estudos:fragata:fragata-1962-fenomenologia-e-problema-critico
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| Both sides previous revisionPrevious revision | |||
| estudos:fragata:fragata-1962-fenomenologia-e-problema-critico [27/01/2026 09:00] – mccastro | estudos:fragata:fragata-1962-fenomenologia-e-problema-critico [09/02/2026 20:16] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== Fenomenologia e problema crítico (1962) ====== | ||
| + | |||
| + | //Data: 2025-03-18 06:24// | ||
| + | |||
| + | //Júlio Fragata S. I.// | ||
| + | //Professor da Faculdade de Filosofia de Braga// | ||
| + | |||
| + | //Problemas da Fenomenologia de Husserl// | ||
| + | //Edições Livraria Cruz// | ||
| + | //Braga 1962// | ||
| + | |||
| + | 1.— Posição do problema crítico — O problema crítico, relativo à objetividade do conhecimento humano, foi posto, com nitidez, a partir de Kant, mas surgiu através de uma evolução histórica, em que podemos distinguir três momentos fundamentais. | ||
| + | |||
| + | O primeiro equivale á questão: Onde está a verdade? Foi de todos os tempos e é a primeira preocupação explícita, no estabelecimento de qualquer ciência e no impulso filosófico de saber. Pode, porém, apresentar-se com maior ou menor acuidade, e foi precisamente o crescimento das exigências críticas, por ele levantadas, que levou ao chamado « problema critico». | ||
| + | |||
| + | No estado de reflexão inicial, a questão da busca da verdade, não examina as nossas persuasões mais espontâneas, | ||
| + | |||
| + | No entanto, temos de reconhecer a legitimidade das exigências críticas, à medida que a nossa reflexão, no decurso dos tempos, se. vai tornando também mais explícitas e mais amplas. | ||
| + | |||
| + | Não há dúvida que Descartes contribuiu pura a introdução de maiores exigências, | ||
| + | |||
| + | O segundo passo foi dado por Locke. Pode formular-se deste modo: Como se atinge a verdade? Há o perigo de considerar esta questão como uma psicologia do conhecimento, | ||
| + | |||
| + | Este surgiu com Kant, e pode exprimir-se do modo seguinte: É possível atingir a verdade? | ||
| + | |||
| + | Aqui, o problema atinge a acuidade reflexa duma autocrítica radical da verdade, pondo-se a questão relativamente à verdade em si mesma e não só em relação a qualquer objeto possivelmente verdadeiro. Para Kant, a busca sincera da verdade também não se contenta com o estudo do modo como se adquire. É preciso ir mais longe, até à investigação daquilo que se exige para que ela se apresente como rigorosamente objetiva, ou seja, como absolutamente válida. Tal verdade ultrapassará o âmbito de qualquer persuasão individual, desde o momento que se verifique em conformidade com as exigências requeridas para que a mente a possa atingir com esse rigor. | ||
| + | |||
| + | Pôr a mesma verdade em questão equivale, portanto, a uma crítica da própria capacidade da mente para a atingir. «A priori», isto é, antes de começarmos a investigação, | ||
| + | |||
| + | 2.— HUSSERL PERANTE O PROBLEMA CRÍTICO — Procuremos, agora, enquadrar Husserl neste movimento crítico. | ||
| + | |||
| + | O fundador da fenomenologia, | ||
| + | |||
| + | Este radicalismo implica também uma espécie de psicologia do conhecimento, | ||
| + | |||
| + | Ao mesmo tempo, toca-se, inevitavelmente, | ||
| + | |||
| + | O segredo da fenomenologia está precisamente, | ||
| + | |||
| + | Podemos, desde já, tirar duas conclusões, | ||
| + | |||
| + | O problema do condicionalismo da objetividade do conhecimento foi posto por Husserl só secundariamente e num plano diferente do de Kant. Desenvolvendo a fenomenologia num âmbito inicialmente individualista, | ||
| + | |||
| + | O problema crítico em Husserl, relativo á capacidade da mente em ordem á verdade objetiva, e, em particular, ao conhecimento do mundo na sua existência exterior, conserva, portanto, o seu enigma. Será possível, apesar de tudo, uma solução fenomenológica do problema crítico, ou, pelo menos, não terá a fenomenologia uma função essencial nesta investigação? | ||
| + | |||
| + | 3.— O fenômeno husserliano como ponto de partida na solução do problema crítico | ||
| + | |||
| + | O início mais radical do filosofar, e portanto o fundamento do qual temos de partir, em ordem à solução do problema crítico, deve possuir a maior evidência a que nos é possível aspirar. De outro modo, teríamos um sinal claro de que deveríamos radicalizar ainda mais a reflexão. Neste ponto estamos de acordo com Husserl. | ||
| + | |||
| + | A nossa coincidência pode ser levada mais longe: Aquilo que apresenta este supremo grau de evidência é precisamente o que se vê com toda a clareza, que é o conhecido, enquanto conhecido, — o « fenômeno » da fenomenologia de Husserl. Chegamos, portanto, a uma conclusão: A fenomenologia husserliana, | ||
| + | |||
| + | Significa isto que admitimos a fenomenologia de Husserl como insofismável fundamento último do saber humano e, por conseguinte, | ||
| + | |||
| + | Se por «fundamento último» entendemos um apoio de caráter ontológico, | ||
| + | |||
| + | Mas se por «fundamento último» queremos significar o início da investigação, | ||
| + | |||
| + | Não equivalerá esta concepção ao regresso a uma espécie de psicologismo? | ||
| + | |||
| + | Quando temos consciência de conhecer com evidência, estamos perante um «fato» que se desenvolve no espírito cognoscente, | ||
| + | |||
| + | Poderá dizer-se que, neste caso, já não nos mantemos numa «fenomenologia husserliana». E verdade. Mas também não há dúvida que aproveitamos a sugestão fenomenológica de Husserl naquilo que ela tem de mais central que é a concepção de «fenômeno puro», e lhe damos apenas uma orientação diferente, em ordem à sua eficácia. | ||
| + | |||
| + | Perante a evidência do «fenômeno», | ||
| + | |||
| + | Queremos, além disso, salientar que esta investigação se efetua não só a partir do fenômeno na sua acepção mais rigorosamente evidente, que admitimos verificar-se no «fenômeno puro» de Husserl, mas também nas suas aplicações mais vastas que se referem, em conformidade com a própria mente de Husserl, ao conhecimento de coisas quer materiais, quer imaterial, ou supra-sensíveis. Deste modo, transparecerá uma justificação do nosso conhecimento em geral, por mais vasto que seja o âmbito cognoscitivo. | ||
| + | |||
| + | 4. — Natureza finita da evidência do fenômeno — Julgamos necessário começar por uma determinação da própria natureza da evidência do fenômeno, tal qual se apresenta para a inteligência humana. Este ponto é importante, pois tratamos da fundamentação, | ||
| + | |||
| + | A nota fundamental que se manifesta é a seguinte: Estamos perante um conhecimento que não é absoluto. Já Husserl o admitiu, sem discussão. Um conhecimento absoluto tem de ser plenitude; portanto, não pode admitir variantes nem de intensidade, | ||
| + | |||
| + | Comecemos por salientai uma consequência de caráter geral que, desde já, nos parece oportuna: Se o nosso conhecimento é finito, ou deficiente, u nossa evidência nunca pode ser absoluta. Haverá sempre, na nossa reflexão, por mais radical que seja, um fundo de irreflexão. Portanto, nem a maior evidência que possuímos, que é a evidência do fenômeno, nem, muito menos, aquilo que nela se implica pode satisfazer-nos de tal modo que se imponha com plena isenção de sombras. | ||
| + | |||
| + | Este pormenor leva-nos a compreender a ânsia de Husserl por urna evidência cada vez mais perfeita e que continuamente se afastava como ideal inacessível. Daqui, a sua preocupação inquietante de verdade que não conseguiu acalmar. E que o próprio sentimento concreto de finitude, sempre vivido, embora nem sempre reflexamente considerado, | ||
| + | |||
| + | O caráter não-absoluto da evidência explica dois pontos, que convém frisar: Em primeiro lugar, compreende-se a possibilidade de emitir um juízo de dúvida, mesmo quando se vê com evidência, — possibilidade que, para a Inteligência perfeitamente absoluta, ou infinita, seria absurda. Daqui segue-se que não podemos dar ouvidos a essa impressão de dúvida, desde o momento que a evidência se manifeste como suficiente. Repudiar esta conclusão seria aderir a uma atitude negativista que só atende ao escuro sem querer ver o claro. Ora, os dois aspectos são evidentes: Porque há sombras, a evidência não é perfeitamente absoluta; mas porque há luz, e na medida em que a há, a evidência é suficiente. | ||
| + | |||
| + | Mais difícil se torna determinar especulativa mente essa suficiência. Notemos, porém, que esta determinação especulativa é também vivida, e portanto não perde inteiramente o seu caráter prático: Apresenta-se como a diferença que existe entre a luz e as sombras. E preciso ter cautela em não afirmar como claro o que é obscuro, ou duvidoso; nem, como duvidoso, o que é suficientemente claro. Tal suficiência é relativa à própria evidência e exclui, por isso, o contraditório, | ||
| + | |||
| + | O segundo aspecto que convém salientar é o seguinte: Se a evidência possuísse um caráter absoluto, isto é, tal que não pudesse excogitar-se mais intensa, o problema crítico não poderia ser posto. Essa evidência excluiria qualquer possibilidade de dúvida; seria plenamente aquietante e não daria fundamento para pôr em questão fosse o que fosse. A sua mesma lucidez absoluta afastaria qualquer possibilidade de erro, dum modo perfeitamente decisivo. | ||
| + | |||
| + | Quisemos chamar a atenção para estes aspectos a fim de, por um lado, compreendermos, | ||
| + | |||
| + | Partindo do caráter finito da nossa atividade cognoscitiva, | ||
| + | |||
| + | Em ordem a este fim, entremos em novas considerações. | ||
| + | |||
| + | 5.— Primeira implicação da evidência finita: caráter existencial do sujeito — Em primeiro lugar, um conhecimento finito não pode ser perfeita identidade consigo mesmo. Portanto, encerra uma dualidade que separará necessariamente cognoscente e conhecido. Isto não só implica uma dependência do cognoscente relativamente ao conhecido — o que, de modo nenhum se dá no conhecimento absoluto — mas revela também o caráter deficiente do sujeito que conhece. Poderia alguém julgar que essa deficiência se explica exclusivamente pela dependência do conhecido. Se assim fosse, cognoscente-conhecido formariam uma dualidade em si mesma absoluta. Mas isto é absurdo, porque o absoluto perfeito não pode admitir dualidade. Segue-se, portanto, que o cognoscente tem de estar dependente de qualquer coisa que esteja para além da dualidade cognoscente-conhecido. Esse «qualquer coisa» é o Ser absoluto. | ||
| + | |||
| + | Ora, ser dependente dum Ser absoluto é existir em si, possuir uma existência ôntica, « transcendente », no sentido husserliano da palavra. E este caráter é uma exigência necessária da relação cognoscente conhecido, uma vez que esta não suprime a dualidade real. Chegamos a uma conclusão decisiva c importante: O filósofo, se quer levar a sua reflexão o mais longe possível, não pode considerar a existência do próprio eu « entre parênteses», | ||
| + | |||
| + | 6. — Segunda implicação da evidência finita: o sujeito é determinado extrinsecamente — Vamos agora entrar num segundo ponto, não menos importante, e de mais difícil esclarecimento. Procuremos segui-lo com atenção e sinceridade. O problema é o seguinte: Não implicará também a nossa evidência do fenômeno, precisamente porque não é absoluta, um apoio, ou objeto exterior, sem o qual o mesmo fenômeno se torna absurdo?... | ||
| + | |||
| + | Qualquer sujeito conhece explicitando-se. Por isso, é que o conhecimento é essencialmente uma atividade do sujeito, como que o existir da sua vida, enquanto transparente a si mesma. O «fenômeno» é uma destas explicitações. Não há dúvida, portanto, que é produzido pelo sujeito, que jorra da mesma vitalidade deste. Fiéis ao nosso dever de investigar o que está implicado na própria atividade, precisamos de inquirir ns exigências do aparecimento do «fenômeno», | ||
| + | |||
| + | Quando o conhecimento é absoluto e, portanto, o sujeito infinito, porque este é plenitude, é também atividade pura e autodeterminação puramente livre. As explicitações exteriores do seu conhecimento são as coisas no seu existir, — os seres finitos. Seria absurdo exigir uma determinação diversa do próprio poder plenamente auto-determinante do sujeito, porque isso equivaleria a negar a hipótese do Sujeito infinito. O seu conhecimento é, portanto, exclusivamente projetivo e constituinte. A coisa, constituída no seu «em si», porque é também uma explicação do Ser infinito, não aumenta o ser; mas porque se origina uma alteridade, apresenta-se como um novo ser. No entanto, esta novidade tem uma relação absoluta e integral ao Ser infinito, fora do qual não pode encontrar outra razão, nem mesmo parcialmente explicativa. | ||
| + | |||
| + | No conhecimento humano, o fenômeno também é uma explicitação do sujeito; de outro modo, o conhecimento não seria do sujeito e, portanto, não se daria. Por isso é que o conhecer não aumenta a realidade em si. Mas não há dúvida que uma nova «realidade» se opõe fenomenologicamente ao sujeito. Temos de buscar a razão desta oposição. Se a encontrássemos só no sujeito, este transformar-se-ia em sujeito absoluto, o que é contra a própria evidência do conhecimento humano, essencialmente finito, deficiente, não plenamente dominador. | ||
| + | |||
| + | Segue-se daqui que o sujeito finito, ao conhecer, precisamente porque não é autodeterminação pura, tem de ser determinado, | ||
| + | |||
| + | Acabamos de dar um passo importante: Há qualquer coisa, para além do sujeito e do fenômeno, a explicar porque é que o sujeito se explicita precisamente nesse fenômeno, lista conclusão bastaria, de si, como refutação dum sistema filosófico que pretendesse ter atingido uma fundamentação radical parando no « fenômeno puro ». Mas julgamos, pelo menos conveniente, | ||
| + | |||
| + | Desde já se impõe que deve possuir uma proporção que explique precisamente a natureza de tal fenômeno. Equivale a dizer que esse «qualquer coisa» tem de ser um exemplar do qual o fenômeno é uma imagem, se n&o inteiramente perfeita, pelo menos fiel. De outro modo o fenômeno ficaria sem a suficiente explicação. | ||
| + | |||
| + | Duas hipóteses, a priori, são excogitáveis: | ||
| + | |||
| + | 7. — Caráter existencial do determinante extrínseco do sujeito — À primeira vista, poderíamos julgar que o Ser infinito, assim como pode produzir todas as coisas, também pode originar em nós a representação daquilo que quiser, mesmo sem a existência em si daquilo que é representado. Foi esta a convicção de Berkeley que, deste modo, julgou poder negar o mundo corpóreo para admitir só o espiritual. Analisemos se estamos perante uma verdadeira possibilidade. | ||
| + | |||
| + | O próprio Ser infinito, apesar da sua onipotência, | ||
| + | |||
| + | Só nos testa a hipótese duma modificação interna no mesmo em si do sujeito, para que este, assim modificado, gere a evidência do fenômeno, caindo na conta dessa implicação. | ||
| + | |||
| + | Mas esta tem de ser de tal gênero que explique a própria alteridade que se evidencia no nosso processo cognoscitivo; | ||
| + | |||
| + | O sujeito cognoscente tem, portanto, de ser afetado em si mesmo, em virtude duma implicação com aquilo que conhece, mas determinada necessariamente por uma explicitação do Ser infinito diferente quer do fenômeno, quer da atividade do sujeito, quer do mesmo sujeito, lista explicitação, | ||
| + | |||
| + | Deste modo, a exclusão da hipótese de Berkeley implica não só — podemos dizer a fortiori — o afastamento de um «espírito enganador», | ||
| + | |||
| + | Depois deste esclarecimento, | ||
| + | |||
| + | Falta-nos, contudo, mostrar o alcance desta conclusão cm ordem á objetividade do nosso conhecimento e, portanto, em relação á nossa capacidade radical de atingir a verdade dum modo não apenas relativo, mas absoluto, apesar da potencialidade finita do conhecimento humano. Antes, porém, queremos apresentar a prometida explicação da determinação do sujeito relativamente à formação do fenômeno. Como conclusão, não deixaremos de tocar também uma dificuldade que naturalmente nos terá já ocorrido: Como é possível, apesar de tudo, errar? | ||
| + | |||
| + | 8. — Implicação e explicitação do objecto no sujeito — Nenhum ser existe inteiramente isolado. Isto significa que os seres, em união com o Ser infinito, do qual derivam, formam uma única comunidade que exprimimos pelo conceito de ser. O perigo está em considerar esta união dum modo demasiado extrínseco. Nós, homens, vivemos num universo espacializado e somos tentados a exprimir a união só em função das relações espaciais. Mas é evidente que Deus, apesar de ter criado o espaço, não cria no espaço, embora tenha criado seres com relações espaciais. A criação não supõe, portanto, necessariamente, | ||
| + | |||
| + | Nicolau de Cusa, em pleno século XV, viu já com profundidade esta implicação recíproca dos seres, exprimindo-a, | ||
| + | |||
| + | A Escolástica exprimiu esta concepção comunitária por um dos seus mais característicos e profundos conceitos, — a analogia, Não existe só um conhecimento analógico. Os seres mesmos são análogos entre si. Isto significa que qualquer ser, na sua mesma singularidade, | ||
| + | |||
| + | Esta implicação mútua dos seres é concreta, como a própria existência. Portanto, o ser individual não só engloba em si, a seu modo, tudo o que pode existir. Assim como o Ser infinito, porque potencialidade absoluta, é concebido como encerrando em si tudo o que pode ser e, além disso, n'Ele se discriminam misteriosamente os seres atuais, também o ser finito implica, na sua potencialidade imperfeita e, por conseguinte, | ||
| + | |||
| + | Em ordem ao problema que nos interessa, tiramos daqui esta importante conclusão: Conhecer é explicitar, ou seja, cair na conta desta implicação concreta. Examinemos, mais de perto, este ponto, tendo sempre em vista a dilucidação do conhecimento humano. | ||
| + | |||
| + | Em primeiro lugar, atingimos nele o caráter a priori, essencial em qualquer conhecimento. Conhecer é conhecer-se implicado noutro, ou, o que é equivalente, | ||
| + | |||
| + | No Ser infinito, este caráter «apriori» é absoluto. Por isso, o seu conhecimento é também duma independência absoluta, puramente auto-determinativo, | ||
| + | |||
| + | Em qualquer ser finito, e devido á sua mesma finitude, este caráter não é de uma aprioridade absoluta. Mesmo que se trate de um puro espírito, o conhecimento finito implica sempre um aspecto «aposteriori». | ||
| + | |||
| + | O Criador conhece o que quer; a criatura conhece só o que se lhe impõe. No entanto, também nela o conhecimento consiste num cair na conta da implicação do outro em si. Como, porém, esta implicação não depende dela, mas do fato de o outro ter sido constituído em si pelo Ser infinito, o seu conhecimento é essencialmente dependente em relação àquilo que é. | ||
| + | |||
| + | Tal dependência manifesta a causalidade daquilo que é, exercida sobre o sujeito cognoscente, | ||
| + | |||
| + | O grau de explicitação varia com a perfeição do sujeito. É concebível um ser, por assim dizer, tão distraído, que seja, por natureza, incapaz de cair na conta. Tal é o ser puramente material. O seu caráter de « alerta» não existe e, por isso, não pode conhecer, por mais que seja excitado. Um ser nesta condição, não é, propriamente um «sujeito»; | ||
| + | |||
| + | Também não repugna um ser que, por natureza, esteja tão alerta que não precise duma aproximação espacial, mas lhe baste uma mera presença virtual para cair na conta da implicação do outro em si. Tal deverá ser o conhecimento do espírito puro que, deste modo, conhece com uma dependência ínfima do outro enquanto exterior e, por isso, goza dum caráter «apriori» muito peculiar. | ||
| + | |||
| + | O conhecimento humano, porque supõe um sujeito afetado de materialidade, | ||
| + | |||
| + | No entanto, o sujeito humano, implica realmente em si qualquer outro ser, mesmo imaterial, em virtude do princípio de analogia a que nos referimos. Uma vez excitado fundamentalmente por uma atividade material, pode, apoiado nela, cair na conta, embora dum modo mais imperfeito, de outras implicações em si, mesmo imateriais. Deste modo, encontra explicação e evidência de «fenômenos puros» de caráter metempírico, | ||
| + | |||
| + | Convém, no entanto, salientar que a raiz da superação para além do âmbito da quididade material, se encontra já na própria apreensão de qualquer ser material; esta só adquire lucidez reflexa, na medida em que a explicitação se unifica não simplesmente no «ser enquanto material», mas no «ser em geral»,— o que nao se verifica no conhecimento meramente sensível. Não queremos deter-nos na exposição deste aspecto, que nos levaria a alongar-nos demasiado, e podemos prescindir dele num esclarecimento, | ||
| + | |||
| + | 9. —A OBJECTIVIDADE DO CONHECIMENTO — O esclarecimento que acabamos de dar da nossa actividade cognoscitiva ajudou-nos, sem dúvida, a compreender a exigência de um ser proporcionado, | ||
| + | |||
| + | Em que consiste a objetividade? | ||
| + | |||
| + | O «conhecimento da coisa como é em si mesma» apresenta-se antes como um efeito da própria objetividade que, portanto, encerra um caráter formalmente diverso. O conhecimento é «objetivo» quando o que se conhece é válido no âmbito do conhecimento como tal, ou seja, para qualquer sujeito cognoscente. Opõe-se, portanto, ao conhecimento meramente «subjetivo» que, de si, só pode apresentar-se como válido para um, ou para determinados sujeitos. Pela objetividade, | ||
| + | |||
| + | Husserl viu bem que a objetividade consiste precisamente neste caráter «absoluto». A sua deficiência esteve em querer estabelecê-lo a partir duma verificação da intersubjetividade. Com efeito, esta verificação só tem valor, na medida em que estiver fundamentado o próprio valor do conhecimento individual, uma vez que ela se apóia necessariamente nele. Não nos é, pois, lícito partir duma verificação da identidade de conhecimento em muitos para o valor do conhecimento individual. O caminho inverso é o único que se impõe. Se este é intransitável, | ||
| + | |||
| + | Atingimos a dificuldade fundamental desta questão : Como é possível fundamentar a objetividade do «meu» conhecimento, | ||
| + | |||
| + | Estabelecido que o meu conhecimento só é conhecimento na medida em que explicita em si o outro, e que esta explicitação só é possível se o outro existe em si e influencia o sujeito cognoscente, | ||
| + | |||
| + | Alcançamos assim o caráter verdadeiramente absoluto do nosso conhecimento individual, que se apresenta internado no conhecimento como tal, e, portanto, válido para qualquer sujeito cognoscente. | ||
| + | |||
| + | Resumindo, podemos estabelecer este nexo: Porque a própria evidência do nosso conhecimento do fenômeno exige a coisa em si, rege-se necessariamente por ela; como a coisa em si só é, na medida em que está relacionada com a inteligência infinita ou absoluta, essa evidência adquire também certo valor absoluto e, consequentemente, | ||
| + | |||
| + | 10. — Uma objeção: a possibilidade do erro — Só nos falta afastara objecçâo a que já aludimos: Como é possível, apesar de tudo, errar? A resposta, de qualquer modo que seja, tem que reduzir-se ao seguinte: O erro não afeta essencialmente a objetividade do nosso conhecimento; | ||
| + | |||
| + | Em primeiro lugar, vale a pena chamar a atenção para o seguinte: Ao evidenciarmos a objetividade do nosso conhecimento, | ||
| + | |||
| + | Encontrar-se-á talvez quem se contente apenas com esta resposta. Tentemos, porém, aprofundar um pouco mais, mostrando que, nem no próprio conhecimento errado se dá uma violação essencial da objetividade do conhecimento. Este passo parece-nos necessário, | ||
| + | |||
| + | Comecemos por perguntar: O erro destrói a verdade?— É evidente que não: Opõe-se a ela; opor-se não é destruir. A verdade é precisamente aquilo que de modo nenhum pode ser destruído, por maiores oposições que encontre. O que é, não pode, como tal, deixar de ser, quaisquer que sejam os esforços para fazer ver que não é, e o nosso conhecimento é, por essência, manifestativo daquilo que é. Caso contrário, não poderia ser conhecimento, | ||
| + | |||
| + | De fato, quando erramos, ou vemos, ou não vemos o erro. Se o vemos, então é evidente que conhecemos a verdade; caso contrário não poderíamos conhecer que erramos. Se o não vemos, a verdade deixa apenas de ser afirmada; nem por isso deixa de existir, mesmo enquanto inerente ao próprio conhecimento errado. Negar esta conexão, equivaleria a defender o caráter absoluto do erro e, portanto, a identificá-lo com a verdade. Como o mal só existe num bem, e só pode ter como causa um bem, assim o erro só existe na verdade e só pode ter como causa a verdade. O erro brota sempre de um impulso fundamental para a verdade. Se alguém consegue provar que erramos, prova, pelo mesmo fato, que acertamos. Chegamos, assim, a uma conclusão surpreendente, | ||
| + | |||
| + | Aqui, poderíamos terminar. Mas, sem desenvolver uma doutrina filosófica sobre o erro, não deixa de ser conveniente dar um passo mais. Reconhecendo, | ||
| + | |||
| + | O erro está inerente ao nosso conhecimento, | ||
| + | |||
| + | Falamos, anteriormente, | ||
| + | |||
| + | No conhecimento infinito, dá-se perfeita coincidência entre explicitar-se e afirmar-se no outro. Por isso, nele o erro não admite possibilidade. Em nós, pelo contrário, é possível a dissociação. Quando se cai na conta dela, conhece-se o erro que assim fica dissipado. Quando não se cai na conta dela, não se vê o erro, — possui-se um conhecimento errado. Mas, neste caso, também nunca poderemos dizer, com plena sinceridade, | ||
| + | |||
| + | 11.— Conclusão — Para terminar, salientemos os pontos fundamentais desta exposição. Partindo do « fenômeno puro » de Husserl, vimos que ele não pode ser o último fundamento do nosso conhecimento. Exige, por sua mesma natureza, o mundo «transcendente». Assim se evidencia, a partir da mesma fenomenologia de Husserl, a exigência duma «atitude natural», embora intimamente reflexa, como início fundamental de todo o saber. Esta evidenciação levou-nos, ao mesmo tempo, ao delineamento duma solução do problema crítico. | ||
| + | |||
| + | A nossa mente, uma vez que só pode conhecer na medida em que se explicita naquilo que se lhe impõe, depende de qualquer coisa que existe independentemente dela, a qual costuma chamar-se «objeto exterior». Este é, em si mesmo, apenas dependente do conhecimento infinito ou absoluto. Qualquer outro conhecimento só é possível contanto que se reja por esse objeto primordial da inteligência absoluta, e é, por isso mesmo, objetivo. A possibilidade do erro não destrói, antes exige esta mesma objetividade. A nossa verdade é assim individual, mas, ao mesmo tempo, supra-individual, | ||
| + | |||
| + | O âmbito desta objetividade deve ser igual ao do próprio conhecimento, | ||
| + | |||
| + | Os animais conhecem também a verdade; mas, não podendo refletir sobre ela, possuem-na apenas dum modo subjetivo, sem atingirem o seu caráter absoluto. O conhecimento deles não se manifesta participante da inteligência como tal, — é um conhecimento adstrito à mera sensibilidade, | ||
| + | |||
| + | {{tag> | ||
estudos/fragata/fragata-1962-fenomenologia-e-problema-critico.txt · Last modified: by 127.0.0.1
