estudos:dufrenne:jaspers:saber
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| + | ====== Saber ====== | ||
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| + | //DUFRENNE, M.; RICOEUR, P. Karl Jaspers et la philosophie de l’existence. Paris: Seuil, 1947// | ||
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| + | 1. Chega-se agora ao ponto de apreciar o sentido da ciência, reunindo os principais temas que conduziram à ideia de um fracasso do saber, o que obriga a recusar doutrinas como o positivismo e o idealismo que concedem à ciência crédito ilimitado, exigindo que a filosofia se separe da ciência onde esta se revela impotente, sem que esse divórcio seja jamais total. | ||
| + | * a ciência já participa do espírito e da intenção da filosofia, sendo, quando se compreende plenamente, não apenas prelúdio mas primeiro ato da filosofia | ||
| + | * essa aproximação se justifica por duas ideias essenciais: há um só mundo, o mesmo que a ciência descreve e que revela a transcendência à existência, | ||
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| + | **O fracasso do saber** | ||
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| + | 2. Nenhum saber se completa, pois em toda parte subsiste um resto que lhe constitui limite, e nenhum dos votos do entendimento em busca de objetividade é definitivamente cumprido. | ||
| + | * não é verdade que a marca do ser seja a consistência e a permanência, | ||
| + | * também não é verdade que todo o ser seja passível de saber, pois nos dois polos do mundo, a matéria bruta e a existência desafiam o conhecimento, | ||
| + | * mesmo no campo que explora, o saber permanece manco, a necessidade lógica sempre relativa, o indefinido do real insuperável, | ||
| + | * o todo do mundo é apenas um pensamento-limite, | ||
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| + | 3. Além de sempre precário e fragmentário, | ||
| + | * toda subjetividade lhe parece criadora de ilusões a denunciar, e ela mesma ilusória, pois análises históricas e psicológicas dariam conta dela, privando-a de sua alma e desconhecendo nela tudo o que já era expressão de uma existência possível | ||
| + | * algo se perde não apenas de mim mas do mundo quando se pensa o mundo como o todo do real objetivo, havendo então algo de quebrado na consciência do ser | ||
| + | * essa perda irreparável assemelha-se à separação de um mundo que tinha rosto e eloquência, | ||
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| + | 4. Esse pesar mais ou menos confuso por uma harmonia nutriz com o mundo anima os processos frequentemente movidos contra os saberes, sustentados por três acusações principais que Jaspers recusa. | ||
| + | * a primeira acusação é que todo saber conduz a uma decepção, ao trocar a presa pela sombra, renunciando à posse ingênua de um ser que era nosso por uma ciência sempre incerta, mas essa decepção só ocorre quando se concedeu ao saber confiança sem precaução | ||
| + | * a segunda é que o saber sufoca a alegria e a esperança que devem animar a vida, esquecendo que toda certeza é relativa e que apenas a existência pode decidir se prefere a tranquilidade inconsciente da ignorância aos perigos lúcidos do saber | ||
| + | * a terceira reprova ao saber seu caráter redutor, acusação que só se sustenta por conceder-lhe crédito excessivo, pois os esquemas redutores nunca esgotam a realidade e o verdadeiro saber é suficientemente circunspecto para evitar essa armadilha | ||
| + | * ainda assim essas objeções conservam alguma força pelo sentimento obscuro que as anima, de que o saber é déficit e falta, sendo significativo que responder a elas tenha exigido reafirmar os limites do saber e reabilitar a ciência contra suas mais altas pretensões | ||
| + | * outra resposta só pode vir de uma livre decisão da existência, | ||
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| + | **Crítica do positivismo e do idealismo** | ||
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| + | 1. A aproximação entre positivismo e idealismo, paradoxal à primeira vista, justifica-se quando o idealismo é concebido à maneira de Hegel, como doutrina que identifica o ser ao ser do espírito explorado pelas ciências do espírito, revelando ambas as doutrinas o mesmo princípio comum de que o ser é de direito inteiramente permeável ao saber. | ||
| + | * ambas partilham a mesma coerência, pois para elas o verdadeiro é o todo, e o indivíduo, tomado nessa trama sem lacuna, é servidor e instrumento do todo | ||
| + | * a diferença entre os dois sistemas está em que o positivismo confia mais nas ciências da natureza e o idealismo nas ciências do espírito | ||
| + | * o positivismo reduz o ser ao objeto e faz do sujeito um objeto entre objetos, submetendo todo conhecimento à causalidade e ao critério do sucesso da ação | ||
| + | * não há para o positivismo limites de princípio nem para a técnica nem para o saber, e toda ação se reduz a arranjar o ser empírico, sendo a objetividade o único critério dos valores | ||
| + | * o idealismo, ao contrário, acentua o sujeito e o pensamento, concebido como essência de todo ser, participando o ser da ideia a ponto de compartilhar seus avatares dialéticos e ser inteiramente devir | ||
| + | * ao contrário de Kant, para quem a ideia permanece tarefa infinita, o idealismo não resiste à tentação de objetivá-la, | ||
| + | * a ideia é assim medida do ser e regra de vida, trazendo reconciliação a quem nela se entrega, gozando do repouso da totalidade e da paz do acabamento | ||
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| + | 2. Apesar de sua convergência, | ||
| + | * esse debate só pode ser encerrado ao denunciar a afinidade secreta e a insuficiência comum de ambas as doutrinas | ||
| + | * animadas do mesmo desejo de conceber imagem total do mundo, proclamam a inteligibilidade universal do real, suprimindo assim a capacidade de espanto, a inquietação da dúvida e o fervor da pesquisa | ||
| + | * ao encontrarem seus limites, o positivismo no espiritual e o idealismo na matéria, opõem-lhes tranquilamente recusa, o primeiro professando agnosticismo, | ||
| + | * o saber que ambas patrocinam é sem nuance, reduzindo todo o ser a uma coisa, objeto ou ideia cristalizada, | ||
| + | * ambas comprometem igualmente o destino da existência, | ||
| + | * é inevitável que a concepção de um mundo inteiramente transparente, | ||
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| + | 3. O impulso da existência só pode ser concebido superando resolutamente positivismo e idealismo, sem que isso signifique rejeitar sem reserva sua lição, pois as noções deixadas para trás ao transcender recuperam sentido quando examinadas do ponto de vista superior alcançado. | ||
| + | * a ciência retomará todo seu prestígio, e positivismo e idealismo serão de certo modo reabilitados, | ||
| + | * é a filosofia que pronunciará essa reabilitação, | ||
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| + | **O advento da filosofia** | ||
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| + | 1. As análises precedentes, | ||
| + | * é saber enraizado na vida, ao mesmo tempo contemplação e ação, menos ensino de doutrina que assunção de um modo de ser, ato de fé, sendo por excelência o ato da existência | ||
| + | * a filosofia não se limita ao conhecimento objetivo, pois o sujeito concreto que é a existência quer com o objeto relação mais íntima, na qual o mundo se torna signo e linguagem, testemunho do ser | ||
| + | * esse mundo redevolvido expressivo significa o ser, único capaz de interessar à existência e cuja busca apaixonada constitui a filosofia, satisfazendo-se apenas com verdades incondicionadas fundadas na fé e não na coerção lógica | ||
| + | * enquanto a ciência se transmite entre consciências anônimas e intercambiáveis, | ||
| + | * a filosofia, credo do filósofo, não pode ser ciência universalmente válida nem mensagem de salvação para todos, mas conserva autoridade pelo que compromete e exige, testemunho de uma liberdade que se dirige a outras liberdades | ||
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| + | 2. Essa descrição, | ||
| + | * uma visão de mundo é ao mesmo tempo perspectiva sobre o todo do mundo, modo de dar sentido à vida humana segundo escala de valores, abordagem do fundamento de toda realidade e justificação de todo valor, a transcendência | ||
| + | * ela só tem sentido para quem, renunciando a considerá-la de fora, permanece em seu interior, sendo vão pretender reunir e sobrevoar a multiplicidade das visões de mundo para operar escolha entre elas | ||
| + | * uma observação friamente imparcial só descreveria imagens arbitrárias e sem vida, classificadas sob rótulos como romântica, idealista, materialista, | ||
| + | * a única atitude compreensiva a seu respeito, difícil de manter entre as tentações do relativismo e do fanatismo, é no fundo a da comunicação | ||
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| + | 3. Uma visão de mundo pode ser dita ponto de vista de um sujeito sobre o ser, desde que se entenda que, assim que reconheço um ponto de vista como ponto de vista, ele deixa de ser minha visão de mundo, pois deixo de identificar-me a ele ao assumi-lo. | ||
| + | * a visão de mundo é ponto de vista que primeiro não escolhi, imposto na situação histórica concreta em que me encontro, ponto de vista particular que faz corpo comigo e me lastreia | ||
| + | * quem sonha com possíveis e tenta adotar situação ou personalidade diferente da sua perde pé e não tem pensamento verdadeiramente seu | ||
| + | * é preciso identificar-me à minha condição sem reserva, e então o ponto de vista onde estou colocado deixa de ser exterior a mim, tornando-se eu mesmo, expressão do eu originial | ||
| + | * mesmo quando se enuncia em linguagem objetiva, a visão de mundo nunca se esgota, pois o universal só pode exprimir o impessoal, não o único, sendo incapaz de exprimir a fé que constitui seu núcleo, como o é da filosofia | ||
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| + | 4. Sendo a visão de mundo a alma da filosofia, essa breve análise permite compreender que a filosofia, demarche incomparável do sujeito para captar o ser, transcende toda ciência, restando ainda voltar-se para a ciência a fim de perceber que essa demarche já se esboça nela, constituindo, | ||
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| + | **O significado último da ciência** | ||
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| + | 1. A ciência se estende tão longe quanto o saber necessário, | ||
| + | * toda ciência se afirma opondo-se à metafísica que lhe forneceu suas primeiras hipóteses, ganhando a metafísica em ser purgada da superstição e a ciência em assegurar-se claramente da realidade objetiva | ||
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| + | 2. A afinidade entre ciência e filosofia não se encontra na determinação de seus objetos ou métodos, mas mais profundamente no espírito que anima a ciência, em sua vontade originária de saber que nada pode satisfazer, vontade que não depende de causas nem de necessidade prática. | ||
| + | * Jaspers não admite a explicação pragmatista da ciência, situando a satisfação pragmática no grau mais baixo entre as diversas satisfações do saber | ||
| + | * a pesquisa vai desde logo aos problemas mais difíceis cuja solução não tem utilidade prática alguma, comprovando que a ciência depende de livre iniciativa | ||
| + | * essa vontade de levar aos limites nunca se dá por vencida, pois as ideias, sob seu aspecto subjetivo destacado por Kant, proíbem pôr um ponto final na investigação | ||
| + | * as ideias constituem no seio da própria ciência exigência já metafísica, | ||
| + | * dizer que a ciência magnetizada pela razão busca o um é dizer que cede a impulsão metafísica, | ||
| + | * o um tem significação existencial, | ||
| + | * quando uma ciência reivindica para si a hegemonia, exprime sem saber o cuidado ontológico que a anima, mimetizando esforço incansável de transcender-se | ||
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| + | 3. A vocação da ciência não é equívoca, pois deve ater-se aos fatos positivos, e é precisamente ao cumprir seu próprio fim, rompendo com a metafísica, | ||
| + | * mesmo limitada ao setor da realidade objetiva, a ciência permanece de algum modo em presença do ser, procurando a simples consideração dos fatos já satisfação contemplativa | ||
| + | * o fato, tal como aparece à exploração do mundo, é presença real, espessa e carnal, na qual o mundo se dilata e se aprofunda, atestando o ser mesmo em seu silêncio | ||
| + | * esse respeito pelo real, que impede que ele se apague aos olhos do pesquisador, | ||
| + | * esse é o fundamento do verdadeiro empirismo, que não deve ser confundido com o empirismo dogmático, mais popular, que retira do fato toda sua riqueza e conduz ao desespero ou ao fanatismo intelectuais | ||
| + | * o amor ao ser é menos presunçoso e mais fiel, combatendo os fantasmas e as ilusões, permanecendo disponível diante da plenitude e da novidade do fato | ||
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| + | 4. Dizer que a ciência é sustentada por um impulso filosófico é dizer ao mesmo tempo que o cientista já é existência possível, pois a significação metafísica do ser só pode ser pressentida por quem já se elevou à existência. | ||
| + | * o positivista é incapaz de justificar a si mesmo, pois se o cientista é apenas um pedaço de natureza, só pode explicar-se por causas biológicas, | ||
| + | * o positivista mais intransigente depõe contra o próprio positivismo, | ||
| + | * as virtudes da existência pertencem ao pesquisador ávido de saber, que, mais do que crê, é ele mesmo ao pensar | ||
| + | * verifica-se assim que a consciência em geral se ultrapassa a si mesma, pois o próprio ato de abdicar toda personalidade para pensar objetivamente é ainda ato de uma personalidade e decisão de uma liberdade | ||
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| + | 5. O drama da ciência é buscar o ser onde só pode encontrar um aspecto incompleto, a objetividade, | ||
| + | * Jaspers não exige que se decida sem exame, por golpe de força filosófico, | ||
| + | * é sempre a partir da ciência que a filosofia se torna possível, pois o filósofo está no mundo e não pode abdicar dessa condição sem perder-se | ||
| + | * o rosto da transcendência só pode aparecer no mundo, pois sem mundo não há transcendência | ||
| + | * o próprio idioma elaborado pelas ciências para exprimir o saber objetivo do mundo não é inútil à filosofia, pois existência e transcendência não podem estar presentes ao pensamento sem que este se traduza na linguagem universal da objetividade | ||
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| + | 6. A ciência tem sua dignidade por ser complementar tanto quanto oposta à filosofia, encontrando nela seu impulso e realizando-se primeiro na vontade de saber que a filosofia também procura satisfazer, configurando menos luta hostil que luta fraterna entre as duas por uma verdadeira ciência e uma verdadeira filosofia. | ||
| + | * a ciência serve à filosofia ao proibi-la de tomar-se por ciência, recordando-lhe sua vocação própria de seguir o impulso da existência | ||
| + | * a filosofia serve à ciência ao revelar-lhe seus limites, preservando-a do dogmatismo e mantendo-a em contato com o objeto | ||
| + | * saber e fé apoiam-se mutuamente, desde que cada um guarde sua autonomia, restando agora ver como a filosofia, ao salvar a ciência, a transcende, e como o filósofo transcende em si o cientista ao aceder à existência | ||
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