estudos:dastur:husserl:historia
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| + | ====== História ====== | ||
| + | //DASTUR, Françoise. Husserl: des mathématiques à l’histoire. 1. éd ed. Paris: Presses Univ. de France, 1995.// | ||
| + | **Fenomenologia e história** | ||
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| + | * Da constituição da fenomenologia transcendental como idealismo transcendental, | ||
| + | * A própria dimensão fenomenológica começa a se tornar problemática, | ||
| + | * Essa meditação desenvolve-se em A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental sob a forma de uma teoria da história e do mundo cultural, não como enxerto sobre uma teoria do ego já constituído, | ||
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| + | **Da crítica do antropologismo ao humanismo da última filosofia** | ||
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| + | * A importância do tema da humanidade e do homem como ser cultural na última fase do pensamento de Husserl testemunha a natureza humanista de sua filosofia, ainda que a associação do termo humanismo a seu nome pareça inicialmente imprópria, dado que a fenomenologia começou pela crítica implacável do psicologismo, | ||
| + | * A introdução do ponto de vista transcendental nas Ideias diretrizes para uma fenomenologia e a conversão idealista que ela implica não significam a reintrodução do homem como centro das estruturas transcendentais, | ||
| + | * Para Husserl, o homem e o ego humano são realidades mundanas, seres relativos, sendo o ser absoluto, a consciência transcendental, | ||
| + | * Levanta-se a questão de saber se Husserl teria assim se tornado infiel a seu projeto inicial, transformado-se em metafísico ao abandonar a neutralidade metafísica condição da descrição fenomenológica, | ||
| + | * Interroga-se o sentido da ausência do homem na primeira filosofia de Husserl, ao afirmar nas Investigações lógicas que o eidos não é parte do objeto individual nem da consciência humana, mas intemporal e em si, termos retomados em Experiência e julgamento, obra fundada em manuscritos de 1919 a 1934 e publicada por Landgrebe em 1938, poucos meses após a morte de Husserl | ||
| + | * Em Experiência e julgamento repete-se o já estabelecido nas Investigações lógicas — nenhum sentido metafísico é dado à descrição das essências, não tendo a redução eidética pretensão metafísica, | ||
| + | * A passagem a uma posição metafísica só ocorre com a redução transcendental, | ||
| + | * Citação de Husserl — "Por conseguinte (eu já estava aí quando da publicação das Ideias), a lógica formal e toda a ontologia real perderam para mim seu interesse original, em face de uma fundação sistemática de uma teoria da subjetividade transcendental, | ||
| + | * As questões teleológicas e teológicas, | ||
| + | * Embora Husserl faça abstração de toda tese teológica nas Ideias I, Deus é para ele mais que um simples conceito-limite, | ||
| + | * Em 1913 o lugar do absoluto transcendental não é o homem ou a humanidade, mas uma consciência não pessoal e não corporal, questionando-se se tal subjetividade transcendental pode ser algo além de pura abstração, | ||
| + | * Husserl responde afirmando que o eu transcendental e o eu natural não são eus diferentes nem ligados entre si, mas o mesmo eu, transformando-se o eu empírico em eu transcendental por simples conversão de atitude, consistindo a tarefa da fenomenologia transcendental em revelar a atividade constitutiva do eu transcendental dissimulada ao ego psicológico voltado diretamente aos objetos dados | ||
| + | * O problema da relação do ego transcendental ao ego mundano permanece, como atesta a solução dada por Husserl à constituição do ser humano como pessoa no segundo livro das Ideias, onde continua a pensar o ser humano, conforme a tradição metafísica, | ||
| + | * A situação é inteiramente diferente nas últimas obras de Husserl, sobretudo na Krisis, onde a reabilitação da ideia de homem concerne ao homem como ser cultural, ser de tradição e de história, permanecendo Husserl fiel à definição metafísica do homem como ser racional, Vernunftwesen, | ||
| + | * O homem deixa de ser o nome de uma realidade mundana ou natural para tornar-se correlato de um projeto teleológico, | ||
| + | * A abordagem husserliana da história é mais kantiana que hegeliana, apesar de semelhanças de vocabulário, | ||
| + | * Ao rejeitar a ideia de um infinito atual e positivo, Husserl confere ao tempo nova importância ontológica, | ||
| + | * As verdades lógicas não são eternas mas omnitemporais, | ||
| + | * Deus, como logos absoluto, não existe no sentido de infinito atual, mas enquanto ideia ligada a um tempo infinito é o horizonte da história, sua origem e sua finalidade, não sendo senão a razão absoluta vindo a si mesma num processo infinito, podendo a própria história ser considerada o processo de autorrealização da divindade (Selbstrealisierungsprozess der Gottheit), conforme manuscrito dos anos trinta, identificando-se em última análise a ideia de Deus à de uma humanidade perfeita e totalmente racional | ||
| + | * Husserl não busca demonstrar que há razão na história, mas afirma que a razão e a verdade exigem em si mesmas a história, transformação tão radical das noções de história, razão e verdade que se torna por vezes difícil, como nota Tran Duc Thao, distinguir esse extremo transcendentalismo de um simples relativismo subjetivo, implicando a noção de humanismo transcendental desenvolvida na última obra a ideia de uma humanidade produzindo transcendentalmente as verdades racionais | ||
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| + | **Razão e cultura na última filosofia de Husserl** | ||
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| + | * A relação entre razão e cultura constitui o tema fundamental da Conferência de Viena de maio de 1935 e do pequeno texto de 1936 intitulado A origem da geometria, sendo o mundo cultural resultado da tradição e implicando vida histórica em sentido geral, havendo cultura onde o passado pode ser preservado sob a forma de hábitos e sedimentos reativáveis e onde o futuro pode ser antecipado sob a forma de projetos e planos | ||
| + | * A cultura implica não apenas a dialética da retenção e da protenção mas também a tradicionalidade, | ||
| + | * Cultura significa ainda, num sentido eminente, filosofia, o advento da racionalidade e da ciência, como já sublinhado em artigo de 1927 para uma revista germano-japonesa, | ||
| + | * Os modos de tradicionalidade finita concernem a diferentes tipos de humanidades (Menschheiten), | ||
| + | * O surgimento da ideia filosófica está na origem de uma revolução do conjunto da cultura, uma revolução da historicidade, | ||
| + | * Num texto breve de 1934, comentado por Derrida em sua introdução a A origem da geometria, Husserl diferencia vários níveis de historicidade | ||
| + | * A historicidade no sentido mais geral constitui a essência da existência humana como existência tradicional e cultural, encontrando-se nesse primeiro nível os tipos empíricos de humanidades, | ||
| + | * O segundo nível é o da humanidade europeia, da cultura científica e filosófica, | ||
| + | * Há assim três formas de cultura e três tipos diferentes de idealidades — no nível da tradicionalidade finita, onde já há uma primeira forma de idealidade, as formações culturais estão ligadas a uma realidade mundana, sendo universalmente válidas, indefinidamente reiteráveis, | ||
| + | * Essas idealidades livres, ao mesmo tempo omnitemporais e omniespaciais, | ||
| + | * A terceira forma de cultura constitui-se pelo nível da meditação de si da humanidade, que tomaria consciência da relatividade das formações culturais à intersubjetividade transcendental que as constitui, sendo nesse nível que se torna concebível uma historicidade transcendental, | ||
| + | * Essa tradição da verdade requer um médium universal que permita à verdade tornar-se realmente omnitemporal e objetiva, esse médium sendo a linguagem, não como código que exprime uma objetividade preexistente, | ||
| + | * A linguagem é condição essencial da intersubjetividade e, por conseguinte, | ||
| + | * Ao mostrar que uma razão dinâmica, teleológica, | ||
| + | * A nova imagem do homem como homem filosófico que emerge na última filosofia de Husserl nada mais é do que a reabilitação do próprio homem metafísico, | ||
| + | * Sem exceder os limites da tradição, Husserl não se contenta em repeti-la, subvertendo a fenomenologia de dentro a paisagem metafísica, | ||
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| + | **O pensamento husserliano da comunidade e do Estado** | ||
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| + | * A reflexão de Husserl sobre as noções de comunidade e de Estado inscreve-se no horizonte dessa concepção transcendental da história e da cultura, implicando que tais fenômenos não são puramente empíricos e contingentes, | ||
| + | * Os desenvolvimentos consagrados a esses problemas nos manuscritos foram numerosos o bastante para que Karl Schuhmann, autor de uma Husserl-Chronik, | ||
| + | * A ideia de comunidade humana funda-se, para Husserl, na experiência intersubjetiva que atesta não estarem os sujeitos isolados mas em constante comunicação, | ||
| + | * Se a empatia, que pressupõe a encarnação, | ||
| + | * Essa intersubjetividade comunicativa simples da relação Eu-Tu permite, como sublinha Husserl, a abertura de uma janela na mônada do outro, pois em Husserl, ao contrário do que ocorre em Leibniz, as mônadas têm janelas, não encontrando o princípio de sua harmonização num entendimento divino exterior | ||
| + | * Isso constitui o modelo de um ser recíproco dos sujeitos uns para os outros (Miteinander der Subjekte) e de um partilhar da vida (Miteinanderleben), | ||
| + | * Citação de Husserl — "não há uma simples analogia ou uma simples imagem no fato de falar, por exemplo, de um espírito da comunidade" | ||
| + | * É esse espírito da comunidade que motiva as decisões e ações comuns de um grupo, encontrando-se nesse nível uma experiência supraindividual, | ||
| + | * É nesse nível da tradicionalidade em sentido mais amplo que se encontram os costumes e a moral, normas de conduta que limitam a vontade e a atividade individual, sendo a normalização da conduta individual pela moralidade o que realiza uma sociedade permanente, por oposição a uma comunidade de fim apenas temporário | ||
| + | * Não há para Husserl diferença real entre sociedade e comunidade, ao contrário do que ocorre em Tönnies, célebre autor de Gemeinschaft und Gesellschaft, | ||
| + | * As esferas da comunidade e do Estado são estritamente diferenciadas por Husserl, apesar de interferirem uma na outra, devendo ele, como todo filósofo que trata do fato político, resolver o problema da origem do Estado — formação natural ou cultural, dado com a unidade do Volk como espírito do povo, Volkgeist à maneira hegeliana, ou constituído por processo voluntarista como comunidade artificial | ||
| + | * Apesar de certas obscuridades e hesitações na resposta, sendo o Estado ora considerado a verdadeira forma do povo e da nação, ora comunidade artificial que requer constituição de vontade específica, | ||
| + | * O Estado é necessário para evitar o conflito de fins perseguidos por cada indivíduo numa comunidade e para pôr fim à guerra dos interesses particulares, | ||
| + | * Enquanto tal, o Estado requer o instrumento da lei, sendo lei e Estado inseparáveis para Husserl, não havendo lei em sentido estrito senão no Estado, tendo a lei o sentido de coerção, restrição e interdição, | ||
| + | * Esse poder (Macht) do Estado não é fenômeno natural mas resultado de organização intencional, | ||
| + | * Os funcionários são profissionais, | ||
| + | * A formação do Estado integra-se ao movimento teleológico de toda a fenomenologia, | ||
| + | * Isso implica que a organização social não é apenas coerção, mas também meio de atingir a felicidade, não devendo opor-se o desenvolvimento da pessoa ao da comunidade, nem a dinâmica da teleologia intersubjetiva à instituição do Estado, encontrando-se em Husserl a ideia de uma comunidade de amor (Liebesgemeinschaft), | ||
| + | * Essa significação fundamental reconhecida ao amor permite a Husserl declarar, de modo surpreendente para quem vê na fenomenologia apenas um remake do racionalismo clássico, que o amor em sentido autêntico é um dos problemas fundamentais da fenomenologia, | ||
| + | * Citação de Husserl — "o amor no sentido autêntico é um dos problemas fundamentais da fenomenologia, | ||
| + | * O amor é a realização da intersubjetividade verdadeira, em que se cumpre a intricação (Ineinander) das mônadas, pois os amantes não vivem lado a lado nem um com o outro, mas um no outro | ||
| + | * Citação de Husserl — "os amantes não vivem lado a lado, nem um com o outro, mas um no outro" | ||
| + | * Husserl reconhece no instinto de amor o fenômeno originariamente passivo que funda o mais baixo nível da socialidade, | ||
| + | * Citação de Husserl — "a relação ao outro enquanto outro e à sua pulsão correlativa" | ||
| + | * Essa especificidade do desejo amoroso impede confinar o amor ao nível de uma socialidade pré-estatal, | ||
| + | * Se o ideal do amor é o acesso ao verdadeiro eu do outro, seu wahre Selbst, este só pode encontrar chance de realização na instituição do poder ordenador do Estado, que dá às mônadas um quadro de unificação possível, compreendendo-se assim que amor e racionalidade não são necessariamente incompatíveis | ||
| + | * Entrevê-se aqui a dupla definição possível da comunidade fenomenológica, | ||
| + | * Citação de Husserl — "A razão cognoscente é uma função da razão prática, sendo o intelecto o servidor da vontade" | ||
| + | * A vida coletiva deveria ser a vida responsável de sujeitos que atingiram sua maioridade, no sentido que Kant dá à Aufklärung, | ||
| + | * A ética não consiste, para Husserl, em moralidade privada, tendo antes sempre por tema a racionalidade da vida coletiva, sendo por isso o nome da ética plena e verdadeira a ética social, isto é, a ética universal | ||
| + | * Há diferença entre a vida ética e a vida coletiva na forma do Estado, diferença não percebida por Platão, como Husserl sublinha, por ter limitado na República à ideia de coletividade estatal a possibilidade de uma vida e comunidade autêntica e verdadeiramente racional | ||
| + | * A ética enquanto tal é forma supraindividual e supranacional, | ||
| + | * A humanidade autêntica é a humanidade científica, | ||
| + | * A fenomenologia é a realização da transcendentalidade na realidade mundana por ser ela mesma resultado histórico da cultura, deixando a racionalidade de ser apenas ideal para tornar-se fato, estando, enquanto tal fato transcendental, | ||
| + | * Há, por conseguinte, | ||
| + | * Husserl, que insistiu constantemente no caráter não nacional, não natural, e mesmo delirante e louco do transcendentalismo, | ||
| + | * A fenomenologia enquanto tal só se opõe ao Estado porque constitui a realização mesma de seu telos, conduzindo o Estado de fato à sua verdade e revelando a verdadeira natureza da finalidade da vida coletiva, sendo Husserl levado a reconhecer à fenomenologia uma função arcôntica na medida em que toda a humanidade está implicada | ||
| + | * Os guias da humanidade, os arcontes, enquanto fenomenólogos, | ||
| + | * Numa fórmula célebre e frequentemente incompreendida, | ||
| + | * O problema do Estado é abordado por Husserl de maneira bastante negativa, sendo seu tema próprio antes a comunidade e a vida coletiva que o Estado em si mesmo, não verdadeiramente analisado em sua facticidade, | ||
| + | * Isso decorre de sua concepção do Estado como formação racional, que não pode ser pensada como instrumento de coerção mas apenas como órgão de regulação, | ||
| + | * Isso é particularmente claro quanto à teoria husserliana da normalidade — as normas de conduta são normas racionais e pressupõem que todo indivíduo é, de modo latente, filósofo e fenomenólogo, | ||
| + | * O caso dos primitivos é particularmente interessante — são homens que podemos compreender e com quem podemos entrar em empatia, como Husserl declara a Lévy-Bruhl em carta de 11 de março de 1935, pois sua cultura é um degrau no caminho que leva à autorrealização da humanidade | ||
| + | * O que caracteriza o pensamento husserliano da história política e social é o reconhecimento, | ||
| + | * Por permanecer intermediária entre a pura facticidade e a idealidade verdadeira, a estrutura política do Estado conserva grande plasticidade, | ||
