estudos:dastur:heidegger:temporalidade
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| + | ====== TEMPORALIDADE ====== | ||
| + | //DASTUR, Françoise. Heidegger et la question du temps. Paris: PUF, 1987.// | ||
| + | |||
| + | **A temporalidade como sentido ontológico do cuidado** | ||
| + | |||
| + | * O resultado da análise fundamental do Dasein é a interpretação do ser do Dasein como cuidado, questionando-se, | ||
| + | * A análise da primeira seção não atinge o Dasein em sua " | ||
| + | * Poder-se-ia perguntar se o fenômeno da angústia já não forneceria o novo solo fenomenal requerido, pois a angústia porta o Dasein diante de seu poder-ser mais próprio, seu ser-livre, mas não testemunha que o Dasein dele se aproprie efetivamente e projete a partir dele sua existência, | ||
| + | * Colocar a questão do poder-ser-um-todo do Dasein é enfrentar dificuldade temível já entrevista — enquanto existe, o Dasein está no modo da incompletude, | ||
| + | * A análise existencial da morte visa fazer sair dessa aporia mostrando que o Dasein se comporta em relação a seu próprio fim, existindo como ser-em-vista-da-morte, | ||
| + | * A morte se distingue radicalmente das demais possibilidades pelas quais o Dasein se compreende na cotidianidade por não propor nada que possa ser realizado pelo Dasein | ||
| + | * Citação de Heidegger — "A morte enquanto possibilidade não dá ao Dasein nada a ' | ||
| + | * A morte é para o Dasein a possibilidade por excelência, | ||
| + | * Só no antecipar-se à morte pode o Dasein experimentar-se como possibilidade, | ||
| + | * No antecipar-se à morte, o Dasein experimenta que todas as possibilidades de efetuação se fundam na pura possibilidade de ser-no-mundo, | ||
| + | * A unidade e totalidade da existência não podem, portanto, ser compreendidas a partir da soma das possibilidades de efetuação que o Dasein se dá ou assume, pois essa soma é, enquanto ele existe, efetivamente incompleta, sendo apenas em relação à compreensão que tem de si mesmo na cotidianidade que o Dasein pode ser dito incompleto | ||
| + | * Não haveria, contudo, efetividade da morte enquanto morte de outrem, sendo esta afinal a única " | ||
| + | * Não posso desonerar o outro de sua morte como posso desonerá-lo de tal ou qual tarefa efetuando-a em seu lugar — na cotidianidade "um Dasein pode e deve mesmo, dentro de certos limites, ' | ||
| + | * A morte não é dado de fato mas fenômeno existential e, como a existência, | ||
| + | * Citação de Heidegger — "Em consequência do que, é preciso dizer — o Dasein nunca deixa de viver. Mas falecer, ele só pode enquanto morre" | ||
| + | * Heidegger delimita a interpretação existential da morte tanto em relação a uma ontologia da vida quanto em relação a uma metafísica da morte, pois esta, seja como especulação ôntica sobre o além, seja como teologia e teodiceia da morte, exige tomada de posição existencial e atribuição de sentido à morte que pressupõem metodologicamente a análise existencial | ||
| + | * O Dasein enquanto ser-em-vista-da-morte só pode suportá-la como possibilidade da impossibilidade sem medida da existência, | ||
| + | * Trata-se antes de manter-se na iminência da morte, conservando-lhe o caráter de pura possibilidade, | ||
| + | * O Dasein só está aberto a si mesmo, aos outros e ao mundo na medida em que o ameaça constantemente a possibilidade do fechamento a tudo o que é, dessa possibilidade " | ||
| + | * No antecipar-se à morte como relação " | ||
| + | * Poder-se-ia sempre suspeitar que esse poder-ser-um-todo represente apenas ideal não realizável imposto de fora ao Dasein, construção artificial pela qual se deduziria o ser do Dasein a partir de uma ideia do homem dada a priori, ao passo que na análise existencial se trata sempre apenas de levar ao conceito o que já foi descoberto no nível ôntico e existencial | ||
| + | * Esse testemunho próprio do Dasein que atesta a possibilidade existencial de seu poder-ser " | ||
| + | * É nesse nível que intervém o fenômeno da "voz da consciência", | ||
| + | * A exterioridade do apelo não remete a nenhuma instância interpelante — assim como " | ||
| + | * Reencontra-se aqui a mesma " | ||
| + | * Se a voz da consciência aparece como voz estranha, é por ser a do Dasein "em sua estranheza", | ||
| + | * Por não apelar a fazer isto ou aquilo, mas simplesmente a ser em outro modo, o apelo tem, como o imperativo kantiano, caráter unicamente formal | ||
| + | * O apelo da consciência dá a compreender o Dasein como ser-em-dívida ou em-falta — como Schuldigsein, | ||
| + | * Não se trata de compreender a " | ||
| + | * Essa ideia contém, contudo, " | ||
| + | * Não se deve confundir essa " | ||
| + | * Trata-se de mostrar que toda falta ôntica se perfila sobre o fundo de uma " | ||
| + | * O momento do ser-lançado significa que o Dasein não se colocou a si mesmo na existência, | ||
| + | * Uma análise existencial do nascimento poderia mostrar que, tal como a morte, ele não se confunde com evento datável, mas, enquanto o Dasein existe, não cessa de "se produzir" | ||
| + | * Heidegger apenas roça esse tema, mas ele permite compreender que, ao se falar no passado do ser-lançado, | ||
| + | * Essa não-domínio de si, que não é puro abandono à facticidade — pois esta exige antes ser " | ||
| + | * A nulidade existential não é a do carecimento ou privação em relação a um ideal inacessível, | ||
| + | * É o próprio cuidado que está " | ||
| + | * É na estranheza da voz que apela que o Dasein faz originariamente causa comum consigo mesmo, ao passo que se foge a si mesmo no ser-decaído, | ||
| + | * O apelo é apelo a não esquivar a culpabilidade, | ||
| + | * A atestação de seu poder-ser mais próprio é o que o Dasein se dá a si mesmo no querer-ter-consciência, | ||
| + | * A diferença de partícula (ent- em vez de er-) marca a passagem do estado de abertura à sua assunção, sendo a resolução, | ||
| + | * A resolução não significa o fim do domínio do On e de sua irresolução, | ||
| + | * Enquanto resoluto, o Dasein já age, não no sentido de ação real sobre o mundo, mas no sentido de decidir-se pelo existente de fato que é, não estando resoluto a nada além do que já é no modo inautêntico, | ||
| + | * O que a resolução atesta é que a " | ||
| + | * Só pode compreender-se como abertura se se experimenta como tal no horizonte de um fechamento mais originário, | ||
| + | * O Dasein tem de compreender que está de fato aberto, mas que poderia não estar, ameaçando-o o fechamento total, a morte enquanto constantemente iminente, enquanto existe, relacionando-se assim não só com a abertura que é mas também com esse fechamento que é a morte | ||
| + | * Só há resolução em conexão com um ser propriamente em vista da morte, o que Heidegger nomeou antecipação, | ||
| + | * A resolução comporta em si mesma, a título de modalidade existencial possível, o ser-em-vista-da-morte, | ||
| + | * A resolução é o querer-ter-consciência enquanto "se decide" | ||
| + | * A assunção existencial " | ||
| + | * A resolução só se torna " | ||
| + | * Ao trazer à luz a conexão íntima entre antecipação e resolução, | ||
| + | * Que o poder-ser-inteiro exija o " | ||
| + | * A resolução antecipadora não é fuga da " | ||
| + | * O que se experimenta na resolução antecipadora, | ||
| + | * Com a temporalidade atinge-se o fenômeno originário e unitário que dá conta de todas as estruturas do Dasein, sendo todas estruturas da temporalidade, | ||
| + | * Se Heidegger pensa, como Santo Agostinho e Husserl, uma coriginariedade das três dimensões do tempo, não é no sentido da tripla presença do passado, futuro e presente na memória, atenção e espera (Confissões, | ||
| + | * Essa unificação das dimensões do tempo ocorre ainda dentro de um privilégio conferido ao presente — o presente eterno de Deus em Santo Agostinho, que contrasta com a " | ||
| + | * Heidegger não pensa a temporalidade sobre o fundo de uma presença a si infinita — a de Deus ou a desse ego transcendental que Husserl diz, num manuscrito de agosto de 1936, ser " | ||
| + | * É por isso que é o momento da existencialidade que, em Heidegger, carrega todo o peso da temporalidade, | ||
| + | * A resolução antecipadora, | ||
| + | * Compreendendo-se a partir de sua possibilidade mais alta, a morte, o Dasein está no modo do porvir, é zukünftig, porvindouro, | ||
| + | * Compreender-se como ser-em-vista-da-morte significa para o Dasein " | ||
| + | * O que o Dasein pode ser não é senão seu ter-sido, e só antecipando seu fim é possível ao Dasein assumir sua condição originária — citação de Heidegger — "o antecipar-se à possibilidade extrema e mais própria é o retornar compreensivo ao ter-sido mais próprio" | ||
| + | * O Dasein só pode ser seu " | ||
| + | * O porvir em sentido próprio não é um agora ainda não tornado real, mas a vinda do Dasein a seu poder-ser mais próprio, o que advém no antecipar-se à morte, do mesmo modo que, por não ser da ordem do subsistente, | ||
| + | * É advindo no modo do retorno a si que a resolução antecipadora torna presente o ente que vem a seu encontro no mundo ambiente, sendo esse fenômeno unitário de um porvir que torna presente tendo sido o que Heidegger nomeia temporalidade | ||
| + | * Recapitulando — a resolução antecipadora, | ||
| + | * Não é possível inscrever num esquema formal, em que não apareça a diferença modal da " | ||
| + | * A decadência, | ||
| + | * Vê-se claramente que, em relação à temporalidade " | ||
| + | * A apresentação do ente intramundano em que se funda a decadência não constitui momento separado no nível da temporalidade originária, | ||
| + | * A temporalidade, | ||
| + | * Longe de constituir o " | ||
| + | * O termo ekstatikon Heidegger provavelmente o encontrou no livro IV da Física de Aristóteles, | ||
| + | * Ao nomear " | ||
| + | * Essa temporalidade " | ||
| + | * A " | ||
| + | * A temporalidade ekstática, embora constitua em relação às concepções tradicionais do tempo o tempo originário, | ||
| + | * A tese da finitude originária da temporalidade consiste unicamente em fixar o caráter fenomenal da temporalidade originária, | ||
| + | * É precisamente para tentar escapar à finitude da temporalidade originária que se impõe a concepção " | ||
| + | * O tempo não é, mas se temporaliza, | ||
| + | * As quatro teses que resumem, ao final do parágrafo 65, a análise da temporalidade originária proposta, estão em estreita conexão entre si — enquanto torna possível a constituição da estrutura articulada do cuidado, o tempo é originariamente temporalização da temporalidade | ||
| + | * Isso implica que ela não pode remeter a nenhuma subsistência ou interioridade de um sujeito e só pode ser essencialmente compreendida como temporalidade ekstática, temporalizando-se originariamente a partir da prioridade dada à ekstase do porvir, conforme a determinação do Dasein como poder-ser | ||
| + | * Essa temporalidade ekstática e existential caracteriza o tempo originário como finito, por oposição à compreensão vulgar do tempo como sucessão infinita de agoras, tendo assim a interpretação " | ||
| + | |||
| + | **A elaboração concreta da temporalidade do Dasein como cotidianidade, | ||
| + | |||
| + | ** a. Cotidianidade ** | ||
| + | |||
| + | * Para que a temporalidade pudesse aparecer como sentido ontológico do cuidado, foi necessário considerar esse modo próprio da abertura que é a resolução e abandonar consequentemente o nível da cotidianidade, | ||
| + | * Trata-se agora de trazer à luz o sentido temporal desse ponto de partida que Heidegger caracterizava como a " | ||
| + | * A tarefa consiste em tornar visível a temporalidade específica da " | ||
| + | * Essa necessidade de repetição, | ||
| + | * Sendo essa investigação ontológica ela mesma um modo de ser do Dasein que quer levar ao conceito a compreensão pré-ontológica que tem do ser, ela não pode deixar de fazer aparecer "uma notável relação de retrospecção e antecipação daquilo que é questionado (o ser) com o questionamento enquanto modo de ser de um ente" | ||
| + | * Trata-se de fazer aparecer a constituição temporal concreta do cuidado, isto é, interpretar temporalmente cada um dos momentos estruturais da abertura do Dasein — a compreensão, | ||
| + | * Para cada um desses momentos as três ekstases da temporalidade são constitutivas, | ||
| + | * Isso não significa que as demais ekstases estejam ausentes — cada ekstase tem sua autonomia, não podendo ser deduzida de outra, razão pela qual Heidegger fala da coriginariedade das ekstases, sendo elas, enquanto momentos constitutivos da unidade da temporalidade, | ||
| + | * Citação de Heidegger — "a temporalidade se temporaliza inteiramente em cada ekstase", | ||
| + | * No que concerne à compreensão, | ||
| + | * O que caracteriza a " | ||
| + | * A compreensão é determinada prioritariamente pelo porvir, mas coriginariamente também pelo ter-sido e pelo presente, correspondendo ao porvir impróprio um presente impróprio, que se diferencia do presente " | ||
| + | * Quanto ao ter-sido, seu modo próprio é a repetição pela qual o Dasein assume na resolução antecipadora seu próprio ser-lançado, | ||
| + | * Pode-se assim definir a compreensão " | ||
| + | * A análise temporal concreta da disposição não consiste em deduzir as tonalidades afetivas da temporalidade, | ||
| + | * A análise temporal do medo, já usado como exemplo de disposição " | ||
| + | * Mas esse retorno a si é um esquecimento de si que se manifesta no desnorteamento constitutivo do medo, que, não podendo apreender nenhuma possibilidade determinada, | ||
| + | * A angústia, como disposição fundamental, | ||
| + | * A decadência tem seu sentido existential no presente, sendo a análise temporal da curiosidade a que permite a Heidegger mostrar o primado nela do tornar-presente que " | ||
| + | * A instabilidade da curiosidade provém da modificação ekstática da espera pela qual esta constitui, por assim dizer, não mais a origem mas a consequência do tornar-presente, | ||
| + | * Enquanto no instante o Dasein se abre à situação, à assunção de suas possibilidades de fato, na agitação característica da curiosidade o Dasein está em toda parte e em nenhuma, permanecendo, | ||
| + | * Na origem da decadência, | ||
| + | * Essa perda e fechamento não podem, contudo, ser totais, pois o Dasein se confundiria então com o ser puramente subsistente da " | ||
| + | * A análise temporal do discurso só faz aparecer uma " | ||
| + | * O discurso, embora constitua o terceiro momento da abertura e seja coriginário com a compreensão e a disposição, | ||
| + | * A palavra alemã Rede foi escolhida por Heidegger para traduzir o grego logos, provavelmente por sua etimologia remeter menos à ideia de fala do que à de articulação, | ||
| + | * Esse termo, como o grego logos, designa não a fala, mas seu fundamento ontológico-existential, | ||
| + | * Citação de Heidegger — "a consciência discorre unicamente e constantemente no modo do fazer-silêncio" | ||
| + | * Se à fala pode ser atribuída como origem de sua temporalização a ekstase do presente " | ||
| + | * Pode ser temporalizado tanto a partir do porvir na existência " | ||
| + | * Com base na análise temporal das estruturas da abertura, é possível determinar a temporalidade do ser-no-mundo, | ||
| + | * Trata-se de dar conta do sentido temporal da mutação da compreensão do ser pela qual se passa do sentido do ser como Zuhandenheit — a manuseabilidade — que faz do ente um ente para a mão na ocupação circunspecta, | ||
| + | * Heidegger compreende o termo Vorhanden, que significa a presença simplesmente disponível, | ||
| + | * A ocupação pode ser compreendida em seu sentido temporal como um tornar-presente que espera e retém, correspondendo a espera à compreensão não temática do para-quê, da " | ||
| + | * A ocupação pela qual o Dasein se absorve no mundo e a ele se abandona não é, portanto, puro tornar-presente respondendo à urgência da necessidade cotidiana, mas o modo em que o Dasein existe num mundo dentro do qual torna presente o ente intramundano com base numa retenção que espera | ||
| + | * O que está na origem do comportamento teórico não é pura e simples desaparição da práxis que levaria a fazer abstração do caráter utilitário do utensílio para nele ver apenas coisa simplesmente dada, mas nova maneira de considerá-lo, | ||
| + | * A gênese da pura visão teórica a partir da ocupação circunspecta repousa, portanto, sobre o projeto matemático da natureza, que destaca a priori o plano desta graças a uma modificação do olhar equivalente a uma desmundanização do mundo, tendo o projeto científico em seu conjunto — o que Heidegger nomeia tematização — o sentido de um tornar-presente insigne cujo correlato é precisamente a pura e simples pre-sença (Vorhandenheit) do ente que o Dasein apenas descobre | ||
| + | * O que torna possível o ser-ocupado junto ao ente manuseável, | ||
| + | * Todo encontro e toda apresentação do ente, manuseável ou dado-presente, | ||
| + | * O mundo é assim determinado como horizonte da temporalidade inteira, isto é, como o que se temporaliza unitariamente no fora-de-si da temporalidade e que, portanto, não pode estar " | ||
| + | * É a partir dessa transcendência temporal do mundo que pode ser compreendido o sentido temporal da espacialidade própria do Dasein, o que não significa deduzir o espaço do tempo nem afirmar em sentido kantiano o primado do tempo sobre o espaço, tratando-se antes de dar conta da independência do espaço em relação ao tempo e portanto da possibilidade da irrupção do Dasein no espaço, isto é, de sua existência enquanto espacializante | ||
| + | * O desdobramento do espaço só é possível sobre o fundo do horizonte do mundo, a partir do qual a aproximação presentante do ente advém coriginariamente com a espera dirigida para a região como lugar de pertença do ente, pois não é o mundo que é dado no espaço, mas o espaço que só pode ser descoberto dentro do mundo | ||
| + | |||
| + | ** b. Historialidade ** | ||
| + | |||
| + | * É possível, com base na análise concreta da temporalidade do ser-no-mundo, | ||
| + | * Até aqui a análise existencial orientou-se unilateralmente na direção do ser-em-vista-da-morte, | ||
| + | * Trata-se então de enfrentar o problema do que Dilthey nomeava a " | ||
| + | * O que é assim afastado é a representação dessa extensão própria ao Dasein em termos de espacialidade ou sucessividade, | ||
| + | * Enquanto advir, o ser do Dasein é de início constituído como extensão e não como um si mesmo estático cuja relação com o tempo permaneceria problemática, | ||
| + | * Com a análise do advir (Geschehen) do Dasein e de sua historialidade (Geschichtlichkeit), | ||
| + | * Depois de evidenciar o sentido temporal do ser-em e do mundo, resta compreender a partir do próprio tempo esse terceiro momento do ser-no-mundo que é o si mesmo, sendo apenas com a análise da historialidade que a constituição temporal da existência encontra seu término | ||
| + | * Não se trata nesse capítulo de repetição da análise existencial em análise temporal, mas de uma " | ||
| + | * Ela deve ser completada pela construção, | ||
| + | * A démarche redutiva conduziu até aqui a análise existencial, | ||
| + | * Como tal, serve de preparação à destruição da história da ontologia de que deveria tratar a segunda parte de Ser e tempo, mostrando que a ciência histórica tem sua origem na historialidade do Dasein | ||
| + | * Trata-se de acentuar a diferença entre a história como ciência ou relato (Historie) e a " | ||
| + | * A análise do que se entende correntemente por Geschichte faz aparecer notável primado conferido ao passado na determinação do que é histórico, sendo, contudo, propriamente historial num objeto dito histórico seu pertencimento a um mundo que já não é, mas que, enquanto modo de existência de um Dasein tendo-estado-lá, | ||
| + | * O que é primordialmente historial é, portanto, o próprio Dasein, sendo apenas secundariamente que o mundo ambiente também o é, mas para compreender em que sentido a historialidade é a constituição essencial do Dasein é preciso situar-se no nível da existência " | ||
| + | * Na resolução antecipadora, | ||
| + | * No antecipar-se à morte, o Dasein liberta-se da ditadura do On e compreende que tem "de assumir de si mesmo e a partir de si mesmo seu ser mais próprio", | ||
| + | * Deve, enquanto ser-lançado, | ||
| + | * É em 1929, em Kant e o problema da metafísica, | ||
| + | * Kant desenvolveu esse conceito de finitude determinando-o ainda de maneira exterior, por oposição a um intuitus originarius, | ||
| + | * É essa necessidade transcendental que assegura fundamentalmente a possibilidade de o Da-sein ser, e que permite compreender que "mais originária que o homem é a finitude do Dasein nele", não sendo a finitude propriedade acidental da razão humana nem simples falta de intuição criadora, mas a atribuição à compreensão do ser, implicando isso que "só há ser, e só deve necessariamente havê-lo, onde a finitude se fez existência" | ||
| + | * É a própria finitude, portanto, que pode dar conta do que há de " | ||
| + | * Com a liberdade para a morte, o Dasein atinge "o objetivo puro e simples" | ||
| + | * Dizer que o Dasein " | ||
| + | * Se Schicksal é o nome da historialidade " | ||
| + | * Se o modo pelo qual a transmissão expressa advém é o da repetição de uma possibilidade de existência que foi, não se deve compreendê-la como reatualização do passado, mas como réplica que, por ser retorno não do " | ||
| + | * Por ser o Dasein destinal, enquanto ser-no-mundo, | ||
| + | * O advir da história não consiste no desenrolar dos vividos dos sujeitos, nem no movimento de transformação dos objetos, nem no encadeamento do sujeito e do objeto, mas é o advir do mundo em sua unidade essencial com o Dasein, o que Heidegger nomeia o mundo-historial | ||
| + | * Dele faz parte o advir do ente interior a esse mundo, cuja mobilidade não pode ser compreendida como movimento simplesmente local, sendo por estar o Dasein ocupado absorvido pelo mundo que compreende de início sua história como história do mundo | ||
| + | * A questão da " | ||
| + | * Por oposição à inconstância da dispersão, a resolução, | ||
| + | * A resolução, | ||
| + | * A temporalidade " | ||
| + | * Isso explica que a ciência histórica, na medida em que tem sua origem na historialidade do Dasein, tenha por tema o possível e não o real, encontrando seu ponto de partida não no passado mas no porvir, sendo a ciência histórica " | ||
| + | * Em 1936, em Roma, Heidegger dirá a Karl Löwith que foi seu conceito de historialidade que fundamentou seu engajamento no nacional-socialismo em 1933, sendo particularmente à luz desse capítulo de Ser e tempo que caberia ler os discursos políticos do Reitor Heidegger | ||
| + | * Ao aceitar a direção da universidade de Friburgo, Heidegger persegue objetivo nada pedagógico — o de uma reforma do saber que, pela des-construção de uma tradição esclerosada, | ||
| + | * Esse projeto pedagógico foi encontrado por Heidegger no amigo e correspondente de Dilthey, Yorck von Wartenburg (que aliás cunhou o termo Geschichtlichkeit), | ||
| + | * Citação de Yorck von Wartenburg — "Mas você conhece minha predileção pelo paradoxo, que justifico dizendo que a paradoxia é indício da verdade, que a communis opinio certamente nunca está na verdade, sendo apenas um precipitado elementar de uma meia-compreensão generalizante; | ||
| + | |||
| + | ** c. Intratemporalidade ** | ||
| + | |||
| + | * O Dasein não é apenas temporal — enquanto Dasein de fato, está também "no tempo", | ||
| + | * É preciso restituir expressamente sua legitimidade à interpretação que o Dasein de fato dá da história como advir no tempo, pois a análise temporal do Dasein permanecerá incompleta enquanto não der conta do tempo do mundo | ||
| + | * O Dasein, em seu ser-com-os-outros, | ||
| + | * Por meio da databilidade, | ||
| + | * Essas estruturas provêm da temporalidade, | ||
| + | * A existência " | ||
| + | * Esse tempo explicitado e expresso com base no ser-no-mundo ekstático do Dasein é o tempo tornado público, tendo esse tornar-se público do tempo por fundamento o ser-lançado do Dasein, que deve sempre contar com o tempo, embora esse cálculo não se confunda necessariamente com a quantificação do tempo | ||
| + | * É " | ||
| + | * É, portanto, o ser-lançado junto ao ente manuseável o fundamento do relógio natural que o Dasein primeiro se dá, o qual torna possível a produção de relógios artificiais que deverão regular-se por ele | ||
| + | * Esse tempo público da ocupação é sempre tempo apropriado ou não a tal ou qual tarefa, manifestando assim a estrutura da significatividade que constitui a mundaneidade do mundo | ||
| + | * Dirigir-se pelo tempo lendo a hora num relógio pode explicitar-se como um dizer-agora que consiste na articulação da apresentação insigne de um ente simplesmente dado, sendo função da medida apresentar um ente que pode estar presente em todo tempo e para todos | ||
| + | * A medida do tempo torna assim o tempo universalmente acessível como multiplicidade simplesmente dada de agoras, não consistindo essa " | ||
| + | * O que é essencial na medida do tempo não é efetuar-se por meio da datação de relações espaciais e em referência com o movimento local de uma coisa espacial, mas antes que se torne possível assim a apresentação específica do ente dado em cada agora e para cada um em sua presença | ||
| + | * Heidegger defende, contra a tese bergsoniana de uma duração qualitativa transformada em quantidade e espaço, a ideia de que a intratemporalidade é fenômeno autenticamente temporal e não espacial, devendo-se restituir ao conceito corrente de tempo que nela se funda a legitimidade que lhe cabe | ||
| + | * Esse tempo "no interior do qual" se encontra o ente intramundano é o tempo do mundo, que tem a mesma transcendência que o próprio mundo, não sendo, como ele, simplesmente subjetivo nem simplesmente objetivo, sendo, sem se confundir com o sentido interno kantiano, a condição de possibilidade do ente intramundano como a do ser do Dasein de fato | ||
| + | * O tempo da ocupação, o tempo do mundo, torna-se expressamente acessível pelo uso dos relógios, tornando-se o cálculo do tempo, por esse uso, a contagem do agora em relação ao agora que já não é e ao que ainda não é | ||
| + | * O tempo é então o que é contado no movimento encontrado no horizonte do anterior e do ulterior, o que recobre exatamente a definição que Aristóteles dá do tempo no livro IV da Física | ||
| + | * A interpretação de Aristóteles vai, portanto, no sentido da compreensão " | ||
| + | * O que é assim contado como tempo são os agoras — esse tempo do mundo " | ||
| + | * Eles são co-dados com o ente, passam e sobrevêm, constituindo os que já passaram o passado e os que estão por vir o futuro, sendo por a sucessão dos agoras ser concebida como " | ||
| + | * Daí decorre também a tese de um tempo contínuo e infinito, que supõe o tempo concebido como o "em-si desancorado de um fluxo subsistente de agoras", | ||
| + | * Essa dissimulação não se deve ao acaso, advindo necessariamente na medida em que, na cotidianidade, | ||
| + | * O que é assim elidido é a finitude da temporalidade, | ||
| + | * Só há conceito vulgar do tempo onde também há o On, que só conhece o tempo público nivelado que pertence a todos, isto é, que não é a temporalidade de ninguém | ||
| + | * O que atesta, contudo, que a dissimulação da temporalidade finita não é total é o fato de o tempo " | ||
| + | * A representação vulgar do tempo tem, portanto, sua legitimidade natural, tendo a concepção de uma sucessão infinita de agoras que passam irreversivelmente sua fonte na temporalidade do Dasein decadente, só perdendo essa explicitação vulgar do tempo sua legitimidade quando pretende deter a verdade sobre o tempo, isto é, quando desconhece seu caráter derivado | ||
| + | * Se é possível compreender a concepção vulgar do tempo a partir da temporalidade originária do Dasein, o inverso não o é, sendo impossível deduzir ou explicar a partir do agora o fenômeno ekstático horizontal do instante | ||
| + | * Se, contudo, é da temporalidade do Dasein que depende o tempo do mundo, não seria isso sinal de existir relação insigne entre o tempo e a alma ou o espírito, relação que a tradição filosófica de Aristóteles a Hegel, passando por Santo Agostinho e Kant, está longe de ter desconhecido? | ||
| + | * Heidegger, ao analisar a concepção hegeliana da relação entre tempo e espírito, quer mostrar que sua maneira de compreender a relação do Dasein com o tempo do mundo se opõe à de Hegel, cujo conceito de tempo representa "a elaboração conceitual mais radical da compreensão vulgar do tempo" | ||
| + | * Enquanto Hegel deve supor um parentesco entre o espírito e o tempo, concebidos cada um como subsistindo independentemente um do outro, para explicar a possibilidade da realização histórica do espírito como uma " | ||
| + | * Por isso, para ele, o " | ||
| + | * Essa diferença existential do derivado e do originário, | ||
| + | * A análise existencial preliminar e sua repetição como análise existencial temporal permitiram dar conta da diferença modal entre a existência inautêntica e a existência autêntica, remetendo ambas a seu fundamento comum, a temporalidade | ||
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