estudos:eric-nelson:start
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| + | ====== Eric Nelson ====== | ||
| + | Eric Nelson | ||
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| + | //NELSON, Eric S. Heidegger and Dao: things, nothingness, | ||
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| + | 1. Martin Heidegger (1889–1976) é filósofo do ser sob e a caminho, sendo " | ||
| + | * Cada resposta indicativa antecipatória permanece provisória à medida que o próprio caminho subverte expectativas e obriga a recolocar a questão do ser de modo renovado, explicando a metodologia inicial heideggeriana da indicação formal e sua continuação como peregrinação a variedade, originalidade e intensidade de suas reflexões, que não podem ser reduzidas a um método ou doutrina. | ||
| + | * Essa situação interpretativa obriga seus leitores a recolocar e encenar por si mesmos a questionabilidade e a perplexidade daquilo que deve ser pensado, entrando em condição de estar a caminho sem destino ou propósito predeterminados. | ||
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| + | 2. O pensamento antecipa por meio de expectativas que podem ser subvertidas e reorientadas pelo que se encontra, não havendo estrada real ininterrupta de conceitualização do pensamento e do sujeito até a verdade do ser, tendo o próprio Heidegger confessado ter se deparado com reviravoltas inesperadas, | ||
| + | * O beco sem saída é o lugar onde se é forçado a retroceder, repetir os próprios passos e tomar novos, tendo falado também de seus próprios erros e tolices, atravessando seus caminhos liberdade e fixação, bem e mal, verdade e errância. | ||
| + | * Numerosas publicações reconstruíram esses caminhos por meio de narrativas de desvelamento e ocultamento, | ||
| + | * O filósofo do impensado na história da metafísica não confronta necessariamente de modo suficiente seu próprio impensado, não podendo, contudo, o pensamento apropriado àquilo que deve ser pensado em seu acontecimento evitar caminhadas árduas, passagens estreitas e trilhas íngremes de subida e descida. | ||
| + | * Nas veredas tortuosas e transversais de Heidegger, no jogo de sombra e luz transmitido em sua passagem favorita do [[spc> | ||
| + | * É por isso que a filosofia, inveteradamente enredada em sua própria conceitualidade autorreferencial sem reconhecer adequadamente aquilo que a interpela e motiva, deve criticar impiedosamente, | ||
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| + | 3. Questiona-se por que então escrever ou ler sobre Heidegger e o [[spc> | ||
| + | * Algumas explicações acentuam a cabeça como direcionadora dos pés, mas o acento aqui recai sobre o caminhar e mover-se, seguindo a cabeça a passagem dos pés que avançam pelo caminho e encontram as miríades de coisas em suas circunstâncias variadas. | ||
| + | * A liberdade relacional e o à-vontade despreocupado (xiaoyao you 逍遥游) ocorrem num vagar que reconhece e esquece as coisas, valoriza-as em sua inutilidade e as deixa partir, transitando com as transformações do si e do mundo. | ||
| + | * Esse caminho, tal como percorrido, não pode ser desligado daquilo que se encontra ao longo dele: coisas mutáveis, localidades, | ||
| + | * O vazio pode significar, em linguagem comum, ausência sombria de sentido, mas, ligado à humildade, simplicidade e sinceridade no pensamento chinês antigo, é constitutivo de modo de vida livre e responsivo. | ||
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| + | 4. Não é acidental que Heidegger, que já começara a pensar sobre o caminho daoista em 1919 e 1930, e os primeiros daoistas tenham acentuado questões da coisa como aquilo que deve ser encontrado e do nada como modo de viver livremente que desfaz as fixidezes do si e da identidade. | ||
| + | * Esta investigação recontará e radicalizará suas táticas de questionamento da identidade e de desfazimento da fixação, sendo tentativa de reativar criticamente e reimaginar o caminho de Heidegger à luz do dao dos primeiros daoistas e, em menor mas ainda significativa medida, do dharma budista. | ||
| + | * Isso se dá (1) traçando e situando historicamente as influências daoistas e budistas operantes nos contemporâneos alemães de Heidegger e em seu próprio pensamento, (2) reinterpretando seu pensamento a partir dessas fontes (incluindo aquelas que lhe eram desconhecidas), | ||
| + | * Isso em favor de um ethos renovado de abertura às coisas e ao mundo, como modo de vaguear e habitar livre e responsivamente entre elas e os lugares que moldam, sendo esse ethos, mais elementar em sua exigência que a filosofia orientada a objetos e a teoria das coisas recentes, capaz de reconhecer como as coisas têm seus próprios lugares circundantes e trilhas mutáveis, mesmo que se pense que não têm bem-estar ou senciência próprios. | ||
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| + | 5. Essa tarefa tripla demanda prática intercultural específica de hermenêutica (a arte da interpretação) em resposta às tensões entre circunstâncias históricas e questões filosóficas, | ||
| + | * A estratégia interpretativa heterodoxa aqui empregada é mistura de investigação historiográfica e filosófica, | ||
| + | * Primeiro, a investigação arquivística e histórica libera para o estudo das figuras supostamente pequenas, semiesquecidas e problemáticas de uma época, o que pode conduzir a contextualização hermenêutica e sensibilidade histórica mais apropriadas, | ||
| + | * A hermenêutica de palavras e conceitos implica examinar múltiplas gerações, e não apenas um único autor renomado, podendo o engajamento com textos e autores esquecidos e semiesquecidos facilitar contextualização geracional bem como sua redescoberta ulterior. | ||
| + | * Segundo, textos daoistas e budistas não devem apenas fornecer dados brutos para o raciocínio conceitual europeu, oferecendo variedade de estratégias argumentativas e interpretativas com especificidade situada própria e apostas filosóficas próprias. | ||
| + | * Trabalhando através do ocultamento impensado e das ansiedades de influência, | ||
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| + | 6. O que se segue pode ser lido como reflexão sobre a afirmação de Heidegger: "O desprendimento em relação às coisas e a abertura para o mistério pertencem juntos. Eles nos concedem a possibilidade de residir no mundo de modo inteiramente outro" (GA16: 528). | ||
| + | * Essa constelação de desprendimento, | ||
| + | * Os caminhos de Heidegger rumo ao desprendimento e à liberdade das coisas ([[lx> | ||
| + | * As formas iniciais dessas duas antologias, compostas a partir de fontes díspares, foram datadas do caótico período dos Reinos Combatentes (475–221 a.C.), enquanto as edições transmitidas e redigidas, usadas pelos tradutores alemães lidos por Heidegger e seus contemporâneos, | ||
| + | * Ainda é insuficientemente reconhecido como as imagens e palavras empregadas em edições alemãs do final do século XIX e início do XX reverberam ao longo dos escritos de Heidegger, conferindo-lhes aura tanto de familiaridade quanto de estranheza em comparação com traduções e leituras contemporâneas. | ||
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| + | 7. Questiona-se como veio a ocorrer essa notável conjunção e seu ocultamento, | ||
| + | * Heidegger conhecia o daoismo desde pelo menos 1919, tendo citado repetida e diretamente, | ||
| + | * É digno de nota, dada a notável mudança em seu pensamento em 1942–1944, | ||
| + | * Sua crise pivotal e transformação de meados dos anos 1940, coincidindo com a derrota do Nacional-Socialismo, | ||
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| + | 8. A significação dessa adaptação de fontes daoistas antigas na filosofia europeia permanece controversa, | ||
| + | * Segundo, outra análise, cada vez mais difundida, sustenta que estas são fontes ocultas cruciais das quais seus modos de falar e pensar extraem discernimento, | ||
| + | * Pesquisas anteriores sobre Heidegger e o Oriente prepararam o caminho para essa mudança de percepções, | ||
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