estudos:greisch:ot:1994-autointerpretacao-de-ser-e-tempo
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| + | ====== Autointerpretação de Ser e Tempo ====== | ||
| + | //GREISCH, Jean. Ontologie et temporalité. Paris: PUF, 1994// | ||
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| + | **O problema de Sein und Zeit (a primeira autointerpretação)** | ||
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| + | 1. A conclusão desta interpretação de Sein und Zeit é confiada à palavra do próprio Heidegger, no momento em que este inicia o trabalho de autointerpretação de seu Hauptwerk, trabalho que prosseguirá até o fim de sua vida, documento notável constituído pelo parágrafo 10 do último curso de Marburgo, intitulado "O problema da transcendência e o problema de Sein und Zeit" (GA26, 171-195), sendo digno de nota que, apenas um ano após a publicação de sua obra maior, já se tenha sentido a necessidade de fixar, sob a forma de doze proposições diretrizes ou teses, de modo quase canônico, a maneira como essa obra deveria ser lida. | ||
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| + | 2. O parágrafo se abre com uma espécie de advertência liminar, sob a forma de lembrete da finalidade puramente ontológica da analítica existencial, | ||
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| + | 3. As doze proposições diretrizes que formam a trama dessa autointerpretação repartem-se em duas séries, sendo a primeira, formada pelas dez primeiras teses, uma interpretação temática dos principais temas abordados no quadro da analítica, com a preocupação de precisar a maneira como esses temas devem ser tratados, e a segunda, formada pelas duas últimas teses, apresentando o que se poderia chamar o estilo próprio da analítica. | ||
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| + | 4. No interior da primeira série distinguem-se dois subgrupos, sendo a palavra-chave do primeiro, correspondente às cinco primeiras teses, o adjetivo neutro, respectivamente o substantivo neutralidade, | ||
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| + | 5. Tudo começa e tudo depende da neutralidade fundamental que caracteriza a própria noção de Dasein, diferentemente da noção de homem, primeiro aspecto que pode ser designado neutralidade antropológica, | ||
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| + | * "O Dasein designa o ente para quem sua própria maneira de ser não é indiferente [[[lx> | ||
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| + | 6. Igualmente surpreendente é o segundo aspecto da neutralidade, | ||
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| + | * "Essa neutralidade significa igualmente que o Dasein não é nenhum dos dois sexos" (GA26, 172). | ||
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| + | 7. É preciso compreender o sentido dessa proposição espantosa antes de zombar dela ou suspeitar de suas implicações: | ||
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| + | 8. Heidegger sente ainda a necessidade de precisar essa neutralidade, | ||
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| + | * "Essa assexualidade não é a indiferença da nulidade vazia, a fraca negatividade de um nada ôntico indiferente. O Dasein em sua neutralidade não é indiferentemente ninguém e todo mundo, mas a positividade e a potência original da essência" | ||
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| + | 9. A neutralidade tampouco é sinônima de abstração, | ||
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| + | 10. O Dasein nunca se confunde com tal ou qual existente concreto-factual, | ||
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| + | * "A analítica não fala nunca ao Dasein a partir do Dasein do existente, mas ela não fala ao Dasein das existências" | ||
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| + | 11. O derradeiro rosto da neutralidade é o isolamento metafísico do homem, que o parágrafo 40 de Sein und Zeit havia feito descobrir sob a espécie do solipsismo existencial, | ||
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| + | 12. O tema do isolamento metafísico forma uma espécie de denominador comum das cinco teses seguintes, que exploram cada uma um aspecto mais particular desse isolamento, discutindo a sexta tese, de longe a mais longa de todo esse esboço de autointerpretação, | ||
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| + | * "Toda a questão metódica fundamental na qual se decide a possibilidade da filosofia em geral, a saber: é possível fundar a filosofia enquanto tal se se coloca o solo da própria problemática na sensibilidade?" | ||
| + | * "Todo desvelamento, | ||
| + | * "A caverna do Dasein, com tudo o que ela contém de sombrio e de fugaz, só é... apreensível na luz" (ibid., 398 [346]). | ||
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| + | 13. Heidegger se aplica, em sua autointerpretação, | ||
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| + | * "O Dasein em geral abriga em si a possibilidade interna da dispersão [Zerstreuung] factícia na corporeidade e na sexualidade" | ||
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| + | 14. Esse léxico estranho, segundo o qual o Dasein enquanto factício está sempre estilhaçado em um corpo e por isso mesmo sempre clivado em uma sexualidade determinada, | ||
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| + | * "O Dasein em tanto que factício é entre outras coisas sempre estilhaçado em um corpo e por isso mesmo sempre clivado em uma sexualidade determinada" | ||
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| + | 15. A diversificação que o próprio Dasein encerra tem de algum modo relação com a corporeidade, | ||
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| + | * "A diversificação [[[lx> | ||
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| + | 16. Somos assim reconduzidos à alternativa de Didier Franck entre temporalidade do cuidado e analítica da carne, sendo para Heidegger a escolha clara: somente a multiplicidade originária do ser abrigada pela temporalidade é capaz de fazer compreender a corporeidade e a sexualidade nas quais o Dasein se encontra disperso, compreendendo-se então por que é preciso recusar-lhes o privilégio de definir o Dasein em sua integralidade, | ||
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| + | 17. Convém deixar a essas observações enigmáticas e alusivas, relativas ao estatuto da corporeidade e da sexualidade, | ||
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| + | * "A corporeidade é a coisa mais difícil, e, na época, eu não era capaz de dizer mais sobre ela" (Heidegger, março de 1972). | ||
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| + | 18. Longe de compensar a ausência de uma análise específica do fenômeno da corporeidade em Sein und Zeit, essas poucas alusões apenas esboçam o quadro de uma elaboração ainda por vir, permanecendo em aberto a questão de saber se se aceita homologar esse tipo de quadro, isto é, essencialmente, | ||
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| + | 19. A dispersão transcendental, | ||
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| + | 20. É o que parece confirmar a tese seguinte, segundo a qual somente aquilo que por essência é lançado e capturado em algo pode se deixar portar e envolver por ele, importando não confundir o plano da factualidade empírica com o das condições de possibilidade, | ||
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| + | * " | ||
| + | * "Todo Dasein pode alcançar a simplicidade e a ' | ||
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| + | 21. Igualmente paradoxal é a determinação da relação entre a dispersão essencialmente lançada do Dasein e o ser-com um outro Dasein, longe de contradizer o isolamento metafísico do Dasein, o impulso de associação e de unificação conforme a espécie, que encontra sua expressão no acasalamento sexual, pressupondo antes esse isolamento como sua condição de possibilidade, | ||
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| + | * "Esse impulso de agrupamento e essa unificação conforme a espécie [dieses gattungshafte Zusammenstreben und die gattungshafte Einigung]" | ||
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| + | 22. Da mesma forma, o ser-com pressupõe a liberdade, isto é, a possibilidade de ser si-mesmo, a capacidade de autodeterminação, | ||
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| + | * "A essência metafísica fundamental do Dasein metafisicamente isolado tem seu centro na liberdade" | ||
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| + | 23. A essas dez teses que resumem os temas ou os conteúdos centrais da analítica do Dasein acrescentam-se duas teses complementares relativas à sua realização, | ||
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| + | 24. A analítica existencial não tem apenas a liberdade como tema, mas quer ser compreendida como um exercício de liberdade, na medida em que só pode ser conquistada no livre projeto da própria constituição de ser, ressurgindo aqui a palavra-mestra que domina toda a segunda parte de Sein und Zeit, a saber, integralidade ([[lx> | ||
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| + | * "A direção do projeto visa o Dasein enquanto integral e as determinações fundamentais de sua integralidade" | ||
| + | * "O engajamento [Einsatz] existenciário extremo do próprio projetante" | ||
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| + | 25. Nesse sentido muito particular, a analítica existencial é uma filosofia engajada, mas engajada de tal modo que o sentido agudo da finitude e da facticidade lhe interdita toda tomada de posição ideológica particular, pois, precisamente por estar a serviço da totalidade a cada vez possível, ela não implica militância por esta ou aquela causa particular, permanecendo em aberto, contudo, a questão de saber se o próprio projeto de Sein und Zeit não implica uma direção existenciária, | ||
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| + | * "A serviço da totalidade a cada vez possível" | ||
| + | * "Uma direção existenciária, | ||
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| + | 26. A última exigência estilística é a da concretude da análise dos fenômenos constitutivos do Dasein, comportando ela o risco de um mal-entendido inevitável, | ||
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| + | * " | ||
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