estudos:beaufret:heraclito-parmenides-1973
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| estudos:beaufret:heraclito-parmenides-1973 [25/01/2026 09:29] – created mccastro | estudos:beaufret:heraclito-parmenides-1973 [12/02/2026 03:42] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== HERÁCLITO E PARMÊNIDES (1973) ====== | ||
| + | |||
| + | JBDH1 | ||
| + | |||
| + | * Heráclito e Parmênides são figuras centrais e fundadoras do pensamento ocidental | ||
| + | * Apesar de não pensarmos neles explicitamente, | ||
| + | * Eles revelam inicialmente a profundidade enigmática do mundo a que pertencemos | ||
| + | * A natureza dos testemunhos de ambos os pensadores é distinta | ||
| + | * De Heráclito restam fragmentos, aforismos arrancados de uma obra perdida | ||
| + | * Seu estilo fragmentário e aforístico lhe valeu desde a Antiguidade o epíteto de " | ||
| + | * Os fragmentos são como relâmpagos que nos chegam de um tempo distante | ||
| + | * De Parmênides restam fragmentos de um Poema estruturado, | ||
| + | * Os antigos não o consideravam enigmático, | ||
| + | * A tradição filosófica, | ||
| + | * Heráclito seria o filósofo do movimento universal (panta rei) | ||
| + | * Parmênides seria o filósofo da imobilidade radical do ser | ||
| + | * Essa leitura reduz o início da filosofia a um confronto de proposições contraditórias | ||
| + | * A interpretação de Heráclito como " | ||
| + | * A famosa frase "panta rei" (tudo flui) não está entre seus fragmentos mais autênticos | ||
| + | * Heráclito usa a imagem do rio, mas opõe ao fluxo das águas a permanência do rio | ||
| + | * Mais radical que o movimento é a permanência das medidas que o regem | ||
| + | * O pensamento de Heráclito centra-se na unidade originária dos contrários | ||
| + | * A permanência não é um refúgio, mas a tensão que mantém os opostos unidos | ||
| + | * O Deus heraclitiano é esta unidade: dia-noite, guerra-paz, abundância-fome | ||
| + | * Seu nome é Combate (Polemos), pai e rei de tudo, que faz aparecer os opostos | ||
| + | * Outro nome é Harmonia (harmonie), entendida como a justa junção das forças opostas | ||
| + | * Um terceiro nome é Aion (Tempo), uma criança que joga, deslocando as peças | ||
| + | * A interpretação correta de "panta rei" deve considerar o movimento de fluxo e refluxo | ||
| + | * Não se trata de um simples escoamento, mas de um movimento contrastado | ||
| + | * É o movimento da luta, que apropria cada lado à oposição do lado que lhe faz face | ||
| + | * O Logos compõe a oposição universal, cujo recém-ajuntado é o combate do mundo | ||
| + | * O fogo é o conceito central que expressa esta unidade dos contrários | ||
| + | * O fogo não é um elemento que consome tudo, mas aquilo contra o qual tudo se troca | ||
| + | * É o centro vivo de toda oposição, contrastando em si mesmo como luz e brasa | ||
| + | * A physis (natureza) é uma eclosão que só brilha pelo retiro de uma ardeor secreta | ||
| + | * A anedota do forno ("lá também os deuses estão presentes" | ||
| + | * A abertura (aletheia) dos gregos está secretamente próxima da natureza contrastante do fogo | ||
| + | * A abertura da physis só se deixa entrever escapando à vista | ||
| + | * A inaparência é a modalidade mesma de sua manifestação | ||
| + | * Como na verdura da primavera, é a própria natureza que se desdobra, sem nunca aparecer em primeiro plano | ||
| + | * A recepção de Heráclito na modernidade foi revitalizada por Hölderlin, Hegel e Schelling | ||
| + | * Eles libertaram o pensamento de Heráclito da interpretação puramente mobilista | ||
| + | * Hölderlin viu na unidade que se diferencia a essência da beleza e a origem da filosofia | ||
| + | * Hegel afirmou ter incorporado todas as proposições de Heráclito em sua Lógica | ||
| + | * A dialética hegeliana e marxista ecoam o pensamento de Heráclito | ||
| + | * Nietzsche, ao pensar o eterno retorno, também ressoa com essa origem | ||
| + | * Este retorno grandioso à origem pode ser, paradoxalmente, | ||
| + | * Hegel e Nietzsche acessam a abertura do mundo grego apenas dentro do horizonte de seus problemas modernos (certeza, valor) | ||
| + | * A dimensão do pensamento de Heráclito (aletheia) não se mede por certeza ou valor | ||
| + | * A relação poética de Hölderlin com Heráclito está mais próxima do pensamento originário que a veneração filosófica de Hegel e Nietzsche | ||
| + | * A diferença entre Heráclito e Parmênides não pode ser reduzida à oposição entre devir e ser | ||
| + | * Se Heráclito não é um pensador do devir, o Poema de Parmênides não é uma simples proclamação da imobilidade do ser | ||
| + | * Concluir que o não-ser é ilusão é ignorar a letra do Poema, que evoca uma terceira via | ||
| + | * O Poema de Parmênides distingue três vias | ||
| + | * A via da verdade (do ser) | ||
| + | * A via sem saída do não-ser | ||
| + | * Uma terceira via, na qual os mortais se extraviam, bicéfalos, tomando o ser e o não-ser como iguais | ||
| + | * Esta terceira via revela um domínio singular de ambiguidade | ||
| + | * É o mundo onde toda presença é também sua própria ausência, um jogo de opostos | ||
| + | * Este mundo não é uma ilusão a ser negada, mas o domínio da doxa (opinião) | ||
| + | * A doxa em Parmênides tem um significado diferente do que terá em Platão | ||
| + | * Não é uma potência enganosa a ser rejeitada, mas um acolhimento que se desdobra na plenitude | ||
| + | * Ela nos situa originariamente numa abertura, mesmo que depois derive em erro | ||
| + | * Só pode ceder à ilusão no seio de uma clareira ela mesma não ilusória | ||
| + | * O destino da doxa é errar sem progresso, flutuando entre extremos | ||
| + | * É um olhar ingênuo, preso a uma ótica de curto alcance, que só vê o primeiro plano | ||
| + | * Separa presença e ausência numa oposição míope | ||
| + | * A superação do erro ocorre quando se vê que presença e ausência pertencem uma à outra | ||
| + | * Um fragmento central articula esta unidade secreta: ver os " | ||
| + | * Desaparecer na ausência não é uma dispersão do ser, pois só nele a ausência pode ter lugar | ||
| + | * A oposição presença-ausência é uma correlação unitiva onde estamos diante da presença-ausência | ||
| + | * O ser é a medida imutável que permite ao ente aparecer e desaparecer | ||
| + | * Mais originária que a presença-ausência do ente é a universalidade do ser | ||
| + | * Os ditos " | ||
| + | * Eles nos libertam do labirinto ao nos fazer reconhecer, na ausência e na presença, o brilho único do ser | ||
| + | * A meditação de Parmênides é uma pânica do ser que não se esgota em nenhuma presença | ||
| + | * Distancia-se de Platão, que levará o não-ser para dentro da presença e definirá o ser pela permanência do ente | ||
| + | * Em Parmênides, | ||
| + | * Heráclito e Parmênides não são adversários, | ||
| + | * Em Heráclito, o movimento aparece sobre um fundo de permanência | ||
| + | * Em Parmênides, | ||
| + | * Não há imobilismo em Parmênides, | ||
| + | * A recepção de Parmênides permanece obstruída | ||
| + | * Nietzsche ainda o vê como adversário da mudança e fanático de um outro mundo | ||
| + | * Valéry, em //O Cemitério Marinho//, o evoca como sonhador da eternidade | ||
| + | * Seu espírito persiste em se furtar, numa palavra ainda sem acesso entre nós | ||
| + | * Heráclito e Parmênides, | ||
| + | * Questionam pintores, poetas e filósofos | ||
| + | * A maravilha é que poesia e pensamento podem se reencontrar nesse primeiro amanhecer | ||
| + | * Como diz Heráclito, o oráculo de Delfos não desvela nem oculta: faz sinal | ||
| + | |||
| + | {{tag> | ||
