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| + | ====== Fenômeno ====== | ||
| + | //CHAMBON, C. Logique de la finitude: essai sur l’expérience de la réalité. Strasbourg: Presses universitaires de Strasbourg, 1990, p. 53-55.// | ||
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| + | **O ser do fenômeno sob a luz da relação entre transcendência e situação** | ||
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| + | 1. A situação, conforme ensina "Vom Wesen des Grundes" | ||
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| + | 2. A possibilidade de um aparecer-em-si das condições do aparecer horizontal equivale à eclosão absoluta, vertical, da manifestação, | ||
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| + | 3. É, contudo, tal possibilidade que Michel Henry considerou realizável sem abandonar os pressupostos da concepção transcendental citada, questionando-se até que ponto isso é sustentável, | ||
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| + | 4. Não se sabe se a transcendência funda a descoberta da situação ou se é o estar-em-situação que funda a transcendência, | ||
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| + | 5. O homem é o lugar onde se revela a transcendência, | ||
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| + | 6. O saber da transcendência não é, portanto, saber do homem, mas releva da própria transcendência, | ||
| + | * M. Henry afirma que "toda fenomenalidade como tal, como efetiva, abre o caminho que conduz até ela: a via de acesso ao fenômeno é o próprio fenômeno", | ||
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| + | 7. O homem é assim conduzido até a clareira do ser, repousando a existência extática sobre a exterioridade previamente aberta, sendo por a exterioridade ser ao mesmo tempo naturante e naturada que ela procura autonomia à fenomenalidade. | ||
| + | * Naturante, a exterioridade o é como movimento que abre os lugares, como processo que lança para fora de si; naturada, como aquilo que se encontra lançado ali em meio aos existentes, residindo sua essência verdadeira na identificação desses dois caracteres. | ||
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| + | 8. A transcendência, | ||
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| + | 9. Coloca-se então questão essencial, segundo M. Henry: se a clareira do ser se produz de si mesma e sozinha, é preciso, contudo, que atravesse uma testemunha, que seja para uma testemunha. | ||
| + | * M. Henry pergunta: " | ||
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| + | 10. É preciso, contudo, distinguir radicalmente a abertura naturada e a abertura naturante, e não confundir a clareira do ser com o movimento que a abre, tirando a clareira sua autonomia da suprapotência desse movimento. | ||
| + | * M. Henry assevera que "o Aberto pressupõe sua Abertura como Abertura do próprio Aberto, não a abertura que ele torna possível, mas a que o torna possível, o processo transcendental que lança adiante, que lança o próprio Aberto" | ||
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| + | 11. M. Henry opõe-se parcialmente ao recobrimento dos dois aspectos da transcendência, | ||
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| + | 12. O processo que abre os lugares só é possível se reúne em si e precede em sua unidade os lugares desdobrados, | ||
| + | * M. Henry afirma que o movimento " | ||
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| + | 13. A coesão do Dimensional identifica-se à sua visibilidade, | ||
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| + | 14. Essa receptividade é o ato de manter próximo, na vista externa, aquilo que de outro modo não cessaria de esgarçar-se no distanciamento, | ||
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| + | 15. Elucida-se assim por que o homem é requerido na essência do ser, esclarecendo-se a infinita contradição do círculo, não sendo a guarda do homem senão a recepção do horizonte, sendo o ego requerido para receber e ser afetado pela vista do horizonte e conferir-lhe assim a unidade de que necessita como condição transcendental do fenômeno. | ||
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| + | 16. Sem o homem essa possibilidade de afecção permaneceria vazia, supondo o Transcendental o ego, questionando-se se não é contraditório reportar o transcendental a um ego, perdendo nisso sua essência de abrir a dimensão originária que situa o homem. | ||
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| + | 17. A verdade do Ser é, contudo, Sua própria obra, tendo o ex-sistir autonomia, não sendo fato do homem, sendo ainda assim o recobrimento da Abertura e do Aberto. | ||
| + | * M. Henry define o ex-sistir como "o processo transcendental do [[lx> | ||
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| + | 18. O recobrimento dos dois aspectos da transcendência é uno com sua distinção, | ||
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| + | 19. A clareira repousa sobre si mesma, sendo o movimento que chega a si mesmo, não cabendo ao homem tornar possível a unidade consigo do ser, precisando-se, | ||
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| + | 20. É no existir, do ponto de vista do Aberto e da existência finita, que o processo de abertura retorna a si para se sofrer, vindo a Abertura a si no Aberto na medida em que seu movimento se cumpre, sendo o cumprimento do movimento sua vinda a si, sua realização. | ||
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| + | 21. O reenvio da Abertura abrente ao ser finito do aí na abertura aberta pertenceria assim necessariamente ao ser total da transcendência, | ||
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| + | 22. É do seio do aberto que se vai ao Aberto, sendo o Aberto a apertura absoluta da manifestação, | ||
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| + | 23. O vir-a-si do processo transcendental no aberto atesta contudo a passividade do processo, revelando sua faculdade de sofrer-se a si mesmo, de receber-se a si mesmo, revelando-se assim o fundamento como não sendo seu próprio fundamento. | ||
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| + | 24. Não é o homem, mas " | ||
| + | * M. Henry afirma que "o homem não cria o ser, é criado por ele, nele, e porque, autoafectando-se originalmente no auto-aparecer de sua vinda a si e advindo assim, o ser se determina cada vez como um ego". | ||
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| + | 25. Descobre-se assim o pertencimento essencial do homem à estrutura da clareira, entendendo-se que a ipseidade não é um eu, não é o homem empírico, mas, atrás dele, o foco onde a transcendência sofre a situação que produz, tendo a passividade caráter transcendental. | ||
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| + | 26. O homem é o testa-de-ferro da autoapropriação da transcendência onirreinante, | ||
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| + | 27. O si é requerido como o lugar onde o fundamento, afetando-se a si mesmo, está submetido a si, sendo incapaz de sustentar-se a si mesmo, só se cumprindo, existindo e coerindo pelo foco de passividade que o constitui, sendo a passividade constituinte, | ||
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| + | 28. O si não é, contudo, um ente, não é realidade física, pois a finitude da situação resulta ainda do fundamento, sendo o si aquilo que, assegurando sua coesão, torna concreto seu cumprimento, | ||
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| + | 29. O si é a Visibilidade em si do mundo se autodescobrindo, | ||
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| + | 30. O fora onde se apreende não é meio portador, não é um porto seguro, questionando-se se ainda situa, revelando-se o ser em questão como amundano, sendo a passividade em que sofre sua situação ainda demasiado positiva, faltando-lhe insuficiência. | ||
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| + | 31. Se o si parece desempenhar papel impessoal de uma auto-habitação do ser em si, adquire nisso, contudo, caráter de condição, tendo a situação caráter de idealidade transcendental, | ||
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| + | 32. Se a revelação da abertura se faz desde a abertura, esta tem apenas caráter de revelação, | ||
| + | * M. Henry critica também o texto de "Vom Wesen der Wahrheit" | ||
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| + | 33. A transcendência, | ||
| + | * A descoberta " | ||
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| + | 34. A realidade da situação identifica-se com a tonalidade afetiva que lhe é inseparável, | ||
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| + | 35. Ela só o será se a existência for um si, não produzindo a transcendência o si de sua afecção por si, sendo o si a condição irredutível de um ser-afetado pela transcendência, | ||
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| + | 36. A angústia diante do mundo é angústia por si mesma não apenas por ser diante do mundo, mas por ser nisso e antes de tudo angústia por si mesma, questionando-se o que seria a angústia diante do mundo se não fosse, justamente e antes de tudo, angústia por si mesma. | ||
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| + | 37. O si não resulta da transcendência, | ||
| + | * M. Henry resume que " | ||
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| + | 38. Descreve-se o fundamento da transcendência rejeitando todas as determinações desta última, caracterizando-se pela ausência de toda distância entre si e si, por coesão absoluta onde nenhum limite ainda separa sujeito e objeto. | ||
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| + | 39. Por essa coesão edificadora, | ||
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| + | 40. A passividade externa da transcendência a respeito de si repousa sobre a passividade interna da imanência a respeito de si mesma, assegurando essa coerência fundada da transcendência a visibilidade do horizonte. | ||
| + | * M. Henry afirma que "é porque se manifesta no interior desse horizonte que o ente se encontra atingido, não na dispersão e no isolamento, mas precisamente na coerência de um complexo já sintetizado e unificado" | ||
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| + | 41. M. Henry opõe-se à concepção kantiana da Synopsis segundo a qual as coisas são encontradas, | ||
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| + | 42. A manifestação é a unificação do campo, residindo na receptividade, | ||
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| + | 43. Questiona-se se a prevalência da interioridade justifica o caráter transcendental conferido à afetividade, | ||
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| + | 44. Questiona-se então o que pode significar tanta justa insistência em distinguir o conhecimento da situação da situação ela mesma, pois jamais o ser, apenas cercado por uma cena de visibilidade, | ||
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| + | 45. Questiona-se o que se torna do pensamento de Heidegger segundo o qual a afetividade é precisamente a experiência de um tomar-base, de um enraizamento, | ||
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| + | 46. Essa distinção é a do representar e do ser, sendo a existência reconhecida na exterioridade da transcendência uma relação externa, um representar, | ||
| + | * M. Henry sublinha que "a distinção entre o que a existência é em si e o modo como essa existência se compreende é distinção que importa ter sempre presente ao espírito, porque termos como representação e compreensão, | ||
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| + | 47. Importa a existência tal qual é, anteriormente à luz compreensiva que ela lança secundariamente sobre si e que lhe permite autoapresentar-se, | ||
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| + | 48. Questiona-se que alcance pode ter a defesa filosófica do em-si quando se nega o enraizamento no todo do mundo, quando o pertencimento ao mundo só é considerado transcendentalmente como fato da visão, retornando-se ao círculo do kantismo onde a experiência das condições da experiência é impossível. | ||
| + | * M. Henry comenta essa impossibilidade afirmando que "Kant conduziu até o fim uma metafísica da representatividade, | ||
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| + | 49. A submissão à representação de suas próprias condições resulta de seu caráter transcendental, | ||
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| + | 50. Com a perda desse conhecimento desvanecem-se sua coerência e seu caráter de totalidade, aparecendo então com nitidez a significação de uma autoexperiência da consciência, | ||
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| + | 51. O conhecimento só faz essa experiência se as condições não forem seu produto, se existirem em si, supondo o ato pelo qual a consciência chega originariamente a si, sem estar obrigada a descobrir-se como objeto, que ela não constitui as condições pelas quais os objetos lhe aparecem. | ||
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| + | 52. A autoconhecimento da consciência, | ||
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| + | 53. O aparecer não é para ninguém, sendo o de um ato onde se joga a identidade do conhecer e do existir, não podendo a consciência, | ||
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| + | 54. O foco onde a consciência se reencontra é aquele onde coere o mundo em sua totalidade, questionando-se se se deve entender nesse sentido a profunda pergunta de M. Henry sobre como a existência que é o Para-si pode não ser para si. | ||
| + | * M. Henry pergunta: "a existência é em si a essência, ela não é a essência para si. Mas a essência é o Para-si. Como pode a existência, | ||
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| + | 55. A existência real não é existência autorrepresentada, | ||
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| + | 56. A revelação de si na plena e inteira subjetividade da afecção é coesão ontológica, | ||
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| + | 57. Questiona-se em que sentido a consciência é o ser, e se o em-si da consciência é contemporâneo da cosmicidade das condições da manifestação, | ||
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| + | 58. O em-si em questão é o em-si do fenômeno em si mesmo, movendo-se a fenomenologia por princípio no círculo de sua própria pressuposição, | ||
| + | * M. Henry afirma que "a fenomenologia se deixa guiar por seu objeto. O Como de sua abordagem está subordinado ao Como da realidade de que se aproxima, realidade que é o próprio Como". | ||
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| + | 59. Trata-se de penetrar no próprio ser de uma forma transcendental, | ||
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| + | 60. A via de acesso ao fenômeno é o próprio fenômeno, caracterizando-se a imanência pela adequação perfeita entre o revelado e a revelação, | ||
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| + | 61. A imanência subjetiva constitui o ser do fenômeno como fenômeno, sendo as condições da manifestação objetiva, o horizonte, isoladas em si mesmas como um como transcendental além dos objetos aparecentes, | ||
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| + | 62. A interioridade imanente do si parece então ser seu absoluto fundamento, sendo o foco onde adquirem por empréstimo sua unidade enquanto fatores transcendentes, | ||
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| + | 63. Só podem encontrar o lugar de sua sustentação no ser na imanência do ego supramundano, | ||
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| + | 64. Há, contudo, passividade, | ||
| + | * M. Henry afirma que "o ultrapassamento do sentir rumo àquilo que ele sente... é o ser-apreendido do sentimento por sua própria realidade", | ||
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| + | 65. O conteúdo do em-si é seu próprio sentir, sendo mínimas sua espessura de realidade e sua densidade, não sendo tão fortes quanto parecem a perfeita substancialidade e a autossuficiência da imanência, permanecendo nelas algo da inconsistência do fenômeno. | ||
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| + | 66. A inconsistência primitiva da egoidade transcendental, | ||
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| + | 67. O aparecer do horizonte é sua representação, | ||
| + | * Heidegger afirma que "para que o ente possa oferecer-se como tal, o horizonte no qual seu encontro poderá se dar deverá manifestar-se, | ||
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| + | 68. Reconhece-se que a introdução do sujeito num campo de transcendência supõe a manifestação prévia do campo, questionando-se em que sentido, exemplificando Heidegger que a percepção imediata de um dado contém já necessariamente visão prévia esquematizante do objeto em geral. | ||
| + | * Heidegger acrescenta que "é assim que a percepção imediata de um dado, por exemplo desta casa, contém já necessariamente uma vista prévia esquematizante da casa em geral; é somente por essa pré-visão que o ente encontrado pode manifestar-se como casa". | ||
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| + | 69. O olhar lançado sobre o horizonte é uma vista porque caracteriza antecipação do ente, implicando a antecipação a manifestação prévia do horizonte, sendo esta uma vista por ser representação a priori do campo, sendo a condição da vista do ente ela mesma objeto visível. | ||
| + | * Heidegger conclui que, "se a transcendência, | ||
| + | |||
| + | 70. Questiona-se como tornar compatíveis a manifestação própria do horizonte, exigida pela realidade da transcendência, | ||
| + | * Heidegger afirma que "a transposição sensível deverá, portanto, ser a recepção de algo que se forma originalmente no próprio ato de recepção, a saber, uma vista", | ||
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| + | 71. Nessa identidade a espontaneidade tem privilégio, | ||
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| + | 72. M. Henry retoma por sua conta essa concepção da manifestação de horizonte, pertencendo essencialmente ao horizonte manifestar-se como horizonte, sob a forma de um horizonte, sendo o horizonte, condição de todo objeto, o primeiro dos objetos, o objeto por excelência. | ||
| + | * M. Henry afirma que "a realidade do horizonte é identicamente seu modo de manifestação", | ||
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| + | 73. Segue-se que receber tal conteúdo constituído por si mesma significa, para a essência, representá-lo, | ||
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| + | 74. A identidade consigo do fenômeno não está ainda realizada, tratando-se de identidade na diferença, pois se é bem a essência da manifestação que se revela no horizonte, esta não pode nela ganhar seu ser, sendo-lhe recusado, ao se revelar como o outro de si mesma, coerir consigo. | ||
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| + | 75. É apenas na imanência que a essência se cumpre, aquém da manifestação a si do horizonte, retirando a estrutura em imagem do horizonte toda substancialidade, | ||
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| + | 76. Resolvendo-se a receptividade em projeção, o horizonte perde sua realidade própria, aparecendo como produto da faculdade que o projeta em imagem, sendo a imaginação a faculdade de formar livremente outra coisa que o ente, outra coisa que o real, isto é, precisamente um horizonte. | ||
| + | |||
| + | 77. Este é um nada, uma irrealidade, | ||
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| + | 78. Manter diante de si é o ato de trazer a si, tornando-se assim o próprio distanciamento do horizonte imagem, sendo o distanciamento a imagem de um distanciamento, | ||
| + | |||
| + | 79. A passividade da recepção do conteúdo externo é superada por tornar-se resultado da atividade, adquirindo o horizonte caráter de irrealidade. | ||
| + | * M. Henry afirma que "o próprio horizonte é um produto puramente imaginário... o que a essência cria é apenas uma imagem. O horizonte transcendental do ser define o meio ontológico da irrealidade" | ||
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| + | 80. Essa problemática remonta à análise kantiana do espaço, reconhecendo Kant, na Estética Transcendental, | ||
| + | * Kant afirma que "o espaço é representado dado como grandeza infinita", | ||
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| + | 81. A imagem reúne contraditoriamente os caracteres da espontaneidade e da receptividade, | ||
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| + | 82. O espaço é em si mesmo simples forma da intuição, sendo esta diferente da intuição da forma, que dá a unidade na representação, | ||
| + | |||
| + | 83. O espaço só é propriamente cognoscível como objeto, não sendo o espaço enquanto condição do objeto acessível à experiência, | ||
| + | |||
| + | 84. Reconhece-se que o distanciamento do horizonte possa ser imagem, sendo isso sem dúvida parcialmente verdadeiro, pois pertence à essência do distanciamento poder tornar-se imagem de si mesmo, refletir-se, | ||
| + | * Heidegger pergunta: "como poderia o ente ser aquilo sobre o qual a essência pura da manifestação se torna visível a si mesma, se não estivesse já e antes ali? E como poderia o ente estar ali, isto é, aparecer, se o ato de aparecer considerado em e por si não tivesse já cumprido sua obra?" | ||
| + | |||
| + | 85. A autonomia do ato de aparecer identifica-se com sua automanifestação, | ||
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| + | 86. O horizonte permanece imagem, mas M. Henry separa-se, em ponto essencial, das análises de Kant e Heidegger, não podendo a imagem do horizonte sustentar-se sozinha no ser, sendo bem o horizonte produto de uma espontaneidade que o projeta em frente, sendo a receptividade da imagem relativa a essa espontaneidade. | ||
| + | * M. Henry pergunta: "como faz a transcendência surgir a fenomenalidade do horizonte? No próprio ato pelo qual ela o põe diante de si", não podendo, contudo, essa relatividade ser admitida até o fim. | ||
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| + | 87. O ato de pôr diante de si só é possível pelo de receber o conteúdo objetado, pois sem uma receptividade para manter próximo o que se distancia, o ato de projetar a imagem se aniquilaria. | ||
| + | * M. Henry conclui que "a capacidade que tem a imaginação de produzir o conteúdo puro que objetiva sob a forma de horizonte, a possibilidade mesma de se objetar tal conteúdo, encontram seu fundamento na aptidão que têm de recebê-lo. A essência da espontaneidade reside na receptividade" | ||
| + | |||
| + | 88. Não se trata de chegar a pura receptividade do horizonte, não se oferecendo este em absoluta imediatidade, | ||
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| + | 89. M. Henry analisa o conceito de receptividade, | ||
| + | |||
| + | 90. Distingue-se uma receptividade pela exterioridade, | ||
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| + | 91. A receptividade da receptividade-fundada-pela-exterioridade é seu fundamento, repousando por sua vez na passividade interna de um si, que é enfim o fundamento absoluto, a origem originária, | ||
| + | |||
| + | 92. M. Henry confere fundamento à Representação, | ||
| + | |||
| + | 93. A cena do fora é, de fato, englobada pelo domínio infinito do Interior, sem o qual não teria consistência alguma, mas o caráter de fundamento absoluto paradoxalmente conferido à passividade do ego, seu caráter transcendental, | ||
| + | |||
| + | 94. As formas da fenomenalidade externa só se fundem na interioridade do ego porque são as formas da visão, reduzidas a ser apenas isso porque a transcendência se revela desde sua exterioridade, | ||
| + | |||
| + | 95. O horizonte é forma irreal por não ter significação alguma de totalidade cósmica, questionando-se, | ||
| + | |||
| + | 96. A questão da realidade da irrealidade é ricamente paradoxal, podendo-se dizer, por outro lado, que uma teoria da constituição egológica recai no mesmo vício reprovado à filosofia de Heidegger, conferindo autonomia indevida à transcendência, | ||
| + | |||
| + | 97. Questiona-se se o estatuto ontológico da irrealidade, | ||
| + | |||
| + | 98. Questiona-se até que ponto o sujeito pode fazer existir aquilo que é em seu fundo uma imagem, como poderia sustentar totalmente positiva uma dimensão ideal, insubstancial, | ||
| + | |||
| + | 99. A abertura ideal não tem fundamento em si mesma, sendo necessidade da filosofia meditar sobre o ser de seu fundamento, sem que essa meditação deva conduzir a fazer do insubstancial uma substância, | ||
| + | |||
| + | 100. Questiona-se se esse fundamento pode ser criador ou autor dessa imagem, não se podendo dar significação ontológica demasiado positiva a algo ideal, não podendo o fundamento sê-lo no sentido de comunicar por ato positivo de fundação algo de sua absoluta positividade. | ||
| + | |||
| + | 101. A diferença entre o fundamento e o que ele funda, a relatividade do fundado em relação ao fundamento, fazem do próprio fundamento algo parcialmente insuficiente, | ||
| + | |||
| + | 102. É porque o fundado não pode sustentar-se a si mesmo que seu fundamento o sustenta por sua passividade, | ||
| + | |||
| + | 103. O longínquo se dá em imagem, sendo o fundamento autoafetivo que porta a imagem, questionando-se, | ||
| + | |||
| + | 104. Não se deve conferir substancialidade à imagem do longínquo, fazendo da distância pela qual se mostra um meio de superar essa distância, reduzindo-a ao caráter de imagem, não tendo a imagem caráter positivo algum, sendo possível, contudo, num segundo sentido, a imagem do longínquo, como sua reflexão. | ||
| + | |||
| + | 105. Nesse caso a imagem é a presença do longínquo por e em sua exterioridade, | ||
| + | |||
| + | 106. A proximidade do longínquo na imagem à distância que o reflete é sinal de idealidade mais antiga do longínquo, idealidade sem fundamento absoluto, sendo a reflexão do longínquo a imagem de sua imagem. | ||
| + | |||
| + | 107. Antes de sua reflexão, o distanciamento originário da imagem não é em si mesmo imagem, sendo justamente o que faz da imagem a imagem, havendo carga real de distanciamento que confere seu teor próprio à imagem, carga real que o fundamento na imanência não pode reduzir. | ||
| + | |||
| + | 108. A imagem do longínquo nunca faz face, não sendo o longínquo objeto, não se dando a sujeito algum em proximidade facial, sendo tecido de distanciamento irrecuperável, | ||
| + | |||
| + | 109. É preciso que esse fundamento o mantenha próximo e assim o edifique ao sofrê-lo, sendo o distanciamento essencialmente destinado a ser recebido, o que por definição não é projetável, | ||
| + | |||
| + | 110. O fundamento, que o mantém aproximado em seu seio, e do qual não é senão a imagem interior, está a ele submetido, tal como a imagem está submetida ao fundamento, havendo transbordamento do dentro pelo fora, que se produz de dentro e sem sair deste. | ||
| + | |||
| + | 111. O dentro contém o fora como imagem, mas por sua vez a imagem contém seu dentro fundador, sendo assim o em-si do Interior a fundação do em-si em totalidade do Mundo, sendo a completude de um a completude do outro. | ||
| + | |||
| + | 112. A completude do longínquo é sua proximidade, | ||
| + | |||
| + | 113. Questiona-se como o inatual pode estar presente, estando ali, recolhido no Interior, sem que o Interior possa contê-lo, transbordando-o, | ||
| + | |||
| + | 114. A proximidade do longínquo, a Imagem, a presença reunida do afastado só pode ser o aparecer em si e por si do Tempo, razão pela qual o " | ||
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