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| + | ====== Bollnow ====== | ||
| + | Otto Friedrich Bollnow (1903-1991) | ||
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| + | //AORISTO, 2018. Irene Borges-Duarte. Bollnow leitor de Heidegger e de Binswanger. (resumo)// | ||
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| + | **INTRODUÇÃO** | ||
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| + | 1. Otto Friedrich Bollnow (1903-1991) situa-se na tradição da Filosofia Hermenêutica e da Filosofia da Existência alemãs, com dedicação especial à problemática dos afectos e ao contexto antropológico da pedagogia, percurso que se constrói entre a formação em Física com Max Born e o aprofundamento posterior em Göttingen e Marburg. | ||
| + | * A formação decisiva ocorre com Georg Misch, Herman Nohl e, sobretudo, com a docência de Martin Heidegger em Marburg. | ||
| + | * Em 1929, o debate entre Heidegger e Cassirer em Davos é registado, em relatório redigido com Joachim Ritter, como confronto entre duas formas de fazer filosofia. | ||
| + | * A lição de habilitação de 1931, publicada em 1933, aborda a relação de Heidegger com Kant numa perspectiva hermenêutica da trajectória do pensamento heideggeriano, | ||
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| + | 2. A [[lx> | ||
| + | * Esta posição conduz à exploração da abertura afectiva ao mundo da vida e ao [[lx> | ||
| + | * O percurso prossegue nas tematizações monográficas das tonalidades afectivas ([[lx> | ||
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| + | 3. A divulgação da obra de Bollnow encontra-se hoje facilitada pela Studienausgabe em curso de publicação desde 2009, bem como pela fundação, em 2004, da Otto Friedrich Bollnow-Gesellschaft. | ||
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| + | 4. No solo da hermenêutica da existência fáctica surge, em 1945, a recensão de Bollnow à obra de Ludwig Binswanger, Grundformen und Erkenntnis menschlichen Daseins, expondo a contribuição filosófica deste autor para a história da recepção do pensamento heideggeriano e para a problemática antropológica da primeira metade do século XX. | ||
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| + | 5. Ludwig Binswanger, oriundo de uma dinastia de psiquiatras suíços e formado com Bleuler, Jung e a proximidade de Freud, procura na fenomenologia husserliana e heideggeriana a fundamentação para a compreensão da multiplicidade das formas de manifestação da existência humana, para além da explicação causal da psicologia da época. | ||
| + | * Distinguem-se as formas «malogradas» (missglückte) da existência, | ||
| + | * O interesse teórico converge com o de Bollnow na abertura afectiva à existência como ser-no-mundo ([[lx> | ||
| + | * Crítico da unilateralidade heideggeriana na definição do ser do [[lx> | ||
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| + | 6. A opção pelo amor responde a uma exigência histórico-cultural pós-idealista de superação do solipsismo do sujeito, patente no ego narcísico freudiano, na reivindicação orteguiana de libertação do eu da sua prisão e na fenomenologia husserliana da intersubjectividade das Conferências de Paris. | ||
| + | * Binswanger e Bollnow procuram, na literatura e nos grandes poetas, a expressão do sentimento que ultrapassa a subjectividade e revela um «nós» singular, um ser-comum sem ser colectivo. | ||
| + | * Este «nós» dos amantes distingue-se do «nós» hegeliano e do «man» impessoal heideggeriano, | ||
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| + | 7. A concepção binswangeriana, | ||
| + | * Bollnow recebe com acuidade esta abertura fundada na tonalidade da harmonia, que mais tarde incorpora numa ética das virtudes. | ||
| + | * Heidegger, por via diversa, chega a falar de amor, zelo protector, alegria, serenidade e gratidão, mas sem abandonar a primazia do cuidado e da angústia ([[lx> | ||
| + | * A diferença entre o ontológico e o antropológico determina o horizonte de cada análise: Heidegger nunca abandona a decisão pela Ontologia, mesmo ao desenvolver uma metafísica do Dasein ou uma Meta-ontologia em diálogo com a psiquiatria em Zollikon, enquanto Binswanger e Bollnow assumem explicitamente um interesse antropológico. | ||
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| + | 8. A recensão de 1945 revela-se pertinente quer pelo foco antropológico comum a Bollnow e Binswanger, quer pela inflexão crítica quanto à unilateralidade da ontologia fundamental heideggeriana, | ||
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| + | **1. A RECENSÃO DA OBRA DE BINSWANGER POR OTTO FRIEDRICH BOLLNOW** | ||
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| + | 9. O extenso volume de Binswanger, com mais de 700 páginas, procedente de literatura estrangeira de difícil acesso, constitui uma reelaboração da Introdução aos problemas da Psicologia Geral de 1922, agora condicionada pelo impulso recebido de Ser e Tempo (1927), erguendo-se sobre a base heideggeriana ao mesmo tempo que se lhe contrapõe criticamente. | ||
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| + | 10. Definem-se como básicas e determinantes duas partes da filosofia heideggeriana. | ||
| + | * A concepção de uma unidade originária do ser-no-mundo humano, segundo a qual a postura teorética surge a partir do trato prático com as coisas «à-mão» ([[lx> | ||
| + | * A contraposição «existencial» ([[lx> | ||
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| + | 11. Esta imagem existencial do humano revela-se, contudo, unilateral, por não considerar a totalidade do mundo da natureza orgânica, da cultura e da história, nem as facetas do Dasein plenamente criativo e da convivência nas diversas formas de comunidade humana, que não cabem na oposição rígida entre propriedade e impropriedade. | ||
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| + | 12. O trabalho de 1941, A essência das tonalidades afectivas (Das Wesen der Stimmungen), | ||
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| + | 13. O livro de Binswanger confirma as posições assumidas, desenvolvendo uma Antropologia do Amor em contraste com a Antropologia do Cuidado heideggeriana, | ||
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| + | 14. A investigação da espacialidade e temporalidade do amante retoma de Heidegger a ligação originária da espacialidade ao sujeito, mostrando como a estrutura do espaço vivido se modifica no estado de elevação anímica, já analisado em Sobre a fuga de ideias (1933): o espaço amplia-se, o longínquo torna-se próximo e as coisas perdem a sua dureza, tornando-se suaves e flexíveis. | ||
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| + | 15. No mundo do amor emerge o fenômeno da nostridade ([[lx> | ||
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| + | 16. A temporalidade do amor opõe-se à acuidade resoluta do instante existencial, | ||
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| + | 17. Neste estado a resolução perde sentido, e o cuidado e o amor não se situam lado a lado, mas o mundo do cuidado é coberto pelo do amor sob um arco além do tempo e do espaço, no qual o Dasein transtemporaliza e transespacializa o ser-para-o-fim numa Abertura ([[lx> | ||
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| + | 18. O amor e a morte relacionam-se pela «imanência da morte no amor», colocando-se também a questão da morte do outro amado e do suicídio, enquanto a linguagem dos amantes, situada além de qualquer finalidade e de discussão, começa no mero nomear do nome e realiza-se como poesia e não como prosa finalizada. | ||
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| + | 19. A segunda parte do livro trata do conhecimento do Dasein, entrelaçando amor e conhecimento do outro ser humano: investigam-se os diversos modos de contacto com os outros (de ouvido, por fraqueza, com seriedade, pelo nome), que tomam o humano «como» algo e assim malogram o conhecimento da sua essência íntima, sendo apenas o amor que liberta para o «conhecimento do Dasein» enquanto «olhar» ([[lx> | ||
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| + | 20. O valor do livro reside nas análises em profundidade que abrem facetas novas do Dasein humano no âmbito de uma Antropologia Filosófica, | ||
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| + | 21. Coloca-se a questão da relação com a filosofia heideggeriana propriamente dita, distinguindo Binswanger a análise ontológica do Dasein humano de uma antropologia de conteúdos, caracterizando a sua empresa como ampliação e complemento da antropologia heideggeriana dentro de uma Ontologia intocável, permanecendo em aberto quão longe uma nova descoberta antropológica poderia alterar o próprio quadro ontológico. | ||
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| + | 22. A suposta polaridade de cuidado e amor, apresentada como constituindo o todo da Antropologia, | ||
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| + | 23. A problemática do conhecimento fica reduzida, pois enquanto o cuidado, como conhecimento do mundo circundante, | ||
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| + | 24. Questiona-se o surgir de um conhecimento puro da essência a partir da libertação do compreender amoroso de todo o tomar-como-algo, | ||
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| + | 25. O estado afinado pela jovialidade e pela festividade não é independente do amor, sendo antes por este condicionado e mais abarcante ainda, devendo as tonalidades afectivas ser compreendidas não como meros fenómenos psicológicos mas como constituintes fundamentais do Dasein humano, ao lado das quais caberia incluir as formas do êxtase religioso. | ||
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| + | **2. CONSIDERAÇÕES COMPLEMENTARES** | ||
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| + | 26. A síntese da obra de Binswanger, em suas 726 páginas, constitui um estudo importante de uma derivação meta-ontológica possível da Ontologia Fundamental heideggeriana. | ||
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| + | 27. Nem a recensão nem a obra recenseada se circunscrevem ao estritamente ontológico da procura heideggeriana do ser do Dasein, pouco interessadas no conhecimento do ser de tudo quanto há visado pelo projecto de Ser e Tempo, mas antes na compreensão do ser próprio do ente que se realiza como existência humana. | ||
| + | * O Dasein é entendido não como «aí-do-ser» mas como «ser-aí» ou ek-sistência fáctica num mundo, caracterizando a dimensão do cuidado ([[lx> | ||
| + | * A busca ambiciosa daquilo que define o modo de autoconhecimento humano leva Binswanger a afirmar a sua Antropologia numa Ontologia do Humano, situando a abertura plena não no cuidado mas apenas no amor. | ||
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| + | 28. Heidegger, nos Seminários de Zollikon, destaca a incompreensão de base da objecção binswangeriana, | ||
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| + | 29. A perspectiva de Binswanger, ao limitar a experiência do cuidado à preocupação do dia-a-dia, determina a necessidade de a contornar e sublimar à maneira freudiana, encontrando no amor de alguém a via de acesso a um «nós» transubjectivo e meta-individual pelo qual o humano transcende a finitude do «meu», do espaço-tempo e da morte. | ||
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| + | 30. O breve texto da recensão introduz um fio condutor para a pesquisa da própria obra de Bollnow, revelando, na atenção às tonalidades afectivas positivas e festivas como a jovialidade e a serenidade, a sensibilidade à evolução do pensamento heideggeriano sobre Hölderlin e Rilke, ao pensar da [[lx> | ||
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| + | {{Bollnow Borges-Duarte}} | ||
