estudos:buzzi:buzzi-ipref-humano
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| Next revision | Previous revision | ||
| estudos:buzzi:buzzi-ipref-humano [16/01/2026 04:28] – created - external edit 127.0.0.1 | estudos:buzzi:buzzi-ipref-humano [25/01/2026 19:36] (current) – removed mccastro | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| - | ====== Buzzi (I:Pref) – Humano ====== | ||
| - | |||
| - | ESTE livro se formou lentamente num discurso, que é apenas caminho, parábola da vida. O discurso se constitui numa sucessão de palavras, umas após outras, numa perseguição sem pouso, acerca de um tema único: a vida que já somos. A linguagem diz nossa consagração à vida. Viver é devotar-se à vida no enredo de uma língua, na trama de uma fala, no enfardamento de um palavreado. | ||
| - | |||
| - | Estamos, antes de qualquer decisão, no destino e na urdidura da linguagem: sentimos em nós a doação da vida e, no toque cordial dessa gratuidade, cultivamos a virtude da devoção à vida. A devoção à vida nos leva a empreender tarefas, a frequentar cursos, a ler livros, a interpretar as possibilidades do discurso. | ||
| - | |||
| - | Quanto mais desejamos aperfeiçoar o empreendimento da vida mais recorremos aos cursos para, na provocação de diferentes discursos, retomarmos com mais fervor a linguagem da vida que nos está mais próxima: o nosso diário. | ||
| - | |||
| - | O que importa em toda leitura que fazemos, em todo curso que frequentamos, | ||
| - | |||
| - | O livro, na arquitetura de um discurso de ideias, parece que se afasta da linguagem do viver-diário. Somos tentados a contrapor a paisagem descortinada pelo livro à paisagem conhecida do quotidiano. Essa oposição invade todos os caminhos do pensamento distraído. Surge então a dicotomia: livro e vida. | ||
| - | |||
| - | No entanto, não há oposição entre livro e vida, pois nunca vivemos a vida na conquista absoluta dela mesma. | ||
| - | |||
| - | Vivemo-la na leitura de nossa subjetividade, | ||
| - | |||
| - | Vivemos a vida sempre numa leitura, num livro. O quotidiano é o livro fundamental. Os outros são modulações diferenciadas do mesmo. | ||
| - | |||
| - | No livro-diário temos a vida na unidade dinâmica de dois níveis: o funcional e o significativo. | ||
| - | |||
| - | No nível funcional andamos sempre empenhados na conquista de objetivos determinados. Aprimoramos nossas competências, | ||
| - | |||
| - | O viver-diário se escoa no círculo de uma tal funcionalidade: | ||
| - | |||
| - | Embora se objetive em sistemas de funcionalidade e persiga, na operatividade de tais sistemas, «bens» definidos (o salário, o alimento, o vestuário, o automóvel, o jogo, a estima de uma pessoa, a catequese de um bairro, a saúde de um doente, a alegria de quem está triste, o ânimo de quem está desanimado, o bom comportamento, | ||
| - | |||
| - | Na estância do viver-diário, | ||
| - | |||
| - | No desejo de sermos mais, arquitetamos projetos em cujo recinto imaginamos alcançar os «bens» que nos gratifiquem a vida em maior plenitude. A isso tudo somos compelidos pelo dom-da-vida. O impulso de louvação à vida é o nível significativo que institui os caminhos da funcionalidade e empolga os discursantes de sua fala. | ||
| - | |||
| - | Na medida em que, na estância de funcionalidade do livro-diário, | ||
| - | |||
| - | Este livro se inscreve no desejo de conquistar uma maior correspondência e co-pertença à vida, de tal maneira que o viver-diário seja o caminho da devoção de quem se surpreende na gratuidade absoluta da doação. | ||
| - | |||
| - | A conquista de devotamento ao dom-da-vida está na linguagem deste discurso: | ||
| - | |||
| - | > " | ||
| - | > | ||
| - | > Depois da queda, a corrente impetuosa de águas espumantes se precipita ao longo de quarenta milhas, entre as rochas. Nem tartarugas, peixes ou crocodilos podiam nadar nesse turbilhão. | ||
| - | > | ||
| - | > Viu, porém, um homem nadando na torrente. | ||
| - | > | ||
| - | > Crendo tratar-se de um suicida cansado dos sofrimentos da vida, mandou que seus discípulos o salvassem da morte. | ||
| - | > | ||
| - | > A uns cem passos abaixo, porém, o homem saiu da água, sacudiu alegre os cabelos molhados e cantarolava. | ||
| - | > | ||
| - | > Disse Confúcio: | ||
| - | > | ||
| - | > Pensei que você fosse um espírito. Vejo, porém, que é mortal. Diga-me, por favor, em que consistem a técnica e o método de sua natação? | ||
| - | > | ||
| - | > Respondeu-lhe o mortal: | ||
| - | > | ||
| - | > Não sei. Instalei-me na terra, enraizei-me no hábito do quotidiano; no desempenho recolhido do habitat diário, alojei-me na fluência da vida; aos poucos a fluência da vida se tornou o habitáculo da minha natureza como a lei perfeita da regência do corpo. Caio na água, desço e subo com ela, na correspondência a sua doação. Não há técnica nem método. | ||
| - | > | ||
| - | > Perguntou-lhe Confúcio: | ||
| - | > | ||
| - | > O que significa instalar-se no hábito do quotidiano, alojar-se na fluência da vida, tomar corpo na regência da lei perfeita? | ||
| - | > | ||
| - | > Respondeu-lhe o homem: | ||
| - | > | ||
| - | > Sou campônio. Nasci na terra. Moro nela. Isso se chama paz, o recolhimento do diário. Da paz flui a vida. Deixar fluir a vida no recolhimento diário é o hábito. Isso se chama: ser. Com o tempo, o ser toma corpo, cresce como fruto da vida, prenhe de vigor. Tudo é uno. Cada caminho é ressonância da vida. Isso se chama: liberdade ou espírito. É só isso, nada mais". (Chuang Tzu, Thomas Merton: "A via de Chuang Tzu" cap. 19). | ||
estudos/buzzi/buzzi-ipref-humano.1768555703.txt.gz · Last modified: by 127.0.0.1
