese que não existe abstratamente na filosofia, mas concretamente em uma obra acabada, retomando Schelling o tema kantiano segundo o qual a obra se deve exclusivamente ao gênio, a quem a natureza dita regras que ele mesmo é incapaz de conhecer ou explicar | ||
| + | * Enquanto obra acabada, a arte representa de maneira imediata o infinito no finito, realizando a fusão completa do universal e do particular, sua formação-em-um-só, | ||
| + | * A identidade dos opostos que a arte revela sobre um fundo de inconsciente natural não é uma síntese construída a posteriori, mas a identidade original dos princípios, | ||
| + | * Esta busca da identidade original pela arte forma o fio condutor de toda a filosofia da pintura de Schelling, que atribui importância fundamental ao claro-escuro, | ||
| + | * O claro-escuro faz aparecer o corpo como corpo, pois a luz e a sombra lhe revelam a espessura, não se satisfazendo o olho exclusivamente nem com a luz nem com a sombra, sendo o dégradé que distribui as massas de luz e sombra o que põe o olho em um estado de indiferença nascida da diferença | ||
| + | * Outra identidade é a da aparência e da verdade, sendo a pintura a arte na qual a aparência deve ser verdade e a verdade, aparência, não exigindo a arte que se renuncie à verdade, pois as gradações insensíveis de luz e sombra fazem parte da experiência perceptiva e podem ser descritas como um claro-escuro natural, que dá em pintura a perspectiva aérea | ||
| + | * A cor é definida como indiferenciação absoluta da matéria e da luz e, de modo mais difícil de compreender, | ||
| + | * Apesar desta abstração, | ||
| + | * No Discurso sobre as artes plásticas de 1807, Schelling posiciona-se quanto à questão clássica da imitação da natureza, não podendo a arte representar simplesmente as formas exteriores das coisas como cascas vazias, mas tendo que reencontrar a força criadora que as fez nascer, este espírito da natureza que o artista deve tomar por modelo, ultrapassando assim a natureza real e remontando à natureza naturante, ao Ser verdadeiro, e encontrando uma beleza viva dotada de uma realidade insondável que a torna semelhante a uma obra da natureza | ||
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| + | **2. Schopenhauer: | ||
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| + | * Schopenhauer está mais próximo de Kant que de Hegel, isto é, mais próximo de uma estética preocupada com as transformações que o prazer estético produz no sujeito que de uma filosofia da arte centrada nas obras, voltando-se sua reflexão para o prazer estético, resultante do desinteresse do conhecimento em relação ao querer e de uma contemplação puramente objetiva das coisas apreendidas como ideias pelo sujeito tornado puro e impessoal | ||
| + | * A obra de arte não é mais que um meio destinado a facilitar o conhecimento da ideia, conhecimento que constitui o prazer estético, definindo-se a arte como um modo de conhecimento intuitivo, imediato, das Ideias | ||
| + | * Schopenhauer distingue dois tipos de conhecimento correspondentes aos dois aspectos fundamentais do mundo, representação e vontade, objeto e sujeito: do ponto de vista da representação, | ||
| + | * Antes de objetivar-se nos diversos fenômenos e de expressar-se na multiplicidade dos indivíduos, | ||
| + | * O prazer artístico, do qual a obra de arte não é mais que um meio, não passa de uma forma de prazer estético, o de perceber estas formas puras fora do tempo, do espaço e da individualidade, | ||
| + | * Schopenhauer só se refere às diferentes artes depois de elaborar sua teoria do belo, classificando-as segundo seu grau de libertação em relação à materialidade e à necessidade natural, ordenando-se a partir da arquitetura, | ||
| + | * Quanto à música, a arte mais elevada, ela não se situa na série das artes, sendo de uma essência inteiramente à parte, já que enquanto o artista nos faz remontar das coisas às Ideias que nelas se concretizam, | ||
| + | * Cada nota da escala corresponde a diferentes níveis de objetivação do querer, refletindo a escala musical a escala dos seres na natureza: as notas mais graves aos corpos inorgânicos, | ||
| + | * A música seria a forma pura de todos os fenômenos, exprimindo o que há de metafísico no mundo físico, a coisa em si de cada fenômeno, por isso as melodias aclaram o próprio fundo da vontade e dos sentimentos | ||
| + | * Por mais sedutora que esta teoria se mostre, pode-se questionar se ela não está querendo provar demasiado, pois se a essência da música fosse de ordem natural e física, o trabalho do músico estaria reduzido a uma simples transcrição, | ||
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| + | **3. Os pressupostos do sistema hegeliano das artes** | ||
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| + | * A Estética de Hegel oferece uma vigorosa interpretação do desenvolvimento histórico das diferentes artes, fundamentada em certos pressupostos metafísicos resultantes do sistema hegeliano | ||
| + | * A arte, como tal, é um saber, havendo na arte um conhecimento do Espírito absoluto, mas este conhecimento é apenas imediato ou intuitivo, atingindo a arte a verdade absoluta mas apreendendo-a sob a forma direta da intuição ou do sentimento, sem concebê-la, | ||
| + | * A arte é unidade do sensível e do espiritual, da natureza e do espírito, compreendendo-se a obra de arte como encarnação de um conteúdo de pensamento em uma forma sensível, não sendo a aparência artística uma ilusão, mas constituindo um momento essencial da essência, sem que a unidade do interior e do exterior signifique necessariamente adequação | ||
| + | * A adequação entre a forma sensível exterior e o conteúdo será característica da arte clássica, da arte grega, ao passo que a arte simbólica, oriental, asiática ou egípcia, caracteriza-se pela predominância do exterior sobre o interior, e a arte romântica, cristã, pelo triunfo do interno sobre o externo | ||
| + | * O conteúdo da arte é a religião, sendo o divino, os deuses ou Deus, o que constitui o centro em torno do qual a arte gravita, sem que isso signifique que a arte não possa expressar mais que uma teologia explícita, participando com o cristianismo a interioridade puramente humana do divino, como no sentimento do amor, tema essencial da pintura para Hegel, seguindo o desenvolvimento da arte o da religião em seus três grandes momentos | ||
| + | * À religião da natureza corresponde uma arte simbólica e o primado da arquitetura, | ||
| + | * Ao politeísmo da religião grega corresponde a arte clássica, que dá a primazia à escultura, realizando esta a identidade completa entre o conteúdo, o deus particular, e a forma corporal humana sob a qual ele aparece, correspondendo cada deus individual a um ideal — a majestade, a serenidade, a força, a beleza — representável por uma forma corporal relativamente abstrata e pouco individualizada | ||
| + | * À religião cristã corresponde a arte romântica, que dá lugar às três artes subjetivas — pintura, música, poesia —, fazendo do mundo exterior apenas o acidental, o simbólico em relação ao essencial, que é a subjetividade dotada de interioridade infinita à imagem de Deus feito homem, não estando o conteúdo espiritual mais limitado a um ideal, mas distribuído entre almas particulares | ||
| + | * Ao possibilitar a síntese suprema do Deus-feito-Homem, | ||
| + | * A célebre tese hegeliana afirma que, quanto a seu destino supremo, a arte continua sendo para nós uma coisa do passado, não sendo mais para nós a forma mais elevada pela qual a verdade afirma sua existência, | ||
| + | * A arte não morre apenas por ter cedido seu lugar à filosofia, morrendo também por si mesma quando, pela lógica de seu próprio desenvolvimento, | ||
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| + | **4. As três épocas da arte** | ||
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| + | * O sistema hegeliano das artes baseia-se no princípio do progresso das artes no sentido de uma expressão cada vez mais clara, cada vez menos simbólica, de uma verdade cada vez mais interior ao sujeito humano, resultando a perfeição de uma obra ao mesmo tempo da profundidade de seu conteúdo em ideias e da adequação da forma sensível a este conteúdo | ||
| + | * Desde a arquitetura, | ||
| + | * Cada uma das formas de arte corresponde a uma tensão única entre o conteúdo e a forma sensível: quanto mais abstrata for a ideia, mais concreta será a forma, e quanto mais a ideia se concretiza, mais a forma se torna abstrata, estando a maior parte da história da arte marcada pela inadequação entre a aparência exterior e a significação interna, sendo das três épocas — simbólica ou oriental, clássica ou grega, romântica ou cristã — somente a clássica capaz de atingir a adequação da ideia e de sua expressão, na finitude da forma humana considerada como encarnação do divino | ||
| + | * A arte simbólica, correspondente ao panteísmo das religiões orientais, caracteriza-se por uma inquietude, uma violência devoradora, pela qual uma ideia abstrata, a da liberdade e potência infinitas da natureza, busca encarnar-se em formas naturais insuficientes para expressar este universal, maltratando-as ao alongá-las desmedidamente até o gigantesco e o colossal, ao multiplicá-las, | ||
| + | * A arte clássica, da livre adequação entre a forma e o conceito, satisfaz-se com o finito, sob a dupla espécie da forma do corpo humano e da individualidade espiritual de tal ou qual deus, sendo o domínio da beleza antropocêntrica que volta as costas à natureza | ||
| + | * A falha e a insuficiência da arte grega são de natureza teológica: a natureza humana e a natureza divina não estão verdadeiramente reconciliadas, | ||
| + | * A arte romântica tem por base a subjetividade, | ||
| + | * Sua falha é que o sensível, o externo, é tratado como elemento acidental, não-essencial, | ||
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| + | **5. O progresso das artes** | ||
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| + | * A arquitetura, | ||
| + | * A escultura, arte clássica, realiza a identidade completa entre o conteúdo, o deus particular, e a forma corporal humana sob a qual ele aparece, fazendo o deus entrar no templo ao penetrar a massa inerte com o brilho da individualidade, | ||
| + | * A escultura clássica grega recusa-se a perder-se nos acidentes, não apresentando ao exterior mais que a forma abstrata da interioridade humana, dividida em inúmeras individualidades ideais, como as divindades do amor, da guerra, da força e da justiça | ||
| + | * A arte romântica separa-se novamente da exterioridade, | ||
| + | * Para expressar o imenso domínio da particularidade, | ||
| + | * A interpretação da pintura dada por Hegel mostra a força, mas também os limites de uma estética do conteúdo, dando muito maior peso aos motivos e temas pictóricos, | ||
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