estudos:dastur:heidegger:dasein
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| + | ====== DASEIN ====== | ||
| + | //DASTUR, Françoise. Heidegger et la question du temps. Paris: PUF, 1987.// | ||
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| + | **A temporalidade do Dasein e a finitude do tempo** | ||
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| + | * Citação de Heidegger — "A amplitude abarcante do ser é uma só e mesma coisa com o isolamento ofensivo do tempo" | ||
| + | * A questão do sentido do ser, colocada por Heidegger, não se confunde com a questão ontológica tradicional, | ||
| + | * A exemplaridade do Dasein reside em distinguir-se dos demais entes por manter relação com seu próprio ser, pertencendo-lhe a compreensão do ser, sendo por isso um ente ontológico ou, dado o caráter não explícito dessa compreensão, | ||
| + | * O termo Dasein, com que a filosofia alemã traduziu desde Kant o latim existentia, designa a essência desse ente que, por lhe pertencer a compreensão do ser, só pode ser definido no modo da possibilidade, | ||
| + | * A compreensão efetiva que o Dasein tem de si mesmo é compreensão existencial, | ||
| + | * A diferença entre existencial (existentiell) e existencial (existential), | ||
| + | * A análise existencial não visa apenas um ente particular ao lado de outros, mas um ente que, por ter compreensão de seu próprio ser, tem também compreensão do ser dos entes que não é, um ente que, como dizia Aristóteles da alma, "é de certo modo todo ente" | ||
| + | * Por ser a analítica desse ente pré-ontológico condição de possibilidade de toda ontologia temática, ela constitui a ontologia fundamental que serve de solo a todas as ontologias regionais, encarregadas de elucidar o modo de ser dos entes distintos do Dasein, os que pertencem por exemplo à região " | ||
| + | * A questão do ser, nesse sentido, longe de ser pura especulação com as generalidades mais gerais, é antes a questão mais concreta, sendo apenas "a radicalização de uma tendência de ser que pertence por essência ao próprio Dasein — a compreensão pré-ontológica do ser" | ||
| + | * Resta compreender por que nem a ontologia grega nem as ontologias modernas desenvolveram como preliminar necessário uma ontologia do Dasein, questionando-se como o Dasein se ignorou a si mesmo como condição de possibilidade de toda ontologia | ||
| + | * Heidegger responde mostrando que o Dasein, sendo onticamente o ente mais próximo de nós, é ontologicamente o mais distante, pois, embora capaz de compreender-se a si mesmo, tende também a desconhecer-se como Dasein, compreendendo-se a partir do ente que não é ele mesmo e com o qual está constantemente em relação | ||
| + | * Por mais ricas que sejam as interpretações já disponíveis do Dasein — psicologia, antropologia, | ||
| + | * Trata-se então de produzir de novo uma análise do Dasein que, orientada explicitamente pela questão do ser, dê justificação existential às interpretações já existentes, sem impor nenhuma grade de leitura preestabelecida, | ||
| + | * Importa não esquecer a finalidade dessa análise, de caráter preliminar, empreendida para permitir a elaboração da questão do ser como tal, que não se confunde com o ser do Dasein, não constituindo por isso uma ontologia completa do Dasein nem podendo fornecer base suficiente a uma antropologia filosófica | ||
| + | * Aquilo a que essa análise prepara, limitando-se a destacar o ser do Dasein sem ainda interpretar seu sentido — objeto da primeira seção, "A análise fundamental preparatória do Dasein" | ||
| + | * Esse horizonte só pode ser fornecido por uma interpretação mais originária do ser do Dasein, que consiste em ver na temporalidade o sentido ontológico do que a primeira seção determinou como o ser do Dasein, a saber, o cuidado (Sorge), o que ocorre no terceiro capítulo da segunda seção, " | ||
| + | * Sobre essa base propriamente ontológica é possível repetir a análise preparatória, | ||
| + | * Essa repetição não constitui ainda a resposta à questão diretriz do sentido do ser, cabendo essa tarefa à terceira seção, "Tempo e ser", cujo título, ao contrário das duas seções precedentes, | ||
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| + | **A interpretação do Dasein como cuidado** | ||
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| + | * É no parágrafo 65, onde Heidegger explicita o sentido ontológico do ser do Dasein como temporalidade, | ||
| + | * Trata-se na primeira seção de chegar a uma interpretação sintética que reúna num todo os existenciais distinguidos ao longo da análise, sendo por isso que o parágrafo 39, que abre o sexto e último capítulo dessa seção, versa sobre "A questão da totalidade originária do todo estrutural do Dasein" | ||
| + | * A analítica do Dasein, tal como a analítica transcendental compreendida por Kant como " | ||
| + | * A questão da unidade do Dasein permanece delicada, pois todos os conceitos tradicionais de totalidade têm por modelo a coisa intramundana, | ||
| + | * Para atingir o todo é necessário um "olhar que, atravessando completamente o todo, alcance um fenômeno originariamente unitário já contido no todo de tal maneira que funde ontologicamente a possibilidade estrutural de cada momento estrutural" | ||
| + | * Esse fenômeno unitário não é uma arkhê, origem com a simplicidade e unicidade de um elemento último de construção, | ||
| + | * Os modelos ônticos de totalidade são modelos espaciais de construção e reunião de partes independentes, | ||
| + | * Dizer que "o ser-no-mundo é uma estrutura originária e constantemente total" significa que o Dasein nunca perde sua inteireza, que esta perdura no tempo por ser formada não de partes mas de momentos inseparáveis uns dos outros, usando Heidegger o termo estrutura para acentuar o caráter radicalmente relacional e a interdependência recíproca dos existenciais | ||
| + | * Esses momentos estruturais são os caracteres ontológicos fundamentais do Dasein, os existenciais, | ||
| + | * É essencial ao Dasein, cuja essência reside em seu "ter de ser", em sua existência, | ||
| + | * Do fenômeno unitário do ser-no-mundo pode-se tomar tripla perspectiva, | ||
| + | * Segundo, o ente que é no modo do ser-no-mundo, | ||
| + | * Terceiro, o " | ||
| + | * Distinguem-se assim dois níveis segundo os quais o Dasein é seu " | ||
| + | * A decadência concerne não só à existencialidade mas também à facticidade do Dasein, seu ser-lançado e sua disposição, | ||
| + | * O sexto e último capítulo dessa seção é dedicado ao que faz a unidade desses momentos — "O cuidado como ser do Dasein" | ||
| + | * A expressão ser-em (In-Sein) pode primeiro ser entendida no sentido de "estar contido em", aplicável apenas às coisas intramundanas efetivamente contidas umas nas outras — a água no copo, a árvore na floresta —, mas não ao Dasein, que não está contido no mundo mas em relação essencial com ele | ||
| + | * Deve-se distinguir o sentido categorial do " | ||
| + | * Essa relação de habitação com o mundo realiza-se na cotidianidade como "ser junto a" o mundo (Sein bei der Welt), compreendido não no sentido categorial da justaposição espacial mas no sentido existential da proximidade, | ||
| + | * É possível, dentro de certos limites e com certa legitimidade, | ||
| + | * Não se trata de recusar toda espacialidade ao Dasein, o que o tornaria um puro espírito com relações apenas extrínsecas com o espaço, nem de remeter unilateralmente a espacialidade à ordem do corpo, mas de, compreendendo o ser-no-mundo como constituição fundamental do Dasein, perceber sua espacialidade existential | ||
| + | * É no terceiro capítulo que Heidegger define a espacialidade específica do Dasein, que não está com o espaço numa relação de inclusão mas numa relação de doação, uma colocação em espaço (Einraümen), | ||
| + | * Isso não significa que o espaço seja forma do sujeito através da qual este apreende o mundo, pressupondo ainda diferença substancial entre sujeito e mundo, sendo antes enquanto ser-no-mundo que o Dasein " | ||
| + | * Do ponto de vista existential, | ||
| + | * Sendo o Dasein tanto espacializante quanto temporalizante, | ||
| + | * A análise do ser-no-mundo cotidiano só apresenta o Dasein enquanto existe na modalidade da dispersão, sendo o si mesmo do Dasein cotidiano o si mesmo do " | ||
| + | * O que responde à pergunta " | ||
| + | * Não é, portanto, no terreno da cotidianidade que o Dasein aí disperso encontrará sua unidade, podendo o Dasein ser ele mesmo em modo próprio (Eigentlichkeit) ou impróprio (Uneigentlichkeit) porque é sua possibilidade e tem de apropriar-se de seu próprio ser | ||
| + | * A escolha estritamente terminológica de Eigentlichkeit-Uneigentlichkeit, | ||
| + | * Que a visada " | ||
| + | * Transposta ao conjunto do Dasein, essa distinção dá conta de seu caráter não substancial, | ||
| + | * Falar aqui de modificação é novamente tomar emprestada a linguagem da fenomenologia husserliana para insistir em que não há dois sujeitos substancialmente diferentes — o On e o sujeito autêntico —, mas duas maneiras diferentes de ser o mesmo sujeito, como Husserl diria duas intencionalidades diferentes do mesmo objeto | ||
| + | * O que caracteriza esse ser-si-mesmo em modo impróprio na cotidianidade é o existencial que Heidegger designa Verfallen, decadência, | ||
| + | * Essa decadência "para o mundo" — Verfallenheit an die " | ||
| + | * Essa possibilidade positiva da decadência como imersão no mundo tem origem na fuga do Dasein diante de si mesmo e de seu poder-ser-si-mesmo em propriedade, | ||
| + | * Não se deve confundir o existencial e o existential — do ponto de vista existencial, | ||
| + | * Citação de Heidegger — " | ||
| + | * Essa confrontação não é percebida nem compreendida, | ||
| + | * Essa análise mostrara que o medo só pode ser provocado por um ente intramundano que se aproxima a partir de uma região determinada do mundo, mas na fuga que caracteriza o ser-decaído, | ||
| + | * Heidegger distingue estritamente esses dois modos da disposição, | ||
| + | * Heidegger reconhece sua dívida com as análises de Kierkegaard não só da angústia mas também da existência e do instante, sublinhando porém seus limites — Kierkegaard, | ||
| + | * Para Heidegger, a angústia se refere exclusivamente ao ser-no-mundo como tal e não a um ser fora do mundo possível do Dasein, distinguindo-se do medo por seu caráter absolutamente indeterminado — aquilo que angustia não pode ser referido a nenhum ente intramundano nem se aproxima de nenhuma região determinada do mundo, pois " | ||
| + | * Se na angústia o ente intramundano em seu conjunto perde toda significação, | ||
| + | * Enquanto o mundo nunca se abre como tal na cotidianidade, | ||
| + | * É próprio da disposição enquanto existencial poder abrir o Dasein ao mundo em sua totalidade mais originariamente que o faria o olhar teórico, sendo a disposição um modo fundamental da abertura do Dasein ao mundo, a seu próprio ser e aos outros Dasein | ||
| + | * Do ponto de vista existential, | ||
| + | * O que a caracteriza é uma " | ||
| + | * A angústia é essa disposição insigne em que advém "a identidade existential do abrir e do que é aberto", | ||
| + | * Citação de Heidegger — "a angústia singulariza e isola o Dasein em seu ser-no-mundo mais próprio" | ||
| + | * Qual é o sentido desse isolamento? Heidegger não hesita em falar do Dasein como "solus ipse", acrescentando de imediato tratar-se de um " | ||
| + | * Isola o Dasein no sentido de arrancá-lo da imersão no mundo da ocupação para lançá-lo de volta a seu ser-no-mundo mais próprio, cortando-o menos do mundo do que fazendo-o experimentar-se como votado a ele, não sendo com o mundo que o Dasein rompe na angústia, mas com a familiaridade que caracteriza o ser-no-mundo cotidiano | ||
| + | * Esse vínculo com o mundo sofre modificação — o ser-em, que na cotidianidade tinha o sentido de um habitar, adquire a modalidade existential do não-estar-em-casa (Un-zuhause), | ||
| + | * Essa maneira de ser-no-mundo no modo da estranheza é, do ponto de vista existential e ontológico, | ||
| + | * A angústia, ao isolar o Dasein arrancando-o de sua imersão cotidiana no mundo da ocupação — libertando-o de sua " | ||
| + | * Para responder é preciso considerar o fenômeno da angústia em seu conjunto — a angústia é, como disposição, | ||
| + | * O que o fenômeno da angústia faz assim aparecer é a inseparabilidade dos existenciais ser-lançado (Geworfenheit) e projeto (Entwurf), que Heidegger agora nomeia facticidade e existencialidade, | ||
| + | * Por não ser indiferente a seu próprio ser, o Dasein existe no modo da projeção de seu próprio ser, em vista de seu próprio poder-ser, sendo em cada uma de suas tarefas mundanas sua própria finalidade — o que Heidegger nomeia o Worum-willen, | ||
| + | * Esse estar-adiante de si concerne ao Dasein enquanto já-está-no-mundo, | ||
| + | * O que a angústia torna visível é que essa existência de fato se cumpre de início e na maioria das vezes como ocupação e imersão no mundo — é o momento do ser-decaído que caracteriza o ser em modo impróprio do Dasein, sua " | ||
| + | * O que faz problema é ver contar entre as estruturas do cuidado, ao lado da facticidade e da existencialidade, | ||
| + | * Identifica-se este à decadência? | ||
| + | * A essa estrutura que articula os três existenciais fundamentais num fenômeno unitário Heidegger dá o nome de cuidado — Sorge —, com a intenção de despojar esse termo de toda conotação existencial e moral e tomá-lo exclusivamente em sentido ontológico e existential | ||
| + | * Essa escolha não é arbitrária, | ||
| + | * O latim cura apresenta o mesmo duplo sentido de cuidado e de cura que o alemão Sorge, vendo Heidegger nisso a designação da constituição una da estrutura essencialmente dupla do projeto lançado | ||
| + | * À luz desse testemunho pré-ontológico, | ||
| + | * Ao afirmar que não é a partir de uma consideração do que é próprio à vida que se poderá compreender o Dasein e seu cuidado, Heidegger rompe com a " | ||
| + | * Citação de Heidegger a Jean Beaufret (1946) — "O erro do biologismo não é superado pelo fato de se acrescentar a alma à realidade corporal do homem, a essa alma o espírito, e ao espírito o caráter existencial" | ||
| + | * O biologismo não pode dar conta do que constitui a humanidade do homem, ficando decisivamente afastada a possibilidade mesma de considerar o ser humano de um ponto de vista racial, sendo antes a própria biologia fundada sobre a ontologia do Dasein, o que implica que uma ontologia da vida só possa realizar-se por via de uma interpretação privativa que teria por tarefa determinar o que é apenas vivo a partir da experiência que o Dasein tem de sua própria existência | ||
| + | * Citação de Heidegger — "de todo ente que é, o ser vivo é provavelmente para nós o mais difícil de pensar", | ||
| + | * Trata-se de produzir uma interpretação mais originária do ser do homem que o pense como um ser " | ||
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