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estudos:blattner:blattner-199956-57-o-intramundano-innerweltlich [16/01/2026 14:40] – created - external edit 127.0.0.1estudos:blattner:blattner-199956-57-o-intramundano-innerweltlich [25/01/2026 19:25] (current) mccastro
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 +===== O INTRAMUNDANO (1999:56-57) =====
 +Estar familiarizado com o intamundano é estar absorvido por ele. Ao realizar suas atividades cotidianas, o Dasein constantemente faz uso do intramundano (ou deixa de fazê-lo). Nas compras de supermercado, o Dasein usa um carro, um carrinho de supermercado, dinheiro e assim por diante. Toda atividade envolve comércio com coisas intramundanas. Até mesmo a contemplação teórica requer algum tipo de configuração prática que a torne possível e a mantenha em andamento, talvez um estudo silencioso ou um quadro-negro: "a pesquisa teórica não deixa de ter sua própria práxis" (SZ:358; ET69). O termo "absorção" pode sugerir um tipo de preocupação temática, como se, ao fazer compras, o Dasein tivesse que se fixar em seu carrinho de compras. Mas isso não pode ser o que Heidegger quer dizer, pois, afinal de contas, ele argumenta de forma célebre: "É peculiar ao que está primariamente disponível que, em sua disponibilidade, ele, por assim dizer, se retire a fim de estar genuinamente (eigentlich) disponível" (SZ:69; ET15). Ao fazer compras, o Dasein está concentrado na tarefa que tem em mãos, por exemplo, comprar leite, pão e bananas. O Dasein não está concentrado na parafernália que usa:
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 +Aquilo junto-a o qual as transações cotidianas se mantêm primordialmente também não são as ferramentas em si, mas sim o trabalho, o que está prestes a ser produzido, é com o que o Dasein se preocupa primordialmente e, portanto, também está disponível. (SZ, pp. 69-70)
 +
 +A absorção do Dasein no disponível não é, portanto, necessariamente uma absorção temática.
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 +O sentido em que o Dasein é absorvido pode ser entendido como o Dasein se ocupando com o intramundano. É possível ocupar-se com algo a que não se presta atenção explícita. Ao fazer compras, Jones pode se ocupar em manter o carrinho do supermercado em linha reta, mesmo que faça isso sem perceber, ou talvez por hábito. Esse é um dos temas centrais do trabalho de Dreyfus (1979, 1991; Dreyfus e Dreyfus, 1986); não vou repetir seus argumentos aqui. É suficiente observar fenomenologicamente o quanto da interação de uma pessoa com coisas intramundanas ocorre de forma subliminar. Enquanto assiste a um jogo de beisebol e, digamos, concentra-se atentamente na ação no campo, Jones muda de posição para se sentir mais confortável, inclina-se e estica-se para ver além da pessoa à sua frente, coça a cabeça, toma um gole de refrigerante, dá uma mordida no cachorro-quente, afasta uma mosca e ajusta um anel, tudo isso talvez sem perceber. Ao fazer todas essas coisas, Jones se ocupa com as coisas de seu meio.
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 +Vimos acima que Heidegger oferece um argumento explícito no capítulo 5 da divisão 1 (ET28) de que a compreensão e a afetividade estão interligadas: a afetividade revela os fundamentos importantes com base nos quais se avança para as capacidades. O capítulo 5 não apresenta um argumento análogo para a interligação da absorção com a compreensão e a afetividade. Isso pode ser atribuído principalmente à confusão no capítulo 5 em torno da natureza da decadência (Verfallen). É provável que Heidegger também tenha pensado que já havia estabelecido suficientemente o ponto no capítulo 3 (ET14). Lá ele argumenta que a autocompreensão do Dasein é simultaneamente uma compreensão do intramundano. De fato, já encontramos o cerne do argumento, pois ele se encontra no que Heidegger posteriormente chama de "transcendência do mundo". A definição de Heidegger de "mundo", no sentido técnico do termo, é a seguinte:
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 +O fenômeno do mundo é aquilo em que a compreensão se atribui (a alguma compreensão de si mesma) e aquilo em que se permite que entidades (diferentes do Dasein) se mostrem. (SZ:86; ET18)
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 +[BLATTNER, William D. Heidegger’s temporal idealism. Cambridge, U.K. ; New York: Cambridge University Press, 1999]
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