estudos:dastur:husserl:temporalidade
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| + | ====== Temporalidade ====== | ||
| + | //DASTUR, Françoise. Husserl: des mathématiques à l’histoire. 1. éd ed. Paris: Presses Univ. de France, 1995.// | ||
| + | **Fenomenologia e temporalidade** | ||
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| + | * A fenomenologia percorre uma evolução desde as Investigações lógicas, onde se restringia à constituição de objetos ideais, até sua definição em 1901 como psicologia descritiva voltada à análise da estrutura intencional dos vividos, reduzindo-se então à imanência da consciência como esfera da evidência absoluta e deixando inacessível o domínio transcendente da natureza, o que leva à sua caracterização como domínio de pesquisas neutras sem decisão ontológica prévia | ||
| + | * a descoberta da redução fenomenológica remonta a 1905, registrada por Husserl no manuscrito de Seefeld, no Tirol | ||
| + | * essa descoberta representa a superação do cartesianismo, | ||
| + | * o objeto passa a ser compreendido como imanente ao sentido intencional, | ||
| + | * em 1913, nas Ideias diretrizes para uma fenomenologia pura, essa correlação é reformulada como a correlação fundamental entre noese e noema, tornando a fenomenologia uma ciência transcendental em sentido estrito | ||
| + | * o idealismo transcendental husserliano se apresenta como mais radical que o kantiano, conforme afirmado nas Meditações cartesianas, | ||
| + | * a recusa da coisa em si como conceito absurdo, enunciada nas Ideias, conduz à identificação, | ||
| + | * toda forma de transcendência constitui-se como sentido de ser no interior do ego, de modo que ser e consciência pertencem essencialmente um ao outro, formando o concreto uno e absoluto da subjetividade transcendental, | ||
| + | * ainda que nenhuma limitação externa, seja a veracidade divina, seja a realidade absoluta da coisa em si, possa restringir o poder constitutivo da subjetividade transcendental, | ||
| + | * a fenomenologia transcendental, | ||
| + | * o problema do tempo e o problema do outro configuram-se como problemas-limite de uma filosofia da subjetividade, | ||
| + | * Husserl define nas Ideias de 1913 o ser imanente da consciência como ser absoluto que não necessita de nenhuma outra coisa para existir, retomando a definição cartesiana de substância | ||
| + | * em manuscrito de 1924 sobre o idealismo transcendental, | ||
| + | * isso não implica, contudo, pura interioridade, | ||
| + | * por ter concebido o ego como res cogitans, Descartes teria manquê o transcendental, | ||
| + | * nos anos seguintes à publicação do primeiro livro das Ideias, Husserl abandona o modelo da substância e passa a compreender o ego puro como centro do fluxo dos vividos ou polo das afecções e ações, o que implica que o ego, por não ser realidade mundana e psicológica, | ||
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| + | **Consciência e temporalidade** | ||
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| + | * O problema da constituição do ego, denominado por Husserl Urkonstitution, | ||
| + | * O tempo constitui, para a fenomenologia e para toda a filosofia, não um problema entre outros mas a dificuldade última, à qual Husserl alude nas Ideias de 1913 ao mencionar o enigma da consciência do tempo como o absoluto definitivo e verdadeiro sobre o qual se funda toda consciência de objeto | ||
| + | * A consciência constituinte já é ela mesma constituída, | ||
| + | * Esse absoluto definitivo e verdadeiro identifica-se ao continuum temporal que liga necessariamente os vividos uns aos outros num mesmo fluxo | ||
| + | * Husserl depara-se aqui com o mesmo problema já enfrentado por Kant, o da relação íntima do sujeito com o tempo, mas concebe o sujeito não como forma lógica do Eu que acompanha as representações, | ||
| + | * A análise fenomenológica do ego transcendental constitui a tarefa do fenomenólogo iniciante que parte de si mesmo, mas essa fenomenologia estática não dá acesso aos problemas genéticos, últimos quanto à constituição do próprio ego, exigindo a passagem a uma fenomenologia genética | ||
| + | * Já em 1905 esse nível último de investigação é atingido, o que impede considerar o tema genético como desenvolvimento tardio do pensamento husserliano | ||
| + | * A especificidade do questionamento fenomenológico nas Lições de 1905 consiste em pôr desde logo o tempo objetivo fora de circuito, interrogando-se apenas sobre o tempo imanente do curso da consciência, | ||
| + | * O ponto de partida da análise da consciência do tempo é a crítica da concepção brentaniana do tempo, à qual se dedica toda a primeira seção do curso, na qual Husserl descobre um núcleo fenomenológico consistente na compreensão do tempo como continuum | ||
| + | * O interesse fenomenológico da concepção de Brentano, ainda que permaneça mera explicação psicológica da origem do tempo, reside em ter pensado a associação originária entre passado e presente na consciência, | ||
| + | * Brentano, ao compreender a unidade da consciência que abarca passado e presente como um dado imediato, permanece fiel aos fenômenos, tal como Bergson ao declarar que consciência significa antes de tudo memória e que uma consciência instantânea se confunde com a própria inconsciência — "Uma consciência que não conservasse nada de seu passado, que se esquecesse sem cessar de si mesma, pereceria e renasceria a cada instante — como definir de outro modo a inconsciência? | ||
| + | * O que Brentano e Bergson anteciparam corresponde ao que Husserl nomeará retenção do passado imediato no presente ou lembrança primária, em oposição à recordação ou lembrança secundária, | ||
| + | * Brentano abandona o nível fenomenológico e recai no psicológico ao explicar que o passado imediato é retido na consciência do presente por intermédio da imaginação, | ||
| + | * Husserl resume assim a tese de Brentano — "Assim a imaginação se mostra aqui, de modo específico, | ||
| + | * Essa explicação psicológica, | ||
| + | * A origem sensualista, | ||
| + | * Problemático nessa teoria é o devir continuamente irreal do presente real, tornando a vida, à exceção do instante presente, um sonho — concepção que só faz sentido se se considerar, como Descartes nos Princípios da filosofia, que a condição do ser finito que é o homem é estar à distância do ser que "não nos afeta" | ||
| + | * Brentano, fiel aos fenômenos ao reconhecer o caráter originário da extensão temporal da consciência, | ||
| + | * Husserl conclui sua crítica — "É também muito inquietante procurar dar o passado como um irreal, um inexistente. Um momento psíquico que se acrescenta não pode, contudo, fazer uma irrealidade, | ||
| + | * A adjunção do fantasma teria em Brentano uma virtude irrealizante, | ||
| + | * A essa concepção Husserl opõe a realidade e a presença não pontual de um vivido que engloba unitariamente presente, passado e porvir, dirigindo a Brentano duas objeções — a de que a representação do tempo não é obra da imaginação, | ||
| + | * Para precisar essa segunda objeção, recorre-se ao exemplo de Merleau-Ponty na Fenomenologia da percepção, | ||
| + | * Brentano não teria percebido que o tempo é uma forma e não um conteúdo, por não distinguir entre ato e conteúdo de consciência, | ||
| + | * As duas objeções, embora aparentemente contraditórias, | ||
| + | * A esse divórcio clássico entre temporalidade e consciência Husserl propõe pôr fim, preocupação em certa medida semelhante à de Heidegger em Ser e tempo, que recusa considerar o Dasein como um ser-no-tempo e o tempo como dimensão cosmológica objetiva, pensando antes o Dasein como tempo | ||
| + | * Kant teria posto o tempo na consciência retirando-o das coisas, contra Newton partidário do tempo absoluto, mas fazendo dele um fenômeno e não pura aparência, contra Leibniz que concebia o tempo como pura relação, admitindo assim uma realidade empírica e uma idealidade transcendental do tempo | ||
| + | * Husserl, recusando a distinção kantiana entre dois modos de intuição e a oposição fenômeno-coisa em si, sustenta que toda consciência é consciência de realidade, não havendo outro mundo além do que aparece, de modo que não se trata de localizar o tempo na consciência mas de mostrar que a temporalidade das coisas é correlativa daquela mais fundamental e oculta da consciência | ||
| + | * Essa conquista, não elaborada pela tradição filosófica — salvo talvez por Hegel, que também recusa contra Kant a oposição ser-aparecer e com quem o idealismo husserliano guarda secreta cumplicidade —, corresponde a uma concepção temporal da consciência, | ||
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| + | **A estrutura fundamental da temporalidade** | ||
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| + | * Husserl critica com força, nas concepções clássicas da consciência, | ||
| + | * Pensar a intimidade do tempo e da consciência exige considerar a atividade perceptiva em seu momento nascente, e não em seu resultado, razão pela qual Husserl recorre não ao objeto espacial, dado de imediato como uno, mas à melodia, objeto eminentemente temporal cuja identidade se constitui no fluxo sonoro | ||
| + | * Contra a ideia de que a unidade da melodia seria construída pela memória, reduzindo a consciência ao som isolado pontualmente presente, Husserl opõe a intencionalidade de uma consciência que escapa ao encerramento no presente pontual, abarcando também o passado e o futuro próximos, sendo ao mesmo tempo impressional, | ||
| + | * A retenção ou lembrança primária deve ser cuidadosamente distinguida da rememoração ou lembrança secundária, | ||
| + | * Compreender o fenômeno da temporalidade exige, como Husserl sublinha, empreender uma análise mais profunda, que consiste em abandonar o nível da Erklärung, da explicação dos fatos, para se situar no nível da Aufklärung, | ||
| + | * Citação de Husserl — " | ||
| + | * Reter significa aqui manter firme o som em sua própria mudança, podendo-se dizer que a retenção é uma espécie de lembrança do presente e não uma rememoração do passado, distinção que Husserl manterá cuidadosamente entre lembrança primária ou retenção e lembrança secundária ou recordação | ||
| + | * Para que apareça o fenômeno da retenção é preciso situar-se no nível do puro dado hilético, efetuando a epoché do transcendente, | ||
| + | * Citação de Gérard Granel — "O percebido é caracterizado pela identidade do objeto, atrás da qual desaparece a temporalidade da percepção. Para reencontrar a segunda, é preciso, pois, reduzir a primeira" | ||
| + | * As explicações psicológicas confundem a duração da percepção com a percepção da duração, ao passo que Husserl propõe uma espécie de revolução copernicana que consiste não tanto em pôr o tempo na consciência, | ||
| + | * Surge assim a noção de objetos temporais (Zeitobjekte), | ||
| + | * Citação de Husserl — " | ||
| + | * A epoché não é o duvida cartesiana, mas neutralização da tese do mundo, sendo requerida porque o objeto espacial mundano se dá como sem origem e de um só golpe como mesmo, ainda que sua identidade tenha uma história, uma gênese, à maneira do que ocorre também em Hegel, para quem o começo é resultado | ||
| + | * A epoché não entrega a pura diversidade do sensível, mas uma continuidade dos conteúdos sensíveis, problema que Brentano resolvia recorrendo às coortes de simulacros para assegurar a sobrevivência da sensação, ao passo que Husserl lhe reprova não ter compreendido que o tempo é uma forma e não um conteúdo | ||
| + | * A solução husserliana, | ||
| + | * Husserl expõe no parágrafo 10 a continuidade de princípio do fenômeno de escoamento (Ablaufsphänomen), | ||
| + | * Citação de Husserl — "Do fenômeno de escoamento, sabemos que é uma continuidade de mutações incessantes que forma uma unidade indivisível — indivisível em fragmentos que poderiam ser por si mesmos e indivisível em fases que poderiam ser por si mesmas, em pontos da continuidade" | ||
| + | * Husserl continua a falar de fases no plural por necessidade da linguagem, sendo essencial, como observa Granel, não conceder ser separado àquilo de que se fala, podendo-se falar de fases desde que consideradas apenas em sua solidariedade incessante | ||
| + | * Pensar a continuidade do descontínuo é possível pela noção de modo e modificação, | ||
| + | * O escoamento tem um começo e um fim, possuindo o que Husserl nomeia ponto-fonte (Quellpunkt), | ||
| + | * Citação de Kant — " | ||
| + | * O diagrama do tempo traçado por Husserl no parágrafo 10 deve fazer aparecer o que se passa abaixo da linha, pois cada fase do processo é um momento estrutural e não uma parte do todo, o que Husserl caracteriza como das Merkwürdige, | ||
| + | * Citação de Husserl — "Na prossecução contínua (dos modos de escoamento), | ||
| + | * Como explica Granel, o novo instante não se soma a uma estrutura morta, mas abala todo o passado, reestruturando-o inteiramente a cada vez ao empurrá-lo um degrau mais fundo no passado que o presente vivo retém, dando-lhe assim sua espessura | ||
| + | * Husserl explicita no início do parágrafo 11 a noção de impressão originária | ||
| + | * Citação de Husserl — "O ponto-fonte com o qual começa a ' | ||
| + | * O momento inicial é também origem do processo total, sendo retido de maintenant em maintenant, de modo que a retenção é essa intencionalidade longitudinal que visa em cada momento o ponto-fonte, | ||
| + | * Como nota Granel, Husserl recusa aqui a ideia herdada por Kant de Descartes segundo a qual o ser não nos afeta, pois a impressão é impressão do originário | ||
| + | * Retomando o que Husserl nomeia no parágrafo 6 o núcleo fenomenológico da concepção brentaniana do tempo, a saber a unidade da consciência que abarca presente e passado, afirma-se que a consciência, | ||
| + | * Citação de Husserl — "Cada presente atual da consciência está submetido à lei da modificação. Ele se transforma em retenção de retenção, e isso continuamente. Resulta daí, por consequência, | ||
| + | * O conceito de modificação dá conta da continuidade essencial da duração, isto é, da passagem do presente ao passado, da impressão à retenção, passagem que se faz sob a forma de uma suite de esquisses, Abschattungsreihe, | ||
| + | * O passado é retido sob forma de sombras que não se somam umas às outras num processo regressivo infinito, mas cada retenção é ela mesma modificação contínua que carrega em si, sob a forma de uma sucessão de degradês, a herança do passado, implicando não enfraquecimento mas remanejamento incessante das retenções mais antigas pelas mais novas | ||
| + | * Citação de Husserl — "Não de tal modo que simplesmente cada retenção anterior seja substituída por uma nova no sentido do comprimento do fluxo, ainda que continuamente. Cada retenção ulterior é antes, não simplesmente modificação contínua saída da impressão originária, | ||
| + | * Cada fase carrega em si todas as retenções precedentes das quais ela mesma é retenção, havendo solidariedade viva entre as fases enquanto sombras projetadas da renovação incessante do mesmo ponto inicial, as diferenciais de uma identidade temporal | ||
| + | * Husserl utiliza por duas vezes a imagem do cometa para falar da continuidade no afastamento, | ||
| + | * Citação de Husserl — "Esta apreensão-de-agora é como o núcleo diante de uma cauda de cometa de retenções" | ||
| + | * Citação de Husserl — " | ||
| + | * Essa imagem permite compreender que a consciência do passado, a consciência retencional, | ||
| + | * O passado não é um contendo (Inhalt) mas uma certa teor (Gehalt) da consciência, | ||
| + | * Citação de Husserl — "Mas já está claro, a partir dos desenvolvimentos precedentes, | ||
| + | * Citação de Husserl — " | ||
| + | * Não há, portanto, que se perguntar como uma consciência adquire a dimensão do passado, pois a dimensão temporal é um a priori da consciência, | ||
| + | * É tempo de proceder a uma recapitulação de conjunto e de enunciar sucintamente os resultados a que essa análise da consciência temporal permitiu chegar, a saber, a dupla intencionalidade da consciência | ||
| + | * Sob a intencionalidade transversal, | ||
| + | * Husserl reconhece que os conteúdos sensíveis ou hiléticos, aos quais a consciência objetivante dá a forma de um objeto, não estão, como acreditava Kant, em puro estado de dispersão, mas já possuem em si mesmos o momento unitário da forma, havendo sob a intencionalidade objetivante doadora de sentido uma intencionalidade oculta interna à própria hyle | ||
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| + | **O enigma da autoconstituição** | ||
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| + | * Ricœur afirma, no comentário que dedica às Lições de 1905 no terceiro tomo de Tempo e narrativa, que o verdadeiro sentido do empreendimento husserliano só aparece na terceira seção, dedicada ao percurso sistemático dos diferentes graus de constituição do tempo, retornando ao tempo objetivo posto fora de circuito desde a introdução | ||
| + | * Citação de Ricœur — "o verdadeiro sentido do empreendimento husserliano só aparece na terceira seção" | ||
| + | * O tempo imanente e o tempo objetivo são ambos tempos constituídos, | ||
| + | * Havendo concomitância, | ||
| + | * Nos dois primeiros níveis encontram-se processos que duram ou mudam, próprios das unidades constituídas, | ||
| + | * Assim como já Bergson, constata-se que não há, sob a mudança, coisas que mudam, nem suporte à mudança, sendo destituído de sentido querer encontrar algo que permaneça um instante inalterado no curso de uma duração | ||
| + | * A ascensão a esse nível do constituinte absoluto encontra enormes dificuldades, | ||
| + | * Sendo toda fala um logos ti kata tinos, um dizer algo de algo, e não havendo mais nada objetivável no fluxo, só se pode falar dele metaforicamente, | ||
| + | * Citação de Husserl — "Não podemos nos exprimir de outro modo senão dizendo — este fluxo é algo que assim nomeamos segundo o que está constituído, | ||
| + | * A questão difícil da unidade desse fluxo constituinte se coloca com ainda mais acuidade, pois Husserl afirma que é num único e mesmo fluxo de consciência que se constituem simultaneamente a unidade do objeto imanente e a do próprio fluxo de consciência, | ||
| + | * Há um olhar que se dirige através das fases de escoamento para o que está constituído, | ||
| + | * A Verflechtung, | ||
| + | * Contrariando os princípios que guiaram toda a análise da consciência íntima do tempo, o constituinte aparece por si mesmo, havendo uma auto-aparição, | ||
| + | * Retomando uma metáfora da introdução da Fenomenologia do espírito de Hegel, nada se passa nas costas da consciência constituinte última, tudo ocorrendo diante dela, o que implica um recobrimento do constituído e do constituinte | ||
| + | * Husserl acrescenta que constituído e constituinte não podem coincidir em todos os aspectos, pois nesse caso não haveria tempo mas autoconstituição instantânea, | ||
| + | * O tempo é precisamente essa não coincidência ou não recobrimento total do constituinte e do constituído, | ||
| + | * Ao final do parágrafo 39, Husserl fala também da não identidade do constituinte e do constituído, | ||
| + | * Resta perguntar se esse absoluto definitivo e verdadeiro que é o enigma da consciência do tempo é efetivamente alcançado nas Lições de 1905, podendo-se falar de certo fracasso dessas Lições | ||
| + | * A autoconstituição originária do fluxo só pode ser captada e vista na dimensão do sempre já advindo, de modo que o absoluto definitivo da constituição originária do eu por si mesmo só pode aparecer como sempre já finito, revelando a finitude originária de uma consciência que só constitui a essência do tempo porque já é ela mesma temporal | ||
| + | * Husserl vê-se assim obrigado a interrogar os limites internos do poder constituinte da consciência quando trata do tempo, pois o sujeito chega sempre tarde demais, sempre já precedido pelo outro — aqui o próprio tempo em seu fluxo infinito, ali, como se verá adiante, o alter ego, cuja constituição Husserl se esforça por pensar na quinta Meditação a partir da esfera primordial de pertença do ego monádico | ||
| + | * Em 1905 Husserl já esbarrara nesse limite da fenomenologia que constitui o tempo em seu caráter inconstituível, | ||
| + | * Nas Ideias, afastado o problema da constituição originária do eu, isto é, da identidade da subjetividade absoluta e do fluxo temporal, todo esse período é marcado pela preocupação de compreender a redução como neutralização da transcendência que conserva o que suspende | ||
| + | * A redução tem caráter dialético, suspendendo, | ||
| + | * Torna-se assim necessário alargar a redução, passando de seu sentido redutor ou privativo — a suspensão das transcendências — a seu sentido propriamente recondutor ou positivo — a reconduzão de toda transcendência e imanência constituída ao poder constitutivo de um ego transcendental que aparece como a esfera do ser absoluto | ||
| + | * Essa reconduzão do transcendente a uma esfera imanente alargada em esfera noético-noemática deixa intocado o enigma do tempo, não conseguindo o idealismo husserliano desse período superar o ponto de vista estático segundo o qual todo ser é ser-constituído | ||
| + | * O problema da constituição originária do próprio ego reaparecerá com nova força ao longo dos anos vinte, colocando-se em 1905 ainda em termos simples — ou o eu está fora do tempo e o constitui, não havendo temporalidade senão constituída, | ||
| + | * A essa alternativa Husserl tenta escapar pela ideia de autoconstituição do fluxo, resposta apenas formal à exigência de unir consciência e tempo que comanda toda a investigação de 1905, o que explica que o problema reapareça após a elaboração da redução transcendental, | ||
| + | * A partir dos anos vinte impõe-se a necessidade de não permanecer numa concepção estática de um ego transcendental que neutralizaria toda gênese refundando-a sobre sua imanência intemporal, mas de pensar a vida noética do ego transcendental e chegar à ideia de uma gênese transcendental do próprio ego, que se constitui na unidade de uma história, como afirma a quarta Meditação cartesiana | ||
| + | * Já não se trata de descobrir a unidade estática de um tempo indizível que não escoa na realidade mutável do escoamento, mas de pensar a historicidade transcendental da própria consciência, | ||
| + | * Nesse horizonte aberto pela ideia de gênese passiva, que revoluciona a própria ideia de sujeito e leva Husserl, nos manuscritos desse período, a oscilar entre idealismo e existencialismo, | ||
