estudos:buzzi:buzzi-ip-a-questao-do-ser
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| + | ====== a questão do ser (IP) ====== | ||
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| + | Introdução ao pensar é o título do livro que o leitor tem em mãos. Pensar é achegar-se à realidade no seu constitutivo mais profundo. Isso não significa que o pensamento esteja em algum momento fora, adejando na periferia do real. A realidade é cheia de pensamento. Tudo quanto existe proclama o pensamento. | ||
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| + | Estamos envolvidos numa multiplicidade de entes que desvelam o pensamento. Pensar é permitir à realidade que está aí, na qual somos agasalhados, | ||
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| + | O pensamento vive pois recolhido nos entes que povoam o universo. Os entes, as coisas, são seu desvelamento: | ||
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| + | O homem, por estar na realidade, partilhando da aventura de ser, é dotado de capacidade de pensar, isto é, de perceber quem é o ser. Os demais entes estão também no pensamento, mas sem capacidade de pensar e de dizer. Por isso o homem é definido como ser que pensa ou animal que fala. | ||
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| + | Quando o pensamento do homem se entrega ao desempenho de pensar e falar a realidade, institui o fenômeno denominado conhecimento. No homem o pensamento aparece na inebriante aventura de conhecer a realidade. | ||
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| + | Qual o conhecimento que melhor revela o que é a realidade? É o conhecimento filosófico. | ||
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| + | No conhecimento filosófico o pensamento ensaia uma radical compreensão da realidade. Pensar é pois filosofar. Filosofar não é ir para além, fora do real vivido. É um aproximar-se para mais perto do que se vive, é ir a sua raiz, é descobrir que aí lateja o espetáculo do ser. Filosofar é criar um mundo diferente, não fora, mas no concreto mundo de agora, desvelando-o precisamente como diferente, revelando-o no vigor latente, esquecido às vezes na faina da vida. | ||
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| + | O filósofo ambiciona colocar-se no centro do círculo da existência. De lá percebe como na circunferência as coisas se relacionam numa eterna perseguição de sim e de não, de verdadeiro e de falso, de bem e de mal, de autêntico e de inautêntico, | ||
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| + | Pensar ou sopesar nessa profundidade a estranha realidade que nos envolve é intenção da obra que o leitor está lendo. A cada passo é convidado a atingir esse alvo. | ||
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| + | O alvo, porém, que o pensamento atingir, é apenas ponto de referência para um caminhar ulterior. O filósofo permanece sempre qual viandante no deserto que vê o invisível na representação de uma miragem. A miragem da representação não é ainda a verdade da realidade. Mas ela, a realidade, aí está anunciada, aí se proclama vigorosa, cativando os passos do caminhante. | ||
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| + | «Todo o homem que for dotado de espírito filosófico há de ter o pressentimento de que, atrás da realidade em que existimos e vivemos, se esconde outra muito diferente, e que, por consequência, | ||
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| + | Quando a realidade começa a desocultar-se, | ||
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| + | Convocar o homem ao pensamento é convidá-lo à amizade com o ser, é evocar seu Destino, é instituir um espaço onde todos os seres racionais e irracionais são vistos na verdade de sua interioridade e acolhidos na justiça de seu ser, que transcendem as ideologias que dividem e os sistemas que separam. | ||
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| + | Mais do que através de uma definição pré-formulada, | ||
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| + | A filosofia não é uma «teoria» elaborada que «representa» a vida. «A filosofia é uma atividade» significa: ela se situa num momento anterior à separação do teórico e do prático, pretende mostrar que em todo agir e ser, simples ou complexo, ordinário ou extraordinário, | ||
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| + | O termo filosofia é de origem grega. Se conseguíssemos pronunciar e ouvir a palavra philosophia como os gregos a pronunciavam e ouviam, não seria preciso explicitar-lhe o sentido, pois a língua grega, no seu brotar originário, | ||
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| + | Foi Heráclito quem presumivelmente criou o termo filósofo. Em grego philósophos procede de adjetivo philos que significa amigo e sóphon que significa sabedoria. Filósofo é pois o amante da sabedoria. Amar a sabedoria é um saber falar com a sabedoria, é um corresponder a ela, é um estar-em-acordo, | ||
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| + | Onde está a sabedoria para que o filósofo crie com ela esses laços de correspondência, | ||
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| + | Quando o filósofo está no todo como quem sabe ler a harmonia nele inserida, como quem sabe corresponder à unidade dos entes, possui a sabedoria, o sóphon. Para tanto o filósofo precisa perceber o um que tudo une, que tudo harmoniza. Esse um é a própria realidade, é sua identidade última presente e estranha ao pensamento. | ||
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| + | O sóphon, o um, não é uma coisa, um objeto entre os demais. O um é o que possibilita cada objeto ser ele mesmo, é o que possibilita o agente acolher e viver os acontecimentos, | ||
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| + | A Filosofia é pois aquele singular desejo do homem, tematizado no curso da história, desde os gregos até nós, de querer estar na harmonia do todo, de querer ver as coisas no um. | ||
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| + | A filosofia não é um saber desligado da vida. Antes o contrário. Como a luz esparramando-se na realidade possibilita aos olhos vê-la em seus contornos definidos, capacitando-nos a andar entre as coisas com desembaraço e sem tropeço, assim é a filosofia um saber-luz que nos faz ver o sentido secreto da realidade. Filosofar é perceber a significação íntima do ser, é carregar a realidade na luz do conhecimento, | ||
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| + | A filosofia é por conseguinte um saber em proveito do homem. Platão (Eutidemo, 288d-290d) diz que de nada serviria possuir a capacidade de transformar as pedras em ouro a quem não soubesse valer-se do outro, de nada serviria uma ciência que tornasse imortal a quem não soubesse servir-se da imortalidade. E1 necessária, | ||
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| + | O conhecimento filosófico da realidade não deve ser concebido como um retrato da realidade. Conhecer o sentido da realidade não é retratar a realidade. É antes pensar a realidade. Em contraposição às demais ciências. Hegel reservava à Filosofia o privilégio de ser a «consideração pensante dos objetos» (Enciclopédia, | ||
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| + | Esse significado íntimo da realidade é alcançado pelo pensamento já envolvido no meio das coisas, participando do ser, vivendo-o antes de se pôr na atividade explícita de pensá-lo, isto é, de sopesá-lo, de apreciá-lo. A filosofia é apenas o tornar explícita a significação implicitamente vivida. É revelar a dinâmica da existência na qual o pensamento já está embalado. | ||
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| + | O filósofo é um homem engajado na realidade, mergulhado na dinâmica profunda da vida. Seu pensamento, isto é, seu apreciar a realidade, é tanto mais acertado quanto mais estiver vivendo. Para dar início e sustentar o caminhar filosófico não basta estar-frente à vida, não basta olhar sobre ela. É preciso participar da vida, sentir-se ligado a ela por laços invisíveis. | ||
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| + | A vida é feita de mil e um pequenos eventos: gestos de comer, beber, andar, trabalhar, brincar, sofrer, amar, lutar, odiar, guerrear. Ela cresce em plenitude na medida em que o espírito souber vivenciar a mesma poesia presente em todos os eventos. A filosofia é assim a arte que revela e custodia a beleza do ser, mostrando que todos os momentos são versos de um só e grande poema. | ||
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| + | O exemplo talvez ilustre melhor o que pretende o pensar do filósofo: | ||
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| + | Pelo peso medimos o valor das coisas. Pesar uma coisa é dizer sua valia, é apreciar sua consistência. Em geral servimo-nos da balança para fazer esse «sopesamento» e por conseguinte essa avaliação das coisas. Mas pela balança o peso vem expresso em números. Declaramos, por exemplo, que a melancia pesa dois quilos. Dois é uma avaliação abstrata, pois dois não é a melancia. | ||
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| + | Suponhamos que não temos balança. O caso é frequente no interior. Imaginemos estar no sítio de um camponês. Que ele nos queira vender qualquer bem de campo ao preço de quilo-peso. Você que é inexperiente na avaliação do peso toma a mercadoria na mão e não sabe sopesá-la. O camponês, porém, que tem o métier de pesar as coisas sem a balança, toma-a na mão, faz um movimento braçal de cima para baixo, de baixo para cima, sopesa-a, sente-lhe o peso em todo seu corpo, aprecia-a por senti-la como que colada ao corpo, ele sabe quanto pesa e lhe diz os quilos. | ||
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| + | Em casa, depois, você põe a mercadoria na balança e verifica que de fato pesa aquele tanto que o camponês lhe dissera. Agora você também sabe por instrumentos científicos que a «coisa» que você comprou pesa tantos quilos. Seu saber, porém, é um saber-desligado-da-coisa, | ||
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| + | O sopesar do camponês não deve ser compreendido como um substitutivo rudimentar da balança. O que se quer aqui mostrar são dois modos de sopesar, de pensar alguma coisa. Um modo mais radical, mais originário, | ||
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| + | O filósofo vive afundado na vida e a filosofia é uma ciência apreciativa do ser vivido e percebido em sua radicalidade máxima. | ||
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| + | Sem essa conexão, sem essa solidariedade com o ser da existência não há filosofia. A filosofia não é um saber justaposto ao ser, mas um saber revelador do ser. | ||
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| + | Há uma definição de «propriedade» de Saint-Exuréry que bem exprime essa solidariedade do saber com o ser. Diz o escritor: «Vem alguém à minha propriedade e fala: lá é muito pobre. Só tem algumas pedras, algumas árvores e algumas cabras. Ele não viu a minha propriedade. Aquilo era só o território. O principal estava invisível. O que faz a minha propriedade é aquilo que não se vê e que liga as pedras, as árvores e as cabras e me liga a tudo». | ||
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| + | O exemplo de Saint-Exupéry, | ||
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| + | O segundo nível, vamos chamá-lo de significativo. «Propriedade» nesse nível não indica um modo jurídico, operativo, de posse da coisa. Indica a solidariedade, | ||
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| + | Exprimir essa experiência recôndita e invisível que fazemos das coisas é função do filósofo. Seu saber é diferente do fatual-descritivo, | ||
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| + | Por isso a filosofia se aproxima da arte. O artista e o filósofo mergulham, cada qual a seu modo, no ser, vivem-no na sua interioridade máxima, e quando falam, quando dizem quem ele é, se fazem profetas do invisível, anunciadores de algo que no imediato visível não se percebe. «No poetar do poeta, como no pensar do filósofo, de tal sorte se instaura um mundo, que qualquer coisa, seja uma árvore, uma montanha, uma casa, o chilrear de um pássaro, perde toda monotonia e vulgaridade» (M. Heidegger, Introdução à Metafísica, | ||
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| + | Retomando o que dizíamos sobre a íntima solidariedade entre a filosofia e a vida, concluímos que quem vive não pode deixar de filosofar. Viver é filosofar. Isto porque o viver-humano inclui um mínimo de decisão. Ser-homem não é um estado já feito. Ser-homem é uma decisão. É como o encontro, o amor. Eles se fazem no processo. O homem se institui no processo decisório de ser-homem. E nesse processo decisório o homem se eleva acima do fato físico ou biológico, introduz o acontecimento chamado História, que é a investigação do ser-humano que se faz, que se essencializa. | ||
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| + | Consciente ou inconscientemente, | ||
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| + | Não podemos, porém, dizer que todo homem é filósofo no sentido usual da expressão. A palavra filósofo ficou reservada àqueles que consciente e deliberadamente se põem a filosofar: escolhem um método, sistematizam os conhecimentos obtidos, arquitetam um sistema interpretativo da realidade. Filósofo é então aquele que diz em conceitos e em linguagem apropriada a experiência do ser. Os conceitos e a linguagem não estão à margem do ser vivido. A filosofia vazada na linguagem conceptual é profundamente solidária à vida, à existência. Ela marca o desejo, a ânsia que o homem tem de elucidar sua circunstância existencial. | ||
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| + | Filosofar é pois um saber situar-se, um ver seu caminhar, um perceber o existir como solidariedade íntima do pensar e do ser e sua expressão em conceitos adequados, enunciados numa linguagem comunicativa. | ||
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| + | Precisamos pois falar desses três momentos da filosofia: o ser a dilucidar, de sua dilucidação, | ||
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