estudos:greisch:ot:34
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| + | ====== §34 Discurso ====== | ||
| + | //GREISCH, Jean. Ontologie et temporalité. Paris: PUF, 1994// | ||
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| + | 1. A análise do enunciado, que inclui necessariamente a dimensão da comunicação, | ||
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| + | 2. Para circunscrever a natureza do problema, Heidegger introduz de saída duas teses, sendo a primeira delas a de que o fundamento ontológico-existencial da linguagem é o discurso, podendo-se arriscar em primeira aproximação uma glosa que dá razão a Benveniste contra Saussure, a saber, que o discurso preexiste à língua, não havendo primeiro um sistema fechado de signos cuja significação seria puramente imanente à língua e depois um locutor que dele se apoderasse num ato de tomada de palavra, precedendo antes, na ordem existencial-ontológica, | ||
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| + | * "O fundamento ontológico-existencial da linguagem é o discurso" | ||
| + | * "Há linguagem porque há discurso" | ||
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| + | 3. A segunda tese estabelece que o discurso é existencialmente coriginário com a afecção e o compreender, | ||
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| + | * "O discurso é existencialmente coriginário com a afecção e o compreender" | ||
| + | * " | ||
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| + | 4. O que se exprime no discurso ou o que nele vem à palavra é sempre uma certa afecção e uma certa compreensão, | ||
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| + | * "Às significações crescem palavras. Mas não são as palavras-coisas providas de significações" | ||
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| + | **O fenômeno da linguagem** | ||
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| + | 5. Uma vez que o Dasein é significante em seu próprio ser, ele vive em significações e pode exprimir-se enquanto tais, e é somente porque há ressoares que se agregam à significação, | ||
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| + | * " | ||
| + | * "O ser particular da linguagem mesma ainda está totalmente não-elucidado" | ||
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| + | 6. Existencialmente falando, nunca nos encontramos na situação fictícia de já possuirmos um significante a alocar a um significado ainda não encontrado, estando ao contrário as significações já presentes, habitando-nos já a título de afecções, compreensões ou explicitações, | ||
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| + | 7. Compreende-se então melhor o sentido da declaração de que o ser-exprimido-para-fora do discurso é a linguagem, podendo os vocábulos, uma vez encontrados e ditas as coisas, iniciar uma carreira independente do querer-dizer do locutor, tornando-se então a linguagem a língua no sentido saussuriano do termo, um utensílio à-mão extremamente performático, | ||
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| + | 8. Enquanto fenômeno existencial, | ||
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| + | **1. A linguagem como objeto da linguística e da fenomenologia hermenêutica. O problema epistemológico (SZ 165-166)** | ||
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| + | 9. Ao final do parágrafo, Heidegger propõe alguns marcos simples visando determinar a relação que sua análise pode manter com a ciência da linguagem, consenso mínimo que permite associar fenomenologia hermenêutica, | ||
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| + | * "O Dasein tem uma linguagem" | ||
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| + | 10. A censura endereçada à antropologia filosófica parece valer também, mutatis mutandis, para a linguística, | ||
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| + | * " | ||
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| + | 11. O fato de todo discurso versar obrigatoriamente sobre algo não significa de modo algum que a linguagem esteja integralmente subordinada aos interesses cognitivo-objetivistas próprios do lógico, convindo antes lembrar que sua função primeira é a apresentação explicitante do mundo circundante enquanto objeto de ocupação, podendo-se estabelecer aqui uma aproximação entre o pragmatismo existencial do primeiro Heidegger e o pragmatismo linguístico do segundo Wittgenstein, | ||
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| + | * " | ||
| + | * " | ||
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| + | 12. Aceitar repensar os próprios fundamentos é a mesma exigência que Heidegger dirige igualmente à história, à psicologia etc., podendo-se perguntar se o existencial do discurso em sua estrutura apriorística em geral pode ser reconhecido pelo linguista enquanto linguista, e sob que condições, | ||
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| + | * " | ||
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| + | 13. Resta ainda aceitar fazer valer, nos dois sentidos, a máxima de Paul Ricœur segundo a qual explicar mais é compreender melhor, postulando Heidegger que a pesquisa filosófica deverá renunciar à filosofia da linguagem para inquirir as próprias coisas, consistindo outra aposta em admitir que, explicando mais a natureza linguística da linguagem, uma linguística do discurso ofereceria melhores chances de compreender melhor a significação existencial do discurso. | ||
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| + | * "A pesquisa filosófica deverá renunciar à ' | ||
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| + | 14. É essa segunda possibilidade, | ||
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| + | **Como colocar a questão da origem da linguagem? Esboço de uma (falsa) resposta** | ||
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| + | 15. Reler o texto de Rousseau na ótica existencial de Heidegger pode revelar outra maneira de colocar a questão da origem que o "isso deve ter sido" rousseauniano, | ||
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| + | * "É preciso crer que as necessidades ditaram os primeiros gestos, e que as paixões arrancaram as primeiras vozes" (Rousseau, Ensaio sobre a origem das línguas, cap. II). | ||
| + | * "Não se começou por raciocinar, mas por sentir" | ||
| + | * " | ||
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| + | **2. Redescobrir o ato discursivo completo** | ||
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| + | 16. Ousa-se formular ainda uma segunda aposta, a de um aproximação fecunda entre a abordagem linguística e a análise existencial estendida também, sob certas condições, | ||
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| + | 17. Todo dizer real, toda produção real de um discurso composto de uma sequência de enunciados, pressupõe o ser-um-com-o-outro ocupado, dizer endereçado, | ||
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| + | * " | ||
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| + | 18. Desenha-se assim um terreno de entendimento possível com a filosofia analítica da linguagem, ao menos com os teóricos dos speech-acts, | ||
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| + | 19. Essas aproximações, | ||
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| + | * " | ||
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| + | 20. Uma teoria linguística da linguagem terá enfim dificuldade em reconhecer que o discurso enquanto fenômeno do [[lx> | ||
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| + | * "A comunicação das possibilidades existenciais da afecção, ou seja, o abrir da existência, | ||
| + | * "Rico de méritos, certamente, mas poeticamente habita o homem sobre esta terra" (Hölderlin). | ||
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| + | 21. Em Sein und Zeit trata-se apenas de um simples esboço que se limita a assinalar brevemente algumas dimensões constitutivas do discurso, a saber, o sobre-que do falar, o falar como tal, a comunicação e o anúncio, e a colocar uma exigência, a de elaborar previamente o todo ontológico-existencial da estrutura do discurso a partir da analítica do Dasein. | ||
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| + | * "O sobre-que do falar (aquilo de que se fala), o falar como tal, a comunicação e o anúncio" | ||
| + | * "O que permanece decisivo é elaborar previamente o todo ontológico-existencial da estrutura do discurso a partir da analítica do Dasein" | ||
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| + | 22. Não é de todo proibido encontrar um equivalente linguístico dos quatro momentos estruturais que definem a unidade estrutural da essência da linguagem, sugerindo-se uma aproximação com o célebre esquema jakobsoniano das seis funções presentes em todo ato linguístico, | ||
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| + | **3. Escutar e calar** | ||
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| + | 23. No vasto canteiro designado por essa declaração programática, | ||
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| + | **a) Dizer e escutar** | ||
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| + | 24. Heidegger formula primeiro a tese de que a escuta é constitutiva do falar, não sendo esta, tal como o falar não é um simples ressoar vocal, uma simples percepção acústica, mas uma possibilidade existencial, | ||
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| + | * "A escuta é constitutiva do falar" (SZ 163). | ||
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| + | 25. A escuta supõe uma relação particular com o outro, inscrevendo a dimensão da alteridade no cerne da existência, | ||
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| + | * "Muito experimentou o homem/dos celestes muitos nomeou/ | ||
| + | * "O prestar ouvido a..., o ter ouvidos para [hören auf] é o ser-aberto existencial do Dasein enquanto ser-com para com o outro" (SZ 163). | ||
| + | * "A escuta constitui mesmo o ser-aberto primário e autêntico do Dasein para seu poder-ser mais próprio, enquanto escuta da voz do amigo que todo Dasein carrega consigo" | ||
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| + | 26. Vários comentadores destacaram essa frase surpreendente, | ||
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| + | 27. Seja como for dessa leitura diferente, que evidentemente envolve o problema da relação entre ética e ontologia, compreender e escutar tornam-se indissociáveis na ótica existencial de Heidegger, pois o Dasein ouve porque compreende, fundando a dependência ou mesmo a submissão ao outro um pertencimento, | ||
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| + | * "O Dasein ouve porque compreende" | ||
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| + | 28. Compreendida nesse sentido, a escuta possui necessariamente uma estrutura intencional, | ||
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| + | 29. Poder-se-ia perguntar pela ausência, no campo lexical da escuta, do lexema Gehorchen, designativo da obediência, | ||
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| + | * "Só quando é dada a possibilidade existencial do falar e do ouvir [[[lx> | ||
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| + | **b) Dizer e calar (Schweigen)** | ||
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| + | 30. Tal como todo discurso é tecido de escuta, ele é igualmente atravessado de silêncios, dando a essa expressão toda a amplitude das significações existenciais que pode receber, não formando dizer e calar mais uma oposição exclusiva, mas dois fenômenos complementares absolutamente indissociáveis, | ||
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| + | * " | ||
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| + | 31. Ainda que seja difícil analisar esse tipo de troca e os efeitos que produz com simples categorias linguísticas, | ||
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| + | 32. Numa ótica existencial, | ||
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| + | * "Só no falar verdadeiro um fazer-silêncio autêntico se torna possível" | ||
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| + | **B. O " | ||
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| + | 33. Torna-se necessário agora transpor a linha de cesura que, no esquema orientador desta leitura, separava os dois triângulos invertidos, reencontrando-se assim o fenômeno perdido de vista ao longo de toda a análise precedente, o da cotidianidade, | ||
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