estudos:barbaras:fenomeno:outrem
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| + | ====== Outrem ====== | ||
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| + | //BARBARAS, Renaud. De l’être du phénomène. Grenoble: Jérôme Millon, 1991// | ||
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| + | **§ 1 O problema** | ||
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| + | * A questão de outrem atravessa toda a obra de Merleau-Ponty, | ||
| + | * Na Phénoménologie de la perception o estudo do percebido se encerra num capítulo consagrado ao mundo humano, mas essa experiência orienta desde o início a análise, pois o vocabulário do sensível e do objeto é tomado de empréstimo à experiência de outrem em todos os capítulos | ||
| + | * A demarche é circular: como outrem informa secretamente o estudo do mundo sensível, as conclusões produzidas no plano do sensível informam de volta a descrição de outrem, de modo que a análise de outrem, segundo a ordem constitutiva, | ||
| + | * É desde La structure du comportement, | ||
| + | * O estudo do comportamento na primeira obra parte de um ponto de vista externo que recobre um ponto de vista interno, o do observador que vive e compreende o comportamento, | ||
| + | * O organismo atesta unidade irredutível, | ||
| + | * A experiência de outro organismo impõe uma redução fenomenológica radical: pensar a consciência como subjetividade empírica e a percepção como relação real impede dar conta do caráter imediato da percepção de outrem, cuja alteridade consiste em exceder todo conteúdo sensível | ||
| + | * Merleau-Ponty, | ||
| + | * Toda teoria da projeção pressupõe o que pretende demonstrar, e a analogia não funda a experiência de outrem, apenas a confirma, servindo a uma percepção que pode errar quanto ao sentido de uma expressão mas não quanto ao fato de tratar-se de expressão humana | ||
| + | * A presença imediata de outrem funda a objetividade do mundo, que se manifesta como imediatamente acessível a outros, contra o encerramento numa subjetividade privada, sendo no seio dessa realidade objetiva que se deverá buscar a possibilidade de outrem | ||
| + | * A insistência no problema de outrem visa sobretudo recusar o intelectualismo, | ||
| + | * O realismo falha a comunicação das consciências por defeito, pensando a subjetividade como realidade insular sem doação de sentido comum; o idealismo falha por excesso, pois a objetividade determinada como idealidade torna impensável a alteridade da subjetividade, | ||
| + | * O intelectualismo recorre também à analogia, buscando nos objetos os sinais de uma subjetividade transcendental, | ||
| + | * Ou o intelectualismo mantém a interpretação da doação de sentido como posse intelectual e se impede de dar conta da experiência de outrem, ou reconhece essa experiência e admite que um corpo pode significar uma subjetividade, | ||
| + | * As duas perspectivas, | ||
| + | * Outrem aparece como presença de uma não presença, transcendência que não se dá a si mesma no aparecer, exigindo pensar o percebido situado tanto acima do existente disperso quanto abaixo da pura idealidade, de modo a permitir comunicação sem abolir a diferença das consciências | ||
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| + | **§ 2 O confronto com Husserl** | ||
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| + | * O percurso de Merleau-Ponty cruza o de Husserl, a quem presta homenagem por ter, primeiro, tomado a medida da dificuldade, | ||
| + | * A análise constitutiva conduzida do ponto de vista da clausura do ego desemboca na objeção de solipsismo, exigindo constituir em mim o sentido alter ego sem renunciar a essa clausura, o que leva à decisão de proceder a uma segunda redução, à esfera de pertença | ||
| + | * Essa nova redução visa traçar, dentro da consciência, | ||
| + | * Segundo P. Ricœur, essa tensão põe em jogo a exigência idealista de que outrem apareça como unidade de sentido e a fidelidade à experiência que exige que outrem transgrida a esfera própria, tensão que Merleau-Ponty considera contradição insuperável, | ||
| + | * A apresentação analógica de Husserl não consegue transpor o abismo entre a presentação objetiva do corpo do outro e a apresentação de outrem mesmo, pois abordado a partir da oposição entre próprio e estranho, sua transcendência é inexoravelmente perdida | ||
| + | * Husserl acusa a clausura do ego ao efetuar a redução à pertença, mas uma redução suficiente conduziria além da imanência transcendental ao espírito absoluto como [[lx> | ||
| + | * A dificuldade da quinta Meditação só se supera se aquele que percebe outrui em mim for capaz de viver a contradição como definição mesma da presença de outrem, sujeito que é meu corpo, apoiado no fenômeno de acoplamento e transgressão intencional de Husserl | ||
| + | * Diferentemente de Husserl, que tenta alcançar o outro a partir do eu, Merleau-Ponty parte da irredutibilidade da experiência de outrem, retomando a carne não como pertença mas como transgressão, | ||
| + | * O problema de outrem não ocupa em Merleau-Ponty o mesmo lugar que em Husserl, pois não pode ser abordado como o que responde à transcendência do mundo, já que o ponto de vista egológico impede também dar conta de outrem | ||
| + | * A transcendência deve ser compreendida univocamente: | ||
| + | * A experiência de outrem se restitui então não como experiência de um alter ego para um ego, mas como experiência de uma carne por outra carne, index de uma transcendência objetiva já presente no mundo antes da posição de outrem | ||
| + | * A empresa husserliana segue duas direções, tributária do primado da Natureza como fio condutor da exposição constitutiva mas também fiel à experiência do mundo humano, dualidade que Tran-Duc-Thao evidencia ao apontar os dois fins do idealismo transcendental | ||
| + | * As dificuldades da quinta Meditação decorrem de manter o quadro da Dingkonstitution na explicitação da doação de outrem, e o projeto de Merleau-Ponty consiste em forjar significação nova da coisa a partir dos caracteres da experiência intersubjetiva | ||
| + | * Contra a ontologia das blosse Sachen, a atitude personalista revela verdade superior, pois vivemos naturalmente num rapport com um meio ontológico distinto do em-si, como Merleau-Ponty explicita citando a correlação entre pessoa e mundo ambiente comum | ||
| + | * Percebemos não outrem em si nem puras coisas, mas a articulação de um sobre o outro: o mundo como correlato de uma comunidade, a coisa montada sobre as dimensões da experiência interpessoal, | ||
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| + | **§ 3 O fracasso da Phénoménologie de la perception** | ||
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| + | * Cabe perguntar se a solução dada ao paradoxo de outrem no nível da Phénoménologie de la perception é satisfatória, | ||
| + | * Como minha percepção é encarnada e opaca a si mesma, não exclui a aparição de outra percepção, | ||
| + | * A análise de Merleau-Ponty aproxima-se antes de Scheler, partindo de uma corrente psíquica indiferenciada anterior às diferenças subjetivas, confirmada pelo transitivismo da psicologia infantil, mas essa indiferenciação, | ||
| + | * Alteridade e egoidade não se opõem: é porque é dotada de identidade que uma consciência pode ser outra, de modo que a relação a outrem exclui tanto consciências transparentes a si quanto a corrente psíquica indiferenciada, | ||
| + | * Há um anonimato originário que deve ser recusado por ser vivido e dividido pelas consciências que nele se fundem, e um solipsismo indepassável que deve igualmente ser recusado, pois a solidão da consciência é experiência da ausência dos outros e pressupõe relação originária com eles | ||
| + | * No nível da Phénoménologie de la perception o problema de outrem é posto negativamente sob dupla exclusão de Scheler e Husserl, conforme a fórmula que resume como cada um compromete a consciência de si ou a de outrem | ||
| + | * Merleau-Ponty permanece nesse ponto sem resolver verdadeiramente o problema, contentando-se em invocar a experiência e remeter o leitor a suas conclusões anteriores sobre a transcendência em geral | ||
| + | * A dualidade mantida entre consciência e corpo prevalece sobre a unidade da vida perceptiva, de modo que a descrição de outrem permanece essencialmente negativa: a consciência perde sua transparência e outrem não é impossível, | ||
| + | * O uso dos termos obscuridade e consciência prepersonal revela que a abertura ao outro permanece possibilidade da consciência e, portanto, também negação dela, de modo que o corpo continua pensado como corpo próprio em vez de superar a oposição entre próprio e estranho | ||
| + | * Merleau-Ponty oscila entre a negação imediata da consciência intelectual, | ||
| + | * O solipsismo não é superado: o anonimato corporal é subordinado a uma consciência insular na qual a alteridade de outrem se reabsorve, permanecendo a corporeidade como mediação subordinada aos termos que medeia | ||
| + | * A assimilação apressada do problema de outrem ao do mundo determina o fracasso da análise, pois a transcendência de outrem não tem a mesma significação da transcendência do mundo, revelando antes o sentido verdadeiro da transcendência ontológica | ||
| + | * Enquanto o mundo permanece transcendência na imanência na Phénoménologie de la perception, outrem existe como transcendência de segunda potência que exige uma profundidade do mundo que essa obra não consegue restituir, pois sendo idêntico a mim, outrem só pode ser outro absolutamente | ||
| + | * A pluralidade das consciências só faz sentido se o ser da consciência não for puro ser-para-si, | ||
| + | * Ao termo desse exame, a experiência de outrem só pode ser recolhida em sua verdade numa perspectiva ontológica, | ||
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