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estudos:fedier:deus-ao-extremo

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 +====== DEUS AO EXTREMO (DIEU À L’EXTRÊME) ======
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 +LDMH
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 +  * Advertência contra uma compreensão superficial da locução //der letzte Gott//.
 +    * Não se trata do //último Deus// no sentido serial de uma sucessão que termina (ex: //último dos moicanos//).
 +    * Tal leitura seria completamente desviante; exige-se desde o início uma outra tradução.
 +    * A tarefa do tradutor é tentar, contra todas as aparências, ouvir o que o autor busca fazer ver.
 +  * Iluminação a partir da língua: //der letzte Gott// é o Deus que mais tardou.
 +    * //Letzt// é a forma superlativa de um antigo adjetivo com a mesma acepção do inglês //late// (tardio, atrasado).
 +    * Pergunta fundamental: quais as razões deste retardamento?
 +      * Razões têm certamente a ver com a dificuldade extrema de formar, sobre o que poderia ser um Deus, um pensamento que não seja nem inépcia nem idolatria.
 +      * Nossa época mascara grosseiramente esta dificuldade decretando que //Deus// é apenas uma ficção.
 +  * Em Hölderlin, o Deus não é de modo algum uma ficção.
 +    * Falando da morte do herói trágico, Hölderlin nota: //O glorioso Júpiter é, no entanto, bem o pensamento extremo (der letzte Gedanke) de um mortal que entra em sua catástrofe.//
 +    * A //catástrofe// do herói é o que expõe o poema trágico; na tragédia sofocliana, toma a forma de um enfrentamento sem mediação entre o divino e o humano.
 +    * O herói trágico não pensa seu //último// pensamento, mas aquele no qual, como mortal, mais se aproxima em pensamento do Deus mais divino.
 +    * O //pensamento extremo// é aquele que vai até o limite do que pode pensar.
 +  * Comentário de Heidegger no tomo 71 [GA71] da edição integral (texto dos anos 1940) sobre a relação entre //o extremo// e o //limite//.
 +    * Citação: //Τὸ πέρας – o fim, aquilo que se encontra na extremidade (das Letzte), a fronteira, lá onde algo termina, por onde é posto nos limites dentro dos quais é.//
 +    * A palavra //das Letzte// é diretamente posta em relação com o //limite (Grenze)//.
 +    * A compreensão correta do limite exige atentar para os advérbios //wobei// (lá onde) e //wodurch// (por onde).
 +      * //Wobei//: índice de presença; a limite inclui tudo o que está à sua proximidade, tudo o que está em relação com ela; a limite consiste no rapport com o que a rodeia.
 +      * //Wodurch//: adiciona ideia de movimento de travessia; o limite é também aquilo //através do que// passa a limitação para limitar.
 +    * O limite é assim pensado como apoiado na limitação, arquitetado naquilo que limita.
 +      * Está //no extremo//: em contato com aquilo que o atravessa (mesmo que este contato seja na maioria das vezes intangível).
 +  * Indicação ainda mais precisa sobre //o extremo// no mesmo tomo 71, página 5, numa apostila.
 +    * Frase: //Der Gedanke des letzten Gottes ist noch undenkbar.// (Pensar Deus ao extremo é por ora ainda coisa impossível.)
 +    * Palavra apostilada: o adjetivo //letzten// (extremo, último).
 +    * Comentário de Heidegger: um único adjetivo, //einstig//.
 +      * //Einstig// é formado sobre o advérbio de tempo //einst// (outrora, uma vez).
 +      * No Dicionário Grimm, //einstig// é explicado pelo termo //futurus//.
 +      * Em Heidegger, a acepção de //einstig// é aprofundada a montante da extensão extrema do tempo, desdobrando um pensamento mais originário do tempo verdadeiro.
 +  * Relação entre //Einst// (uma vez) e //die Letze// (o extremo) no texto //A Palavra de Anaximandro//.
 +    * //Einst//: o que é uma vez, o que é cada vez que é (pensamento do tempo originário).
 +    * //Die Letze//: Heidegger convida a vê-la em relação direta com o grego //ἔσχατον//, reconhecido no vocábulo //escatologia//.
 +      * Em teologia cristã, escatologia é estudo dos //fins últimos// do homem e do mundo.
 +      * Aqui, trata-se de coisas mais imediatas que //fins últimos//; o pensamento dos fins últimos deriva do pensamento da extremidade, mas já fora do quadro originário.
 +    * Extremidade há em toda parte onde algo //termina//, i.e., chega, atinge a limite que o delimita.
 +      * Para os antigos gregos, este limite era visto como lugar de perfeição.
 +      * O limite extremo é este termo onde nos atinge o deslumbramento evocado por Mallarmé, que ocorre cada vez que algo, vindo de além do limite, nos toca.
 +  * Advertência de Heidegger: //Deus ao extremo// é, por ora, //impossível de pensar//.
 +    * No curso //Was heißt Denken?// (1951-52): //O que mais deveria nos tornar pensativos é o fato de que ainda não pensamos.//
 +    * Paradoxo: não pensamos ainda, sendo nós, como humanos, aqueles que não cessam de ser chamados a pensar.
 +    * Neste dilaceramento, se dele tivermos um pressentimento, estamos já numa certa relação com o tempo verdadeiro.
 +      * Este tempo não se compreende pela distinção habitual de passado, presente e futuro.
 +      * Exige que saibamos pensar em conjunto, com igualdade: o que, sendo //passado//, não cessa de ser; o presente da presença; e o futuro que não cessa de vir a nós.
 +  * //Deus ao extremo// não é Deus num futuro extremo.
 +    * A época que vivemos é a do //forçado (der tolle Mensch)// de Nietzsche, que clama: //Deus está morto! Ele não reviverá! E somos nós que o matámos!//
 +    * Este é o pensamento da humanidade de nossa época, seu //último pensamento//.
 +    * É, apesar de tudo, um pensamento, pois, ao lançar o grito //Deus está morto!//, guarda memória, a sua revelia, do que é seu último Deus: o //Deus feito homem//, ou seja, um Deus capaz de morrer.
 +  * Contraste com outras concepções do divino.
 +    * Os Deuses da Grécia eram chamados não sem razão //os imortais//.
 +    * O //Deus// de Israel é invocado sob um nome impronunciável – o do Tetragrama.
 +  * Questão final: nosso pensamento será um dia suficientemente livre, suficientemente aberto – numa palavra, suficientemente //extremo// – para acolher Deus lá onde de preferência ele se encontra: //no extremo//?
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 +{{tag>Fédier}}