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estudos:buzzi:buzzi-ipref-humano

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-====== Buzzi (I:Pref) – Humano ====== 
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-ESTE livro se formou lentamente num discurso, que é apenas caminho, parábola da vida. O discurso se constitui numa sucessão de palavras, umas após outras, numa perseguição sem pouso, acerca de um tema único: a vida que já somos. A linguagem diz nossa consagração à vida. Viver é devotar-se à vida no enredo de uma língua, na trama de uma fala, no enfardamento de um palavreado. 
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-Estamos, antes de qualquer decisão, no destino e na urdidura da linguagem: sentimos em nós a doação da vida e, no toque cordial dessa gratuidade, cultivamos a virtude da devoção à vida. A devoção à vida nos leva a empreender tarefas, a frequentar cursos, a ler livros, a interpretar as possibilidades do discurso. 
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-Quanto mais desejamos aperfeiçoar o empreendimento da vida mais recorremos aos cursos para, na provocação de diferentes discursos, retomarmos com mais fervor a linguagem da vida que nos está mais próxima: o nosso diário. 
- 
-O que importa em toda leitura que fazemos, em todo curso que frequentamos, é sempre tão-só a linguagem que nos está mais próxima: o viver diário. 
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-O livro, na arquitetura de um discurso de ideias, parece que se afasta da linguagem do viver-diário. Somos tentados a contrapor a paisagem descortinada pelo livro à paisagem conhecida do quotidiano. Essa oposição invade todos os caminhos do pensamento distraído. Surge então a dicotomia: livro e vida. 
- 
-No entanto, não há oposição entre livro e vida, pois nunca vivemos a vida na conquista absoluta dela mesma. 
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-Vivemo-la na leitura de nossa subjetividade, na bandeja de nossa consciência. Essa é o nosso livro-diário. 
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-Vivemos a vida sempre numa leitura, num livro. O quotidiano é o livro fundamental. Os outros são modulações diferenciadas do mesmo. 
- 
-No livro-diário temos a vida na unidade dinâmica de dois níveis: o funcional e o significativo. 
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-No nível funcional andamos sempre empenhados na conquista de objetivos determinados. Aprimoramos nossas competências, aperfeiçoamos os modelos de ação para, com menos investimento e em tempo menor, alcançar os objetivos, isto é, os «bens» que consideramos necessários a um viver mais digno e humano. 
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-O viver-diário se escoa no círculo de uma tal funcionalidade: estudamos para adquirir o saber de funcionamento dos modernos sistemas de ação, trabalhamos para agenciar os sistemas de ação instituídos e repousamos para recobrar forças que são o feedback, a re-alimentação dessa circularidade funcional. 
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-Embora se objetive em sistemas de funcionalidade e persiga, na operatividade de tais sistemas, «bens» definidos (o salário, o alimento, o vestuário, o automóvel, o jogo, a estima de uma pessoa, a catequese de um bairro, a saúde de um doente, a alegria de quem está triste, o ânimo de quem está desanimado, o bom comportamento, o respeito à lei, etc.), o viver-diário não se endereça primordialmente a esses «bens» definidos. Ainda que o dia-a-dia se mova sem tréguas na estância de uma tal funcionalidade, não estancia nos «projetos» da funcionalidade. 
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-Na estância do viver-diário, ordenado em projetos, logo celebramos a gratuidade do dom da vida. Louvar a doação da vida em tudo que projetamos, amamos e buscamos, é viver o sentido da funcionalidade do livro-diário. A funcionalidade do livro-diário não nos conduz apenas à conquista dos «bens» definidos por nossos desejos, mas nos reconduz ao mistério de nós mesmos: à experiência da gratuidade absoluta do que somos e temos. Nessa experiência as proposições de saber são sempre também exclamações de louvor à vida. 
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-No desejo de sermos mais, arquitetamos projetos em cujo recinto imaginamos alcançar os «bens» que nos gratifiquem a vida em maior plenitude. A isso tudo somos compelidos pelo dom-da-vida. O impulso de louvação à vida é o nível significativo que institui os caminhos da funcionalidade e empolga os discursantes de sua fala. 
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-Na medida em que, na estância de funcionalidade do livro-diário, acolhemos a gratuidade da vida, que de mil e uma maneiras se oferece a nosso serviço, surgirá, por certo, na afeição dessa oferenda das coisas da vida por nós, a vontade de ajuntar forças para a consagração laudatória ao dom-da-vida. 
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-Este livro se inscreve no desejo de conquistar uma maior correspondência e co-pertença à vida, de tal maneira que o viver-diário seja o caminho da devoção de quem se surpreende na gratuidade absoluta da doação. 
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-A conquista de devotamento ao dom-da-vida está na linguagem deste discurso: 
- 
-> "Confúcio contemplava a catarata de Lu-Liang. A cortina de água tem a altura de dez homens em pé, um em cima do outro. 
-> 
-> Depois da queda, a corrente impetuosa de águas espumantes se precipita ao longo de quarenta milhas, entre as rochas. Nem tartarugas, peixes ou crocodilos podiam nadar nesse turbilhão. 
-> 
-> Viu, porém, um homem nadando na torrente. 
-> 
-> Crendo tratar-se de um suicida cansado dos sofrimentos da vida, mandou que seus discípulos o salvassem da morte. 
-> 
-> A uns cem passos abaixo, porém, o homem saiu da água, sacudiu alegre os cabelos molhados e cantarolava. 
-> 
-> Disse Confúcio: 
-> 
-> Pensei que você fosse um espírito. Vejo, porém, que é mortal. Diga-me, por favor, em que consistem a técnica e o método de sua natação? 
-> 
-> Respondeu-lhe o mortal: 
-> 
-> Não sei. Instalei-me na terra, enraizei-me no hábito do quotidiano; no desempenho recolhido do habitat diário, alojei-me na fluência da vida; aos poucos a fluência da vida se tornou o habitáculo da minha natureza como a lei perfeita da regência do corpo. Caio na água, desço e subo com ela, na correspondência a sua doação. Não há técnica nem método. 
-> 
-> Perguntou-lhe Confúcio: 
-> 
-> O que significa instalar-se no hábito do quotidiano, alojar-se na fluência da vida, tomar corpo na regência da lei perfeita? 
-> 
-> Respondeu-lhe o homem: 
-> 
-> Sou campônio. Nasci na terra. Moro nela. Isso se chama paz, o recolhimento do diário. Da paz flui a vida. Deixar fluir a vida no recolhimento diário é o hábito. Isso se chama: ser. Com o tempo, o ser toma corpo, cresce como fruto da vida, prenhe de vigor. Tudo é uno. Cada caminho é ressonância da vida. Isso se chama: liberdade ou espírito. É só isso, nada mais". (Chuang Tzu, Thomas Merton: "A via de Chuang Tzu" cap. 19). 
  
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