estudos:ferreira-da-silva:habitos-sociais-2009
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| + | ====== Hábitos sociais ====== | ||
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| + | Nesse capítulo dos hábitos, devemos incluir o que em sentido lato poderíamos dominar “hábitos sociais”, conjunto de formas consuetudinárias de comportamento e compreensão humanas. | ||
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| + | Em grande medida recebemos a vida feita, pois o nosso eu social é um princípio anônimo e objetivo, uma estrutura que independe de nós e que vestimos para nos enquadrar num dado grupo. Apreciamos o mundo não através de nossos próprios sentidos e de uma lógica individual, mas sim através de uma ótica do rebanho. Não há sociedade sem uma mentalidade comum, sem um modo coletivo de ver e de conjurar o real, pois nessa visão anônima e social, o mundo sempre se apresenta sob os seus ângulos mais favoráveis e tranquilizadores. A própria sociologia é hoje unânime em reconhecer que a “natureza” sempre se manifesta ao homem através de um a priori social e que é recortada dessa ou daquela maneira no plasma amorfo das sensações, | ||
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| + | Dessa forma, o critério máximo de certeza e de verossimilhança do pensamento individual é constituído pelo complexo de significações e representações próprias do grupo, por aquilo que poderíamos denominar, com Chestov, a “omnitude”. | ||
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| + | É justamente essa forma social de razão e de ter razão, essa evidência multitudinária das ruas que forra o mundo de significações de curso esforçado, que obscurece no homem a consciência para evidências mais profundas, para o sensus sui. Perdendo-se na alteridade social, o eu se reconhece no espelho deformante da consciência grupal e passa a transcrever todo o inefável de sua própria subjetividade, | ||
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| + | Somente quando abandonamos a convivência com os estereótipos com que o social e a consciência comum revestem as coisas para o seu sossego, é que certos aspectos incalculáveis e tremendos da realidade se revelam, transfigurando o habitat inócuo da quotidianidade. Surge então o homem subterrâneo, | ||
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| + | O mundo que recebemos em nossa experiência quotidiana e vulgar e com o qual mantemos comércio em nossa existência prática é um ente de consistência puramente diurna, secular, pragmática, | ||
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| + | O que pretendemos frisar aqui é a medida em que essa trama de representações sociais e utilitárias das coisas, essa concepção objetivante do real, pode dissimular todo um campo de experiências e de realidade. | ||
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| + | //FERREIRA DA SILVA, Vicente. Dialética das Consciências. São Paulo: É Realizações, | ||
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