estudos:carneiro-leao:caos
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| + | ====== O Caos (2010: | ||
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| + | ==== Filosofia Grega I ==== | ||
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| + | === O sentido grego do cháos === | ||
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| + | //[CARNEIRO LEÃO, Emmanuel. Filosofia Grega I. Teresópolis: | ||
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| + | Em seu Essai sur la connaissance approché (277), Gaston Bachelard afirma peremptoriamente: | ||
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| + | Diante de uma afirmativa tão cabal, nossa tentativa de falar do sentido grego do caos é uma insensatez. Pois promove a expectativa de que se vai pensar sobre ο cháos. Não é o que se pretende. Na verdade, o propósito nem é simplesmente outro. Ninguém nunca consegue pensar sobre o caos, por mais que deseje e se empenhe. Quem o pretendesse nem mesmo sabería o que estaria fazendo, i.é, que não estaria pensando sobre o caos mas sobre uma coisa. Pois só é possível pensar sobre o que tem sentido, nunca sobre o princípio de ordem e articulação da possibilidade de haver sentido. E o primeiro aceno que nos deixou a experiência grega: o caos só se dá na impossibilidade e como impossibilidade de se pensar, de se falar e/ou de se agir sobre ele. Por isso, com o tema, O sentido Grego do cháos, nem podemos renunciar à pretensão de pensar e/ou falar sobre ο cháos. Estamos sempre numa “outra” possibilidade? | ||
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| + | Na possibilidade de se pensar, de sc falar, de se agir, não de certo sobre - o que será sempre impossível - mas a partir do caos. E não se trata de uma tal ou qual possibilidade. Trata-se da possibilidade que sempre se dá e tem sempre de se dar, para se poder pensar, falar ou agir sobre qualquer coisa que seja. É, pois, a possibilidade kat’exochen, | ||
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| + | Por outro lado, não é apenas impossível pensar, falar e/ou agir sobre o cháos. Também não carece fazê-lo. Pois, em tudo, o que se diz, quando se fala e/ou se cala, sempre se faz a partir do cháos. E o segundo aceno que nos dá a experiência grega: ο cháos não só não é uma coisa. Ο cháos é sobretudo o princípio da possibilidade de tudo. Trata-se de uma experiência de ser e de realidade tão rica e inaugural que dela se origina tudo, o que é e não é, nela se nutre toda criação em qualquer área ou nível, seja do real ou irreal, seja do necessário ou contingente. Por isso é que todo propósito de pensar, falar ou agir envia sempre para este vigor matinal do ser e da realidade. Do cháos provém, para ο cháos remete, no cháos se mantém e de volta ao cháos retoma toda ordem e toda desordem, o mundo e o imundo, tudo que está sendo como tudo que não está sendo. | ||
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| + | A palavra, to cháos, caos, tem o mesmo radical do verbo chásko que nos envia para a experiência de manter-se continuamente abrindo-se, de estar, portanto, sempre em aberto. É o princípio de todo cindir e separar, de todo distinguir e discriminar e por isso mesmo gerador e constitutivo de todo bico e qualquer bifurcação. Diz, portanto, o hiato do ser, o abismo hiante que a realidade é, no sentido transitivo de fazer ser e realizar. Todo real e irreal se instala e sustém numa realização da realidade hiante, que se abisma numa abertura sem fim mas dentro de limites e/ou indeterminações, | ||
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| + | Nestas condições, | ||
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| + | 1º ο cháos está aquém de toda ordem e/ou desordem de qualquer tipo, natureza ou nível; | ||
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| + | 2º ο cháos é a possibilidade, | ||
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| + | 3º ο cháos é o princípio de conservação e continuidade para toda diferenciação e/ou indiferenciação. | ||
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| + | Por isso mesmo, ao anunciar o momento oportuno de uma transformação histórica radical, Zaratustra proclama: “É preciso a coragem de ser um cháos para se gerar uma estrela dançarina”. | ||
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| + | Onde é que se encontra presente a integração destes três poderes no sentido grego de cháos? | ||
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| + | Esta integração não tem lugar de encontro. Constitui de alto a baixo toda a experiência grega, em cuja força se inaugura a existência histórica do Ocidente. Nela mora tanto o silêncio das falas como o espanto da criação. Dela vive a estranheza que atrai o conhecimento, | ||
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| + | O vigor de pensamento destes versos se recolhe no poder inaugural de sua dinâmica arcaica em todas as apropriações de cada etapa da história grega: na épica e na lírica, no pensamento originário, | ||
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| + | Os séculos VIII-VII antes de Cristo viveram da emergência dos três princípio de ordem que transformaram os fundamentos de toda a existência anterior: o princípio universal das trocas de poder, a Cidade, o princípio universal das trocas de símbolo, o alfabeto, o princípio universal das trocas de bens e serviços, a moeda. A poesia arcaica antecede a instalação da ordem destes três poderes. A poesia arcaica é a poesia do caos, no sentido de ser a poesia que deixa aparecer e mostra a impossibilidade e a possibilidade de ordens e desordens. Para o poeta arcaico, ο cháos rege todas as forças históricas. Ο cháos é, ao mesmo tempo e num mesmo elã, criação e aniquilação das realizações. No advento do cháos, a poesia encontra, em cada coisa, o poder de superar as distâncias nos diversos modos de ser e não ser. E o poder gerador de mnemosyne. Em nove noites de amor, Zeus faz com o caos de Mnemosyne a mãe das Linguagens criadoras, as nove musas. | ||
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| + | Três séculos depois de Hesíodo, em plena ordem da Cidade, do Alfabeto e da Moeda, Aristóteles retoma o poder criador do caos no IVº livro de suas physike akroasis, “Escuta Física”, ao discutir “uma dinâmica prodigiosa”, | ||
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