estudos:camus:onfray-2012-camus-uma-metafisica-do-absurdo
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| - | ====== Onfray (2012) – Camus, uma metafísica do absurdo ====== | ||
| - | ONFRAY, Michel. L’ordre libertaire: la vie philosophique d’Albert Camus. Paris: Flammarion, 2012. | ||
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| - | ==== A condenação física e a formação da sensibilidade filosófica à beira do abismo ==== | ||
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| - | * A tuberculose impõe a Camus uma visão trágica da existência, | ||
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| - | * A enfermidade atua como um duplo vetor de exclusão social e institucional, | ||
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| - | * A impossibilidade de frequentar a Escola Normal Superior e o afastamento do ensino clássico canônico, longe de constituírem apenas um déficit, favorecem uma erudição autodidata libertária que permite a Camus ignorar as exegeses oficiais e a artilharia sofística dos acadêmicos formatados, opondo-lhes uma sinceridade existencial nutrida por leituras vorazes e desordenadas que amalgamam Schopenhauer, | ||
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| - | * Estabelece-se uma distinção fundamental entre a literatura filosófica, | ||
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| - | ==== A estética do romance e a crítica à primazia do conceito sobre a vida ==== | ||
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| - | * A teoria do romance filosófico proposta rejeita o didatismo pesado do romance de tese em favor de uma integração sutil onde a filosofia se transmuta em imagens, equilibrando personagens, | ||
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| - | * Na crítica literária exercida no Alger republicain, | ||
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| - | * A filosofia camusiana opera uma inversão dos valores acadêmicos tradicionais ao privilegiar a sensação, a emoção e a percepção em detrimento da razão legisladora, | ||
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| - | ==== O Estrangeiro como manifestação do socratismo nietzschiano e a inocência do devir ==== | ||
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| - | * A figura de Meursault deve ser compreendida fora das leituras reducionistas cristãs, marxistas ou existencialistas, | ||
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| - | * O verdadeiro sobre-homem nietzschiano, | ||
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| - | * Meursault encarna a inocência do devir e a sabedoria trágica ao viver em total aderência ao presente, indiferente às convenções sociais e morais não por insensibilidade patológica, | ||
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| - | ==== Genealogias do pensamento: o triângulo entre Pirro, Nietzsche e a sabedoria indiana ==== | ||
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| - | * A construção do ethos de Meursault remete a uma genealogia complexa que une o ceticismo antigo, o pensamento indiano e a filosofia nietzschiana, | ||
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| - | * A figura de Pirro de Elis, influenciada pelos ginosofistas indianos e pelo exemplo do sábio Calanos que se imolou impassível diante de Alexandre, o Grande, fornece o modelo do sábio que atinge a indiferença suprema diante das coisas, recusando-se a arbitrar entre o verdadeiro e o falso ou entre o bem e o mal, praticando uma aphasia e uma adiaphoria que dissolvem as perturbações da alma e anulam a pretensão dogmática da filosofia tradicional. | ||
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| - | * O ceticismo pirrônico, ao afirmar a indiscernibilidade das coisas e a inutilidade das opiniões, não conduz a um niilismo paralisante, | ||
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| - | ==== A prática da indiferença e a união mística com o mundo sensível ==== | ||
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| - | * A trajetória romanesca de Meursault é uma sucessão de atos de apathia, epoche e adiaphoria, manifestados na ausência de reações convencionais diante da morte da mãe, na indiferença frente às propostas de casamento de Marie ou de promoção profissional, | ||
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| - | * Apesar da aparente frieza emocional, o protagonista experimenta momentos de intensa fruição estética e sensorial que remetem às extases de Plotino e à celebração nietzschiana do corpo, encontrando a felicidade na contemplação das cores do céu, na textura da água do mar, no calor do sol e na presença física de Marie, evidenciando uma sabedoria que reside na coincidência imediata com a natureza e na recusa de qualquer mediação intelectual ou moral. | ||
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| - | * A cena final com o capelão marca a irrupção da cólera sagrada do apathique, momento em que Meursault, provocado pela insistência do religioso em vender consolações metafísicas e esperanças de outra vida, reafirma violentamente sua verdade terrestre e ateia, rejeitando a noção de pecado e a justiça divina em nome da certeza absoluta da morte e da vida presente, culminando na aceitação da tenra indiferença do mundo, que espelha a sua própria. | ||
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| - | ==== O enfrentamento do absurdo e a recusa do suicídio como afirmação da vida ==== | ||
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| - | * O Mito de Sisifo, concebido como o reverso teórico de O Estrangeiro e escrito sob a pressão da doença e da guerra, rejeita a filosofia professoral e sistemática em favor de uma interrogação existencial direta sobre o sentido da vida em um universo desprovido de Deus e de valores transcendentais, | ||
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| - | * A constatação da absurdidade e da inevitabilidade da morte não legitima o suicídio, pois este ato seria uma aceitação da derrota e uma supressão do confronto que constitui a própria vida consciente; a resposta ética reside na revolta, que é a manutenção desse confronto sem esperança, e na decisão de viver a vida absurda com a máxima intensidade e lucidez, transformando a condenação à morte em uma regra de vida quantitativa e qualitativa. | ||
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| - | * A felicidade de Sisifo, condenado a repetir eternamente o gesto inútil de rolar a pedra, reside na apropriação de seu destino e na consciência de que a luta em si mesma basta para preencher o coração de um homem, transformando a maldição em uma afirmação alegre da vida e ilustrando a fórmula nietzschiana de dizer sim ao mundo tal como ele é, recusando os consolos dos arrière-mondes. | ||
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| - | ==== Do reino mediterrâneo ao exílio europeu ==== | ||
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| - | * A evolução do pensamento e da vida de Camus descreve um movimento geográfico e simbólico que parte do reino mediterrâneo, | ||
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| - | * A necessidade de tratar a tuberculose força o abandono da terra natal e dos prazeres físicos da existência argelina, lançando o autor em um ambiente de abstração e cinza onde a luta contra a morte e a busca por uma moral sem transcendência se tornam imperativos urgentes para quem deve construir um sentido sobre a efemeridade de uma vida que se sabe condenada ao apodrecimento lento dos pulmões. | ||
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