estudos:dufrenne:jaspers:start
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| estudos:dufrenne:jaspers:start [23/07/2026 14:39] – created - external edit 127.0.0.1 | estudos:dufrenne:jaspers:start [11/09/2026 04:01] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== Karl Jaspers ====== | ||
| + | |||
| + | //DUFRENNE, M.; RICOEUR, P. Karl Jaspers et la philosophie de l’existence. Paris: Seuil, 1947// | ||
| + | |||
| + | **Karl Jaspers diante de sua própria situação histórica** | ||
| + | |||
| + | 1. A situação histórica em que a filosofia de Jaspers tem consciência de se produzir pode ser caracterizada por dois traços, sendo o primeiro a crise da metafísica clássica da qual ela por sua vez tenta desembocar, e o segundo o par de influências que a ajudou a encontrar-se a si mesma. | ||
| + | |||
| + | **O fim do idealismo alemão** | ||
| + | |||
| + | 2. A filosofia ocidental, de Heráclito e Parmênides a Hegel, chegou com o maior sistema filosófico do idealismo alemão a um ponto extremo a partir do qual só pode declinar, tendo esse esforço gigantesco de fertilizar pela razão as areias do irracional feito de seu próprio triunfo a suprema traição, engolindo numa construção esplêndida o sentido da realidade, o sentimento de ser foco único de decisão e a certeza de estar em processo como liberdade diante de um ser que não se é nem se sobrevoa, sendo Hegel o fim da filosofia ocidental concebida como saber universal, total e sistemático. | ||
| + | |||
| + | 3. As gerações que nos separam de Hegel foram presa de filósofos que haviam perdido o sentido hegeliano da grandeza e não propunham mais que uma reflexão estreita, o que constituiu na realidade o suicídio da filosofia. | ||
| + | |||
| + | * essas filosofias ocas e sem vida, sonhando com progresso à imagem do das ciências, levaram por certo tempo os estudantes decepcionados a buscar na ciência não apenas conhecimentos, | ||
| + | * esse desejo insensato só podia conduzir a uma crise, não da ciência, mas da consciência diante da ciência, oscilando entre um culto supersticioso da ciência e a denúncia da ciência como ruinosa para a vida, opondo-lhe os apelos do sentimento numa exaltação cega do irracional | ||
| + | * essa dupla corrupção reclamava o retorno a uma grande filosofia que fosse ao mesmo tempo verdadeira crítica das ciências, compreendendo seus limites e percebendo na própria ciência sua condenação como saber pseudocientífico, | ||
| + | |||
| + | 4. Pelo desvio dessa crise da consciência diante da ciência, retorna-se ao ponto de partida, a impossibilidade do sistema depois de Hegel, sendo a vitória pírrica do idealismo e a vitória pírrica do espírito científico fonte de grande esperança e grande decepção, nascendo a nostalgia de uma filosofia à medida das ambições hegelianas, capaz de reencontrar forte ideia da realidade, do indivíduo e do ser absoluto, mas que começasse por registrar o fim da era dos sistemas. | ||
| + | |||
| + | **O choque da exceção: Kierkegaard e Nietzsche** | ||
| + | |||
| + | 5. Na mesma época em que triunfava o hegelianismo e a crítica das ciências desenvolvia todos os seus prestígios e decepções, | ||
| + | |||
| + | * Kierkegaard e Nietzsche, que não se conheceram, devem ser compreendidos um pelo outro apesar da diferença fundamental de sua intuição central, abraçando um com temor e tremor o paradoxo absurdo do Deus-Homem, e reivindicando o outro a coragem de sobreviver solitário à morte de Deus | ||
| + | * tomados em conjunto e esclarecidos um pelo outro, abrem mutuamente caminho, acumulam seu efeito e, por sua contradição insustentável, | ||
| + | * seu mensagem comum situa-os à margem de toda filosofia meramente racional, como testemunhas da existência no sentido forte que Jaspers dá a essa palavra, a existência sendo o indivíduo no sentido mais elevado, não o indivíduo biológico definido pelo cuidado vital, mas o indivíduo livre definido pelo cuidado do ser, o homem que joga seu destino no tempo, diante da morte, no Estado e com seus amigos, podendo por sua decisão perder-se ou ganhar-se, vir a si ou faltar a si | ||
| + | * esse poder de ser ou não ser, ligado a uma decisão que ninguém pode tomar por outrem, abala profundamente o indivíduo que subitamente o descobre, para além do hábito de viver e de todas as garantias sociais e eclesiásticas, | ||
| + | * essa descoberta fundamental, | ||
| + | * a lição de Kierkegaard e Nietzsche é que descobrir a existência do indivíduo é criticar o saber, mas não renunciar a pensar até o extremo, pois nem um nem outro recorreram à efusão, tentando antes fazer jorrar a certeza da liberdade do excesso e do fracasso do saber | ||
| + | * o saber só trai a existência quando serve para eludir o encontro decisivo consigo mesmo, máscara e pretexto para a inautenticidade e a deslealdade, | ||
| + | |||
| + | 6. Ao nascerem para a existência, | ||
| + | |||
| + | * é aqui que Kierkegaard e Nietzsche, ao anunciarem um além do indivíduo, separam-se um do outro e talvez de qualquer um, vendo Kierkegaard a medida do indivíduo no encontro bouleversante do Crucificado, | ||
| + | * diante de Kierkegaard está Nietzsche, para quem Deus está morto, sendo à luz de Kierkegaard também Nietzsche à sua maneira testemunha de certa transcendência, | ||
| + | * antes de se separarem um do outro e de nós, e de se abismarem em sua inacessível solidão, propõem como suprema meditação o sacrifício ou a superação da existência, | ||
| + | |||
| + | 7. Assim, a filosofia de Jaspers encontrou em Kierkegaard e Nietzsche seu choque inicial, e a origem, senão a distribuição precisa, dos três ciclos de temas entre os quais se reparte: a existência nos limites do saber; a existência como ação interior da liberdade, presa à sua situação terrena e em ligação com outras existências únicas e secretas como ela; e a existência às voltas com sua transcendência, | ||
| + | |||
| + | 8. Ainda assim, tratava-se apenas de um choque, decisivo por certo, mas não ainda uma filosofia, o que Jaspers recebia de Kierkegaard e Nietzsche, choque tão capaz de golpeá-lo de estupor quanto de despertá-lo a um pensamento filosófico digno desse nome. | ||
| + | |||
| + | * se Hegel podia parecer o fim da filosofia concebida como sistema, Kierkegaard e Nietzsche marcavam à sua maneira um fim, tendo com eles a apercepção da existência, | ||
| + | * o mais grave equívoco que se pode cometer a respeito de Kierkegaard e Nietzsche é imaginar que se possa repeti-los, imitá-los, continuá-los ou mesmo compreendê-los, | ||
| + | * nem poetas, nem profetas, nem gênios, nem santos, nem filósofos, são irredutíveis a todo tipo humano, sós e inacessíveis como o pinheiro isolado a que ambos se comparam | ||
| + | * não se constrói uma filosofia existencial fazendo marchetaria de citações de Kierkegaard e Nietzsche, pois nada construíram, | ||
| + | * compreende-se então que sua última parada transcendente nos seja incompreensível, | ||
| + | |||
| + | 9. Kierkegaard e Nietzsche têm o poder de nos despertar, mas não de nos dar uma tarefa precisa, restando saber como viveremos nós, que não somos a exceção, mas buscamos nosso caminho interior com o olhar fixo nessa exceção. | ||
| + | |||
| + | 10. Essa questão, que domina toda a filosofia de Jaspers, constitui ao mesmo tempo uma tarefa, a tarefa de filosofar ao fim de certa filosofia esgotada por Hegel e ao fim de certa impossibilidade de filosofar esgotada por Kierkegaard e Nietzsche, sendo essa tarefa a decisão de Jaspers, não um fim mas uma origem, enunciada em termos próximos à questão capital: filosofamos sem ser a exceção, com o olhar fixo na exceção. | ||
| + | |||
| + | |||
| + | {{tag> | ||
