estudos:greisch:ot:7
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| + | ====== §7 Ontologia e Fenomenologia ====== | ||
| + | //GREISCH, Jean. Ontologie et temporalité. Paris: PUF, 1994, [[obra: | ||
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| + | 1. Todas essas considerações metodológicas encontram seu desfecho no parágrafo 7, que acentua ainda mais a ruptura com as ontologias tradicionais, | ||
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| + | **1. O que é um fenômeno? | ||
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| + | 2. O que é um fenômeno só se compreende aceitando falar e pensar em grego, encontrando-se, | ||
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| + | 3. É fenômeno tudo o que aparece, vem à luz, como o sol aparece ao sair detrás das nuvens, não havendo, num fenômeno meteorológico desse tipo, lugar para distinguir entre um sol aparente e um sol real, sendo o fenômeno o próprio sol real, só havendo lugar para distinguir entre o sol real e um simples sol de teatro em circunstâncias bem precisas, visando expressões como o dia aparece ou a criança aparece fenômenos inteiramente positivos. | ||
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| + | 4. Ambas as possibilidades inscritas no verbo grego φαίνεσθαι devem ainda ser distinguidas de um terceiro sentido correspondente à palavra alemã Erscheinung, | ||
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| + | * "O aparecer é um não-se-mostrar [Erscheinen ist ein sich-nicht-zeigen]" | ||
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| + | 5. Deve-se notar em particular a declaração de que os fenômenos nunca são aparições, | ||
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| + | * "Os fenômenos nunca são aparições, | ||
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| + | **A ideia formal e a efetivação concreta da fenomenologia** | ||
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| + | 6. Fenomenologia não quer dizer outra coisa senão o descobrimento advocatício, | ||
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| + | * " | ||
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| + | **2. A essência delótica (délotique) do logos** | ||
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| + | 7. Para compreender a natureza verdadeira do logos é preciso ainda aceitar falar e pensar em grego, descobrindo-se então que ela recobre, ao menos em parte, a definição do primeiro sentido fundamental do termo fenômeno, partindo-se do fato de que, em Platão e em Aristóteles, | ||
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| + | 8. A solução do problema não pode ser semântica, só podendo ser fenomenológica, | ||
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| + | 9. Heidegger esboça então as grandes linhas de uma reinterpretação fenomenológica do Tratado da interpretação de Aristóteles, | ||
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| + | 10. Trata-se primeiro de reconhecer que a função sintética que caracteriza o discurso declarativo tem uma significação puramente apofântica, | ||
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| + | 11. Aristóteles precisa por outro lado que palavras isoladas não podem ser nem verdadeiras nem falsas, tendo as palavras isoladas um sentido ou não o tendo, só podendo a proposição ser dita verdadeira ou falsa, sendo sobretudo no nível do conceito de verdade que essa releitura fenomenológica da teoria aristotélica da proposição declarativa terá consequências consideráveis, | ||
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| + | 12. A consequência mais importante de tudo isso é que se torna então impossível encerrar o conceito de verdade numa teoria lógica da proposição ou do juízo, não sendo o logos, no sentido proposicional da palavra, o lugar primário e nativo da verdade, representando o discurso declarativo quando muito uma modalidade particular do fazer ver, sendo preciso, como fizeram os gregos, alargar de novo o conceito de verdade até nele incluir o poder revelador próprio da sensação, pois é primeiramente nesse nível que se entra em contato com a verdade do ser que se manifesta sem engano possível, havendo uma confiança elementar no poder revelador dos sentidos que nos põem em relação com o que Husserl chama um solo de crença pressuposto em todos os nossos atos de juízo. | ||
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| + | * "O logos, no sentido proposicional da palavra, não é o lugar primário, nativo, da verdade" | ||
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| + | 13. Revelando-se que a verdade judicativa ou proposicional é um fenômeno de verdade já fundado de múltiplas maneiras, torna-se por um lado impossível fundar o conceito de verdade sobre uma simples teoria do juízo e por outro necessário fundar a verdade judicativa sobre um conceito fenomenológico mais adequado, tarefa a ser retomada posteriormente. | ||
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| + | * " | ||
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| + | 14. Essa primeira incursão numa teoria fenomenológica do discurso declarativo oferece uma solução ao enigma do qual se havia partido, pois, compreendendo o logos a partir da função fundamental do puro e simples fazer ver de algo, a plurivocidade do termo encontra explicação, | ||
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| + | **3. Fenomenologia e hermenêutica: | ||
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| + | 15. Ao aproximar as duas análises terminológicas realizadas, descobre-se a verdadeira significação do termo fenomenologia, | ||
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| + | * "Fazer ver a partir de si mesmo aquilo que se mostra tal como se mostra a partir de si mesmo" (SZ 34). | ||
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| + | 16. É, contudo, a passagem do conceito vulgar e formal de fenômeno ao conceito fenomenológico que requer toda a atenção, devendo apostar-se em que o próprio inaparente, isto é, tudo o que não é de saída claro como o dia, também releva dessa técnica da colocação em luz fenomenológica, | ||
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| + | * " | ||
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| + | 17. Chega-se assim a uma encruzilhada de todo decisiva, sendo-se convidado a passar de uma fenomenologia do aparente, conceito vulgar de fenômeno, a uma fenomenologia do inaparente, repousando esta inteiramente sobre a aposta de que é precisamente porque os fenômenos, de início e na maior parte das vezes, não são dados que há necessidade de fenomenologia, | ||
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| + | * "É precisamente porque os fenômenos, de início e na maior parte das vezes, não são dados que há necessidade de fenomenologia" | ||
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| + | 18. Muitas coisas dependerão então da definição que se der do fenômeno no sentido não vulgar, não tolerando a posição heideggeriana equívoco algum, devendo-se dizer que de fenômeno no sentido fenomenológico só há um único, o ser do ente, tendo por consequência clara que ontologia e fenomenologia se confundem absolutamente, | ||
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| + | * "O conceito fenomenológico de fenômeno designa, a título daquilo que se mostra, o ser do ente, seu sentido, suas modificações e seus derivados" | ||
| + | * "A ontologia só é possível como fenomenologia" | ||
| + | * "O fenômeno no sentido fenomenológico é sempre apenas aquilo que constitui o ser, e o ser é sempre o ser do ente" (SZ 37). | ||
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| + | 19. Aos olhos de Heidegger, tudo se passa como se somente essa conversão ontológica impedisse a fenomenologia do inaparente de evadir-se para trás-mundos artificiais, | ||
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| + | * "Tanta aparência, tanto ser [Wieviel Schein jedoch, soviel Sein]" (SZ 36). | ||
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| + | 20. Uma fenomenologia do inaparente faz, em contrapartida, | ||
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| + | 21. Pode-se então precisar o perfil da descrição fenomenológica, | ||
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| + | * "A fenomenologia do Dasein é hermenêutica no sentido originário da palavra, segundo o qual ela designa o trabalho da explicitação" | ||
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| + | 22. Isso exigirá, por um lado, esclarecer o sentido exato da palavra Auslegung, explicitação, | ||
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| + | 23. O sentido tradicional do termo, que faz da hermenêutica um trabalho de interpretação e explicitação, | ||
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| + | 24. A hermenêutica está além disso a serviço da elaboração das condições de possibilidade de toda pesquisa ontológica, | ||
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| + | 25. Quanto à própria analítica existencial, | ||
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| + | 26. Acrescenta-se a isso um último sentido considerado derivado, o da hermenêutica no sentido epistemológico de uma teoria geral da interpretação, | ||
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| + | 27. Compreende-se então melhor o mal-entendido que opõe os defensores de uma interpretação minimalista e maximalista da hermenêutica heideggeriana, | ||
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| + | 28. Num certo sentido, pode-se dizer que a exposição da questão do ser se encerra sobre esse motivo, consistindo o resto do parágrafo em algumas explicações relativas à relação com a fenomenologia husserliana, | ||
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| + | * "A compreensão da fenomenologia consiste unicamente em se apreender dela como possibilidade" | ||
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| + | 29. Acrescenta-se a isso uma advertência dirigida ao leitor da obra, tendo consciência do caráter árido de sua própria terminologia, | ||
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| + | * "Uma coisa é dar conta do ente de modo narrativo, outra é apreender o ente em seu ser" (SZ 39). | ||
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| + | 30. Ao termo desses sete primeiros parágrafos, | ||
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| + | * "O ser é o transcendens por excelência" | ||
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