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| + | ====== Fé, Pensamento e Conhecimento (1991: | ||
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| + | ==== APRENDENDO A PENSAR II ==== | ||
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| + | === Fé e Contemplação === | ||
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| + | //CARNEIRO LEÃO, Emmanuel, Aprendendo a pensar. Volume II. Petrópolis: | ||
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| + | Fé, Pensamento e Conhecimento são três modalidades existenciais que se excluem mutuamente, mas que “a loucura da Cruz” reuniu historicamente. De per si, não há homogeneidade, | ||
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| + | Por sua vez, Ciência e Filosofia não poderão olhar por sobre os ombros do crente com a pretensão de ditar-lhe o sentido real, e não o sentido imaginário ou até alienado, de sua Fé. O que significa a Fé, somente quem crê é que poderá saber. Trata-se de uma experiência exclusiva e intransferível. Toda pretensão de confiscá-la é blasfêmia, a blasfêmia que Kierkegaard denunciou na filosofia do absoluto de Hegel. Pois o próprio da Fé é esquivar-se à meditação do Pensamento e subtrair-se à apreensão do Conhecimento. Assim, uma incompreensão recíproca torna impossível qualquer tentativa de se reduzir a Filosofia ou a Ciência à sabedoria da Fé e vice-versa. | ||
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| + | Existe uma gravidade na questão do Pensamento que é refratária a qualquer crença: a própria audácia de questionar. Existe uma verdade originária no Pensamento que é incomensurável a tudo que é verdadeiro: a irrupção da realidade nas realizações, | ||
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| + | Mas como é que neste tecido estranho de comunhão, na e pela exclusão, se tecem as três formas em que veio a concretizar-se, | ||
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| + | Comecemos com a Filosofia. O que há com o Pensamento na Filosofia? | ||
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| + | Para Aristóteles, | ||
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| + | E assim, pois, o que tanto outrora, como agora, como em qualquer hora se procurou e nunca se encontrou uma saída, foi o questionamento da questão, o que é o ser de qualquer sendo... | ||
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| + | Na Filosofia o Pensamento se concentra em ser, todo e somente, o questionamento desta questão da essência de tudo que é. É desta atenção inveterada que a Filosofia recebe tanto sua especificidade irredutível como sua virtuosidade sem fim, como a temeridade incrível de sua pretensão. É aí também que aparece a exaustão e o limite insuperável de seu esforço de pensar. | ||
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| + | Na avalanche da questão filosófica tudo é levado de roldão pela tríplice radicalidade do questionamento. A envergadura do empenho de pensar se estica até às fronteiras do Nada e do não ser, cobrindo a totalidade do real. Toda a questão filosófica se estende entre o ser e o nada. Por isso não é possível escapar ao alcance de sua atropelada. Mas não se trata de uma totalidade extensiva, apenas. É também o questionamento mais profundo do Pensamento. Pois não se contenta com muito. Quer tudo. Somente o satisfaz o último fundamento e o derradeiro porquê. O porquê do porquê não o atrai. É um marcar passo no mesmo nível. Por isso apenas um porquê é capaz de levá-lo à plenitude de seu viço interrogativo: | ||
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| + | Por isso tudo, a questão filosófica do Pensamento não é uma questão entre muitas outras. É a única questão, por ser ao mesmo tempo a mais universal e a mais concreta, a mais simples e a mais difícil, a mais indeterminada e a mais determinante. É a questão que mais nos tem, atém e detém, a única que, em sua obscuridade mesma, esclarece e nutre todas as demais questões. Sendo a questão extra-ordinária, | ||
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| + | A audácia da questão filosófica não conhece limites. O Pensamento se entrega todo a questionar. A interrogação é levada até aos confins das possibilidades interrogativas e corta para si mesma qualquer ajuda que não advenha da própria interrogação. Isto significa: na Filosofia, pelo tremor da vertigem interrogativa, | ||
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| + | É de tal monta a presunção essencial do Pensamento, na Filosofia, que uma solidão audaciosa constitui a provocação para pensar da própria questão filosófica fundamental. Para a Fé originariamente cristã, tudo isto não passa de loucura, que o Apóstolo denunciou no primeiro capítulo da Primeira Epístola aos Coríntios (1,18-22): | ||
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| + | A doutrina da cruz é loucura para os que se perdem, mas é poder de Deus para os que se salvam. Consoante está escrito: “destruirei a sabedoria dos sábios e reprovarei a prudência dos prudentes" | ||
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| + | Assim no questionamento da questão filosófica o crente denuncia o delírio e a tentação do saber. Filho de Deus, irmão de Cristo, o cristão não necessita da vertigem interrogativa do Pensamento. Pois já está ancorado na Fé que o protege de qualquer ousadia metafísica. Goza da proteção do Deus que canta o Salmista: “O Senhor é meu pastor, nada me faz falta” (Salmo 22,1). O que é crer, diz o Autor da Epístola aos Hebreus: “A Fé é a consistência do que se espera e a adesão às coisas que não se veem” (Hb 11,1). À visão do filósofo se contrapõe a convicção do crente, à audácia do questionamento se opõe a aceitação da crença que consente a uma verdade obscura para o conhecimento, | ||
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| + | A vigência da Fé, em que mora e vive o cristão, é um espaço de verdade originária, | ||
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| + | Um cristão nunca sabe se crê realmente. Pois a Fé não é uma questão de saber. Não basta voltar-se sobre si mesmo e conferir as disposições da própria consciência com as prescrições de uma doutrina e os padrões de uma moral. O cristão crê simplesmente, | ||
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| + | E, não obstante, estar na Fé não exclui e, sim, inclui estar na verdade, e numa verdade originária. O mundo brilha numa outra luz. Tudo se transforma. É que o fiel mora num país em que a paisagem é da graça e toda a economia é da salvação. Por toda parte o cristão descobre a irrupção e o advento de Deus na história dos homens. Mas o Deus da Fé não é o Absoluto da Filosofia, uma mediação sem mediador. Embora condicionada pela verdade do ser, que instala o lugar de origem da existência e proporciona o princípio da historicidade, | ||
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| + | Enquanto cristão, o cristão não sabe nem precisa saber que mora na verdade e pertence à história do ser. Mergulhado na luz da Fé, ignora os pressupostos ontológicos e as condições de possibilidade de sua Fé. Por isso é que para o fiel a Filosofia é uma loucura. Não o seduz a avalanche do questionamento nem o toca a vertigem interrogativa do Pensamento nas peripécias da Filosofia. Mas, por outro lado, a proteção dada pela Fé não é isenta de perigos. Uma inquietude essencial é constitutiva da crença. Sob pena de banalizar-se numa atitude de tibieza, o crente permanece sempre exposto à possibilidade da descrença. É o “espinho na carne” que o atormenta continuamente. Todavia não se trata de dúvida e hesitação, | ||
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| + | E para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás, que me esbofeteia e me livra do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o afastasse de mim. Mas três vezes ele me respondeu: “basta minha graça porque é na fraqueza que a força chega à perfeição" | ||
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| + | Assim o cristão não pode desprezar o filósofo, cuja ousadia o mantém em contínua procura por dentro dos vestígios da passagem histórica do ser. Pois o cristão não é aquele que já encontrou o que o filósofo sempre procura. O mundo da Fé e o mundo do Pensamento não são homogêneos. A “resposta” da Fé não responde à pergunta do Pensamento, por não se corresponderem pergunta e resposta. A Fé nunca pode ser uma solução para a angústia ontológica do Nada, como “a resposta” do Pensamento nunca pode ser uma solução para a inquietude da Fé. O que ambas podem vir a ser uma para a outra, é apenas a dissolução uma pela outra. Vãs, portanto, e de uma vaidade radical, são as tentativas de se afrontarem Fé e Pensamento, disputando as pretensões da serenidade e da inquietude: pois cada qual possui sua verdade e cada qual tem seu aguilhão. Nem a Fé, nem o Pensamento podem aliviar a angústia radical da existência, | ||
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| + | Em suas oposições irredutíveis, | ||
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| + | Uma atitude análoga de separação irredutível só voltou a acontecer em plena Idade Moderna, com a progressiva dessacralização do mundo que terminou no materialismo puro e simples. Entre estes dois extremos de concordância invertida se localiza o fenômeno histórico-cultural do Cristianismo com sua teologia, suas instituições e ritos, seu império e poder. Embora com diferenças e percalços de avanço e retrocesso em diferentes regiões, a “Europa dos Povos” foi praticamente dominada pelo Cristianismo, | ||
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