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estudos:ferreira-da-silva:corpo-2010

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 +====== Corpo ======
 +(2010:152-156)
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 +==== TRANSCENDÊNCIA DO MUNDO ====
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 +=== Raça e Mito ===
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 +//FERREIRA DA SILVA, Vicente. Transcendência do Mundo. São Paulo: É Realizações, 2010, p. 152-156//
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 +Para a visualização que adotamos neste estudo, o corpo, do mesmo modo que a raça, traduz um ato vital, um processo ou [152] onda vital que se expressa continuamente nos contornos mutáveis do nosso aspecto sensorial.
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 +Schopenhauer já advertia que o nosso eu somático constitui um estereograma de nossas paixões, o relevo corpóreo das forças pulsionais que nos constituem. O corpo é a vontade original na forma da Representação. Portanto, o corpo não deve ser tomado como tal, como forma espacial e representativa, mas deve ser superado em sua apresentação representativa, para ser conhecido em sua dimensão pulsional. Em última instância, é esse querer primordial, essa Ur-wille, que se sensorializa em órgãos e sistemas orgânicos e que funda a vida no plano do conhecimento representativo. A cordialidade orgânica traduz a vida para nós, para o nosso aparato cognitivo, e não como ela é em si mesma, em seu impulso surdo e obscuro. Antes de determinar-se em sua configuração tangível e orgânico-representativa, isto é, como corpo, a vida existe em forma fluida e sub-liminal, como pré-corpo, como Sangue. A forma apolínea do corpo emerge da Noite dionisíaca do Sangue, do Sangue passional que é o nosso verdadeiro ser. A força plasmática e criadora do Sangue, do Sangue como emblema real da Vontade, é que produz a partir de si os órgãos e formações somáticas do corpo humano. Não se trata evidentemente do sangue enquanto objeto de hematologia, do conceito citológico do sangue, pois como já dissemos, essa categoria é apreendida ao transcender-se toda a esfera representativa do nosso conhecimento. Somos esse sangue na pulsação inconsciente e pré-representativa do nosso viver; e é na fluidez noturna dessa vida subliminal que nos captamos como vontade, como querer puro. Os corpos e suas particularidades e idiomatismos próprios obedecem às inflexões desse momento pulsional básico, às modulações do Sangue, desde que devemos rebater e reduzir a representação corpóreo-exterior à caudal produtiva dessa protoforma do impulso e do apetite.
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 +[...]
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 +Nessa linha de cogitações e para o seu prosseguimento é mister reportarmo-nos a certas ideias enunciadas por Heidegger em seu célebre opúsculo Carta sobre o Humanismo. Aí vem afirmado que a corporalidade ou animalitas do homem é algo de projetado, desocultado e “aberto”, à semelhança do que ocorre com o restante ente intramundano. O projeto instituidor do Mundo é simultaneamente o projeto des-fechante de uma animalitas. O corpo humano, como os outros entes, é algo que só se delineia e emerge na abertura de um Weltentwurf [projeto do mundo]. A esfera sensorial da corporalidade, a realidade psicossomática se manifestam, portanto, dessa ou daquela maneira, segundo versões somáticas divergentes, de acordo com o regime de desocultação a que estamos submetidos. Somos investidos de uma certa corporalidade, de uma certa vivência e representação somáticas, nascendo e vivendo sob um determinado céu cultural. O corpo é um fator variável através da História.
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 +Mas a manifestação de uma certa conexão intramundana é correlativamente acompanhada pela nossa referência emocional ao ente manifestado. Somos arrebatados passionalmente pelo conjunto do ente, e sintonizados com as possibilidades oferecidas. Os desempenhos emitidos pelo projeto mundial pro-vocam em nós um empenho emocional e uma consagração ao assim manifestado. Como temos tentado mostrar em outros ensaios, parece-nos que uma modificação do sentido e talvez mesmo da intenção de certas expressões e ideias heideggerianas poderia acarretar resultados insuspeitados para a problemática que temos em vista. Referimo-nos a uma renovada experiência trópico-pulsional do Ser. A experiência transcendental do ser transformar-se-ia na experiência de uma força trópico-sugestiva, que libertaria formas do desejável e, correlativamente, formas do [154] desejo ou modulação da vontade. O projeto instaurador de um mundo se confundiría com a abertura de um cenário da apetecibilidade, de sugestões sugeridas pelo Sugestor. Ao desvelamento desse teatro da apetecibilidade, correspondería a determinação de um ciclo passional, de uma forma patético-corpórea, de uma determinação do Sangue. Em consequência, a totalidade do ente que nos rodeia, como espera infinita da apetecibilidade, seria a contrafigura do nosso corpo, e o nosso corpo seria o inverso desse campo atrativo. A abertura projetiva, de que fala Heidegger, traduzir-se-ia na irrupção de um espaço peculiar da apetecibilidade, numa “fascinação”, com a polar suscitação de centros pulsionais-hominídeos. O anticorpo da circunstância mundial estaria topologicamente em conexão com o repertório passional do nosso ser. Sendo inteiramente consignado e arrebatado pelo ausser sein, pelo ser fora da apetecibilidade, sem remissão nem resto, o nosso corpo traduziría estereograficamente o rigor de um especial império fascinante. Ele seria a consígnia dessa servidão. Ao modo de ser variável dessa totalidade trópica, corresponderia o modo de ser variável da afecção corpórea. Toda abertura pulsional teria como correlato um corpo, uma figura somática, uma raça, uma modulação do Sangue.
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 +Totalmente expostos ao sugerido pelo ente, cativos num plexo de desempenhos possíveis, temos um corpo como “empenho” desses desempenhos. Só existe e pode existir um corpo como estrutura referencial, como empenho, como o estar-fora-de-si-estando-no-em-si-da-paixão. Como vimos, na concepção exposta na Carta sobre o Humanismo, o nosso corpo é algo de consignado e oferecido por um Poder ofertante primordial. Designamos essa dimensão ofertante como a dimensão transcendental do Sugestor. E como já tivemos ocasião de mostrar em outro ensaio, o poder instaurador do Sugestor se documenta e afirma no processo mitológico. A vigência de um mundo de [155] desempenhos mitológicos se patenteia na emergência de um sistema passional, mediante a desocultação de uma animalitas, mediante a determinação de um Sangue.
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 +[...]
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 +O Sangue vem dos deuses e nos sacrifícios imemoriais dos povos ele é de novo ofertado às potências divinas. Nessa circulação ritual do Sangue esconde-se o selo de uma verdade insondável, a verdade da fonte oculta das formas visíveis. O Sangue provém da Matriz mítica e todo o ritual do sacrifício é uma contínua confirmação dessa pertinência.
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 +{{tag>"Ferreira da Silva"}}