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estudos:fedier:holderlin

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 +====== HÖLDERLIN, FRIEDRICH (1770-1843) ======
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 +LDMH
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 +  * Declaração de Heidegger em conferência de 1936: //Hölderlin é para nós, num sentido insigne, o poeta do poeta.//
 +    * //Para nós// não é um plural de majestade; designa aqueles que nos resta tornar-nos: humanos capazes de tomar a poesia a sério.
 +  * Locução //o poeta do poeta// ecoa o que Hölderlin notara sobre Homero (1799): //poeta de todos os poetas//.
 +    * Heidegger convida a considerar, do ponto de vista do próprio Hölderlin, a diferença entre poesia antiga e moderna.
 +      * Tradicionalmente: //querela dos antigos e modernos//.
 +      * Com Hölderlin, assume uma envergadura totalmente outra, ainda largamente ignorada.
 +  * Para abordar esta dificuldade, detour por uma nota do poeta em Frankfurt (c. 1796).
 +    * Hölderlin consigna a necessidade imperiosa de chegar a uma //Aufklärung de mais alta proveniência (höhere Aufklärung)//.
 +      * //Aufklärung// no singular: chegar a uma //iluminação// superior.
 +    * Isso indica que as //Luzes// do século XVIII (racionalidade científica) não são o último grau a alcançar.
 +    * Hölderlin não rejeita essas Luzes; empenha-se para que venha a ser uma //iluminação mais elevada (ou mais profunda)//.
 +      * Não é fazer tábua rasa, mas elevar mais alto a aspiração das Luzes.
 +      * Se resumirmos esta aspiração à busca do universal, Hölderlin eleva esta exigência mais alto que todos os nossos //filósofos//.
 +    * Consequência: Hölderlin torna-se impossível de situar: não é romântico, nem //clássico//.
 +      * Resta considerá-lo o poeta chamado a desempenhar para nós o papel que Homero teve para todos os poetas.
 +  * Trabalho de Heidegger desde os anos 1920 é animado por uma paixão.
 +    * Em //Ser e Tempo//, o verbo //aufklären// e o substantivo //Aufklärung// aparecem com frequência incomum.
 +      * Em Heidegger, significam: esclarecer, elucidar, decifrar (chegar a captar o sentido de uma mensagem da mais alta importância).
 +      * Trata-se de saber como fazer desdobrar a luz conveniente ao que há para conhecer.
 +      * //Aufklärung// qualifica o traço distintivo do verdadeiro conhecimento.
 +    * Heidegger sublinha: uma verdadeira //Aufklärung// implica a necessidade de pôr a novo custo a questão do sentido do //ser//.
 +      * O ser é chamado, na p.38, //para dizer tudo numa só palavra: o que transcende.//
 +      * //Transcendente puro e simples// caracteriza o ser como poder ascensional, único garantidor de um conhecimento fundado.
 +    * O uso do termo //Aufklärung// por Heidegger não é referência direta a Hölderlin, mas sua empresa orienta-se, ao menos formalmente, como o poeta desejava.
 +  * Em //Ser e Tempo//, §34, uma frase relaciona explicitamente a poesia com o projeto de descoberta da existência.
 +    * Frase: //Descobrir a existência [no sentido mais acentuado: permitir-lhe emergir do encobrimento] pode tornar-se o alvo próprio da palavra //poetizante//.//
 +    * //Descobrir (erschließen)// é detectar como fazer abrir o que até então permanecia oculto.
 +    * A aptidão da palavra para ser //poetizante// é estabelecida remetendo ao que nela pertence //à acentuação, modulação, tempo da palavra// – o que Heidegger acaba de nomear: //die Stimmung// (a disposição afetiva, tonalidade).
 +  * Análise do termo //Stimmung//, uma das originalidades mais férteis do pensamento heideggeriano.
 +    * //Stimmung// nomeia essa disposição profunda na qual o humano está diretamente e de chão em rapport com o mundo.
 +      * Mundo que – no ritmo particular em que vibra cada tonalidade fundamental – se dá aí para ser experimentado como mundo.
 +    * O humano, desde já comovido pelas múltiplas figuras em que é dispositivamente posto em contacto com a unidade do mundo, é capaz de articular uma voz (//Stimme//).
 +    * A disposição (//Stimmung//) é anterior a toda cisão possível entre sujeito e objeto.
 +      * Cada humano pode descobrir-se sustentado e tensionado tão profundamente pela disposição que esta se revela como //origem// plausível da palavra.
 +  * A palavra poetizante tem por característica própria só falar estando sempre mais atenta ao seu ritmo.
 +    * Em Hölderlin, esta atenção vai até ao estudo minucioso da //lógica poética// – a ordem determinante na qual as //tonalidades// da palavra poética se engendram umas às outras.
 +    * Heidegger leu com máxima atenção estas páginas; Hölderlin leva este estudo às últimas consequências.
 +      * Mas este não é o tema de Heidegger.
 +    * Ainda que a descoberta da existência ocorra a sério, à sua maneira, na palavra-poema, a tarefa do pensador é elucidar a existência noutro modo de palavra – a palavra-noema.
 +      * Pararelismo entre palavra-poema e palavra-noema.
 +  * Advertência crucial de Heidegger: é imperativo não confundir estes dois modos de palavra.
 +    * Sua disparidade é tal que Heidegger escreve no //Posfácio// a //Que é Metafísica?// (1943):
 +      * //O pensador diz o ser. O poeta nomeia o sagrado (das Heilige).//
 +    * //Sagrado// é provisório; a noção recebida de //sagrado// (latim //sacer// = intocável) olha noutra direção que //das Heilige//.
 +      * Para ouvir //das Heilige//, passar pelo inglês //holy//, próximo de //whole// (inteiro, total).
 +        * //Whole// relaciona-se com o grego //τὸ ὅλον// (todo, inteiro) e o latim //salvum// (são, salvo).
 +        * Etimologia: //salvus// significa literalmente //inteiro//.
 +  * Como ouvir //das Heilige// em Hölderlin? Exemplo do poema //Metade da Vida//.
 +    * Últimos versos da primeira estrofe descrevem cisnes que mergulham a cabeça //na água [soberana na modalidade que diz a palavra //heilignüchtern//].//
 +      * //Heilignüchtern//: composto de //nüchtern// (sobrio) modificado por //heilig//.
 +      * A água é sóbria não em si, mas em relação à embriaguez dos cisnes (aves de Apolo).
 +    * Momento do nascimento de Apolo (deus da lira): os cisnes, após sete voltas cantando, fazem uma oitava volta em silêncio.
 +      * Reina um silêncio que é só escuta, onde o Canto pode entoar-se.
 +    * A embriaguez dos cisnes não deve ser dissipada; deve ser posta em //salvidade// (//sauvété//), onde se pode desdobrar inteira.
 +      * //Salvidade// diz mais que o estado do que está fora de perigo; em apicultura, //rainha de salvidade// é a rainha rapidamente educada pelas abelhas para substituir uma rainha morta.
 +        * A rainha de salvidade não é o que salva o enxame, mas o que o enxame, por si e para si, suscita para permanecer //são//, i.e., inteiro.
 +      * Distinção entre o que é //são (salvo)// e o que é //salvado//; o //são// é uma noção não hiperbólica, inata a tudo o que tem o traço da finitude.
 +    * A água em que os cisnes mergulham é uma //água de salvidade//; nela, a embriaguez dos poetas é posta em salvidade, fica //sã//.
 +  * Hölderlin, evocando Sócrates (hino //O Reno//), escreve: //Um sábio soube, do meio-dia à meia-noite e até o dia raiar, no banquete permanecer lúcido.//
 +    * No banquete, Sócrates está ao mesmo tempo embriagado e lúcido.
 +    * Quando num homem coexistem com igual intensidade o êxtase de existir e o cuidado de medir conscientemente os contornos da existência, então esse homem pode ser chamado //sábio//.
 +      * Com palavras de Heidegger, o sábio é aquele que //diz o ser//.
 +      * O poeta é aquele que //nomeia o estado, ou melhor, a ordem de salvidade.//
 +    * Os dois não são idênticos; Heidegger insiste na disparidade das duas palavras.
 +  * Comportamento de Heidegger face a Hölderlin: título do livro //Erläuterungen zu Hölderlins Dichtung// é indicativo.
 +    * //Erläuterungen// não são //explicações// ou //comentários//; Heidegger não se coloca em posição de sobrepujança.
 +    * A palavra //Erläuterungen//, antes de dizer //esclarecimentos//, põe na pista de outra coisa: //lustração//, exercícios de emenda ou emundação de si mesmo.
 +      * Trata-se de tornar-se apto a considerar seriamente a poesia de Hölderlin, afastando tudo o que se opõe a isso.
 +    * Oposição principal: a violenta depossessão que transita quando se aproxima o totalmente outro – o desconhecido que só se deixa ver travestido de algo já conhecido.
 +      * Sinal de resistência: a endurance para suportar o choque do desconhecido, sendo por ele metamorfoseado e tornado capaz de acolhê-lo.
 +    * Heidegger nota: //A arte da interpretação consiste em pôr as boas perguntas.// – perguntas que colocam o próprio interrogador em questão.
 +  * Exemplo da atitude heideggeriana: carta a Medard Boss (3 jan. 1955) sobre o livro //Hölderlin und Heidegger// de Beda Allemann.
 +    * Heidegger admira o trabalho de Allemann, que detectou algo que ele próprio não tinha visto claramente.
 +      * Refere-se ao hino //A Festa da Paz// e ao //retorno patriótico (vaterländische Umkehr)// em Hölderlin.
 +      * Allemann viu claramente pela primeira vez esta viragem, que constitui uma cesura na obra do poeta.
 +        * Após esta cesura começam os grandes poemas reunidos sob a rubrica //Gesänge// (Cantos).
 +    * Heidegger reconhece: //Isto põe sobre uma base totalmente nova minhas próprias tentativas, e mostra em que medida elas são em parte um desvio.//
 +      * Desvio por não ter tomado toda a medida do //retorno patriótico// e sua função de cesura.
 +  * Tradução de //vaterländische Umkehr// por //retorno natal// (Maurice Blanchot) recua ante a tradução literal //retorno patriótico//.
 +    * Motivo: a palavra //patriótico// está viciada por um ressaibo chauvinista, impedindo de ouvir o que Hölderlin diz.
 +    * Heidegger precisa: //Vaterland// deve ser ouvido como //país do Pai// (Vater-Land), não como //país dos pais//.
 +      * A pátria como o país onde um dia habitaremos, se dignos, país que só é país pelo que o liga preferencialmente ao Pai.
 +    * Esta diferença põe na via para captar o que Hölderlin visa com a diferença entre poesia antiga e poesia a entoar agora.
 +  * Hölderlin nota: //Os poetas formaram-se na maioria das vezes no começo e no fim de um período mundial.//
 +    * Constata que estamos na charneira de dois períodos mundiais: o mundo grego (que dura até nós) e o nosso mundo (ainda por nascer).
 +  * Carta a Böhlendorf (nov. 1802): //Penso que não vamos comentar [imitar] os poetas até ao nosso tempo, mas que o modo de Canto vai tomar outro caráter, visto que somos nós, desde os Gregos, que recomeçamos a cantar, patrioticamente e no tom da natureza, a saber: originalmente.//
 +    * Cantar //patrioticamente// ilustrado por dois advérbios: //naturalmente// (conforme a natureza para nós) e //originalmente// (conforme aquilo de que nós temos origem, diferente da origem grega).
 +  * Carta anterior a Böhlendorf (4 dez. 1801) marca a disparidade entre os dois mundos de modo cortante:
 +    * //Exceto o que, entre Gregos e nós, deve ser necessariamente o mais alto – exceto o que sustenta e mantém em vida e o que é destinado –, não nos é quase permitido ter nada entre nós que seja como entre eles.//
 +  * O //novo caráter// do nosso modo de canto implica uma ruptura quase completa com o modo grego.
 +  * Retorno à relação Heidegger-Hölderlin: prefácio à edição de 1951 das //Erläuterungen//.
 +    * //As Erläuterungen fazem parte do diálogo no qual um pensamento entra em conversa com uma poesia, cujo carácter único, do ponto de vista da história-destinada, nunca será demonstrado cientificamente, ainda que o pensamento engajado neste diálogo seja capaz de mostrar algo dela.//
 +    * Heidegger delimita com nitidez o lugar do seu trabalho: o caráter //único// da poesia de Hölderlin, //único do ponto de vista da história-destinada//.
 +      * História que é nossa história, na medida em que nos é destinada.
 +      * Pergunta: quem somos nós?
 +  * No momento atual da história mundial, o //nós// tende a englobar todos os humanos, mas a ideia de que esta história nos seja destinada torna-se cada vez mais fantasmática.
 +    * O termo //história do ser (Seins-Geschichte)// é quase ininteligível.
 +    * Pensamento de Heidegger: reconhecer na história do ser o que nos é destinado.
 +      * Relaciona nossa situação presente com o //pontapé inicial// grego (a pensamento filosófico).
 +  * Para Heidegger, //pôr em termos inteiramente novos a questão do sentido do ser// é retomar a questão filosófica formulada pelos gregos.
 +    * Retomá-la aprendendo com eles o que ela é, mas também o que nos pede para tornar-nos.
 +  * Relação de Heidegger com os gregos expressa em quatro palavras: //über das Griechische hinaus//.
 +    * Tradução requer manter juntas, sem sobreposição, a visão de Hölderlin e a de Heidegger.
 +    * //Das Griechische//: não só a língua, mas o rapport do espírito grego com o que configura o mundo da palavra grega.
 +    * //Über das Griechische hinaus//: não apenas //para além do grego//, mas //passando pelo grec//.
 +      * Só vai verdadeiramente além dos gregos quem passa por eles; o passagem por eles é obrigatória.
 +      * Heidegger não rejeita a maneira grega de interrogar o ser.
 +    * //Hinaus//: //para lá (longe de onde ainda estamos) saindo daqui!//
 +      * Não se trata de refazer o que os gregos não fizeram, mas, tirando lição disso, levar a bom termo o que nos cabe fazer.
 +  * Citação do //Canto a Colombo// de Hölderlin:
 +    * //Que fazer agora? Na tua opinião, / há-de passar-se / como outrora? É um reino da arte, precisamente, / que eles queriam instituir. Mas com isso / faltaram ao seu / patriótico, e miséria! foi à perdição, / a Grécia, o que houve de mais belo.//
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 +{{tag>Fédier}}