estudos:franck:discurso-e-espaco-1986
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| + | ====== DISCURSO E O ESPAÇO (1986) ====== | ||
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| + | * Extensão da invalidação do parágrafo 70 à própria temporalidade ekstática sob o prisma da irredução do espaço ao tempo | ||
| + | * A irreduzibilidade do espaço ao tempo, quando interpretada a partir do próprio espaço, não se limita a corrigir uma tese local sobre a espacialidade, | ||
| + | * A invalidação do parágrafo 70, ao retirar do espaço o estatuto de simples modo de temporalização, | ||
| + | * O exame que se abre não visa repetir a descrição anterior da temporalidade, | ||
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| + | * Insuficiência fenomenal da analítica do cotidiano se o Dasein não é alcançado em totalidade e propriedade | ||
| + | * As estruturas essenciais do ser-no-mundo e a determinação ontológica do Dasein como cuidado, unidade originária de existência, | ||
| + | * Se o Dasein, ao qual pertence a compreensão do ser, não é alcançado propriamente e em totalidade, então a questão de seu sentido de ser, metodicamente anterior à questão do sentido do ser em geral, carece de um solo fenomenal suficiente. | ||
| + | * A exigência de totalidade não é um adendo externo, mas a condição de que o sentido de ser do Dasein se apresente com a unidade requerida para fundamentar, | ||
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| + | * Acesso ao todo do Dasein pela morte e constituição da propriedade como sustentação da possibilidade em sua forma de possibilidade | ||
| + | * O Dasein é totalmente acessível apenas a partir de seu fim, a morte, concebida existencialmente como ser-para-a-morte, | ||
| + | * Ser-para-a-morte não significa voltar-se para efetuar a morte, mas desvelar e suportar a possibilidade enquanto possibilidade, | ||
| + | * Ao compreender desse modo seu poder-ser insubstituível, | ||
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| + | * Consciência como atestação ôntico-existencial do poder-ser-um-todo e pertencimento da chamada ao “lá” | ||
| + | * O impulso antecipador manifesta a possibilidade ontológico-existencial de poder-ser-propriamente-um-todo, | ||
| + | * A consciência faz compreender algo ao Dasein e, por isso, pertence ao “lá”, pois o “lá” designa o campo de revelação em que compreensão, | ||
| + | * Dirigindo-se ao Dasein decaído no impessoal, a voz da consciência o convoca tacitamente à existência própria, instaurando a passagem da dispersão cotidiana ao recolhimento do poder-ser. | ||
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| + | * Origem do chamado: o Dasein angustiado no ser-jogado e determinação da culpa como nulidade fundante do cuidado | ||
| + | * A pergunta por quem chama recebe como resposta a determinação de que chama o Dasein que se angustia em seu ser-jogado, de modo que a consciência é o chamado do cuidado e manifesta o ser-culpado do Dasein. | ||
| + | * Ser culpado significa ontologicamente ser fundamento de uma nulidade, e essa nulidade atravessa o cuidado em seus três momentos, pois atinge o ser-jogado, o projeto e a queda. | ||
| + | * O Dasein, enquanto jogado, não se trouxe por si mesmo ao seu “lá” nem colocou por si o fundamento de seu poder-ser, de modo que a estrutura do fundamento não pode ser entendida como auto-posse originária. | ||
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| + | * Nulidade do ser-jogado e do projeto como condição de possibilidade da impropriedade e constituição do cuidado como transido de nulidade | ||
| + | * O Dasein é fundamento jogado ao projetar-se nas possibilidades em que foi jogado, existindo não antes delas, mas a partir delas e como fundamento do qual não é senhor. | ||
| + | * O “não…”, | ||
| + | * A nulidade implicada por ser-jogado e projeto torna possível a existência decaída e imprópria, pois a impropriedade não é um acidente exterior, mas uma possibilidade que se alimenta da negatividade estrutural do poder-ser. | ||
| + | * Por isso, o cuidado é transido de nulidade e o Dasein, em seu ser, é fundamento de uma nulidade, isto é, culpado, e a consciência chama precisamente a assumir esse ser-culpado. | ||
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| + | * Audição do chamado como querer-ter-consciência e determinação própria do querer como angústia e silêncio | ||
| + | * O Dasein entende o chamado projetando-se sobre seu poder-ser propriamente culpado, não escolhendo a consciência como objeto, mas escolhendo ter-consciência, | ||
| + | * Compreender o chamado equivale a querer ter consciência, | ||
| + | * O silêncio não aparece como simples ausência de fala, mas como modo discursivo próprio, no qual a compreensão se recolhe diante da possibilidade mais própria e não se dispersa em explicitações impróprias. | ||
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| + | * Resolução como modalidade própria da revelação e abertura simultânea da verdade originária do mundo e do ser-aí | ||
| + | * A revelação pressuposta pelo querer-ter-consciência assume sua modalidade própria como resolução, | ||
| + | * Na resolução, | ||
| + | * A resolução revela a situação como conjunto de possibilidades fáticas em que o Dasein foi jogado e que, por isso, podem ser submetidas a escolha efetiva, isto é, a uma decisão que não se dissolve na indiferença do impessoal. | ||
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| + | * Unidade entre resolução e antecipação: | ||
| + | * A relação entre poder-ser próprio e poder-ser um todo exige reconhecer que o Dasein é culpado enquanto é, de modo que a resolução deve compreender a culpabilidade como constante. | ||
| + | * Compreender a culpa como constante implica projetar-se sobre todo o ser do Dasein, e isso requer o poder-ser-um-todo, | ||
| + | * A resolução é, portanto, antecipadora e a verdade originária alcança a certeza que lhe corresponde, | ||
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| + | * Constituição da ipseidade como resolução e rejeição do conceito ontológico de sujeito | ||
| + | * Enraizadas no cuidado, morte, consciência e culpa fazem sobressair sua riqueza estrutural, mas a unidade do poder-ser-um-todo remete ao ente que o Dasein sempre é, isto é, ao si-mesmo. | ||
| + | * A constituição existencial do ser-si-mesmo não pode recorrer ao conceito ontológico de sujeito, pois sujeito visa a identidade e consistência de um ente subsistente e não a ipseidade de um ente cujo ser é cuidado. | ||
| + | * Ao antecipar a morte como possibilidade individualizante e projetar-se sobre a culpa constante, a resolução abre a constância própria do si, de modo que a ipseidade não é substância nem sujeito, mas resolução. | ||
| + | * A unidade dos momentos do cuidado é, assim, existencialmente incluída no próprio cuidado, e não importada por um princípio extrínseco de identidade. | ||
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| + | * Temporalidade como sentido do Dasein: unidade do porvir, do ter-sido e do apresentar | ||
| + | * Com a resolução antecipadora, | ||
| + | * Explicitar o sentido ontológico do cuidado equivale a perguntar como é possível ser para o poder-ser mais próprio, e essa possibilidade requer que o Dasein possa vir a si na possibilidade mais própria e suportar a possibilidade enquanto tal, isto é, existir. | ||
| + | * O deixar-vir-a-si na sustentação da possibilidade por excelência é determinado como fenômeno originário do porvir, e o porvir torna propriamente possível o ser-para-a-morte. | ||
| + | * A assunção do ser-jogado exige que o Dasein porvir possa ser seu “tal como sempre já era”, isto é, seu ter-sido, pois apenas como eu-sou-tendo-sido ele pode, vindo, vir a si de modo a re-vir. | ||
| + | * O apresentar permite o deixar-encontrar atuante do ente que se desdobra em presença, e o fenômeno unitário de um porvir do qual surge o ter-sido e que entrega o presente constitui o sentido de ser do Dasein como temporalidade. | ||
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| + | * Correspondência entre os momentos do cuidado e as ekstases: porvir, ter-sido e presente como ordem do originário | ||
| + | * A definição do cuidado como ser-adiantado-de-si-já-em-um-mundo-junto-do-ente exige que a temporalidade contenha a unidade desses momentos. | ||
| + | * O “adiantado” e o “já em” significam que existência e facticidade têm por fonte o porvir e o ter-sido, e a queda, embora não nomeada na fórmula do cuidado, é temporalmente incluída como apresentar. | ||
| + | * O apresentar em que se funda primariamente a queda permanece, em modo de temporalidade originária, | ||
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| + | * Definição da temporalidade como ekstatikon e caráter finito do tempo originário | ||
| + | * O Dasein é temporalidade porque vem a sua possibilidade mais própria, re-vem sobre seu ser-jogado e vem junto do ente que não é, e essa tripla determinação explicita o caráter ek-stático da temporalidade. | ||
| + | * A temporalidade se manifesta como ekstatikon puro e simples, sendo em si e para si fora de si, e não como uma sucessão interna de vivências. | ||
| + | * Apesar do privilégio inicial do porvir, que limita o poder-ser e é finito, a temporalidade se temporaliza sempre na unidade diversamente ordenada de suas três ekstases, e esse traço é condensado nas teses de que o tempo é originário como temporalização da temporalidade que torna possível o cuidado, de que a temporalidade se temporaliza a partir do porvir e de que o tempo originário é finito. | ||
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| + | * Necessidade de uma análise repetitiva: derivação do impróprio a partir do próprio e remanejamento arquitetônico da analítica | ||
| + | * Trata-se apenas de uma primeira análise porque a temporalidade foi extraída a partir do poder-ser propriamente um todo, e, para corroborar o sentido temporal do Dasein, é preciso mostrar que a existência imprópria cotidiana é um regime de temporalização derivado do tempo originário finito. | ||
| + | * A hermenêutica existencial, | ||
| + | * A reorientação do percurso visa tornar mais clara a coerência das considerações, | ||
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| + | * Centralidade do parágrafo 68: reinterpretação temporal da revelação e reordenação dos constituintes do “lá” | ||
| + | * As transformações da analítica se tornam legíveis no centro das estruturas do Dasein, a revelação, | ||
| + | * O parágrafo 68 se divide em quatro momentos, temporalidade da compreensão, | ||
| + | * Em comparação com a exposição precedente, a compreensão passa a preceder o sentimento de situação, e o discurso é deslocado para a quarta posição, enquanto a queda ocupa o terceiro lugar, embora a queda não pertença estritamente ao “lá”, mas ao cuidado. | ||
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| + | * Fundamento da reordenação: | ||
| + | * Os deslocamentos obedecem às exigências da temporalidade, | ||
| + | * A temporalidade originária, | ||
| + | * Essa correspondência, | ||
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| + | * Tese decisiva: o discurso não se temporaliza primariamente numa ekstase determinada e, por isso, não ocupa o lugar do presente | ||
| + | * No subparágrafo sobre a temporalidade do discurso, afirma-se que, embora o “lá” receba sua articulação do discurso, este não pode temporalizar-se primariamente numa ekstase determinada. | ||
| + | * Ainda assim, como o discurso se exprime frequentemente na língua sobre o mundo ambiente da preocupação, | ||
| + | * O discurso é em si temporal na medida em que todo discurso sobre, de e a se funda na unidade ek-stática da temporalidade, | ||
| + | * O alcance dessa exigência é tal que somente a partir da temporalidade do discurso, isto é, do Dasein em geral, poderia ser circunscrito o sentido ontológico do “é”, cuja teoria superficial deformou em copula, e somente aí poderia ser elucidada a gênese da significação e a possibilidade de formar conceitos. | ||
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| + | * Problema da primariedade: | ||
| + | * A afirmação de que o discurso não se temporaliza primariamente numa ekstase determinada suscita a questão de saber se sua temporalidade seria apenas secundária e o que tal secundariedade significaria. | ||
| + | * A distinção entre o que é primariamente histórico, o Dasein, e o que é apenas secundariamente histórico, o ente intramundano, | ||
| + | * Se o discurso não se temporaliza primariamente a partir de uma das três ekstases, então ele não pode ser um existencial autêntico, isto é, não pode ser um modo de temporalização, | ||
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| + | * Ausência de temporalidade própria do discurso e colapso do par próprio-impróprio no nível discursivo | ||
| + | * A interpretação temporal do discurso é lacônica e programática e não dissocia temporalizações própria e imprópria como ocorre na compreensão e no sentimento de situação, nos quais antecipação se opõe a esperar e repetição se opõe a esquecimento. | ||
| + | * O discurso, embora tenha em princípio o mesmo nível ontológico da compreensão disposta, admite apenas um modo de temporalização, | ||
| + | * Se o discurso não possui sentido temporal próprio, então ele não possui sentido temporal em geral, porque a impropriedade só é pensável como modificação de uma propriedade fundadora, e não como regime autônomo sem origem. | ||
| + | * Um fenômeno cujo sentido temporal é apenas impróprio se excetua da temporalidade, | ||
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| + | * Efeito sobre o “lá”: completamento da destemporalização e restituição de uma significação espacial não fundada na temporalidade | ||
| + | * Para avaliar as repercussões da atemporalidade do discurso, torna-se necessário recordar que a resolução, | ||
| + | * O Dasein resoluto não se abstrai do mundo, mas está propriamente no mundo, e a compreensão própria de si é simultaneamente compreensão do mundo enquanto mundo, o que torna decisivo o estatuto do “lá” em que essa unidade deve convergir. | ||
| + | * Contudo, se antes se havia mostrado que a angústia abre um espaço extramundano anterior ao da preocupação e manifesta uma carne que se encarna sem ser nem tempo, e que o mundo revelado na angústia é incompreensível segundo o conceito existencial de compreensão, | ||
| + | * O “lá”, convergência de todas as determinações ontológicas do Dasein, recupera uma significação plenamente espacial num sentido de espaço que já não é fundado na temporalidade, | ||
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| + | * Unidade fenomenológica do motivo: a carne espacializante como origem comum da destemporalização de angústia, compreensão e discurso | ||
| + | * A destemporalização dos constituintes do “lá” não é apenas um efeito negativo, pois remete a uma única origem fenomenológica que se deixa entrever como presupposição adversa: a carne espacializante, | ||
| + | * A angústia escapa à temporalidade porque é modo eminente de encarnação e abertura da região em geral, e a compreensão perde a exclusividade de seu sentido temporal porque é disposta propriamente pela angústia encarnada e porque o “enquanto” conserva uma marca espacial indelével. | ||
| + | * O discurso, exprimindo-se numa língua regida por representações espaciais, é atravessado pelo espaço, e a expressão do Dasein no discurso concerne ao ser-jogado-ao-mundo revelado pela disposição, | ||
| + | * A entonação, | ||
| + | * A destemporalização do “lá” deixa transparecer a carne espacializante que se encarna e espaça sem ser nem tempo, escapando a toda ontologia, e isso implica que o ente encarnado é impensável sob o nome de Dasein quando a unidade regulada pela temporalidade se dissipa. | ||
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| + | * Dissociação e disseminação: | ||
| + | * Uma vez que a temporalidade é o regulador primeiro da unidade possível de todas as estruturas essenciais do Dasein, a destemporalização do “lá” equivale a uma disseminação do Dasein e do sentido temporal do ser. | ||
| + | * Essa dissémination é efeito da irreduzibilidade do espaço ao tempo, mas não pode ser por ela explicada, pois o efeito excede a capacidade do princípio de dar conta de si mesmo no interior do quadro ontológico do Dasein. | ||
| + | * A unidade da analítica, que dependia da temporalidade como regulador, perde sua condição formal quando o espaço afirma uma autonomia que desarticula o horizonte temporal. | ||
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| + | * Consequências sobre língua, conceitos e possibilidade de uma ontologia do sentido: lacuna estrutural e limite interno do projeto de Sein und Zeit | ||
| + | * A destemporalização do discurso e da língua preserva a analítica existencial de uma queda irrefutável, | ||
| + | * Contudo, essa preservação tem custo decisivo, pois o léxico, a sintaxe e a conceptualidade de Sein und Zeit são atingidos, e a gênese das significações e a formação dos conceitos, que deveriam ser elucidadas pela temporalidade do discurso, tornam-se ontologicamente incompreensíveis. | ||
| + | * A lacuna de sentido assim aberta se estende às proposições da ontologia fundamental e constitui o limite interno mais dirimente do projeto de compreender o ser no horizonte do tempo. | ||
| + | * A permanência em suspenso de questões decisivas, como a do sentido temporal do conhecimento filosófico, | ||
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