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| + | ====== Filosofia e Ciência (1977: | ||
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| + | ==== APRENDENDO A PENSAR I ==== | ||
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| + | === A Filosofia na Idade da Ciência === | ||
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| + | //CARNEIRO LEÃO, Emmanuel, Aprendendo a pensar. Volume I. Petrópolis: | ||
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| + | Numa progressão sempre crescente, o homem moderno se vê cercado cada vez mais dos produtos e artefatos da ciência. A ponto de o físico alemão Werner Heisenberg (Das Naturbild der heutigen Physik, Hamburgr 1955, p.14) escrever que num futuro não muito distante os aparelhos e instrumentos técnicos serão partes integrantes do homem, como a teia é parte da aranha e a concha do caramujo. | ||
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| + | Esse, porém, é apenas o sentido de superfície, | ||
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| + | Na Froehliche Wissenschaft, | ||
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| + | Já no primeiro aparecimento da filosofia entre os gregos no século VII antes de Cristo esse impasse de incompreensão é testemunhado por uma história, que Platão recolheu e nos conservou no Diálogo Teeteto (174a e ss.): “Tales de Mileto refletia certa vez sobre o significado dos astros para a existência e, olhando para o céu estrelado, caiu num buraco. Uma doméstica da Trácia, bela e galhofeira, dele se riu e o gozou, dizendo: aquele ali se preocupa tanto com o que se passa no céu, enquanto não tem olhos para ver o que tem diante do nariz e debaixo dos pés”. — Platão acrescenta ao relato dessa história as palavras significativas: | ||
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| + | Na idade da ciência e técnica essas risadas atingiram um número sem conta. Todas elas, porém, se fundam na constatação simples e convincente, | ||
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| + | Não, está muito certo! Com filosofia não se pode fazer nada. O errado é apenas pensar que com isso a filosofia terminou. Pois ainda há o reverso da medalha. Se nós não podemos fazer nada com filosofia, resta ainda acertar se também a filosofia não pode fazer nada conosco, caso naturalmente nos dediquemos a seu cultivo. O que é inútil pode muito bem desempenhar uma força existencial incontrolável. O que não conhece ressonância imediata na vida pode muito bem estar em consonância com as molas profundas, que acionam o acontecer histórico da humanidade. Pode até mesmo servir-lhe de prelúdio. Imediatamente, | ||
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| + | Devido ao modo estranho de seu vigor a filosofia se vê relegada, na idade da ciência mais do que em qualquer outra idade, a uma posição marginal. Por isso se torna imperiosa a necessidade de se discutirem as relações entre filosofia e ciência. Pois só discussões dessa natureza poderão preparar o espírito do homem moderno para a grande decisão. A decisão sobre o sentido de sua existência, | ||
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| + | É sempre um esforço penoso e muito difícil o acesso à ciência, apesar de toda a ajuda dos professores. O processo de aquisição da ciência descreve uma trajetória de crescentes graus de dificuldades: | ||
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| + | Pois a ciência é uma possibilidade historicamente concretizada do homem, em primeiro lugar do homem ocidental. Essa possibilidade realizada no Ocidente começa hoje a alongar-se e cobrir o mundo inteiro, informando com sua forma todos os povos. Sem dúvida, não é um mero acaso. Não se trata de um processo, cuja evolução poderia ter sido sustada. Estamos diante de um destino histórico. Mas donde , provém esse destino? | ||
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| + | Costumamos distinguir a vida pré-científica da atitude científica. Nessa distinção a vida pré-científica se nos afigura mais ampla, mais rica e variada. É tecida de comportamentos e relações, que se entrelaçam numa infinidade de setores: no campo das atividades práticas, do uso e confecção das coisas; no terreno da comunicação religiosa com poderes divinos; na esfera da convivência social com os outros homens; no plano de experiências estéticas da beleza, e em muitos outros. Antes de qualquer ciência a vida humana já é dinamizada pelo jogo dos chamados fenômenos existenciais: | ||
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| + | Desse mundo pré-científico brotam os motivos que conduzem por caminhos cruzados à origem e constituição da ciência. Das preocupações imediatas pela subsistência e meios de defesa, da sabedoria mágica dos sacerdotes, do espírito curioso de povos aventureiros, | ||
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| + | Talvez haja aqui lugar para uma objeção: depois que o homem, encontrando o conhecimento, | ||
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| + | Sem a menor dúvida! Mas teria ele que seguir os moldes da ciência ocidental? Será essa a única forma possível de recionalidade? | ||
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