estudos:barbaras:fenomeno:ser-e-nada
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| + | ====== Ser e nada ====== | ||
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| + | //BARBARAS, Renaud. De l’être du phénomène. Grenoble: Jérôme Millon, 1991// | ||
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| + | **Capítulo 3 Ser e Nada: a dialética** | ||
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| + | **§ 1 A dialética sartriana e sua ambivalência** | ||
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| + | * A filosofia cartesiana caracteriza-se, | ||
| + | * Não se trata de aceitar essa diplopia, conservando as duas orientações como faz a filosofia reflexiva, mas de tomar posse dela, definindo a abertura ao mundo de modo que apareça como começo da reflexão, apreendendo o irrefletido não como negação imediata da reflexão mas como negação-referência | ||
| + | * A démarche husserliana, | ||
| + | * É necessário tomar outro caminho, pois reflexão e irrefletido se conciliam em nossa vida, devendo haver meio de pensar sua unidade sem comprometer nenhum dos termos, sendo essa a via da filosofia dialética, para a qual cada termo tem sua verdade fora de si, só sendo ele mesmo ao portar-se em direção ao outro | ||
| + | * A filosofia dialética recusa o pensamento de sobrevoo que começa por se excetuar do Ser, sendo antes pensamento em contato com a experiência, | ||
| + | * Cabe perguntar se a verdade do pensamento dialético é recolhida nas próprias filosofias dialéticas, | ||
| + | * Sartre busca reencontrar o mundo tal como se dá na vida irrefletida, | ||
| + | * Como mostra F. Jeanson, não se trata para Sartre, ao contrário de Heidegger, de retroceder aquém de Husserl, mas de radicalizar a subjetividade husserliana, | ||
| + | * É preciso pensar o sujeito transcendental como campo impessoal, um nada que é tudo por ser consciência de todos os objetos, sendo o limite de Husserl não referir o campo transcendental a uma consciência mas pensar essa idealidade como positividade | ||
| + | * Definindo a consciência como nada, supera-se a dualidade entre em si e para si, pois o nada só se sustenta de sua abertura ao Ser, sendo sua inanidade preservada pela plenitude deste, fissura que se aprofunda na exata medida em que se preenche | ||
| + | * Ser e nada, radicalmente opostos, deixam de jogar um contra o outro e tornam-se ao mesmo tempo indiscerníveis, | ||
| + | * Essa filosofia do negativo deixa, contudo, impressão de mal-estar, pois descreve nossa situação de fato com mais acuidade do que jamais se fez, mas dá a impressão de que essa situação é sobrevoada, sendo esse o paradoxo de manter as categorias reflexivas ao mesmo tempo em que reconstitui a unidade da experiência | ||
| + | * Essa filosofia oferece apenas o retrato abstrato de uma experiência, | ||
| + | * Sartre não mostra como a consciência abre efetivamente ao Ser, apenas a determina de modo que não possa ser pensada sem recurso ao Ser, evidenciando uma necessidade abstrata mas não acompanhando o movimento efetivo, de modo que Ser e nada não estão verdadeiramente unidos mas apenas se sucedem mais rápido diante do pensamento | ||
| + | * Como cada termo só é ele mesmo identificando-se ao outro, toda diferença efetiva entre eles é excluída, deformando essa dialética tanto a relação quanto os termos, pois o nada já está absorvido pela plenitude do Ser, e este já é posto enquanto tal pela inanidade do nada | ||
| + | * Sartre não alcança verdadeiramente a experiência, | ||
| + | * A ambivalência dessa filosofia reside em que, ao alcançar a experiência como mistura de Ser e nada, ela a desfigura ao pensar essa mistura como procedendo do Ser e do nada, só conseguindo aproximar-se da experiência situando-se o mais longe possível dela | ||
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| + | **§ 2 Dialética e filosofia reflexiva** | ||
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| + | * A filosofia sartriana não supera a filosofia reflexiva, permanecendo enquadrada numa ontologia predialética, | ||
| + | * O pensamento do negativo puro ou do positivo puro é pensamento de sobrevoo que opera sobre a essência ou sua pura negação, sobre termos cuja significação já foi fixada, podendo-se dizer que a filosofia de Sartre leva à segunda potência a distância do sujeito ao mundo | ||
| + | * O nada pode assim abrir ao mundo de forma absolutamente frontal, sem sequer a mediação da essência, sendo o sujeito sartriano um sujeito divino que, de seu absoluto afastamento, | ||
| + | * O positivismo da essência remetia a um negativismo, | ||
| + | * Merleau-Ponty denuncia na filosofia da essência seu pressuposto ontológico sem renunciar à dimensão da significação, | ||
| + | * A consciência sartriana é tão negativa quanto a essência husserliana era positiva, o que significa que o é de ponta a ponta, residindo aí a raiz da ambivalência sartriana, aproximando-se ele o mais possível da abertura ao mundo mas dissolvendo-a na abstração de um puro nada | ||
| + | * Uma filosofia do nada não está ainda realizada enquanto o define como puro nada, pois este só é verdadeiramente nada se não o for de ponta a ponta, sendo filosofia da intuição e filosofia do nada sinônimas, ambas formas de pensamento imediato, isto é, positivo | ||
| + | * Assim como a positividade da essência em Husserl respondia à manutenção da consciência como mens sive anima, é na medida em que sua análise permanece conduzida sob o pressuposto de uma realidade da consciência que Sartre fixa o nada em sua pureza negativa, isto é, positiva | ||
| + | * Ao caracterizar o próprio nada como consciência, | ||
| + | * A filosofia de Sartre reconduz, por movimento circular, à de Descartes, e mesmo, em certo sentido, aquém dela, pois o positivismo sartriano, por sua massividade, | ||
| + | * Descartes já colocara em questão a posição natural de uma realidade em si, trazendo ao primeiro plano o problema da fenomenalidade, | ||
| + | * Sartre toma consciência disso, mas ao proceder, através da noção de nada, a uma negação imediata da essência, reconduz-nos brutalmente ao em si e faz-nos perder de uma só vez a dimensão do fenômeno em que Descartes já se mantinha, sendo essa saída, no extremo do idealismo, um idealismo extremo | ||
| + | * Não se deve concluir que a presença irredutível do mundo se confunda com a plenitude do em si, pois em tanto que aparece, o Ser está à distância e comporta certa nadidade, sem que isso signifique poder ser levada até a hipótese de inexistência, | ||
| + | * Sartre ignora essa determinação ao definir a consciência como nada e o Ser como densidade absoluta, desconhecendo a espessura, a profundidade, | ||
| + | * A fenomenalidade é tanto negação da determinação quanto negação do em si, situando-se aquém da afirmação e da negação, sendo o determinado apenas enquanto determinável, | ||
| + | * A filosofia sartriana não se funda tanto em desconhecimento da experiência quanto na teorização exclusiva de uma experiência, | ||
| + | * A filosofia das essências recobria ingenuidade quanto à linguagem, e a filosofia do nada procede igualmente de ingenuidade quanto à visão, própria de esquecer-se como experiência encarnada em proveito do espetáculo em si que desdobra, apresentando-se o sujeito da visão como não situado, como nada | ||
| + | * Assim como é preciso reduzir a linguagem, é necessário reduzir a visão, aprendendo a conhecer, na própria visão, uma espécie de palpação das coisas, no próprio sobrevoo uma inerência, daí a importância do tato na explicitação da carne | ||
| + | * É preciso compreender a visão como modalidade do tato, sendo nele que a identidade da proximidade e da distância ao Ser aparece mais claramente, justificando-se assim a ênfase no visível na última obra de Merleau-Ponty, | ||
| + | * A filosofia sartriana está no mais longe da experiência por ignorar o momento da fenomenalidade, | ||
| + | * Há uma verdade de Husserl contra Sartre, e por isso o exame da fenomenologia segue, em Le visible et l' | ||
| + | * Há assim ambiguidade da filosofia do nada, que nomeia o que há a compreender mas, ao nomeá-lo, o perde, não sendo o nada propriamente o que está em questão mas a possibilidade de restituir a experiência com um conceito unívoco | ||
| + | * O ponto de partida não é o ser é, o nada não é, fórmula ainda de sobrevoo, mas há ser, há mundo, há algo, sendo pela abertura que poderemos compreender o ser e o nada, e não pelo ser e o nada que poderemos compreender a abertura | ||
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| + | **§ 3 A abstração da problemática do olhar** | ||
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| + | * O capítulo consagrado a Sartre em Le visible et l' | ||
| + | * A importância dessa questão explica-se também pelo papel decisivo que a reflexão sobre outrem desempenha no desenvolvimento do pensamento de Merleau-Ponty, | ||
| + | * A experiência de outrem é a de um encontro, reconhecendo Sartre um cogito que concerne a outrem, uma consciência que me dá imediatamente a existência de outrem, sem que isso signifique abandono do ponto de vista da consciência, | ||
| + | * Que outrem remeta à minha consciência não significa que minha relação a ele seja da ordem do conhecimento, | ||
| + | * É preciso distinguir uma negação interna de uma negação externa: outrem não é eu, mas isso não significa que repouse em si mesmo como substância separada de mim por distância infranqueável, | ||
| + | * Outrem é outro sujeito, e próprio do sujeito é estar situado diante do mundo, possuir objetos, razão pela qual outrem não pode aparecer diante de mim, produzindo-se minha experiência de outrem sob a forma de meu ser-objeto para ele, experiência de um olhar | ||
| + | * A descrição do nada como realidade cuja nadidade só se sustenta absorvendo-se num ser permanece abstrata, pois antes da aparição de outrem, o nada que sou e o ser que vejo formavam ainda uma esfera fechada | ||
| + | * A absorção do nada no Ser significa inscrição da consciência no Ser, não podendo o nada esquecer-se em proveito do Ser senão apoiando-se numa situação, sendo a aparição de outrem correlata do atolamento do nada no Ser, invés ativo de sua passividade fundamental | ||
| + | * A possibilidade desse escapamento é atestada pela experiência da vergonha, vergonha-de-si-diante-de-outrem, | ||
| + | * A solução sartriana consiste em tomar consciência de uma das dimensões da experiência de outrem já apontadas por Husserl, definindo o rapport com outrem pela experiência dessa objetivação, | ||
| + | * A relação a outrem confunde-se com a experiência do para-outrem, | ||
| + | * Sartre está, aqui também, ao mesmo tempo o mais próximo e o mais longe do que há a compreender: | ||
| + | * O fracasso do intelectualismo quanto a outrem repousava sobre sua apreensão no nível da essência, mas outrem não é apenas outro eu, exemplar da essência ego, é um eu que é outro, alteridade que Sartre reconhece dessaisindo outrem de toda essência, caracterizando-o como negação ou ausência | ||
| + | * Essa ausência é, contudo, apreendida de maneira unívoca, concebida dogmaticamente, | ||
| + | * O intelectualismo recuava ao fundo do nada calando a pertença do pensador a um mundo humano, mas ao pensar essa pertença como ser-objetivado da consciência, | ||
| + | * Se determinar a invisibilidade de outrem como absoluta é empecilho à sua alteridade, essa invisibilidade só faz sentido na medida em que não é plenamente realizada, podendo outrem ser objeto de experiência que não seja apenas a de minha destruição | ||
| + | * A negação é aqui dogmatismo que encerra secretamente a afirmação absoluta dos opostos, sendo necessário que haja passagem de outrem em mim e de mim em outrem, para que eu e os outros não sejamos postos dogmaticamente como universos por princípio equivalentes | ||
| + | * Não se trata de partir de um para-si insular nem de sua negação na vergonha, mas de interrogar o fenômeno dessa ausência, forjando ideia do fenômeno conveniente à experiência atestada da transcendência de outra consciência | ||
| + | * Sartre reconstrói a experiência de outrem com maquete lógica incompreensível posta à prova da experiência, | ||
| + | * Não é porque percebo tal forma que acesso à existência de outrem, mas é na medida em que experimento vergonha que essa forma pode ser posta como manifestação de outrem no mundo, sendo esse corpo compreendido como corpo vivo | ||
| + | * Se a experiência de outrem fosse realmente independente da percepção de um objeto do mundo, em que sentido ainda se poderia falar de outrem, isto é, de experiência específica? | ||
| + | * Ou a experiência de outrem se confunde com o vivido da vergonha, e nada mais a qualifica como experiência de outrem, ou há verdadeira experiência dos outros que não se esgota no vivido de minha objetivação, | ||
| + | * A fidelidade à experiência de que Sartre dá prova converte-se em distância por ser fidelidade apenas a uma experiência, | ||
| + | * A dimensão de negação e conflito inerente ao vivido da vergonha representa apenas variante extrema de uma relação a outrem que pode ser também harmoniosa, neutra diante da alternativa entre conflito e harmonia | ||
| + | * Outrem não pode aparecer como objeto, mas não se segue que só seja acessível como olhar, como o juiz ou o Deus que me esmaga na poeira do mundo, encobrindo em Sartre a fenomenologia de outrem uma psicologia fenomenológica, | ||
| + | * Outrem só pode representar a negação de minha liberdade porque há primeiro uma corrente de comunicação, | ||
| + | * Precisamente porque outrem nunca aparece de frente para mim, também não posso estar de frente para ele, reduzido a objeto: outrem só se dá a mim lateralmente, | ||
| + | * Para Sartre não há relação ao outro que não seja conflituosa, | ||
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| + | **§ 4 A hiperdialética** | ||
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| + | * O exame da filosofia sartriana visa evidenciar a instabilidade e a ambiguidade fundamentais da dialética, que está ao mesmo tempo mais próxima de nossa inscrição no Ser, descobrindo cada termo como sua própria mediação, e traída no instante mesmo em que se formula | ||
| + | * A noção de mediação por si mesma que a dialética tematiza exclui que mediador e mediatizado sejam o mesmo em sentido de identidade, pois então não haveria mediação, movimento, transformação, | ||
| + | * Assim que se formula, a filosofia dialética fixa o movimento nos termos de uma negação pura e o aboli ultrapassando-o rumo à positividade, | ||
| + | * Há identidade da identidade e da diferença, mas essa primeira identidade não é ela mesma identificável, | ||
| + | * A negação só é negação efetiva na medida em que permanece inacabada, sua verdade sendo não poder cindir-se daquilo de que é negação, sendo efetiva apenas se inatribuível, | ||
| + | * Para uma ontologia do interior não há que construir a transcendência, | ||
| + | * É antes na noção de diferença do que na de negação que reside a verdade da dialética, sendo essa diferença não identidade em vez de oposição, permanecendo a identidade fechada sobre si mesma mesmo quando a negação a abre e cinde, diferença dos idênticos | ||
| + | * O movimento pelo qual o Ser acede a si mesmo a partir da negação é sinônimo do movimento pelo qual a negação nasce no Ser, sendo o Ser a possibilidade da negação apenas porque a negação é a possibilidade do Ser | ||
| + | * Ao descrever o movimento por meio de uma tematização da negação, a filosofia dialética ultrapassa o devir efetivo e reabsorve o movimento numa posição final, quando o próprio do movimento é contestar toda posição finita, realizando-se como identidade da posição e de seu ser-tornado | ||
| + | * Assim que se ergue em filosofia, tematizando o movimento, a filosofia dialética regride para uma ontologia predialética, | ||
| + | * A dialética caracteriza a situação do pensamento mais do que um objeto a pensar, tendo sentido apenas como consciência e não como filosofia, não sendo suscetível de ser dominada num enunciado mas designando antes o excesso do Ser sobre o enunciado, e a consciência desse excesso | ||
| + | * A má dialética começa quase com a dialética, e só há boa dialética a que se critica a si mesma e se supera como enunciado separado, só há boa dialética a hiperdialética, | ||
| + | * Essa hiperdialética, | ||
| + | * O reconhecimento da significação verdadeira da dialética passa pela crítica do que Merleau-Ponty chama positivismo, | ||
| + | * A verdadeira dialética é apenas a consciência que o pensamento toma de si mesmo como pensamento inacabado, que não pode fazer seu próprio total e está englobado no Ser tanto quanto o engloba, sendo essa reflexão em contato com o Ser aproximada por Merleau-Ponty da ideia de transcendência, | ||
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